Questões de Concurso
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Leia o Texto III e responda a questão.
Texto III
O RIO DA MINHA ALDEIA
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha
aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêm em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa
Leia o Texto II para responder a questão.
Texto II
A TERCEIRA MARGEM DO RIO (fragmentos)
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia e que ralhava no diário com a gente ─ minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?”. Ele só retornou o olhar em mim e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos se reuniram, tomaram juntamente conselho. [...]
Guimarães Rosa
Leia o Texto II para responder a questão.
Texto II
A TERCEIRA MARGEM DO RIO (fragmentos)
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia e que ralhava no diário com a gente ─ minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?”. Ele só retornou o olhar em mim e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos se reuniram, tomaram juntamente conselho. [...]
Guimarães Rosa
As palavras abaixo foram empregadas nos Textos I e II.
Quanto à acentuação gráfica, qual é o par de vocábulos que segue a mesma regra?
Leia o Texto II para responder a questão.
Texto II
A TERCEIRA MARGEM DO RIO (fragmentos)
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia e que ralhava no diário com a gente ─ minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?”. Ele só retornou o olhar em mim e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos se reuniram, tomaram juntamente conselho. [...]
Guimarães Rosa
Leia o Texto II para responder a questão.
Texto II
A TERCEIRA MARGEM DO RIO (fragmentos)
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia e que ralhava no diário com a gente ─ minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?”. Ele só retornou o olhar em mim e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos se reuniram, tomaram juntamente conselho. [...]
Guimarães Rosa
A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente”, o emprego de quais classes gramaticais garante a coesão textual?
Leia o Texto II para responder a questão.
Texto II
A TERCEIRA MARGEM DO RIO (fragmentos)
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia e que ralhava no diário com a gente ─ minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?”. Ele só retornou o olhar em mim e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos se reuniram, tomaram juntamente conselho. [...]
Guimarães Rosa
Leia o Texto I para responder a questão.
Texto I
NO BARCO COR DE SANGUE
Ah! a placidez das águas turvas que nada revelam e nada exigem. Para isso havia alugado o barco, para ser plácido como a água, ainda que por breve tempo. Um barco pequeno no pequeno lago do parque rodeado de cidade por todos os lados. Remou com falta de jeito, mais para ver o afundar e erguer-se dos remos do que propriamente para avançar. Os ruídos, os ruídos tantos que das ruas se alçavam escalando os canyons dos prédios, lhe chegavam abafados pela distância pouca e pelas copas das árvores. Deixavam de ser buzina, freada, alarme, sirene, para tornar-se pasta sonora amalgamada, quase uma outra natureza do ar. Um barco pequeno pintado de vermelho denso, vermelho sangue, que, descascado aqui e acolá, entregava um idêntico vermelho subjacente, como se vermelha fosse a madeira de que era feito. Um barco em que caberia exato, se deitasse. Deitou-se. Recolheu os remos. Um barco, pensou, embora desejasse tanto não pensar em nada, um barco, pensou, não fica parado, mesmo que não haja vento.
Um barco ondula. Sentia o esquife balançar de leve sob seu corpo, e a água, aquela água turva, cuja superfície pareceria intocada não estivesse ele a navegar, agia discreta por baixo do casco, como se suavemente roçando o dorso contra a quilha. Peito aberto sem a defesa dos braços cruzados, olhar afundado no infinito azul do alto, sentiu uma sombra aflorar lhe a testa, passar pelas pálpebras, a boca, lamber-lhe aos poucos o corpo até abandoná-lo pelos pés. Viu a copa de uma árvore deslizar acima e ficar para trás. O leve, levíssimo ondular repousava-lhe o corpo, devolvia-lhe a antiga segurança do berço. Indo e voltando entre palavras que nem bem escolhia, pensou que alugaria o barco no verão, quando pudesse tirar a camisa e ficar quase seminu ao sol, como se nadasse. E porque o havia pensado sentiu o súbito frio da roupa molhada nas costas, naquela mínima água que todo barco guarda ao fundo. Cochilou, talvez. Certamente fechou os olhos. Da pasta de sons, uma sirene destacou-se aguda. O barco pareceu estremecer. Abriu os olhos. Sem pressa, perguntou-se onde estaria, se próximo ou distante de onde havia embarcado. O ar passou mais fino ou mais rápido sobre o seu rosto, o fundo do barco vibrava, quem sabe, tangido pelos arrepios do seu corpo agora gelado.
O doce bambolear que o havia embalado fazia-se descompassado. Pensou que o tempo do aluguel estaria se esgotando, era hora de voltar. Ainda estendeu a mão preguiçosa para fora da borda, mas, sentindo-a molhada por respingos, retraiu-a surpreso e, agarrando-se dos dois lados, ergueu o tronco. Nada do que viu era o que esperava ver. Nenhuma serenidade mais aplanava o lago, se lago era aquele em que o barco ia à deriva, flancos apertados pela água escura que se acavalava em correnteza e espuma, estilhaçando-se contra as rochas das margens, avançando cada vez mais voraz até onde o olhar alcançava. Olhou para trás procurando o embarcadouro, os outros barcos iguais ao seu, a ponte vagamente japonesa que ligava a beira cimentada à ilhota artificial, os elementos todos que o haviam levado a alugar esse barco, a deitar-se no fundo do esquife cor de sangue em busca de placidez. Distante ou perdida estava aquela realidade. A sombra de uma copa deslizou veloz sobre o seu rosto lívido, a boca contraída não conseguiu articular as palavras do medo. Um rugido surdo havia-se acrescentado aos sons da mata que subiam entre os troncos, e o rugido lhe dizia que, à frente, ondas rápidas se faziam mais intensas, uma cachoeira o aguardava.
Marina Colasanti
Leia o Texto I para responder a questão.
Texto I
NO BARCO COR DE SANGUE
Ah! a placidez das águas turvas que nada revelam e nada exigem. Para isso havia alugado o barco, para ser plácido como a água, ainda que por breve tempo. Um barco pequeno no pequeno lago do parque rodeado de cidade por todos os lados. Remou com falta de jeito, mais para ver o afundar e erguer-se dos remos do que propriamente para avançar. Os ruídos, os ruídos tantos que das ruas se alçavam escalando os canyons dos prédios, lhe chegavam abafados pela distância pouca e pelas copas das árvores. Deixavam de ser buzina, freada, alarme, sirene, para tornar-se pasta sonora amalgamada, quase uma outra natureza do ar. Um barco pequeno pintado de vermelho denso, vermelho sangue, que, descascado aqui e acolá, entregava um idêntico vermelho subjacente, como se vermelha fosse a madeira de que era feito. Um barco em que caberia exato, se deitasse. Deitou-se. Recolheu os remos. Um barco, pensou, embora desejasse tanto não pensar em nada, um barco, pensou, não fica parado, mesmo que não haja vento.
Um barco ondula. Sentia o esquife balançar de leve sob seu corpo, e a água, aquela água turva, cuja superfície pareceria intocada não estivesse ele a navegar, agia discreta por baixo do casco, como se suavemente roçando o dorso contra a quilha. Peito aberto sem a defesa dos braços cruzados, olhar afundado no infinito azul do alto, sentiu uma sombra aflorar lhe a testa, passar pelas pálpebras, a boca, lamber-lhe aos poucos o corpo até abandoná-lo pelos pés. Viu a copa de uma árvore deslizar acima e ficar para trás. O leve, levíssimo ondular repousava-lhe o corpo, devolvia-lhe a antiga segurança do berço. Indo e voltando entre palavras que nem bem escolhia, pensou que alugaria o barco no verão, quando pudesse tirar a camisa e ficar quase seminu ao sol, como se nadasse. E porque o havia pensado sentiu o súbito frio da roupa molhada nas costas, naquela mínima água que todo barco guarda ao fundo. Cochilou, talvez. Certamente fechou os olhos. Da pasta de sons, uma sirene destacou-se aguda. O barco pareceu estremecer. Abriu os olhos. Sem pressa, perguntou-se onde estaria, se próximo ou distante de onde havia embarcado. O ar passou mais fino ou mais rápido sobre o seu rosto, o fundo do barco vibrava, quem sabe, tangido pelos arrepios do seu corpo agora gelado.
O doce bambolear que o havia embalado fazia-se descompassado. Pensou que o tempo do aluguel estaria se esgotando, era hora de voltar. Ainda estendeu a mão preguiçosa para fora da borda, mas, sentindo-a molhada por respingos, retraiu-a surpreso e, agarrando-se dos dois lados, ergueu o tronco. Nada do que viu era o que esperava ver. Nenhuma serenidade mais aplanava o lago, se lago era aquele em que o barco ia à deriva, flancos apertados pela água escura que se acavalava em correnteza e espuma, estilhaçando-se contra as rochas das margens, avançando cada vez mais voraz até onde o olhar alcançava. Olhou para trás procurando o embarcadouro, os outros barcos iguais ao seu, a ponte vagamente japonesa que ligava a beira cimentada à ilhota artificial, os elementos todos que o haviam levado a alugar esse barco, a deitar-se no fundo do esquife cor de sangue em busca de placidez. Distante ou perdida estava aquela realidade. A sombra de uma copa deslizou veloz sobre o seu rosto lívido, a boca contraída não conseguiu articular as palavras do medo. Um rugido surdo havia-se acrescentado aos sons da mata que subiam entre os troncos, e o rugido lhe dizia que, à frente, ondas rápidas se faziam mais intensas, uma cachoeira o aguardava.
Marina Colasanti
Leia o Texto I para responder a questão.
Texto I
NO BARCO COR DE SANGUE
Ah! a placidez das águas turvas que nada revelam e nada exigem. Para isso havia alugado o barco, para ser plácido como a água, ainda que por breve tempo. Um barco pequeno no pequeno lago do parque rodeado de cidade por todos os lados. Remou com falta de jeito, mais para ver o afundar e erguer-se dos remos do que propriamente para avançar. Os ruídos, os ruídos tantos que das ruas se alçavam escalando os canyons dos prédios, lhe chegavam abafados pela distância pouca e pelas copas das árvores. Deixavam de ser buzina, freada, alarme, sirene, para tornar-se pasta sonora amalgamada, quase uma outra natureza do ar. Um barco pequeno pintado de vermelho denso, vermelho sangue, que, descascado aqui e acolá, entregava um idêntico vermelho subjacente, como se vermelha fosse a madeira de que era feito. Um barco em que caberia exato, se deitasse. Deitou-se. Recolheu os remos. Um barco, pensou, embora desejasse tanto não pensar em nada, um barco, pensou, não fica parado, mesmo que não haja vento.
Um barco ondula. Sentia o esquife balançar de leve sob seu corpo, e a água, aquela água turva, cuja superfície pareceria intocada não estivesse ele a navegar, agia discreta por baixo do casco, como se suavemente roçando o dorso contra a quilha. Peito aberto sem a defesa dos braços cruzados, olhar afundado no infinito azul do alto, sentiu uma sombra aflorar lhe a testa, passar pelas pálpebras, a boca, lamber-lhe aos poucos o corpo até abandoná-lo pelos pés. Viu a copa de uma árvore deslizar acima e ficar para trás. O leve, levíssimo ondular repousava-lhe o corpo, devolvia-lhe a antiga segurança do berço. Indo e voltando entre palavras que nem bem escolhia, pensou que alugaria o barco no verão, quando pudesse tirar a camisa e ficar quase seminu ao sol, como se nadasse. E porque o havia pensado sentiu o súbito frio da roupa molhada nas costas, naquela mínima água que todo barco guarda ao fundo. Cochilou, talvez. Certamente fechou os olhos. Da pasta de sons, uma sirene destacou-se aguda. O barco pareceu estremecer. Abriu os olhos. Sem pressa, perguntou-se onde estaria, se próximo ou distante de onde havia embarcado. O ar passou mais fino ou mais rápido sobre o seu rosto, o fundo do barco vibrava, quem sabe, tangido pelos arrepios do seu corpo agora gelado.
O doce bambolear que o havia embalado fazia-se descompassado. Pensou que o tempo do aluguel estaria se esgotando, era hora de voltar. Ainda estendeu a mão preguiçosa para fora da borda, mas, sentindo-a molhada por respingos, retraiu-a surpreso e, agarrando-se dos dois lados, ergueu o tronco. Nada do que viu era o que esperava ver. Nenhuma serenidade mais aplanava o lago, se lago era aquele em que o barco ia à deriva, flancos apertados pela água escura que se acavalava em correnteza e espuma, estilhaçando-se contra as rochas das margens, avançando cada vez mais voraz até onde o olhar alcançava. Olhou para trás procurando o embarcadouro, os outros barcos iguais ao seu, a ponte vagamente japonesa que ligava a beira cimentada à ilhota artificial, os elementos todos que o haviam levado a alugar esse barco, a deitar-se no fundo do esquife cor de sangue em busca de placidez. Distante ou perdida estava aquela realidade. A sombra de uma copa deslizou veloz sobre o seu rosto lívido, a boca contraída não conseguiu articular as palavras do medo. Um rugido surdo havia-se acrescentado aos sons da mata que subiam entre os troncos, e o rugido lhe dizia que, à frente, ondas rápidas se faziam mais intensas, uma cachoeira o aguardava.
Marina Colasanti
Leia o Texto I para responder a questão.
Texto I
NO BARCO COR DE SANGUE
Ah! a placidez das águas turvas que nada revelam e nada exigem. Para isso havia alugado o barco, para ser plácido como a água, ainda que por breve tempo. Um barco pequeno no pequeno lago do parque rodeado de cidade por todos os lados. Remou com falta de jeito, mais para ver o afundar e erguer-se dos remos do que propriamente para avançar. Os ruídos, os ruídos tantos que das ruas se alçavam escalando os canyons dos prédios, lhe chegavam abafados pela distância pouca e pelas copas das árvores. Deixavam de ser buzina, freada, alarme, sirene, para tornar-se pasta sonora amalgamada, quase uma outra natureza do ar. Um barco pequeno pintado de vermelho denso, vermelho sangue, que, descascado aqui e acolá, entregava um idêntico vermelho subjacente, como se vermelha fosse a madeira de que era feito. Um barco em que caberia exato, se deitasse. Deitou-se. Recolheu os remos. Um barco, pensou, embora desejasse tanto não pensar em nada, um barco, pensou, não fica parado, mesmo que não haja vento.
Um barco ondula. Sentia o esquife balançar de leve sob seu corpo, e a água, aquela água turva, cuja superfície pareceria intocada não estivesse ele a navegar, agia discreta por baixo do casco, como se suavemente roçando o dorso contra a quilha. Peito aberto sem a defesa dos braços cruzados, olhar afundado no infinito azul do alto, sentiu uma sombra aflorar lhe a testa, passar pelas pálpebras, a boca, lamber-lhe aos poucos o corpo até abandoná-lo pelos pés. Viu a copa de uma árvore deslizar acima e ficar para trás. O leve, levíssimo ondular repousava-lhe o corpo, devolvia-lhe a antiga segurança do berço. Indo e voltando entre palavras que nem bem escolhia, pensou que alugaria o barco no verão, quando pudesse tirar a camisa e ficar quase seminu ao sol, como se nadasse. E porque o havia pensado sentiu o súbito frio da roupa molhada nas costas, naquela mínima água que todo barco guarda ao fundo. Cochilou, talvez. Certamente fechou os olhos. Da pasta de sons, uma sirene destacou-se aguda. O barco pareceu estremecer. Abriu os olhos. Sem pressa, perguntou-se onde estaria, se próximo ou distante de onde havia embarcado. O ar passou mais fino ou mais rápido sobre o seu rosto, o fundo do barco vibrava, quem sabe, tangido pelos arrepios do seu corpo agora gelado.
O doce bambolear que o havia embalado fazia-se descompassado. Pensou que o tempo do aluguel estaria se esgotando, era hora de voltar. Ainda estendeu a mão preguiçosa para fora da borda, mas, sentindo-a molhada por respingos, retraiu-a surpreso e, agarrando-se dos dois lados, ergueu o tronco. Nada do que viu era o que esperava ver. Nenhuma serenidade mais aplanava o lago, se lago era aquele em que o barco ia à deriva, flancos apertados pela água escura que se acavalava em correnteza e espuma, estilhaçando-se contra as rochas das margens, avançando cada vez mais voraz até onde o olhar alcançava. Olhou para trás procurando o embarcadouro, os outros barcos iguais ao seu, a ponte vagamente japonesa que ligava a beira cimentada à ilhota artificial, os elementos todos que o haviam levado a alugar esse barco, a deitar-se no fundo do esquife cor de sangue em busca de placidez. Distante ou perdida estava aquela realidade. A sombra de uma copa deslizou veloz sobre o seu rosto lívido, a boca contraída não conseguiu articular as palavras do medo. Um rugido surdo havia-se acrescentado aos sons da mata que subiam entre os troncos, e o rugido lhe dizia que, à frente, ondas rápidas se faziam mais intensas, uma cachoeira o aguardava.
Marina Colasanti
Leia o Texto I para responder a questão.
Texto I
NO BARCO COR DE SANGUE
Ah! a placidez das águas turvas que nada revelam e nada exigem. Para isso havia alugado o barco, para ser plácido como a água, ainda que por breve tempo. Um barco pequeno no pequeno lago do parque rodeado de cidade por todos os lados. Remou com falta de jeito, mais para ver o afundar e erguer-se dos remos do que propriamente para avançar. Os ruídos, os ruídos tantos que das ruas se alçavam escalando os canyons dos prédios, lhe chegavam abafados pela distância pouca e pelas copas das árvores. Deixavam de ser buzina, freada, alarme, sirene, para tornar-se pasta sonora amalgamada, quase uma outra natureza do ar. Um barco pequeno pintado de vermelho denso, vermelho sangue, que, descascado aqui e acolá, entregava um idêntico vermelho subjacente, como se vermelha fosse a madeira de que era feito. Um barco em que caberia exato, se deitasse. Deitou-se. Recolheu os remos. Um barco, pensou, embora desejasse tanto não pensar em nada, um barco, pensou, não fica parado, mesmo que não haja vento.
Um barco ondula. Sentia o esquife balançar de leve sob seu corpo, e a água, aquela água turva, cuja superfície pareceria intocada não estivesse ele a navegar, agia discreta por baixo do casco, como se suavemente roçando o dorso contra a quilha. Peito aberto sem a defesa dos braços cruzados, olhar afundado no infinito azul do alto, sentiu uma sombra aflorar lhe a testa, passar pelas pálpebras, a boca, lamber-lhe aos poucos o corpo até abandoná-lo pelos pés. Viu a copa de uma árvore deslizar acima e ficar para trás. O leve, levíssimo ondular repousava-lhe o corpo, devolvia-lhe a antiga segurança do berço. Indo e voltando entre palavras que nem bem escolhia, pensou que alugaria o barco no verão, quando pudesse tirar a camisa e ficar quase seminu ao sol, como se nadasse. E porque o havia pensado sentiu o súbito frio da roupa molhada nas costas, naquela mínima água que todo barco guarda ao fundo. Cochilou, talvez. Certamente fechou os olhos. Da pasta de sons, uma sirene destacou-se aguda. O barco pareceu estremecer. Abriu os olhos. Sem pressa, perguntou-se onde estaria, se próximo ou distante de onde havia embarcado. O ar passou mais fino ou mais rápido sobre o seu rosto, o fundo do barco vibrava, quem sabe, tangido pelos arrepios do seu corpo agora gelado.
O doce bambolear que o havia embalado fazia-se descompassado. Pensou que o tempo do aluguel estaria se esgotando, era hora de voltar. Ainda estendeu a mão preguiçosa para fora da borda, mas, sentindo-a molhada por respingos, retraiu-a surpreso e, agarrando-se dos dois lados, ergueu o tronco. Nada do que viu era o que esperava ver. Nenhuma serenidade mais aplanava o lago, se lago era aquele em que o barco ia à deriva, flancos apertados pela água escura que se acavalava em correnteza e espuma, estilhaçando-se contra as rochas das margens, avançando cada vez mais voraz até onde o olhar alcançava. Olhou para trás procurando o embarcadouro, os outros barcos iguais ao seu, a ponte vagamente japonesa que ligava a beira cimentada à ilhota artificial, os elementos todos que o haviam levado a alugar esse barco, a deitar-se no fundo do esquife cor de sangue em busca de placidez. Distante ou perdida estava aquela realidade. A sombra de uma copa deslizou veloz sobre o seu rosto lívido, a boca contraída não conseguiu articular as palavras do medo. Um rugido surdo havia-se acrescentado aos sons da mata que subiam entre os troncos, e o rugido lhe dizia que, à frente, ondas rápidas se faziam mais intensas, uma cachoeira o aguardava.
Marina Colasanti
Deslocamentos caracterizam os ímpetos da concepção urbana de Anápolis, com os tropeiros que ali passavam, instalavam-se nessas localidades e, consequentemente, geravam trocas de mercadorias favoráveis ao comércio. Outro fator relevante foi a construção da Capela em honra a Sant’Ana, por Gomes de Sousa Ramos, em 1871. Isso potencializa o adensamento populacional na região de Anápolis, já que em 1871 existiam apenas sete casas, no ano seguinte esse número foi para 20 moradias, com uma população estimada em 120 pessoas só no povoado.
Amaral, L. F.; Lopes Filho, J. J. Estranhar e reconhecer: um processo de descontinuidades na paisagem urbana de Anápolis-GO (1870-2022). Paranoá, v. 17, e45325, 2024, p. 6. [Adaptado].
O crescimento populacional se associa com qual característica da população mencionada?
O Instituto Senai de Tecnologia em Alimentos e Bebidas, de Goiânia, foi o grande vencedor da etapa Centro-Oeste do Prêmio Finep de Inovação, na categoria Cadeias Agroindustriais Sustentáveis, com o projeto Soluções Tecnológicas para o Aproveitamento Integral do Babaçu e Pequi. [...] A Coordenadora de Projetos do Instituto, Nathália Garcia, destacou o impacto social gerado pelo projeto: “É muito gratificante ver a inovação chegando na ponta, transformando a vida de mais de 7 mil famílias de agroextrativistas e agricultores familiares. Por meio desse projeto, conseguimos desenvolver cinco novos ingredientes a partir do aproveitamento integral do pequi e do babaçu – utilizando casca, polpa e semente. O que antes era considerado resíduo agora se transforma em produtos de alto valor agregado”.
BOLETIM SEMANAL DE NOTÍCIAS DA FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE GOIÁS. Senai conquista Prêmio Finep de Inovação ao transformar frutos do Cerrado em soluções sustentáveis. Ano 7, nº 261, Goiânia, 10 de outubro de 2025, p. 2 e 3. [Adaptado].
De que forma o projeto contribuiu com as famílias mencionadas?
No componente materno-infantil, a Taxa de Mortalidade Infantil, medida em óbitos de menores de um ano por mil nascidos vivos, alcançou média municipal de 16,87. Trata-se de uma média entre municípios e não da taxa estadual. Observou-se que cerca de 20% dos municípios não registraram óbitos infantis, enquanto 80% apresentaram taxas inferiores a 29,47, havendo casos extremos com 96,77 óbitos por mil nascidos vivos. A elevada variabilidade do indicador sugere que ganhos adicionais dependem de cobertura contínua e de cuidados oportunos. Nessa direção, o Acompanhamento Pré-Natal, aferido pelo percentual de gestantes com sete ou mais consultas, registrou média de 81,02%, com mínimo de 42,31% e 80% dos municípios abaixo de 88,64%, o que revela espaço para ampliar o acesso e a regularidade do cuidado durante a gestação.
Lima, J. K. E.; Matos, P. D. S.; Siqueira, R. V. Índice de Desempenho dos Municípios (IDM). Goiânia-GO: Instituto Mauro Borges de Pesquisa e Política Econômica– IMB, 2025, p. 18. [Adaptado].
A elevada variabilidade desse indicador evidencia qual característica do Estado de Goiás?