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Q4209208 Português

Texto I:


Desemprego entre mulheres negras jovens chega a 24,7%, aponta estudo 

PorAgência Brasil - 05/06/26 - 09h32min Em Brasil 


Apesar de avanços recentes no mercado de trabalho, com queda nos índices de desemprego e resultados positivos no aumento da renda dos trabalhadores, as mulheres negras jovens continuam registrando os piores resultados em indicadores como taxa de desocupação, informalidade, desalento e rendimento. 

O resultado faz parte de um relatório da Rede Multiatores MUDE com Elas, elaborado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), a partir de dados da PNAD Contínua 2025, pesquisa do IBGE que analisa o mercado de trabalho no país.

Segundo o levantamento, mesmo com melhorias em índices de educação formal e renda, ainda existem desigualdades estruturais no mercado de trabalho brasileiro para mulheres com idades entre 14 e 29 anos.

Entre os 14 e os 17 anos, a taxa de desocupação de mulheres negras chega a 24,7%, índice 1,4 vez superior à dos homens brancos da mesma faixa etária. Na faixa de 18 a 24 anos, apontada pelos pesquisadores como momento-chave de transição entre escola e trabalho, a desigualdade se intensifica para uma desocupação de 16,5% para elas, 1,6 vez maior do que a dos homens brancos

O segmento posterior, entre 25 e 29 anos, tem uma taxa de desocupação de mulheres negras de 10,3%, quase o dobro da observada entre mulheres brancas e 2,8 vezes a dos homens brancos.

“O mercado de trabalho melhorou, mas não melhorou de forma igual para todas as pessoas. Isso evidencia que o problema não está apenas no acesso à educação, mas também nos mecanismos estruturais de exclusão que continuam operando no mercado de trabalho e na sociedade brasileira. Envolvem racismo estrutural, segregação territorial, desigualdade no acesso às redes de oportunidade, discriminação nos processos de contratação e promoção, além da sobrecarga histórica do trabalho de cuidado”, aponta a coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert, Shirley Santos.

A pesquisadora destaca que o território também influencia diretamente as oportunidades, pois moradoras de regiões periféricas enfrentam maiores obstáculos relacionados à mobilidade urbana, acesso à infraestrutura, qualidade dos serviços públicos e redes profissionais.

A diferença também se reflete na renda e no acesso ao trabalho formal. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras correspondeu a apenas 46,5% do rendimento dos homens brancos, uma diferença de 53,5% que permanece praticamente inalterada nos últimos anos.

A informalidade entre jovens negras é de 39,1%, cerca de 10% acima da registrada entre jovens brancas. O único segmento mais fragilizado nesse indicador é o dos jovens homens negros, para os quais esse índice chega a 44,2%.

As dificuldades se refletem no desalento, que é a condição de quem desiste de procurar trabalho. As mulheres negras são 38,7% dos jovens desalentados do país, enquanto os homens negros somam 36,1%. Na faixa de 25 a 29 anos, a participação das mulheres negras atinge 44,2%.

Quando a análise recai somente sobre a Região Metropolitana de São Paulo, a desigualdade se repete: jovens mulheres negras recebem, em média, R$ 2.236, enquanto homens brancos chegam a R$ 3.926. Entre 25 e 29 anos, a desigualdade aumenta, com rendimentos de R$ 2.569 para mulheres negras e R$ 5.323 para homens brancos.

“Os microdados permitem observar parte dessas desigualdades quando cruzamos raça, gênero, renda, escolaridade e território. Mas a experiência acumulada pelas organizações da sociedade civil também é fundamental para compreender dimensões que muitas vezes os dados quantitativos não conseguem capturar integralmente, como os mecanismos subjetivos de exclusão e os impactos cotidianos do racismo institucional”, complementa Shirley.

[...]


Disponível em: https://istoe.com.br/desemprego-entre-mulheres-negras-jovens-chega-a-247-aponta-estudo. Acesso em: 06 jun. 2026.

No fragmento, “Segundo o levantamento, mesmo com melhorias em índices de educação formal e renda, ainda existem desigualdades estruturais no mercado de trabalho brasileiro para mulheres com idades entre 14 e 29 anos”, é possível afirmar que os termos destacados podem ser classificados gramaticalmente como: 
Alternativas
Q4209207 Português

Texto I:


Desemprego entre mulheres negras jovens chega a 24,7%, aponta estudo 

PorAgência Brasil - 05/06/26 - 09h32min Em Brasil 


Apesar de avanços recentes no mercado de trabalho, com queda nos índices de desemprego e resultados positivos no aumento da renda dos trabalhadores, as mulheres negras jovens continuam registrando os piores resultados em indicadores como taxa de desocupação, informalidade, desalento e rendimento. 

O resultado faz parte de um relatório da Rede Multiatores MUDE com Elas, elaborado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), a partir de dados da PNAD Contínua 2025, pesquisa do IBGE que analisa o mercado de trabalho no país.

Segundo o levantamento, mesmo com melhorias em índices de educação formal e renda, ainda existem desigualdades estruturais no mercado de trabalho brasileiro para mulheres com idades entre 14 e 29 anos.

Entre os 14 e os 17 anos, a taxa de desocupação de mulheres negras chega a 24,7%, índice 1,4 vez superior à dos homens brancos da mesma faixa etária. Na faixa de 18 a 24 anos, apontada pelos pesquisadores como momento-chave de transição entre escola e trabalho, a desigualdade se intensifica para uma desocupação de 16,5% para elas, 1,6 vez maior do que a dos homens brancos

O segmento posterior, entre 25 e 29 anos, tem uma taxa de desocupação de mulheres negras de 10,3%, quase o dobro da observada entre mulheres brancas e 2,8 vezes a dos homens brancos.

“O mercado de trabalho melhorou, mas não melhorou de forma igual para todas as pessoas. Isso evidencia que o problema não está apenas no acesso à educação, mas também nos mecanismos estruturais de exclusão que continuam operando no mercado de trabalho e na sociedade brasileira. Envolvem racismo estrutural, segregação territorial, desigualdade no acesso às redes de oportunidade, discriminação nos processos de contratação e promoção, além da sobrecarga histórica do trabalho de cuidado”, aponta a coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert, Shirley Santos.

A pesquisadora destaca que o território também influencia diretamente as oportunidades, pois moradoras de regiões periféricas enfrentam maiores obstáculos relacionados à mobilidade urbana, acesso à infraestrutura, qualidade dos serviços públicos e redes profissionais.

A diferença também se reflete na renda e no acesso ao trabalho formal. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras correspondeu a apenas 46,5% do rendimento dos homens brancos, uma diferença de 53,5% que permanece praticamente inalterada nos últimos anos.

A informalidade entre jovens negras é de 39,1%, cerca de 10% acima da registrada entre jovens brancas. O único segmento mais fragilizado nesse indicador é o dos jovens homens negros, para os quais esse índice chega a 44,2%.

As dificuldades se refletem no desalento, que é a condição de quem desiste de procurar trabalho. As mulheres negras são 38,7% dos jovens desalentados do país, enquanto os homens negros somam 36,1%. Na faixa de 25 a 29 anos, a participação das mulheres negras atinge 44,2%.

Quando a análise recai somente sobre a Região Metropolitana de São Paulo, a desigualdade se repete: jovens mulheres negras recebem, em média, R$ 2.236, enquanto homens brancos chegam a R$ 3.926. Entre 25 e 29 anos, a desigualdade aumenta, com rendimentos de R$ 2.569 para mulheres negras e R$ 5.323 para homens brancos.

“Os microdados permitem observar parte dessas desigualdades quando cruzamos raça, gênero, renda, escolaridade e território. Mas a experiência acumulada pelas organizações da sociedade civil também é fundamental para compreender dimensões que muitas vezes os dados quantitativos não conseguem capturar integralmente, como os mecanismos subjetivos de exclusão e os impactos cotidianos do racismo institucional”, complementa Shirley.

[...]


Disponível em: https://istoe.com.br/desemprego-entre-mulheres-negras-jovens-chega-a-247-aponta-estudo. Acesso em: 06 jun. 2026.

Considere o trecho: “Apesar de avanços recentes no mercado de trabalho, com queda nos índices de desemprego e resultados positivos no aumento da renda dos trabalhadores, as mulheres negras jovens continuam registrando os piores resultados em indicadores como taxa de desocupação, informalidade, desalento e rendimento”.
Sobre o uso de “Apesar de”, analise as assertivas a seguir.
I- Apresenta uma informação que poderia suscitar uma expectativa de melhora generalizada das condições de trabalho, contrariada por informação subsequente. II- Contribui para a progressão temática do texto. III- Poderia ser substituída por “uma vez que”, sem alteração significativa de sentido.
É CORRETO o que se afirma em: 
Alternativas
Q4209114 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
Considerando o período “Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice”, a transformação da estrutura sintática, com preservação das relações semânticas e da organização lógico-discursiva, pode ser realizada da seguinte forma:
Alternativas
Q4209113 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
Na frase “Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza”, a expressão “por que” aparece escrita de forma separada e sem acento. Considerando as regras da norma-padrão e o sentido construído no contexto, é correto afirmar que essa grafia se justifica pelo fato de que a expressão:
Alternativas
Q4209112 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
No período “Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.”, a organização das relações de regência nominal e verbal revela um arranjo sintático em que:
Alternativas
Q4209111 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
No trecho “Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.”, quanto à colocação pronominal das duas ocorrências de “se”, observa-se que sua posição no período decorre de um condicionamento sintático que:
Alternativas
Q4209109 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
-Na frase “Vamos querendo preservar o que se tornou raro”, as palavras “que” e “se” exercem, respectivamente, as seguintes funções:
Alternativas
Q4209108 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
Considerando o trecho “Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos”, analise as seguintes reescritas do trecho:
I. “Resgatam-se uns períodos mentais de liberdade gustativa...”
II. “Precisa-se de uns períodos mentais de liberdade gustativa...”

Em relação à concordância verbal na frase original e nas reescritas I e II, é correto afirmar que na frase original:
Alternativas
Q4209107 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
No trecho “Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável”, a palavra “sociável” foi formada por um processo em que ocorre:
Alternativas
Q4209106 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
Considere o fragmento abaixo:

“Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono”
No fragmento, o emprego do ponto e vírgula, das vírgulas e dos parênteses contribui para a organização sintático-discursiva do período, de modo que tais sinais de pontuação estruturam o enunciado como uma construção que:
Alternativas
Q4209105 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
No trecho “Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento”, articulado ao desenvolvimento global do texto, a expressão “prevalece um detalhe” assume um valor semânticodiscursivo que, no interior da construção argumentativa e da progressão de sentidos, caracteriza-se por:
Alternativas
Q4209104 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
Analise o trecho a seguir.

“Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.
[...]
Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.”

Considerando o valor que cada forma verbal assume no contexto, é correto afirmar que:
Alternativas
Q4209102 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
No que diz respeito à articulação textual — pronomes e expressões referenciais, nexos coesivos e operadores sequenciais —, é correto afirmar que:
Alternativas
Q4209101 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
Considerando a progressão temática e os mecanismos de organização interna do texto, verifica-se que a estruturação dos parágrafos evidencia um movimento discursivo que:
Alternativas
Q4209100 Português
Nem os mortos resistem


       Minha esposa gosta de um doce que não é de vó, mas de bisavó: doce de cidra. Ela se delicia com as raspas verdes, cristais de sua esperança.

      Eu imaginava que só ela apreciasse esse quitute na face da Terra, mais ninguém. Eu me enganei. Há uma legião de fanáticos.

       Comer passa a ser o mesmo que recordar. Não são mais operações distintas. Você busca reprisar as refeições familiares e suprir a falta que sente de todo mundo que partiu.

      A sobremesa traz quem já morreu de volta à mesa.

     Talvez represente o nosso ímpeto de recuperar a casa cheia, o cotidiano de uma época repleta de promessas.

     Do bolo esfriando na janela e enchendo o lar de expectativas; da vontade de ser o primeiro a provar; das receitas típicas que cada um se responsabilizava em preparar para as celebrações (Páscoa, Natal, Ano-Novo e aniversários), criando uma disputa saudável para descobrir qual era a melhor; da implicância em devolver a forma de vidro para o seu dono.

     Como as sobremesas se destinavam ao proveito do grupo e permaneciam na geladeira semana afora, simbolizam o alvoroço, o povo apertado na sala e na cozinha, com os cotovelos próximos.

     Elas elevavam o ânimo doméstico, liberavam as gargalhadas, injetavam o desejo de prolongar a conversa e de ser mais sociável. Produziam o efeito de inibir a censura. Durante a comida de sal, pouco se falava. Durante o doce, tudo se dizia.

    Parece que, quanto mais envelhecemos, mais retornamos às sobremesas da meninice.

      Vamos querendo preservar o que se tornou raro.

   Resgata-se um período mental de liberdade gustativa, em que não havia restrições com a glicose, ou medo do diabetes, muito menos economia com as gemas dos ovos.

      Eu era apaixonado por brigadeiro, por panelinha de coco, por pastel de nata, por queijadinha, por quindim, por guloseimas pequeninas e explosivas de vitalidade. Atualmente só me interesso pela estética e pelo perfume do pudim de leite: a simétrica redoma furada que me sacia por alguns prósperos momentos.

      Prevalece um detalhe na transformação de meu comportamento. Abandonei a porção individual pela coletiva, servida em vasilha, a ser dividida com os outros.

     O pudim de leite virou minha obsessão. Odiava a casca da cobertura. Hoje devoro inicialmente o recheio, para depois saborear lentamente a crocância do açúcar queimado com a calda.

      A arte começa ao cortar uma fatia. Devo controlar a força de minha mão para não abusar com uma incisão transversal e levar o pudim inteiro para o prato.

     Não é que eu fiquei mais tradicional, é que tenho saudade de quem fui e de quem se despediu de mim.

       Minha existência mudou de parâmetros, abolindo preconceitos alimentares.

      Agora respeito o uso do cravo no beijinho ou no arroz-doce. Antes, considerava um desperdício aquele adorno, aquela estaca da especiaria. Eu apenas reclamava do trabalho de tirá-lo.

      Agora reverencio o manjar, o bolo gelado de coco e abacaxi, o flan de coco, o tiramissu. Nem mais faço piada com o pavê.

     Agora entendo por que a ambrosia e o sagu jamais vão perder a realeza.

     Nossas crianças interiores são famintas em repetir a dose e a vida.


Fonte: CARPINEJAR, Fabrício. Nem os mortos resistem. O Tempo, 10 abr. 2026. Disponível em:https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2026/4/10/nem-os-mortos-resistem. Acesso em: 23 abr. 2026.
No desenvolvimento argumentativo do texto, a evocação das sobremesas da infância ultrapassa a esfera do paladar e organiza uma reflexão sobre memória, convivência e identidade. Tendo por base a progressão das ideias e os efeitos de sentido produzidos, pode-se afirmar que o texto articula a lembrança dos doces a uma experiência de:
Alternativas
Q4208994 Português
Assinale a alternativa que apresenta uma frase em que o verbo “tem” deve ser acentuado graficamente com acento circunflexo para manter-se a concordância e a correção gramatical. 
Alternativas
Q4208993 Português
No trecho retirado do texto “o estudioso reproduzia as conversas que outro filósofo — no caso, Sócrates — tinha com certos cidadãos gregos”, a palavra “certos” é classificada gramaticalmente como:
Alternativas
Q4208992 Português
Considerando a norma ortográfica vigente, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas pontilhadas nas linhas 15, 20 e 26.
Alternativas
Q4208990 Português
Assinale a alternativa que apresenta a palavra grafada corretamente com hífen, de acordo com o Acordo Ortográfico vigente.
Alternativas
Q4208789 Português
São palavras em que o “s” tem som de “z”, EXCETO:
Alternativas
Respostas
281: A
282: C
283: D
284: B
285: D
286: A
287: C
288: B
289: A
290: B
291: A
292: D
293: A
294: C
295: B
296: B
297: C
298: B
299: A
300: D