Foram encontradas 23.510 questões
Resolva questões gratuitamente!
Junte-se a mais de 4 milhões de concurseiros!
Considere o seguinte caso clínico: Ana, professora do ensino fundamental em uma escola pública de São Paulo, tem 38 anos e apresenta queixas de rouquidão persistente, pigarro frequente, fadiga vocal ao final do dia e dores no pescoço e ombros. Ela relata trabalhar em salas de aula com alta densidade de alunos, sem isolamento acústico adequado e ventilação deficiente. Além disso, Ana menciona a ausência de treinamento vocal e que utiliza a voz intensivamente por mais de 8 horas diárias. O estudo de Martins et al. (2024) relata que, no Brasil, os professores correspondem a 67,2% dos casos de distúrbios vocais em profissionais da voz falada, sendo a categoria mais acometida.
Com base na situação descrita e na literatura sobre distúrbios vocais relacionados ao trabalho, identifique um fator relevante para a gênese do Distúrbio De Voz Relacionado Ao Trabalho (DVRT) em Ana.
Ribeiro, Mancini e Bicalho (2023) realizaram um estudo longitudinal entre 2019 e 2022 com 50 idosos diagnosticados com disfunção vestibular submetidos à reabilitação vestibular (RV). O estudo avaliou o impacto da RV na funcionalidade, equilíbrio, tontura e sintomas depressivos, utilizando testes como o Vídeo Head Impulse Test (v-HIT), o Potencial Evocado Miogênico Vestibular (VEMP), a Escala de Equilíbrio de Berg (EEB), o Dizziness Handicap Inventory (DHI) e a Escala Geriátrica de Depressão (GDS-15). Os resultados demonstraram benefícios da RVem diversos aspectos da qualidade de vida dos idosos.
Com base nos conhecimentos acerca dos protocolos e procedimentos da Reabilitação Vestibular, assinale a alternativa CORRETA.
De acordo com Damasceno et al (2022), o fonoaudiólogo educacional desempenha um papel essencial na identificação e intervenção em dificuldades de leitura e escrita, especialmente em escolares que apresentam baixo desempenho em habilidades cognitivas e linguísticas fundamentais. Considere o caso de uma escola municipal que implementou um programa de estimulação voltado para discriminação auditiva, consciência fonológica e acesso fonológico ao léxico, visando apoiar alunos do ensino fundamental. Durante o acompanhamento, observou-se que as atividades do programa foram planejadas para serem aplicadas em sala de aula, com foco na promoção de competências leitoras e na prevenção de dificuldades futuras.
Baseando-se nesse contexto, analise as afirmativas a seguir sobre a atuação do fonoaudiólogo educacional nesse tipo de intervenção.
I- O fonoaudiólogo educacional contribui para a criação de estratégias que favorecem o desenvolvimento de habilidades fonológicas essenciais para a leitura e escrita.
II- As intervenções realizadas pelo fonoaudiólogo são eficazes apenas quando aplicadas em grupos pequenos ou de forma individualizada.
III- A atuação do fonoaudiólogo educacional pode auxiliar na identificação precoce de transtornos de aprendizado e na indicação de adaptações para o ambiente escolar.
IV- A aplicação de atividades focadas em habilidades fonológicas, como a discriminação auditiva, contribui para a melhora da decodificação, da fluência leitora e da lateralização.
É CORRETO o que se afirma apenas em:
Um estudo realizado por Santos, Reis e Amaral (2021) analisou os impactos do trauma facial no sistema estomatognático em pacientes atendidos em um hospital de urgência e emergência no Brasil. O estudo destacou que os acidentes de trânsito são a principal causa de traumas faciais e que suas consequências podem comprometer funções vitais, como mastigação, deglutição e articulação da fala. Além disso, identificou-se que as lesões mais frequentes incluem fraturas no esqueleto facial, lesões em tecidos moles e limitações na abertura da boca, impactando diretamente a qualidade de vida das vítimas. Diante desse contexto, analise o caso abaixo:
Paciente de 27 anos, sexo masculino, motociclista, que foi vítima de colisão em alta velocidade. No atendimento hospitalar, apresentava edema facial severo, fratura da mandíbula (região sinfisária), fratura do maxilar esquerdo e avulsão dentária. O exame clínico revelou limitação na amplitude de abertura da boca, dificuldade na articulação da fala e desvio na mordida.
Com base no estudo mencionado e nos conhecimentos sobre os impactos do trauma no sistema estomatognático e sua relação com a função orofacial, assinale a alternativa CORRETA.
Um estudo realizado por Gorski (2013) indicou que a atuação do fonoaudiólogo no campo da perícia é uma área pouco difundida, mas com grande potencial de crescimento, especialmente em processos judiciais e administrativos. Imagine-se na posição ocupada por João, um fonoaudiólogo com experiência clínica em voz, o qual foi contratado para realizar uma perícia judicial em um caso de identificação de voz de um suspeito por meio de gravações telefônicas. Durante o processo, João precisou fundamentar sua atuação em princípios éticos e regulamentações específicas da profissão.
Com base no cenário descrito, analise as afirmações a seguir sobre a atuação pericial do fonoaudiólogo e assinale a alternativa CORRETA.
De acordo com os estudos de Amaral et al, 2022, a prevalência de Disfunções Temporomandibulares (DTMs) varia de 5% a 12% na população geral, sendo mais comum em jovens e duas vezes mais frequente em mulheres. Estes dados foram importantes para auxiliar o atendimento de Joana, uma jovem de 25 anos que procurou atendimento fonoaudiológico relatando dor orofacial constante, dificuldade para mastigar alimentos mais duros e sensação de resíduos na boca após a deglutição. Durante a anamnese, a fonoaudióloga identificou que a paciente apresentava estalos na Articulação Temporomandibular (ATM) e um padrão mastigatório unilateral crônico.
Com base nesse caso e nas informações sobre DTMs, assinale a alternativa CORRETA.
A terapia vocal em grupo tem sido uma abordagem adotada no tratamento de pacientes com disfonia, especialmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), com o objetivo de otimizar recursos e atender a população. Um estudo realizado por Bello et al (2023) em um hospital do SUS, na cidade de Porto Alegre (RS), avaliou os efeitos de um programa terapêutico baseado no Programa Integral de Reabilitação Vocal (PIRV). Com base nos achados do estudo, qual das alternativas abaixo está CORRETA?
No Brasil, cerca de 70% das pessoas adultas que necessitam de cuidados paliativos possuem doenças não oncológicas, como doenças cerebrovasculares, HIV/AIDS e demências, conforme apontado por dados da Organização Mundial da Saúde e discutido no estudo de Roque e Ferreira (2023). Com base nisso, analise o caso de uma paciente idosa, de 75 anos, com diagnóstico de transtorno neurocognitivo maior e disfagia orofaríngea que está internada em cuidados paliativos e cuja avaliação fonoaudiológica revelou dificuldade no transporte de alimentos e saliva, impacto significativo na nutrição e na saúde pulmonar e desconforto emocional associado à alimentação.
Com base nos dados epidemiológicos e na relação entre disfagia orofaríngea e cuidados paliativos, assinale a alternativa CORRETA sobre os impactos e a abordagem da disfagia nesses pacientes.
Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010) revelou que 36,2% da população brasileira declarou ter deficiência auditiva, sendo 1,3% na faixa etária de 0 a 14 anos. A incidência de deficiência auditiva em neonatos varia entre 1,5 a 5,95 por 1.000 nascimentos, e muitas dessas causas poderiam ser evitadas. De acordo com o estudo de Silva e Gonçalves (2013), a surdez infantil é considerada um problema de saúde pública devido à sua alta prevalência e às múltiplas consequências no desenvolvimento infantil, incluindo dificuldades na aquisição da linguagem e na escolarização.
Com base nessas informações e no processo de diagnóstico da surdez infantil, assinale a alternativa CORRETA.
Lucas, 27 anos, procura atendimento fonoaudiológico devido à percepção de dificuldades na fluência da fala em contextos de interação social. Durante a anamnese, relata maior fluidez ao cantar e ao utilizar aplicativos que alteram o feedback auditivo, além de referir esforço excessivo ao falar em situações formais. A avaliação identificou predominância de bloqueios e pausas frequentes na fala espontânea. Com base no Modelo Pré-Motor Duplo (Alm, 2006), foi possível associar o controle temporal da fala de Lucas aos sistemas pré-motores medial e lateral, conforme o contexto de produção comunicativa.
Com base no caso e nas informações teóricas sobre o tema, analise as alternativas abaixo e marque a CORRETA.
Maria, 7 anos, foi encaminhada ao serviço de fonoaudiologia por apresentar dificuldades em discriminar sons em ambientes ruidosos, reconhecer padrões rítmicos e perceber semelhanças entre sons verbais. Ela vive em uma área urbana do Brasil, onde, de acordo com Souza e Pereira (2019), cerca de 10% das crianças em idade escolar apresentam algum tipo de transtorno relacionado ao processamento auditivo central (PAC) (Souza; Pereira, 2019). A mãe relatou que Maria nunca teve contato com instrumentos musicais ou aulas de música.
Com base no caso apresentado e nos conhecimentos sobre treinamento musical e processamento auditivo, analise as proposições abaixo:
I- A prática musical beneficia habilidades de figura-fundo, fundamentais para a percepção de sons em ambientes ruidosos.
II- O treinamento musical desenvolve a plasticidade cerebral, promovendo o aprimoramento da percepção de padrões rítmicos e melódicos.
III- Crianças com treinamento musical não apresentam diferenças significativas em respostas neurais a estímulos sonoros em ambientes ruidosos.
IV- O treinamento musical só é eficaz em crianças com experiências prévias com instrumentos musicais.
É CORRETO o que se afirma apenas em:
No Brasil, a disartria está entre as alterações neuromotoras de fala mais comuns em pacientes com doenças neurológicas, em especial nos casos de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), que é um dos primeiros sintomas em aproximadamente 25% dos pacientes. Segundo Donneys Valencia et al. (2022), estratégias fonoaudiológicas baseadas em evidências ainda são escassas, mas têm se mostrado fundamentais para melhorar aspectos como a inteligibilidade da fala, controle da zona oral e soluções articulatórias. Diante dessas informações, considere o caso de um paciente de 65 anos que apresenta fala lenta, voz áspera e dificuldades para palavras articulares. Durante a avaliação, foram testadas dificuldades musculares e limitações dos movimentos articulatórios. A história clínica indica um diagnóstico prévio de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).
Com base nos resultados clínicos apresentados e nos tipos de disartria, identifique o diagnóstico fonoaudiológico e marque uma alternativa CORRETA:
De acordo com o estudo de Oliveira et al. (2018), a exposição prolongada a música amplificada pode causar alterações auditivas, especialmente em jovens que utilizam fones de ouvido em volumes elevados e a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que mais de 1,1 bilhão de jovens estão em risco de desenvolver perda auditiva devido à exposição excessiva a ruídos em ambientes recreativos (WHO, 2021).
Essas informações foram passadas durante uma consulta realizada com João, um adolescente de 17 anos que utiliza fones de ouvido diariamente para ouvir música. Ele costuma ouvir por cerca de 3 horas por dia em volume elevado, pois acredita que isso melhora sua experiência musical. Recentemente, começou a perceber um zumbido nos ouvidos após longas sessões de música, mas esse sintoma desaparece depois de algumas horas. Com base nos estudos sobre os riscos reais da exposição prolongada a ruídos e sua relação com a perda auditiva, assinale a alternativa CORRETA sobre os riscos desse hábito.
Lucas, um menino de 7 anos, está cursando o 2º ano do ensino fundamental em uma escola pública. Sua professora observa que ele enfrenta dificuldades para segmentar palavras em sílabas, identificar rimas e reconhecer sons iniciais de palavras, o que afeta seu desempenho em leitura e escrita. A mãe relata que Lucas apresenta um histórico de atraso na aquisição da fala, mas nunca participou de programas de estimulação precoce. Segundo Muitana e Amato (2022), déficits na consciência fonológica estão relacionados a dificuldades significativas no desempenho acadêmico, impactando leitura, escrita e, em menor grau, matemática, especialmente entre crianças brasileiras no início da escolarização.
Com base no caso apresentado e nas evidências científicas sobre a consciência fonológica, analise as seguintes afirmações e assinale a alternativa CORRETA:
Assinale a alternativa que apresenta CORRETAMENTE a quantidade de linhas necessárias para a construção da tabela verdade da proposição composta a seguir.

Em uma loja, são oferecidas três mercadorias: A, B e C. A seguir, no Diagrama de Venn, tem-se a quantidade de vezes que cada produto foi vendido ao longo de um mês. Assinale a alternativa CORRETA.

Após um desastre, a defesa civil levantou os seguintes dados:
· 78 pessoas tiveram suas casas alagadas;
· 49 pessoas tiveram apenas perda de móveis;
· 19 pessoas sofreram apenas com deslizamentos de terra;
· 27 pessoas tiveram suas casas alagadas e perderam móveis;
· 31 pessoas sofreram com deslizamentos de terra e tiveram suas casas alagadas;
· 20 pessoas tiveram suas casas alagadas, perderam móveis e sofreram com deslizamentos de terra.
Analise as assertivas a seguir e assinale a alternativa CORRETA.
Após a leitura da crônica no TEXTO III, responda à questão.
TEXTO III
Um milagre
(Graciliano Ramos)
R28829. Anúncio miúdo publicado num jornal: “A Nossa Senhora, a quem recorri em momentos de aflição na madrugada de 11 de maio, agradeço de joelhos a graça alcançada.” Uma assinatura de mulher. Em seguida vinha o 29766, em que se ofereciam os lotes de um terreno, em prestações módicas. Esse não me causou nenhuma impressão, mas o 28829 sensibilizou-me.
A princípio achei estranho que alguém manifestasse gratidão à divindade num anúncio, que talvez Nossa Senhora nem tenha lido, mas logo me convenci de que não tinha razão. Com certeza essa alma, justamente inquieta numa noite de apuros, teria andado melhor se houvesse produzido uma Salve-Rainha, por exemplo. Infelizmente nem todos os devotos são capazes de produzir Salve Rainhas.
Afinal essas coisas só têm valor quando se publicam. A senhora a que me refiro podia ter ido à igreja e enviado ao céu uma composição redigida por outra pessoa. Isto, porém, não a satisfaria. Trata-se duma necessidade urgente de expor um sentimento forte, sentimento que, em conformidade com o intelecto do seu portador, assume a forma de oração artística ou de anúncio. Há aí uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão. Meios bem modestos, com efeito, mas essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência e não se atreve a comunicar-se com a Virgem: fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos, e confessa a eles o seu agradecimento a Nossa Senhora, que lhe concedeu um favor em hora de aperto.
Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. Afuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha.
Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro. E aí pensou no marido (ou no filho), que se achava fora de casa, na Urca ou em lugar pior. Desejou com desespero que não acontecesse uma desgraça à família. Encostou-se à pia, esmorecida, medrosa da escuridão, tencionando vagamente formular um pedido e comprimir o botão do comutador. Incapaz de pedir qualquer coisa, arriou, caiu ajoelhada e escorou-se à banheira. Depois lembrou-se de Nossa Senhora. Passou ali uma parte da noite, tremendo. Como os rumores externos diminuíssem, ergueu-se, voltou para o quarto, estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada. Não dormiu, e de manhã viu no espelho uma cara envelhecida e amarela. O filho (ou marido) entrou em casa inteiro, e não foi incomodado pela polícia.
A alma torturada roncou um suspiro de alívio, molhou o jornal com lágrimas e começou a perceber que tinha aparecido ali uma espécie de milagre. Pequeno, é certo, bem inferior aos antigos, mas enfim digno de figurar entre os anúncios do jornal que ali estava amarrotado e molhado.
Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.
(Fonte: As cem melhores crônicas brasileiras/ Joaquim Ferreira dos Santos, organização e introdução. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.)
Observe o emprego do pronome relativo nas estruturas abaixo expostas e, em seguida, indique a função sintática assumida por cada um deles.
“Em seguida vinha o 29766, EM QUE1 se ofereciam os lotes de um terreno, em prestações módicas.”
“A senhora A QUE2 me refiro podia ter ido à igreja e enviado ao céu uma composição redigida por outra pessoa.”
“[...] mas essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência e não se atreve a comunicar-se com a Virgem: fala a viventes ordinários, [...] e confessa a eles o seu agradecimento a Nossa Senhora, QUE3 lhe concedeu um favor em hora de aperto.
Após a leitura da crônica no TEXTO III, responda à questão.
TEXTO III
Um milagre
(Graciliano Ramos)
R28829. Anúncio miúdo publicado num jornal: “A Nossa Senhora, a quem recorri em momentos de aflição na madrugada de 11 de maio, agradeço de joelhos a graça alcançada.” Uma assinatura de mulher. Em seguida vinha o 29766, em que se ofereciam os lotes de um terreno, em prestações módicas. Esse não me causou nenhuma impressão, mas o 28829 sensibilizou-me.
A princípio achei estranho que alguém manifestasse gratidão à divindade num anúncio, que talvez Nossa Senhora nem tenha lido, mas logo me convenci de que não tinha razão. Com certeza essa alma, justamente inquieta numa noite de apuros, teria andado melhor se houvesse produzido uma Salve-Rainha, por exemplo. Infelizmente nem todos os devotos são capazes de produzir Salve Rainhas.
Afinal essas coisas só têm valor quando se publicam. A senhora a que me refiro podia ter ido à igreja e enviado ao céu uma composição redigida por outra pessoa. Isto, porém, não a satisfaria. Trata-se duma necessidade urgente de expor um sentimento forte, sentimento que, em conformidade com o intelecto do seu portador, assume a forma de oração artística ou de anúncio. Há aí uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão. Meios bem modestos, com efeito, mas essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência e não se atreve a comunicar-se com a Virgem: fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos, e confessa a eles o seu agradecimento a Nossa Senhora, que lhe concedeu um favor em hora de aperto.
Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. Afuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha.
Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro. E aí pensou no marido (ou no filho), que se achava fora de casa, na Urca ou em lugar pior. Desejou com desespero que não acontecesse uma desgraça à família. Encostou-se à pia, esmorecida, medrosa da escuridão, tencionando vagamente formular um pedido e comprimir o botão do comutador. Incapaz de pedir qualquer coisa, arriou, caiu ajoelhada e escorou-se à banheira. Depois lembrou-se de Nossa Senhora. Passou ali uma parte da noite, tremendo. Como os rumores externos diminuíssem, ergueu-se, voltou para o quarto, estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada. Não dormiu, e de manhã viu no espelho uma cara envelhecida e amarela. O filho (ou marido) entrou em casa inteiro, e não foi incomodado pela polícia.
A alma torturada roncou um suspiro de alívio, molhou o jornal com lágrimas e começou a perceber que tinha aparecido ali uma espécie de milagre. Pequeno, é certo, bem inferior aos antigos, mas enfim digno de figurar entre os anúncios do jornal que ali estava amarrotado e molhado.
Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.
(Fonte: As cem melhores crônicas brasileiras/ Joaquim Ferreira dos Santos, organização e introdução. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.)
Após a leitura da crônica no TEXTO III, responda à questão.
TEXTO III
Um milagre
(Graciliano Ramos)
R28829. Anúncio miúdo publicado num jornal: “A Nossa Senhora, a quem recorri em momentos de aflição na madrugada de 11 de maio, agradeço de joelhos a graça alcançada.” Uma assinatura de mulher. Em seguida vinha o 29766, em que se ofereciam os lotes de um terreno, em prestações módicas. Esse não me causou nenhuma impressão, mas o 28829 sensibilizou-me.
A princípio achei estranho que alguém manifestasse gratidão à divindade num anúncio, que talvez Nossa Senhora nem tenha lido, mas logo me convenci de que não tinha razão. Com certeza essa alma, justamente inquieta numa noite de apuros, teria andado melhor se houvesse produzido uma Salve-Rainha, por exemplo. Infelizmente nem todos os devotos são capazes de produzir Salve Rainhas.
Afinal essas coisas só têm valor quando se publicam. A senhora a que me refiro podia ter ido à igreja e enviado ao céu uma composição redigida por outra pessoa. Isto, porém, não a satisfaria. Trata-se duma necessidade urgente de expor um sentimento forte, sentimento que, em conformidade com o intelecto do seu portador, assume a forma de oração artística ou de anúncio. Há aí uma criatura que não se submete a fórmulas e precisa meios originais de expressão. Meios bem modestos, com efeito, mas essa alma sacudida pelo espalhafato de 11 de maio reconhece a sua insuficiência e não se atreve a comunicar-se com a Virgem: fala a viventes ordinários, isto é, aos leitores dos anúncios miúdos, e confessa a eles o seu agradecimento a Nossa Senhora, que lhe concedeu um favor em hora de aperto.
Imagino o que a mulher padeceu. A metralhadora cantava na rua, o guarda da esquina tinha sido assassinado, ouviam-se gritos, apitos, correrias, buzinar de automóveis, e os vidros da janela avermelhavam-se com um clarão de incêndio. A infeliz acordou sobressaltada, tropeçou nos lençóis e bateu com a testa numa quina da mesa da cabeceira. Enrolando-se precipitadamente num roupão, foi fechar a janela, mas o ferrolho emperrou. Afuzilaria lá fora continuava intensa, as chamas do incêndio avivavam-se. A pobre ficou um instante mexendo no ferrolho, atarantada. Compreendeu vagamente o perigo e ouviu uma bala inexistente zunir-lhe perto da orelha.
Arrastando-se, quase desmaiada, foi refugiar-se no banheiro. E aí pensou no marido (ou no filho), que se achava fora de casa, na Urca ou em lugar pior. Desejou com desespero que não acontecesse uma desgraça à família. Encostou-se à pia, esmorecida, medrosa da escuridão, tencionando vagamente formular um pedido e comprimir o botão do comutador. Incapaz de pedir qualquer coisa, arriou, caiu ajoelhada e escorou-se à banheira. Depois lembrou-se de Nossa Senhora. Passou ali uma parte da noite, tremendo. Como os rumores externos diminuíssem, ergueu-se, voltou para o quarto, estabeleceu alguma ordem nas ideias confusas, endereçou à Virgem uma súplica bastante embrulhada. Não dormiu, e de manhã viu no espelho uma cara envelhecida e amarela. O filho (ou marido) entrou em casa inteiro, e não foi incomodado pela polícia.
A alma torturada roncou um suspiro de alívio, molhou o jornal com lágrimas e começou a perceber que tinha aparecido ali uma espécie de milagre. Pequeno, é certo, bem inferior aos antigos, mas enfim digno de figurar entre os anúncios do jornal que ali estava amarrotado e molhado.
Realmente muitas pessoas que dormiam e não pensaram, portanto, em Nossa Senhora deixaram de morrer na madrugada horrível de 11 de maio. Essas não receberam nenhuma graça: com certeza escaparam por outros motivos.
(Fonte: As cem melhores crônicas brasileiras/ Joaquim Ferreira dos Santos, organização e introdução. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.)