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Q3181851 Português

O texto seguinte servirá de base para responder a questão.


Escrever as emoções: o sentido de dar palavras à ebulição interior


Julián Fuks


Às vezes sinto que minha filha tem escrito mais do que eu, ou tem sido mais verdadeira no que escreve. Mais imediata, talvez, no desembaraço de seus sete anos de idade. Criou agora seu caderno de sentimentos, algo como um diário ilustrado onde ela registra cada emoção forte que a acomete. Eu olho a urgência com que ela corre para o caderno, o vigor com que empunha o lápis, a concentração com que passa a ignorar tudo o que a cerca. Nada mais lhe importa nesse momento, a escrita toma toda a sua existência, e assim cada emoção turbulenta de origem se faz satisfação e leveza. Escreveu algo de essencial, traçou em linhas exatas seu sentimento, deu a uma vaga abstração sua forma concreta. Quisera eu escrever dessa maneira.


Seu caderno se inicia com a mais simples e expressiva das páginas. Tutu triste, vê-se em letras pequenas, e embaixo seu autorretrato de olhos pesados e duas lágrimas gordas sobre as bochechas. Segue ainda por afetos límpidos: Tutu animada, raivosa, impaciente, sonolenta, Tutu sem acreditar no que está acontecendo, neste caso um desenho de si boquiaberta e de olhos vidrados. Depois disso ela parece ter percebido a necessidade de explorar as causas subjacentes aos sentimentos, como Balzac alguma vez decidiu dar as raízes ocultas de cada fato. Passou a anotar coisas como "Tutu empolgada com o acampamento", e "Tutu aliviada porque um homem horrível não ganhou as eleições".


"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador". Leio essa frase em Clarice Lispector e acredito entender algo sobre minha filha, e algo sobre mim. Clarice emenda que talvez por isso tome tantos anos entre um verdadeiro escrever e outro, ainda que se empunhe o lápis todos os dias por uma vida inteira. Para mim dá-se o mesmo, alinhavo palavras sempre que me visita o caderno de sentimentos. Ali, se o tivesse, talvez me fosse mais sincero dizer: "Julián embevecido de admiração por sua filha."


Não posso, no entanto, encerrar meu comentário sobre o caso nesse ponto, porque há um acontecimento recente muito mais digno de nota do que tudo isso que contei. Lê-se numa das páginas do caderno: "Tutu infeliz porque a Peps não está sendo uma boa pessoa". Não sei qual conflito a levou a registrar palavras tão acerbas contra a irmã, decerto alguma dessas pequenezas que diariamente trovejam na relação entre as duas, precedidas e sucedidas de risos desabridos e abraços enérgicos.


Penélope não deixou passar sem vingança a acusação insolente. Enquanto folheava o caderno da irmã e tentava decifrar as palavras escritas com que já começa a se familiarizar — começa a se irmanar, eu poderia dizer — acabou calhando de rasgar uma folha, digamos sem querer. Foi tal a indignação da irmã com o gesto destrutivo que me pareceu razoável mostrar a ela a página em que Tulipa descrevera sua decepção primeira e indagar com veemência: é isso o que você deseja? Essa é a emoção que você quer provocar na sua irmã, a infelicidade? Não seria preferível criar nela uma impressão mais positiva, e constar numa página que falasse de entusiasmo, carinho, alegria?


Penélope então me encarou com olhos indecifráveis, ainda um tanto severos, e respondeu com segurança e presteza: claro que sim, dou um jeito nisso. Correu até seu quarto, fechou-se ali por alguns minutos, criou entre os que a esperávamos um momento palpável de apreensão e suspense. Retornou com o semblante desanuviado, plena de satisfação e leveza. Numa folha avulsa ela desenhara a irmã com seu inseparável caderninho nas mãos, com um largo sorriso a lhe cruzar o rosto inteiro, e delineara na ortografia atrevida de seus quatro anos: "Tutu feliz porque a Peps se comportou bem."


Não pude senão me espantar com sua intrepidez, com sua decisão de se fazer autora da página que gostaria de ver. Sua sagacidade buscara um atalho: não era preciso suscitar na irmã o devido sentimento, a ficção poderia suprir bem esse seu desejo, e ainda expor o ridículo da bronca que o pai lhe dera. Ela é uma escritora diferente de nós, foi o que pensei, talvez mais inventiva, mais livre, menos submissa às insignificâncias da realidade e às suas emoções correspondentes. E ao pensá-lo entendi que, se tivesse afinal meu próprio caderno de sentimentos, também anotaria em página nova minha profunda admiração por ela.


Um último ato encerra a história, mostrando as intrincadas relações entre ficção e realidade, ou o modo como a escrita das emoções pode alterar nossa existência no mundo, cuidando estranhamente de nos aproximar dos outros. Tulipa viu a página que a irmã depositara sobre a mesa, e sentiu que um sorriso largo lhe cruzava o rosto inteiro, sentiu uma comoção que lhe dominava o peito. Correu nesse mesmo instante para registrar o sentimento novo em seu caderno, para criar com suas mãos a exata correspondência com o desenho da irmã. Deu assim testemunho de uma ficção que se fez emoção tão verdadeira que foi capaz de coincidir com a vida. Também assim eu desejaria a minha escrita.


Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2024/10/12/escrever-as -emocoes-o-sentido-de-dar-palavras-a-ebulicao-interior.htm. Acesso em 18 out. 2024.

Considerando as proposições, marque V, para as verdadeiras, e F, para as falsas:


No excerto "Depois disso ela parece ter percebido a necessidade de explorar as causas subjacentes aos sentimentos", a palavra em destaque pode ser substituída, sem prejuízo no sentido, por


(__) escondidas, desde que faça a adequação da regência nominal.


(__) explícitas, sem necessidade de adequar a regência nominal.


(__) evidentes, desde que faça a adequação da regência nominal.


(__) pressupostas, sem necessidade de adequar a regência nominal.


Marque a alternativa que apresenta a sequência correta: 

Alternativas
Q3181849 Português

O texto seguinte servirá de base para responder a questão.


Escrever as emoções: o sentido de dar palavras à ebulição interior


Julián Fuks


Às vezes sinto que minha filha tem escrito mais do que eu, ou tem sido mais verdadeira no que escreve. Mais imediata, talvez, no desembaraço de seus sete anos de idade. Criou agora seu caderno de sentimentos, algo como um diário ilustrado onde ela registra cada emoção forte que a acomete. Eu olho a urgência com que ela corre para o caderno, o vigor com que empunha o lápis, a concentração com que passa a ignorar tudo o que a cerca. Nada mais lhe importa nesse momento, a escrita toma toda a sua existência, e assim cada emoção turbulenta de origem se faz satisfação e leveza. Escreveu algo de essencial, traçou em linhas exatas seu sentimento, deu a uma vaga abstração sua forma concreta. Quisera eu escrever dessa maneira.


Seu caderno se inicia com a mais simples e expressiva das páginas. Tutu triste, vê-se em letras pequenas, e embaixo seu autorretrato de olhos pesados e duas lágrimas gordas sobre as bochechas. Segue ainda por afetos límpidos: Tutu animada, raivosa, impaciente, sonolenta, Tutu sem acreditar no que está acontecendo, neste caso um desenho de si boquiaberta e de olhos vidrados. Depois disso ela parece ter percebido a necessidade de explorar as causas subjacentes aos sentimentos, como Balzac alguma vez decidiu dar as raízes ocultas de cada fato. Passou a anotar coisas como "Tutu empolgada com o acampamento", e "Tutu aliviada porque um homem horrível não ganhou as eleições".


"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador". Leio essa frase em Clarice Lispector e acredito entender algo sobre minha filha, e algo sobre mim. Clarice emenda que talvez por isso tome tantos anos entre um verdadeiro escrever e outro, ainda que se empunhe o lápis todos os dias por uma vida inteira. Para mim dá-se o mesmo, alinhavo palavras sempre que me visita o caderno de sentimentos. Ali, se o tivesse, talvez me fosse mais sincero dizer: "Julián embevecido de admiração por sua filha."


Não posso, no entanto, encerrar meu comentário sobre o caso nesse ponto, porque há um acontecimento recente muito mais digno de nota do que tudo isso que contei. Lê-se numa das páginas do caderno: "Tutu infeliz porque a Peps não está sendo uma boa pessoa". Não sei qual conflito a levou a registrar palavras tão acerbas contra a irmã, decerto alguma dessas pequenezas que diariamente trovejam na relação entre as duas, precedidas e sucedidas de risos desabridos e abraços enérgicos.


Penélope não deixou passar sem vingança a acusação insolente. Enquanto folheava o caderno da irmã e tentava decifrar as palavras escritas com que já começa a se familiarizar — começa a se irmanar, eu poderia dizer — acabou calhando de rasgar uma folha, digamos sem querer. Foi tal a indignação da irmã com o gesto destrutivo que me pareceu razoável mostrar a ela a página em que Tulipa descrevera sua decepção primeira e indagar com veemência: é isso o que você deseja? Essa é a emoção que você quer provocar na sua irmã, a infelicidade? Não seria preferível criar nela uma impressão mais positiva, e constar numa página que falasse de entusiasmo, carinho, alegria?


Penélope então me encarou com olhos indecifráveis, ainda um tanto severos, e respondeu com segurança e presteza: claro que sim, dou um jeito nisso. Correu até seu quarto, fechou-se ali por alguns minutos, criou entre os que a esperávamos um momento palpável de apreensão e suspense. Retornou com o semblante desanuviado, plena de satisfação e leveza. Numa folha avulsa ela desenhara a irmã com seu inseparável caderninho nas mãos, com um largo sorriso a lhe cruzar o rosto inteiro, e delineara na ortografia atrevida de seus quatro anos: "Tutu feliz porque a Peps se comportou bem."


Não pude senão me espantar com sua intrepidez, com sua decisão de se fazer autora da página que gostaria de ver. Sua sagacidade buscara um atalho: não era preciso suscitar na irmã o devido sentimento, a ficção poderia suprir bem esse seu desejo, e ainda expor o ridículo da bronca que o pai lhe dera. Ela é uma escritora diferente de nós, foi o que pensei, talvez mais inventiva, mais livre, menos submissa às insignificâncias da realidade e às suas emoções correspondentes. E ao pensá-lo entendi que, se tivesse afinal meu próprio caderno de sentimentos, também anotaria em página nova minha profunda admiração por ela.


Um último ato encerra a história, mostrando as intrincadas relações entre ficção e realidade, ou o modo como a escrita das emoções pode alterar nossa existência no mundo, cuidando estranhamente de nos aproximar dos outros. Tulipa viu a página que a irmã depositara sobre a mesa, e sentiu que um sorriso largo lhe cruzava o rosto inteiro, sentiu uma comoção que lhe dominava o peito. Correu nesse mesmo instante para registrar o sentimento novo em seu caderno, para criar com suas mãos a exata correspondência com o desenho da irmã. Deu assim testemunho de uma ficção que se fez emoção tão verdadeira que foi capaz de coincidir com a vida. Também assim eu desejaria a minha escrita.


Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2024/10/12/escrever-as -emocoes-o-sentido-de-dar-palavras-a-ebulicao-interior.htm. Acesso em 18 out. 2024.

Considerando as regras de formação de palavras com prefixos e falsos prefixos, assinale a alternativa em que todas as palavras seguem a mesma regra da palavra destacada no seguinte excerto: "e embaixo seu autorretrato de olhos pesados".
Alternativas
Q3180904 Libras
Em relação à fonologia da Libras, que estuda os parâmetros dos sinais, qual dos itens a seguir não é considerado um parâmetro fonológico na Libras?
Alternativas
Q3180903 Libras

São abordagens educacionais no ensino de alunos surdos:



I. Oralismo, que enfatiza o ensino da fala e leitura labial.


II. Bilinguismo, que reconhece a língua de sinais como a primeira língua dos surdos, com a língua oral como segunda língua.


III. Comunicação unimodal, que utiliza apenas uma forma de expressão para a língua de sinais e para a língua oral.



Das assertivas, pode-se afirmar que: 

Alternativas
Q3180902 Libras
O Sign Writing é um sistema utilizado para a escrita de sinais da Libras e de outras línguas de sinais. Qual é uma característica fundamental desse sistema? 
Alternativas
Q3150727 Libras

Em relação à construção da frase em Libras, analise os exemplos abaixo e marque, posteriormente, a alternativa correspondente



I – sujeito – objeto – verbo


II – verbo – objeto – sujeito


III – objeto – sujeito – verbo 

Alternativas
Q3150725 Libras

Analise o enunciado abaixo e assinale a alternativa que completa corretamente a lacuna.


“No singular, o sinal para todas as pessoas é o mesmo, o que difere uma das outras é a _______________________ : o sinal para "eu" é um apontar para o peito do emissor (a pessoa que está falando), o sinal para "você" é um apontar para o receptor (a pessoa com quem se fala) e o sinal para "ele/ela" é um apontar para uma pessoa que não está na conversa ou para um lugar convencionado para uma terceira pessoa que está sendo mencionada”. 

Alternativas
Q3150724 Libras
Dentro da morfologia em Libras, destaque o conceito abaixo que apresenta duas expressões linguísticas que têm o mesmo sentido. 
Alternativas
Q3150723 Libras
Em relação aos parâmetros da Libras, analise as afirmativas abaixo, marque, na sequência, a alternativa que possui uma informação incorreta.
Alternativas
Q3150721 Libras
Analise cada enunciado abaixo, assinale a alternativa que corresponde ao modelo socioantropológico.
Alternativas
Q3150720 Libras

Analise as afirmativas abaixo, marque, posteriormente, a alternativa correspondente.



I - Apesar do reconhecimento da Libras como língua, o que remete a status, ainda assim ela possui carência de corpus (palavras que compõem o vocabulário de um idioma).


II - No caso das língua de sinais, existe a problemática da falta ou existência mínima de corpus para algumas áreas específicas (química, física, mecatrônica, metrologia industrial, entre outras). Devido a isso, um dos objetivos que a comunidade surda brasileira tem atualmente é a criação de corpus que torne a Libras mais acessível a diferentes contextos comunicacionais.

Alternativas
Q3150719 Libras

Em relação ao exercício da profissão de tradutor, intérprete e guia-intérprete, observa-se que ela é privativa, seguindo alguns critérios, tais como: “diplomado em outras áreas de conhecimento, desde que possua diploma de cursos de extensão, de formação continuada ou de especialização, com carga horária mínima [...]”.


Destaque a alternativa que completa corretamente o critério anterior.

Alternativas
Q3150718 Libras
De acordo com os parâmetros definidos pela Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, a Língua Brasileira de Sinais – Libras [...]. Destaque a alternativa que complete corretamente o enunciado anterior.
Alternativas
Q3150717 Libras

Complete o excerto abaixo, extraído da Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, com o termo correspondente.


“Deve ser garantido, por parte do poder público em geral e empresas concessionárias de serviços públicos, formas institucionalizadas de apoiar o uso e difusão da Língua Brasileira de Sinais - Libras como meio de comunicação ________________ e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil”.

Alternativas
Q3150716 Libras
Conforme a Lei 12.319, de 1º de setembro de 2010, “a atividade profissional de tradutor, intérprete e guia-intérprete de Libras – Língua Portuguesa” é realizada em quais tipos de contextos?
Alternativas
Q3150715 Libras
Qual é o ramo da linguística que tem como intuito a identificação da estrutura e da organização dos constituintes fonológicos, propondo descrições e explicações? 
Alternativas
Q3150714 Libras

Alguns aspectos históricos da educação de surdos foram apresentados a seguir. Analise-os, marque a alternativa correspondente:



I - Em 1856, o surdo francês, professor Ernest Huet trouxe para o Brasil o alfabeto manual francês e alguns sinais que combinados aos sinais que os surdos brasileiros utilizavam como sistema próprio resultou-se na Língua de Sinais Brasileira (Libras).


II – O Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) é considerado um centro de referência para o povo surdo, sendo que no passado chegou a funcionar como internato. 


III – A Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (FENEIS) é uma entidade filantrópica, sem fins lucrativos e tem como intuito promover ações políticas e educacionais voltadas para assegurar os direitos linguísticos, culturais, educacionais e sociais das pessoas surdas.

Alternativas
Q3150713 Libras

Analise os enunciados abaixo e marque a alternativa correta.



I - Identidade surda hídrica: politicamente estabelecida.


II - Identidade surda: o surdo nasce ouvinte e com o passar do tempo torna-se surdo.


III - Identidade de transição: os sujeitos não se reconhecem como surdos.


IV - Identidade surda flutuante: identifica o momento de transformação em que os surdos deixam a identidade flutuante e projetam-se na identidade surda.

Alternativas
Q3150712 Libras
Sobre o Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, é falsa a seguinte afirmativa:
Alternativas
Q3150710 Libras
Qual dos classificadores abaixo descreve de forma mais detalhada alguma coisa, descrevendo visualmente, por exemplo, o tamanho?
Alternativas
Respostas
1081: B
1082: E
1083: C
1084: A
1085: B
1086: A
1087: B
1088: A
1089: A
1090: E
1091: C
1092: D
1093: A
1094: C
1095: D
1096: A
1097: A
1098: A
1099: B
1100: C