Questões de Concurso
Comentadas sobre morfologia - verbos em português
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"Quantas divisões tem o Papa?", teria dito Stalin quando
alguém lhe sugeriu que talvez valesse a pena ser mais tolerante
com os católicos soviéticos, a fim de ganhar a simpatia de Pio
XI. Efetivamente, além de um punhado de multicoloridos
guardas suíços, o poder papal não é palpável. Ainda assim, como
bem observa o escritor Elias Canetti, "perto da Igreja, todos
os poderosos do mundo parecem diletantes".
Há estatísticas controvertidas sobre esse poder eclesiástico.
Ao mesmo tempo que uma pesquisa da Fundação Getúlio
Vargas indica que, a cada geração, cai o número de católicos
no Brasil, outra, da mesma instituição, revela que, para os
brasileiros, a única instituição democrática que funciona é a
Igreja Católica, com créditos muito superiores aos dados à
classe política. Daí os sentimentos mistos que acompanharam a
visita do papa Bento XVI ao Brasil.
"O Brasil é estratégico para a Igreja Católica. Está sendo
preparada uma Concordata entre o Vaticano e o nosso país.
Nela, todo o relacionamento entre as duas formas de poder
(religioso e civil) será revisado. Tudo o que depender da Igreja
será feito no sentido de conseguir concessões vantajosas para
o seu pastoreio, inclusive com repercussões no direito comum
interno ao Brasil (pesquisas com células-tronco, por exemplo,
aborto, e outras questões árduas)", avalia o filósofo Roberto
Romano. E prossegue: "Não são incomuns atos religiosos que
são usados para fins políticos ou diplomáticos da Igreja. Quem
olha o Cristo Redentor, no Rio, dificilmente saberá que a
estátua significa a consagração do Brasil à soberania espiritual
da Igreja, algo que corresponde à política eclesiástica de
denúncia do laicismo, do modernismo e da democracia liberal.
A educadora da USP Roseli Fischman, no artigo "Ameaça
ao Estado laico", avisa que a Concordata poderá incluir o retorno
do ensino religioso às escolas públicas. "O súbito chamamento
do MEC para tratar do ensino religioso tem repercussão
quanto à violação de direitos, em particular de minorias religiosas
e dos que têm praticado todas as formas de consciência e
crença neste país, desde a República", acredita a pesquisadora.
Por sua vez, o professor de Teologia da PUC-SP Luiz Felipe
Pondé responde assim àquela famosa pergunta de Stalin:
"Quem precisa de divisões tendo como exército a eternidade?"
(Adaptado de Carlos Haag, Pesquisa FAPESP n. 134, 2007)
Texto V
O Sertanejo
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o
raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do
litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de
5 vista revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável,
o desempeno, a estrutura corretíssima das organiza-
ções atléticas.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço
ilude.
10 Nada é mais surpreendente do que vê-la desa-
parecer de improviso. Naquela organização combalida
operam-se, em segundos, transmutações completas.
Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe
o desencadear das energias adormidas. O homem
15 transfigura-se. Empertiga-se; e corrigem-se-lhe,
prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os
efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura
vulgar do tabaréu canhestro, reponta inesperadamente
o aspecto dominador de um titã acobreado e potente,
20 num desdobramento surpreendente de força e
agilidade extraordinárias.
CUNHA, Euclides da. Os sertões; Campanha de Canudos. Edição,
prefácio, cronologia, notas e índices de Leopoldo M. Bernucci.
São Paulo: Ateliê Editorial, 2001, p. 207-208.
O uso do presente do indicativo no texto euclidiano tem a função semântico-discursiva de
Texto V
O Sertanejo
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o
raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do
litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de
5 vista revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável,
o desempeno, a estrutura corretíssima das organiza-
ções atléticas.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço
ilude.
10 Nada é mais surpreendente do que vê-la desa-
parecer de improviso. Naquela organização combalida
operam-se, em segundos, transmutações completas.
Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe
o desencadear das energias adormidas. O homem
15 transfigura-se. Empertiga-se; e corrigem-se-lhe,
prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os
efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura
vulgar do tabaréu canhestro, reponta inesperadamente
o aspecto dominador de um titã acobreado e potente,
20 num desdobramento surpreendente de força e
agilidade extraordinárias.
CUNHA, Euclides da. Os sertões; Campanha de Canudos. Edição,
prefácio, cronologia, notas e índices de Leopoldo M. Bernucci.
São Paulo: Ateliê Editorial, 2001, p. 207-208.
No período “Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas.” (. 11-12), o verbo da oração está na voz
Texto IV
CAPÍTULO PRIMEIRO
Rubião fitava a enseada — eram oito horas da
manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no
cordão do chambre, à janela de uma grande casa de
Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de
5 água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava
em outra coisa. Cotejava o passado com o presente.
Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capita-
lista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de
Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para
10 a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e
para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo
entra na mesma sensação de propriedade.
“Vejam como Deus escreve direito por linhas
tortas”, pensa ele. “Se mana Piedade tem casado com
15 Quincas Borba, apenas me daria uma esperança
colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo
comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...”
CAPÍTULO II
Que abismo que há entre o espírito e o coração!
20 O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento,
arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa
que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a
bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o
canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham,
25 arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez
que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não
casasse; podia vir um filho ou uma filha... — Bonita
canoa! — Antes assim! — Como obedece bem aos
remos do homem! — O certo é que eles estão no Céu!
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, v. 1, p. 761-762.
A forma verbal do fragmento apresenta ideia de hipótese ou possibilidade em
Texto I
Lisboa: aventuras
Tomei um expresso
cheguei de foguete
subi num bonde
desci de um elétrico
5 pedi cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar meias
só vendiam peúgas
fui dar descarga
10disparei um autoclismo
gritei “ó cara!”
responderam-me “ó pá!”
positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
PAES, José Paulo. Lisboa: aventuras. A poesia está morta, mas
juro que não fui eu. São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 40.
Os infinitivos das formas verbais presentes nos versos
“subi num bonde
desci de um elétrico” (v. 3-4)
Assinale a oração em que o verbo foi corretamente conjugado.
Leia o texto abaixo e responda às questões propostas.
Uma definição de felicidade
Todas as profissões têm sua visão do que é felicidade. Já li um economista defini-la como ganhar 20 000 dólares por ano, nem mais nem menos. Para os monges budistas, felicidade é a busca do desapego. Autores de livros de autoajuda definem felicidade como “estar bem consigo mesmo”, “fazer o que se gosta” ou “ter coragem de sonhar alto”. O conceito de felicidade que uso em meu dia a dia é difícil de explicar num artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A ideia é mais ou menos esta: todos nós temos desejos, ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que você quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-se com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí, tudo bem. Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou desinflando esse balão enorme que será seu mundo possível. É o mundo que você ainda não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa a sua base. É o mundo que você já domina, que maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua experiência. Felicidade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o balão que você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois balões for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se a distância for mínima, você ficará tranquilo, calmo, mas logo entediado e sem espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter.
O primeiro passo é definir corretamente o tamanho de seu sonho, o tamanho de sua ambição. Essa história de que tudo é possível se você somente almejar alto é pura balela. Todos nós temos limitações e devemos sonhar de acordo com elas. Querer ser presidente da República é um sonho que você pode almejar quando virar governador ou senador, mas não no início da carreira. O segundo passo é saber exatamente seu nível de competências, sem arrogância nem enganos, tão comuns entre os intelectuais. O terceiro é encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois mundos. Saber administrar a distância entre seus desejos e suas competências é o grande segredo da vida. Escolha uma distância nem exagerada demais, nem tacanha demais. Se sua ambição não for acompanhada da devida competência, você se frustrará. Esse é o erro de todos os jovens idealistas que querem mudar o mundo com o que aprenderam no primeiro ano de faculdade. Curiosamente, à medida que a distância entre seus sonhos e suas competências diminui pelo seu próprio sucesso, surge frustração, e não felicidade.
Quantos gerentes depois de promovidos sofrem de famosa “fossa do bem-sucedido”, tão conhecida por administradores de recursos humanos? Quantos executivos bem-sucedidos são infelizes justamente porque “chegaram lá”? Pessoas pouco ambiciosas que procuram um emprego garantido logo ficam entediadas, estacionadas, frustradas e não terão a prometida felicidade. Essa definição explica por que a felicidade é tão efêmera. Ela é um processo, e não um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros. Felicidade é uma desconfortável tensão entre suas ambições e competências. Se você estiver estressado, tente primeiro esvaziar seu balão de ambições para algo mais realista. Delegue, abra mão de algumas atribuições, diga não. Ou então encha mais seu balão de competências estudando,observando e aprendendo com os outros, todos os dias. Os velhos acham que é um fracasso abrir mão do espaço conquistado. Por isso, recusam ceder poder ou atribuições e acabam infelizes. Reduzir suas ambições à medida que você envelhece não é nenhuma derrota pessoal. Felicidade não é um estado alcançável, um nirvana, mas uma distância contínua. É chegar lá, e não estar lá como muitos erroneamente pensam. Seja ambicioso dentro dos limites, estude e observe sempre, amplie seus sonhos quando puder, reduza suas ambições quando as circunstâncias exigirem. Mantenha sempre uma meta a alcançar em todas as etapas da vida e você será muito feliz.
Stephen Kanitz, Revista Veja, 22 de junho de 2005
Indique a opção em que a forma verbal grifada se refere ao infinitivo entre parênteses.
Leia o texto abaixo e responda às questões propostas.
Uma definição de felicidade
Todas as profissões têm sua visão do que é felicidade. Já li um economista defini-la como ganhar 20 000 dólares por ano, nem mais nem menos. Para os monges budistas, felicidade é a busca do desapego. Autores de livros de autoajuda definem felicidade como “estar bem consigo mesmo”, “fazer o que se gosta” ou “ter coragem de sonhar alto”. O conceito de felicidade que uso em meu dia a dia é difícil de explicar num artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A ideia é mais ou menos esta: todos nós temos desejos, ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que você quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-se com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí, tudo bem. Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou desinflando esse balão enorme que será seu mundo possível. É o mundo que você ainda não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa a sua base. É o mundo que você já domina, que maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua experiência. Felicidade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o balão que você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois balões for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se a distância for mínima, você ficará tranquilo, calmo, mas logo entediado e sem espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter.
O primeiro passo é definir corretamente o tamanho de seu sonho, o tamanho de sua ambição. Essa história de que tudo é possível se você somente almejar alto é pura balela. Todos nós temos limitações e devemos sonhar de acordo com elas. Querer ser presidente da República é um sonho que você pode almejar quando virar governador ou senador, mas não no início da carreira. O segundo passo é saber exatamente seu nível de competências, sem arrogância nem enganos, tão comuns entre os intelectuais. O terceiro é encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois mundos. Saber administrar a distância entre seus desejos e suas competências é o grande segredo da vida. Escolha uma distância nem exagerada demais, nem tacanha demais. Se sua ambição não for acompanhada da devida competência, você se frustrará. Esse é o erro de todos os jovens idealistas que querem mudar o mundo com o que aprenderam no primeiro ano de faculdade. Curiosamente, à medida que a distância entre seus sonhos e suas competências diminui pelo seu próprio sucesso, surge frustração, e não felicidade.
Quantos gerentes depois de promovidos sofrem de famosa “fossa do bem-sucedido”, tão conhecida por administradores de recursos humanos? Quantos executivos bem-sucedidos são infelizes justamente porque “chegaram lá”? Pessoas pouco ambiciosas que procuram um emprego garantido logo ficam entediadas, estacionadas, frustradas e não terão a prometida felicidade. Essa definição explica por que a felicidade é tão efêmera. Ela é um processo, e não um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros. Felicidade é uma desconfortável tensão entre suas ambições e competências. Se você estiver estressado, tente primeiro esvaziar seu balão de ambições para algo mais realista. Delegue, abra mão de algumas atribuições, diga não. Ou então encha mais seu balão de competências estudando,observando e aprendendo com os outros, todos os dias. Os velhos acham que é um fracasso abrir mão do espaço conquistado. Por isso, recusam ceder poder ou atribuições e acabam infelizes. Reduzir suas ambições à medida que você envelhece não é nenhuma derrota pessoal. Felicidade não é um estado alcançável, um nirvana, mas uma distância contínua. É chegar lá, e não estar lá como muitos erroneamente pensam. Seja ambicioso dentro dos limites, estude e observe sempre, amplie seus sonhos quando puder, reduza suas ambições quando as circunstâncias exigirem. Mantenha sempre uma meta a alcançar em todas as etapas da vida e você será muito feliz.
Stephen Kanitz, Revista Veja, 22 de junho de 2005
O teor da mensagem, acrescido da concentração de verbos no modo imperativo, confere ao texto o tom de:
... que prevalece no conhecimento do torcedor comum sobre os dados históricos. (3º parágrafo)
A frase cujo verbo exige o mesmo tipo de complemento que o grifado acima é:
Leia o texto a seguir para responder as questões de língua portuguesa.
O TOLO E SEU DINHEIRO
Juliana Garzon e Jerônimo Teixeira
Em muitas das teorias econômicas fundamentais as pessoas de carne e osso, falíveis e volúveis, não existem.
Essas teorias só funcionam com o "homem estatístico", o somatório de agentes econômicos vistos como
máquinas de calcular que administram com rigor seus recursos limitados. O pai da economia moderna, o
escocês Adam Smith (1723-1790), enxergava um mundo ordenado em que cada indivíduo agia sempre no
5 interesse pessoal e da família e, assim, acabava contribuindo para a prosperidade geral da nação. Disse Smith:
"Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas
sim do empenho deles em promover o próprio autointeresse". Talvez a maioria das pessoas do século XVIII
fossem mesmo seres racionais, donos do próprio destino e empenhados na promoção do seu autointeresse
econômico. Mas é mais comum encontrar gente que gasta mais do que ganha e compra aquilo de que não
10 precisa.
Nas últimas quatro décadas, os teóricos da economia têm tentado contemplar em suas análises pessoas de
carne, osso e sangue quente. Essa escola, a "economia comportamental", nascida na década de 70 com o
trabalho dos psicólogos Amos Tversky e Daniel Kahneman, da Universidade Hebraica de Jerusalém, incorporou
as inconstâncias humanas aos seus modelos de previsão. Tversky e Kahneman focaram seus estudos sobre o
15 comportamento das pessoas em situações de incerteza e de alta carga emotiva, consideradas por eles, com
acerto, como predominantes nas grandes decisões econômicas - seja a compra do primeiro apartamento ou a
venda de ações nos momentos de queda das bolsas.
A economia comportamental arejou o pensamento econômico dando lugar a modelos mais sensíveis às
vicissitudes da psicologia humana, com suas falhas de cálculo e percepções enganosas. Talvez seu maior
20 mérito seja entender que os criteriosos padeiros e cervejeiros de Adam Smith existem, são numerosos, mas
convivem com multidões para quem a racionalidade financeira no dia-a-dia é tão estranha quanto o popular
esporte escocês de arremesso de troncos. Kahneman ganhou o prêmio Nobel de economia em 2002, tornando-
se o único psicólogo a conseguir esse feito. No mundo de Kahneman os padeiros e cervejeiros nem sempre
tomam decisões sóbrias e corretas. Eles agem de acordo com os misteriosos mecanismos mentais de aceitação
25 e rejeição do risco. Uma mesma pessoa que só bebe água mineral e morre de medo de bactérias pode ser vista
fazendo bungee jumping, esporte em que o praticante se joga de uma ponte sobre um abismo amarrado por uma
corda elástica. No mundo econômico, atitudes incoerentes como essa são quase a regra.
Aplicadas ao estudo do comportamento dos investidores nas bolsas, as teses de Kahneman e seus colegas
mostram que a convivência de atitudes racionais e irracionais é uma força considerável. Entre o início de 2003 e
30 o máximo de alta em maio de 2008, o Índice Bovespa, da Bolsa de Valores de São Paulo, valorizou-se 350%.
Nesse período, a maioria dos investidores enxergou todos os acontecimentos, os bons e os ruins, com a lente
da euforia. Passaram despercebidos os sinais precoces da crise que viria a se abater sobre a economia mundial
com repercussões fortes no Brasil no fim do ano passado. Mesmo os investidores profissionais não estão
imunes a ilusões. A mais comum é acreditar que projeções baseadas em dados recentes podem ser tomadas
35 como tendências duradouras. [ ... ] Diz Plínio Chap Chap, professor de finanças corporativas da escola de
negócios Brazilian Business School (BBS): "Bastam alguns ganhos para que as pessoas se julguem mais
capazes que as outras para escolher ações."[ ... ]
Nem todos os enganos são originários da autoconfiança. O investidor também pode ser atrapalhado por uma
emoção de natureza bem diversa: a angústia. O investidor novato, sobretudo, tende a entrar no mercado com a
40 sensação de que está atrasado. [ ... ] Essa sensação conduz a escolhas precipitadas. Em vez de traçar uma
estratégia sólida, o novato dá grandes tacadas de uma vez só, para evitar a tensão de analisar e optar - ou não -
por determinada ação. A impaciência custa caro. [ ... ] As frustrações se tornam ainda mais agudas quando as
cotações caem. O investidor que tomou sua decisão de compra sem base sofre por não saber se deve vender as
ações que estão patinando e estancar as perdas ou apostar na recuperação dos papéis e mantê-los em carteira.
45 [ ... ] Mas o investidor que der um passo atrás para observar o cenário com emoções menos exacerbadas poderá
ter uma visão mais realista da economia brasileira e de suas perspectivas: uma boa oportunidade de
investimentos tanto para os padeiros e cervejeiros de Adam Smith quanto para os bungee jumpers de
Kahneman.
Texto adaptado da Revista Veja, edição 2095, ano 42, n. 2, de 14 de jan. 2009. p. 68-70
Assinale a alternativa INCORRETA quanto ao emprego dos tempos e modos verbais destacados.
Considere os textos para responder às questões de números 06 a 09.
Texto I
Há três amigos fiéis: uma velha esposa, um velho cão e dinheiro na mão.
(Benjamin Franklin, séc. XVIII)
Texto II
Falar sobre dinheiro parece simples. Afinal, tudo gira em torno dele, é o que usamos para comprar as coisas que queremos e de que precisamos. Somos pagos por nossos empregos e usamos esse dinheiro para pagar contas, comprar comida, nos divertir. Lionel Trilling, crítico literário, já dizia: “Nós inventamos o dinheiro e o usamos, porém não podemos entender suas leis nem controlar suas ações. Ele tem vida própria”.
(Valdomiro Nenevê, Veja, 23.09.2009)
Em — Falar sobre dinheiro parece simples. — o autor empregou o verbo em destaque para expressar
"A credibilidade do sistema internacional depende do quanto os doadores oferecerem..." (P. 5)
O verbo flexionado de maneira diferente da grifada no exemplo está também grifado no período:
Observe as frases abaixo.
I. O Pólo da Floresta dos Guarás deve seu nome a uma ave de plumagem vermelha onde é comum naquela região.
II. Eu mal havia chego à Ilha dos Lençois, em Cururupu, e tinha pego resfriado.
III. Infelizmente eu não pude vim aqui ontem, para conhecer a festa do Divino Espírito Santo.
IV. Vossa Senhoria desejais conhecer o Delta do Rio Parnaíba?
Assinale a alternativa INCORRETA.
Em Quando uma supergripe chegar, serão necessários estoques de vacinas (22-23) há correlação (harmonia) entre os tempos verbais empregados: respectivamente, futuro do subjuntivo e futuro do presente do indicativo.
Assinale a alternativa com a frase em que NÃO EXISTE correlação entre os tempos verbais apresentados
Leia o texto abaixo e responda às questões propostas.
POR POUCO
Eu estava a ponto de escrever alguma coisa sobre as pessoas que estão a ponto de tomar uma atitude definitiva e recuam – e recuei. Ia escrever sobre os que um dia, por pouco, quase, ali-ali, estiveram prestes a mudar sua vida mas não deram o passo crucial, mas não vou. Pena e comiseração para os que não deram o passo crucial.
Pena e comiseração para os que preferiram o pássaro na mão. Para os que não foram ser os legionários dos seus primeiros sonhos. Para os que hesitaram na hora de pular. Para os que pensaram duas vezes. Pena e comiseração para os que envelheceram tentando decidir o que iam ser quando crescessem. E para os que decidiram, mas na hora não foram.
Alguns passam a vida acompanhados pelo que podiam ter sido. Por fantasmas do irrealizado. Um cortejo de ressentimentos. Este aqui sou eu se tivesse decidido fazer aquele curso em Paris. Este outro sou eu se tivesse chegado um minuto antes no vestibular...
Olha que bom aspecto eu teria se tivesse aceito aquela nomeação. Veja o bigode. O corte decidido do cabelo. O olhar de quem é firme, mas justo com subalternos. A cintura ajustada. As mãos que não tremem. Elas me seguem por toda a parte, as minhas alternativas.
Você conhece muitos assim. Gente que cultiva suas oportunidades perdidas como outros guardam o próprio apêndice num vidrinho. E não perdem oportunidade de contar como foi a oportunidade perdida.
– Foi num jogo de pôquer. Tinha dois pares e não joguei. Quem ganhou tinha só um. A melhor mesa da noite. Milhões. Eu, hoje, seria outro.
– Fiz uma ponta naquele filme do Tarzã, mas cortaram a minha parte. Se tivessem me visto em Hollywood...
– Se eu tivesse dito sim...
– Se eu tivesse dito não...
– Se mamãe não tivesse interferido...
Uma vez fui fazer um teste no Fluminense. Abafei. Mas a família foi contra. Insistiu com a contabilidade. Eu, hoje, seria outro.
– Já tive a minha época de escritor, tá sabendo? Uns contos até razoáveis. Mas nunca me mexi. Hoje eles estão numa gaveta, sei lá.
– Você sabe que só não me elegi deputado, porque não quis?
– Eu, hoje, podia ser até primeiro-violino.
– Tudo porque eu não saí daqui quando devia.
Pena e comiseração para os que não saíram daqui quando deviam. Há quem diga que o passo crucial só pode ser dado uma vez e nunca mais. Tem a sua hora certa, e ela não volta. Bobagem, claro. Mas não para os que tiveram a sua hora e não aproveitaram. Os mártires do por pouco.
– Sei exatamente quando foi que eu tomei a decisão errada. Foi numa noite de Ano-Bom.
Você já ouviu a história várias vezes. Mas não pode impedi-lo de falar. O único divertimento que lhe resta é o que ele poderia ter sido. Os que não deram o passo crucial quando deviam estão condenados ao condicional. E tem a volúpia da própria frustração.
– Se eu tivesse aproveitado... Ela estava gamada. Gamadona. Filha da segunda fortuna do Brasil.
Da última vez que você ouviu a história, era a terceira fortuna do Brasil, mas tudo bem.
– Bobeei e babaus. Hoje, quando eu penso...
Você tenta ajudar
– Podia não ter dado certo. O pai dela não ia deixar. Um morto-de-fome como você...
– Morto-de-fome, porque eu não dei o passo crucial na hora que me ofereceram aquele negócio no Mato Grosso. Ia dar um dinheirão.
– Mas se você fosse para o Mato Grosso, não teria conhecido a menina na noite de Ano-Bom.
– Pois é. Agora é tarde. Sei lá.
Agora é tarde. As decisões erradas são irrecorríveis. Você o imagina cercado das suas alternativas. De um lado, casado com a, vá lá, primeira fortuna do Brasil. O último homem do Rio a usar echarpe de seda. Grisalho, mas ainda em forma com aquele tom de pele que só se consegue passando o dia na piscina do Copa, mas na sombra. Do outro lado, o próspero fazendeiro do Mato Grosso que pilota o seu próprio avião e tem rugas em torno dos olhos de tanto procurar o fim das suas terras no horizonte, ou de tanto rir dos pobres. E no meio, ele, a ponto de lhe pedir dinheiro emprestado outra vez. Triste, triste. Eu ia escrever uma boa crônica sobre tudo isso. Mas o assunto me fugiu, perdi a hora certa. Agora é tarde.
(VERÍSSIMO, L. Fernando. Ed Morte e outras histórias. Círculo do Livro.)
Das alterações feitas na redação do período “Pena e comiseração para os que envelheceram tentando decidir o que iam ser quando crescessem.” (2º parágrafo), aquela em que os verbos estão corretamente empregados quanto à correlação entre os tempos verbais é:
Assinale a alternativa INCORRETA.
Assinale o período em que aparece uma forma verbal INCORRETAMENTE empregada com relação à norma culta da língua.
Em todas as alternativas, a lacuna pode ser preenchida com o verbo indicado entre parênteses, no subjuntivo, EXCETO em:
Texto IV
Leia o texto abaixo e responda às questões 09 e 10.
Dez Coisas que Levei Anos para Aprender
1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com
o garçom, não pode ser uma boa pessoa.
2 As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas
delas com você, quase nunca querem que você
compartilhe as suas com elas.
3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.
4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca.
5. Não confunda nunca sua carreira com sua vida.
6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio
para dormir e um laxante na mesma noite.
7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão
pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca
atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria "reuniões".
8. Há uma linha muito tênue entre "hobby" e "doença
mental".
9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito.
10. Nunca tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se de
que um amador solitário construiu a Arca. Um grande
grupo de profissionais construiu o Titanic.
Luiz Fernando Veríssimo
(http://www.pensador.info/p/cronicasdeluizfer nandoverissimo/lD
Na frase "Há uma linha muito tênue entre 'hobby' e 'doença mental"'. A alternativa em que o verbo haver assume o mesmo valor semântico e sintático do observado na frase citada é: