Questões de Concurso Comentadas para celg/d-go

Foram encontradas 112 questões

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Q683320 Gestão de Pessoas
Em uma situação de trabalho compartilhado por duas ou mais pessoas, há atividades predeterminadas a serem executadas, bem como interações e sentimentos recomendados. A capacidade de compreender os sentimentos e preocupações dos outros e de adotar a perspectiva deles ou de reconhecer as diferenças no modo como as pessoas se sentem em relação a fatos e comportamentos é denominada:
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Q683319 Arquivologia
De acordo com o Artigo 3º da Lei Federal n. 8.159, de 8 de janeiro de 1991, “considera-se gestão de documentos o conjunto de procedimentos e operações técnicas referentes à sua produção, tramitação, uso, avaliação e arquivamento em fase corrente e intermediária, visando a sua eliminação ou recolhimento para guarda permanente”. A operação de transferência, na gestão de documentos, corresponde: 
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Q683318 Administração de Recursos Materiais
Um procedimento relativo à gestão de estoques pode ser caracterizado do seguinte modo:
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Q683317 Marketing
Atualmente, a responsabilidade social corporativa tem ocupado a agenda das organizações não só brasileiras como mundiais. Essa responsabilidade pode ser entendida como:
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Q683316 Ética na Administração Pública
A ética é entendida como um conjunto de princípios básicos que norteiam a conduta do indivíduo, definindo deveres e obrigações relativos ao convívio em sociedade. No contexto profissional, visa a um bom desempenho das atividades profissionais, principalmente no que se refere ao relacionamento com clientes, usuários dos serviços e colegas de trabalho. Fazem parte da ética profissional os seguintes princípios:
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Q683315 Noções de Informática

Considere a figura a seguir.

Imagem associada para resolução da questão


Que tipo de componente usado na manutenção de computadores é apresentado na figura?

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Q683312 Noções de Informática
Considere os lançamentos de impressoras com sistemas originais de tanque de tinta, adotados por alguns fabricantes. Que tipo de suprimento é necessário o usuário adquirir do fabricante para essa impressora?
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Q683310 Noções de Informática
Considere a janela do aplicativo Paint do Windows 8.1 Pro, mostrado na figura a seguir.


Na configuração básica dessa janela, são exibidos:
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Q683309 Noções de Informática
Considere a janela do Explorador de Arquivos do Windows 8.1 Pro, mostrado na figura a seguir.

 
Para expandir a Faixa de Opções nessa janela, é necessário tocar ou clicar no botão Expandir a Faixa de Opções na parte superior direita ou pressionar
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Q683308 Noções de Informática

Uma empresa possui os seguintes números de instalações de produtos:

 

Considerando a lista de produtos apresentada, pode-se diagnosticar que a empresa faz uso de software livre e software proprietário. Dentre os softwares proprietários utilizados pela empresa com maior número de instalações, destacam-se:
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Q683307 Noções de Informática
Leia a matéria publicada no Portal do G1, da Globo.com, para responder às questão


Os balões podem enviar sinais de acesso à internet para o solo a uma velocidade superior à das redes 3G, com destaque para as redes 4G usadas no Brasil, conhecida por
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Q683295 Português

Texto 1

PAISAGENS EM MOVIMENTO

    Ponho todos os cristais ao Sol de sábado, acendo vela para Oxum e de repente pergunto para ninguém: viver é viajar? Sim — é clichê, mas verdadeiro —, viver é viajar. Como pergunto para ninguém, é ninguém que responde? Ou quando se diz ninguém isso será apenas a maneira dissimulada de referir-se a um Alguém talvez com maiúscula? Eu não sei? Resisto à tentação de um texto todo feito inteiro de interrogações: quero falar de viagem.

    Quando vocês estiverem lendo isto aqui, estarei viajando. E estarei bem porque estarei viajando. Vem de longe essa sensação. Não apenas desde a infância, viagens de carro para a fronteira com a Argentina, muitas vezes atolando noite adentro, puxados por carro de boi, ou em trem Maria Fumaça, longuíssima viagem até Porto Alegre, com baldeação em Santa Maria da Boca do Monte. Outro dia, seguindo informações vagas de parentes, remexendo em livros de História, descobri que um de meus antepassados foi Cristóvão Pereira de Abreu, tropeiro solitário que abriu caminho pela primeira vez entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba, imagino que talvez lá pelo século 17 ou 18. Deve estar no sangue, portanto, no DNA. Como afirmam que “quem herda aos seus não rouba”, está tudo certo e é assim que é e assim que sou.

    Pois adoro viajar. Quem sabe porque o transitório que é a vida, em viagem deixa de ser metáfora e passa a ser real? Para mim, nada mais vivo do que ver o povo e paisagem passar e passar além de uma janela em movimento. Talvez trouxe esta mania dos trens (janela de trem é a melhor que existe), carros e ônibus da infância, porque mesmo em avião hoje em dia, só viajo na janela. Quem já viu de cima Paris, o Rio de Janeiro ou a antiga Berlim do muro sabe que vale a pena.

    Topo qualquer negócio por uma viagem. Quando mais jovem, cheguei a fazer mais de uma vez São Paulo-Salvador de ônibus (na altura de Jequié você entende o sentido da palavra exaustão), há três anos naveguei São Luís do Maranhão-Alcântara num barquinho saltitante (na maré baixa, você caminha quilômetros pelo manguezal), e exatamente há um ano atrás, já bastante bombardeado, encarei Paris-Lisboa de ônibus, e logo depois ParisOslo de ônibus também. Não por economia, a diferença de avião é mínima — mas por pura paixão pela janela. Sábia paixão. Não fosse isso, jamais teria comprado aquela fita de Nina Hagen numa lanchonete de beira de estrada nos Países Bascos (tristes e feios) à margem dos Pireneus, ou visto a cidadezinha onde nasceu Ingrid Bergman, num vale belíssimo na fronteira da Suécia com a Noruega.

    Para suportar tais fadigas, é preciso não só gostar de viajar, mas principalmente de ver. Para um verdadeiro apaixonado pelo ver, não há necessidade sequer de fotografar, vídeo então seria ridículo. Quando não se tem a voracidade de registrar o que se vê, vê-se mais e melhor, sem ânsia de guardar, mostrar ou contar o visto. Vê-se solitária e talvez inutilmente, para dentro, secretamente, pois ninguém poderá provar jamais que viu mesmo. Além do mais a memória filtra e enfeita as coisas. Até hoje não sei se aquela Ciudad Rodrigo que vi pela janela do ônibus, envolta em névoas no alto de uma colina no norte da Espanha, seria mesmo real ou metade efeito de um Lexotan dado por meu amigo Gianni Crotti em Lisboa. Cá entre nós, nem preciso saber.

     Mando esta da estrada, ando com o pé que é um leque outra vez. Lembro um velho poema de Manuel Bandeira — «café com pão/café com pão” — recriando a sonoridade dos trens de antigamente. Pois aqui nesta janela, além dela, passa boi, passa boiada, passa cascata, matagal, vilarejo e tudo mais que compõe a paisagem das coisas viventes, embora passe também cemitério e fome. Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar.

ABREU, Caio Fernando. Pequenas epifanias. Porto Alegre: Sulina, 1996. p. 155–157.


Texto 2

       O convite à viagem

                               Charles Baudelaire

Sonha, alma irmã,

A loucura sã

De termos lá nosso leito!

Amar sem correr,

Amar e morrer

No país que é do teu jeito!

O sol desses céus

Cintila entre véus

E tem pra mim o encanto

Do olhar de luz

Que trai e seduz

Brilhando através do pranto.


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 


Móveis ancestrais,

Polidos metais

Emolduram nossa cama;

A mais rara flor

Casa seu odor

Ao leve aroma do âmbar;

Tetos de cetim,

Espelhos sem fim,

Esplendores do Oriente,

Tudo fala então

Rente ao coração

Na doce língua da gente. 


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer.


Vês neste canal

Dormir esta nau

De coração vagabundo?

É para atender

Teu menor querer

Que ela vem do fim do mundo!

Ao entardecer,

O sol ao morrer

Tinge cais, cidade, nave

De ouro e açafrão.

Os dias se vão

Numa luz quente e suave.


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer

Disponível em:<http://nyontime.blogspot.com.br/2005/06/luxo-calma-e-prazer.html>  . Trad. Jorge Pontual. Acesso em: 30 out. 2014. 

Releia o Texto 1 e o Texto 2 para responder à questão


Os conceitos de viagem de Caio Fernando Abreu e de Charles Baudelaire dialogam entre si porque

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Q683294 Português

Texto 2                         

                     O convite à viagem

                                              Charles Baudelaire 

Sonha, alma irmã,

A loucura sã

De termos lá nosso leito!

Amar sem correr,

Amar e morrer

No país que é do teu jeito!

O sol desses céus

Cintila entre véus

E tem pra mim o encanto

Do olhar de luz

Que trai e seduz

Brilhando através do pranto.


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 


Móveis ancestrais,

Polidos metais

Emolduram nossa cama;

A mais rara flor

Casa seu odor

Ao leve aroma do âmbar;

Tetos de cetim,

Espelhos sem fim,

Esplendores do Oriente,

Tudo fala então

Rente ao coração

Na doce língua da gente. 


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 


Vês neste canal

Dormir esta nau

De coração vagabundo?

É para atender

Teu menor querer

Que ela vem do fim do mundo!

Ao entardecer,

O sol ao morrer

Tinge cais, cidade, nave

De ouro e açafrão.

Os dias se vão

Numa luz quente e suave. 


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 

Disponível em: <http://nyontime.blogspot.com.br/2005/06/luxocalma-e-prazer.html>.Trad. Jorge Pontual. Acesso em: 30 out.2014.

O encanto do lugar idealizado pelo poeta
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Q683292 Português

Texto 2                         

                     O convite à viagem

                                              Charles Baudelaire 

Sonha, alma irmã,

A loucura sã

De termos lá nosso leito!

Amar sem correr,

Amar e morrer

No país que é do teu jeito!

O sol desses céus

Cintila entre véus

E tem pra mim o encanto

Do olhar de luz

Que trai e seduz

Brilhando através do pranto.


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 


Móveis ancestrais,

Polidos metais

Emolduram nossa cama;

A mais rara flor

Casa seu odor

Ao leve aroma do âmbar;

Tetos de cetim,

Espelhos sem fim,

Esplendores do Oriente,

Tudo fala então

Rente ao coração

Na doce língua da gente. 


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 


Vês neste canal

Dormir esta nau

De coração vagabundo?

É para atender

Teu menor querer

Que ela vem do fim do mundo!

Ao entardecer,

O sol ao morrer

Tinge cais, cidade, nave

De ouro e açafrão.

Os dias se vão

Numa luz quente e suave. 


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 

Disponível em: <http://nyontime.blogspot.com.br/2005/06/luxocalma-e-prazer.html>.Trad. Jorge Pontual. Acesso em: 30 out.2014.

No Texto 2, o convite à viagem
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Q683291 Português

Texto 2                         

                     O convite à viagem

                                              Charles Baudelaire 

Sonha, alma irmã,

A loucura sã

De termos lá nosso leito!

Amar sem correr,

Amar e morrer

No país que é do teu jeito!

O sol desses céus

Cintila entre véus

E tem pra mim o encanto

Do olhar de luz

Que trai e seduz

Brilhando através do pranto.


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 


Móveis ancestrais,

Polidos metais

Emolduram nossa cama;

A mais rara flor

Casa seu odor

Ao leve aroma do âmbar;

Tetos de cetim,

Espelhos sem fim,

Esplendores do Oriente,

Tudo fala então

Rente ao coração

Na doce língua da gente. 


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 


Vês neste canal

Dormir esta nau

De coração vagabundo?

É para atender

Teu menor querer

Que ela vem do fim do mundo!

Ao entardecer,

O sol ao morrer

Tinge cais, cidade, nave

De ouro e açafrão.

Os dias se vão

Numa luz quente e suave. 


Lá, tudo é ordem, beleza,

Luxo, calma e prazer. 

Disponível em: <http://nyontime.blogspot.com.br/2005/06/luxocalma-e-prazer.html>.Trad. Jorge Pontual. Acesso em: 30 out.2014.

No poema, o país para o qual o eu lírico faz um “convite à viagem”
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Q683290 Português

Texto 1

PAISAGENS EM MOVIMENTO

    Ponho todos os cristais ao Sol de sábado, acendo vela para Oxum e de repente pergunto para ninguém: viver é viajar? Sim — é clichê, mas verdadeiro —, viver é viajar. Como pergunto para ninguém, é ninguém que responde? Ou quando se diz ninguém isso será apenas a maneira dissimulada de referir-se a um Alguém talvez com maiúscula? Eu não sei? Resisto à tentação de um texto todo feito inteiro de interrogações: quero falar de viagem.

     Quando vocês estiverem lendo isto aqui, estarei viajando. E estarei bem porque estarei viajando. Vem de longe essa sensação. Não apenas desde a infância, viagens de carro para a fronteira com a Argentina, muitas vezes atolando noite adentro, puxados por carro de boi, ou em trem Maria Fumaça, longuíssima viagem até Porto Alegre, com baldeação em Santa Maria da Boca do Monte. Outro dia, seguindo informações vagas de parentes, remexendo em livros de História, descobri que um de meus antepassados foi Cristóvão Pereira de Abreu, tropeiro solitário que abriu caminho pela primeira vez entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba, imagino que talvez lá pelo século 17 ou 18. Deve estar no sangue, portanto, no DNA. Como afirmam que “quem herda aos seus não rouba”, está tudo certo e é assim que é e assim que sou.

    Pois adoro viajar. Quem sabe porque o transitório que é a vida, em viagem deixa de ser metáfora e passa a ser real? Para mim, nada mais vivo do que ver o povo e paisagem passar e passar além de uma janela em movimento. Talvez trouxe esta mania dos trens (janela de trem é a melhor que existe), carros e ônibus da infância, porque mesmo em avião hoje em dia, só viajo na janela. Quem já viu de cima Paris, o Rio de Janeiro ou a antiga Berlim do muro sabe que vale a pena.

    Topo qualquer negócio por uma viagem. Quando mais jovem, cheguei a fazer mais de uma vez São Paulo-Salvador de ônibus (na altura de Jequié você entende o sentido da palavra exaustão), há três anos naveguei São Luís do Maranhão-Alcântara num barquinho saltitante (na maré baixa, você caminha quilômetros pelo manguezal), e exatamente há um ano atrás, já bastante bombardeado, encarei Paris-Lisboa de ônibus, e logo depois ParisOslo de ônibus também. Não por economia, a diferença de avião é mínima — mas por pura paixão pela janela. Sábia paixão. Não fosse isso, jamais teria comprado aquela fita de Nina Hagen numa lanchonete de beira de estrada nos Países Bascos (tristes e feios) à margem dos Pireneus, ou visto a cidadezinha onde nasceu Ingrid Bergman, num vale belíssimo na fronteira da Suécia com a Noruega.

    Para suportar tais fadigas, é preciso não só gostar de viajar, mas principalmente de ver. Para um verdadeiro apaixonado pelo ver, não há necessidade sequer de fotografar, vídeo então seria ridículo. Quando não se tem a voracidade de registrar o que se vê, vê-se mais e melhor, sem ânsia de guardar, mostrar ou contar o visto. Vê-se solitária e talvez inutilmente, para dentro, secretamente, pois ninguém poderá provar jamais que viu mesmo. Além do mais a memória filtra e enfeita as coisas. Até hoje não sei se aquela Ciudad Rodrigo que vi pela janela do ônibus, envolta em névoas no alto de uma colina no norte da Espanha, seria mesmo real ou metade efeito de um Lexotan dado por meu amigo Gianni Crotti em Lisboa. Cá entre nós, nem preciso saber.

     Mando esta da estrada, ando com o pé que é um leque outra vez. Lembro um velho poema de Manuel Bandeira — «café com pão/café com pão” — recriando a sonoridade dos trens de antigamente. Pois aqui nesta janela, além dela, passa boi, passa boiada, passa cascata, matagal, vilarejo e tudo mais que compõe a paisagem das coisas viventes, embora passe também cemitério e fome. Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar. 


       ABREU, Caio Fernando. Pequenas epifanias. Porto Alegre: Sulina, 1996. p. 155–157. 

Em “Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam”, o verbo “passar” deixa de indicar
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Q683289 Português

Texto 1

PAISAGENS EM MOVIMENTO

    Ponho todos os cristais ao Sol de sábado, acendo vela para Oxum e de repente pergunto para ninguém: viver é viajar? Sim — é clichê, mas verdadeiro —, viver é viajar. Como pergunto para ninguém, é ninguém que responde? Ou quando se diz ninguém isso será apenas a maneira dissimulada de referir-se a um Alguém talvez com maiúscula? Eu não sei? Resisto à tentação de um texto todo feito inteiro de interrogações: quero falar de viagem.

     Quando vocês estiverem lendo isto aqui, estarei viajando. E estarei bem porque estarei viajando. Vem de longe essa sensação. Não apenas desde a infância, viagens de carro para a fronteira com a Argentina, muitas vezes atolando noite adentro, puxados por carro de boi, ou em trem Maria Fumaça, longuíssima viagem até Porto Alegre, com baldeação em Santa Maria da Boca do Monte. Outro dia, seguindo informações vagas de parentes, remexendo em livros de História, descobri que um de meus antepassados foi Cristóvão Pereira de Abreu, tropeiro solitário que abriu caminho pela primeira vez entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba, imagino que talvez lá pelo século 17 ou 18. Deve estar no sangue, portanto, no DNA. Como afirmam que “quem herda aos seus não rouba”, está tudo certo e é assim que é e assim que sou.

    Pois adoro viajar. Quem sabe porque o transitório que é a vida, em viagem deixa de ser metáfora e passa a ser real? Para mim, nada mais vivo do que ver o povo e paisagem passar e passar além de uma janela em movimento. Talvez trouxe esta mania dos trens (janela de trem é a melhor que existe), carros e ônibus da infância, porque mesmo em avião hoje em dia, só viajo na janela. Quem já viu de cima Paris, o Rio de Janeiro ou a antiga Berlim do muro sabe que vale a pena.

    Topo qualquer negócio por uma viagem. Quando mais jovem, cheguei a fazer mais de uma vez São Paulo-Salvador de ônibus (na altura de Jequié você entende o sentido da palavra exaustão), há três anos naveguei São Luís do Maranhão-Alcântara num barquinho saltitante (na maré baixa, você caminha quilômetros pelo manguezal), e exatamente há um ano atrás, já bastante bombardeado, encarei Paris-Lisboa de ônibus, e logo depois ParisOslo de ônibus também. Não por economia, a diferença de avião é mínima — mas por pura paixão pela janela. Sábia paixão. Não fosse isso, jamais teria comprado aquela fita de Nina Hagen numa lanchonete de beira de estrada nos Países Bascos (tristes e feios) à margem dos Pireneus, ou visto a cidadezinha onde nasceu Ingrid Bergman, num vale belíssimo na fronteira da Suécia com a Noruega.

    Para suportar tais fadigas, é preciso não só gostar de viajar, mas principalmente de ver. Para um verdadeiro apaixonado pelo ver, não há necessidade sequer de fotografar, vídeo então seria ridículo. Quando não se tem a voracidade de registrar o que se vê, vê-se mais e melhor, sem ânsia de guardar, mostrar ou contar o visto. Vê-se solitária e talvez inutilmente, para dentro, secretamente, pois ninguém poderá provar jamais que viu mesmo. Além do mais a memória filtra e enfeita as coisas. Até hoje não sei se aquela Ciudad Rodrigo que vi pela janela do ônibus, envolta em névoas no alto de uma colina no norte da Espanha, seria mesmo real ou metade efeito de um Lexotan dado por meu amigo Gianni Crotti em Lisboa. Cá entre nós, nem preciso saber.

     Mando esta da estrada, ando com o pé que é um leque outra vez. Lembro um velho poema de Manuel Bandeira — «café com pão/café com pão” — recriando a sonoridade dos trens de antigamente. Pois aqui nesta janela, além dela, passa boi, passa boiada, passa cascata, matagal, vilarejo e tudo mais que compõe a paisagem das coisas viventes, embora passe também cemitério e fome. Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar. 


       ABREU, Caio Fernando. Pequenas epifanias. Porto Alegre: Sulina, 1996. p. 155–157. 

O enunciado “o pé que é um leque” faz parte da cultura gaúcha e expressa uma vontade de dançar. A figura de linguagem que sustenta essa imagem é a seguinte:
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Q683288 Português

Texto 1

PAISAGENS EM MOVIMENTO

    Ponho todos os cristais ao Sol de sábado, acendo vela para Oxum e de repente pergunto para ninguém: viver é viajar? Sim — é clichê, mas verdadeiro —, viver é viajar. Como pergunto para ninguém, é ninguém que responde? Ou quando se diz ninguém isso será apenas a maneira dissimulada de referir-se a um Alguém talvez com maiúscula? Eu não sei? Resisto à tentação de um texto todo feito inteiro de interrogações: quero falar de viagem.

     Quando vocês estiverem lendo isto aqui, estarei viajando. E estarei bem porque estarei viajando. Vem de longe essa sensação. Não apenas desde a infância, viagens de carro para a fronteira com a Argentina, muitas vezes atolando noite adentro, puxados por carro de boi, ou em trem Maria Fumaça, longuíssima viagem até Porto Alegre, com baldeação em Santa Maria da Boca do Monte. Outro dia, seguindo informações vagas de parentes, remexendo em livros de História, descobri que um de meus antepassados foi Cristóvão Pereira de Abreu, tropeiro solitário que abriu caminho pela primeira vez entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba, imagino que talvez lá pelo século 17 ou 18. Deve estar no sangue, portanto, no DNA. Como afirmam que “quem herda aos seus não rouba”, está tudo certo e é assim que é e assim que sou.

    Pois adoro viajar. Quem sabe porque o transitório que é a vida, em viagem deixa de ser metáfora e passa a ser real? Para mim, nada mais vivo do que ver o povo e paisagem passar e passar além de uma janela em movimento. Talvez trouxe esta mania dos trens (janela de trem é a melhor que existe), carros e ônibus da infância, porque mesmo em avião hoje em dia, só viajo na janela. Quem já viu de cima Paris, o Rio de Janeiro ou a antiga Berlim do muro sabe que vale a pena.

    Topo qualquer negócio por uma viagem. Quando mais jovem, cheguei a fazer mais de uma vez São Paulo-Salvador de ônibus (na altura de Jequié você entende o sentido da palavra exaustão), há três anos naveguei São Luís do Maranhão-Alcântara num barquinho saltitante (na maré baixa, você caminha quilômetros pelo manguezal), e exatamente há um ano atrás, já bastante bombardeado, encarei Paris-Lisboa de ônibus, e logo depois ParisOslo de ônibus também. Não por economia, a diferença de avião é mínima — mas por pura paixão pela janela. Sábia paixão. Não fosse isso, jamais teria comprado aquela fita de Nina Hagen numa lanchonete de beira de estrada nos Países Bascos (tristes e feios) à margem dos Pireneus, ou visto a cidadezinha onde nasceu Ingrid Bergman, num vale belíssimo na fronteira da Suécia com a Noruega.

    Para suportar tais fadigas, é preciso não só gostar de viajar, mas principalmente de ver. Para um verdadeiro apaixonado pelo ver, não há necessidade sequer de fotografar, vídeo então seria ridículo. Quando não se tem a voracidade de registrar o que se vê, vê-se mais e melhor, sem ânsia de guardar, mostrar ou contar o visto. Vê-se solitária e talvez inutilmente, para dentro, secretamente, pois ninguém poderá provar jamais que viu mesmo. Além do mais a memória filtra e enfeita as coisas. Até hoje não sei se aquela Ciudad Rodrigo que vi pela janela do ônibus, envolta em névoas no alto de uma colina no norte da Espanha, seria mesmo real ou metade efeito de um Lexotan dado por meu amigo Gianni Crotti em Lisboa. Cá entre nós, nem preciso saber.

     Mando esta da estrada, ando com o pé que é um leque outra vez. Lembro um velho poema de Manuel Bandeira — «café com pão/café com pão” — recriando a sonoridade dos trens de antigamente. Pois aqui nesta janela, além dela, passa boi, passa boiada, passa cascata, matagal, vilarejo e tudo mais que compõe a paisagem das coisas viventes, embora passe também cemitério e fome. Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar. 


       ABREU, Caio Fernando. Pequenas epifanias. Porto Alegre: Sulina, 1996. p. 155–157. 

Se comparada com a atual mania de registro e divulgação de imagens de viagem via redes sociais, a opinião do locutor
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Q683287 Português

Texto 1

PAISAGENS EM MOVIMENTO

    Ponho todos os cristais ao Sol de sábado, acendo vela para Oxum e de repente pergunto para ninguém: viver é viajar? Sim — é clichê, mas verdadeiro —, viver é viajar. Como pergunto para ninguém, é ninguém que responde? Ou quando se diz ninguém isso será apenas a maneira dissimulada de referir-se a um Alguém talvez com maiúscula? Eu não sei? Resisto à tentação de um texto todo feito inteiro de interrogações: quero falar de viagem.

     Quando vocês estiverem lendo isto aqui, estarei viajando. E estarei bem porque estarei viajando. Vem de longe essa sensação. Não apenas desde a infância, viagens de carro para a fronteira com a Argentina, muitas vezes atolando noite adentro, puxados por carro de boi, ou em trem Maria Fumaça, longuíssima viagem até Porto Alegre, com baldeação em Santa Maria da Boca do Monte. Outro dia, seguindo informações vagas de parentes, remexendo em livros de História, descobri que um de meus antepassados foi Cristóvão Pereira de Abreu, tropeiro solitário que abriu caminho pela primeira vez entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba, imagino que talvez lá pelo século 17 ou 18. Deve estar no sangue, portanto, no DNA. Como afirmam que “quem herda aos seus não rouba”, está tudo certo e é assim que é e assim que sou.

    Pois adoro viajar. Quem sabe porque o transitório que é a vida, em viagem deixa de ser metáfora e passa a ser real? Para mim, nada mais vivo do que ver o povo e paisagem passar e passar além de uma janela em movimento. Talvez trouxe esta mania dos trens (janela de trem é a melhor que existe), carros e ônibus da infância, porque mesmo em avião hoje em dia, só viajo na janela. Quem já viu de cima Paris, o Rio de Janeiro ou a antiga Berlim do muro sabe que vale a pena.

    Topo qualquer negócio por uma viagem. Quando mais jovem, cheguei a fazer mais de uma vez São Paulo-Salvador de ônibus (na altura de Jequié você entende o sentido da palavra exaustão), há três anos naveguei São Luís do Maranhão-Alcântara num barquinho saltitante (na maré baixa, você caminha quilômetros pelo manguezal), e exatamente há um ano atrás, já bastante bombardeado, encarei Paris-Lisboa de ônibus, e logo depois ParisOslo de ônibus também. Não por economia, a diferença de avião é mínima — mas por pura paixão pela janela. Sábia paixão. Não fosse isso, jamais teria comprado aquela fita de Nina Hagen numa lanchonete de beira de estrada nos Países Bascos (tristes e feios) à margem dos Pireneus, ou visto a cidadezinha onde nasceu Ingrid Bergman, num vale belíssimo na fronteira da Suécia com a Noruega.

    Para suportar tais fadigas, é preciso não só gostar de viajar, mas principalmente de ver. Para um verdadeiro apaixonado pelo ver, não há necessidade sequer de fotografar, vídeo então seria ridículo. Quando não se tem a voracidade de registrar o que se vê, vê-se mais e melhor, sem ânsia de guardar, mostrar ou contar o visto. Vê-se solitária e talvez inutilmente, para dentro, secretamente, pois ninguém poderá provar jamais que viu mesmo. Além do mais a memória filtra e enfeita as coisas. Até hoje não sei se aquela Ciudad Rodrigo que vi pela janela do ônibus, envolta em névoas no alto de uma colina no norte da Espanha, seria mesmo real ou metade efeito de um Lexotan dado por meu amigo Gianni Crotti em Lisboa. Cá entre nós, nem preciso saber.

     Mando esta da estrada, ando com o pé que é um leque outra vez. Lembro um velho poema de Manuel Bandeira — «café com pão/café com pão” — recriando a sonoridade dos trens de antigamente. Pois aqui nesta janela, além dela, passa boi, passa boiada, passa cascata, matagal, vilarejo e tudo mais que compõe a paisagem das coisas viventes, embora passe também cemitério e fome. Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar. 


       ABREU, Caio Fernando. Pequenas epifanias. Porto Alegre: Sulina, 1996. p. 155–157. 

A metáfora presente em “o transitório que é a vida” pode ser explicada pelo seguinte trecho:
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Q683286 Português

Texto 1

PAISAGENS EM MOVIMENTO

    Ponho todos os cristais ao Sol de sábado, acendo vela para Oxum e de repente pergunto para ninguém: viver é viajar? Sim — é clichê, mas verdadeiro —, viver é viajar. Como pergunto para ninguém, é ninguém que responde? Ou quando se diz ninguém isso será apenas a maneira dissimulada de referir-se a um Alguém talvez com maiúscula? Eu não sei? Resisto à tentação de um texto todo feito inteiro de interrogações: quero falar de viagem.

     Quando vocês estiverem lendo isto aqui, estarei viajando. E estarei bem porque estarei viajando. Vem de longe essa sensação. Não apenas desde a infância, viagens de carro para a fronteira com a Argentina, muitas vezes atolando noite adentro, puxados por carro de boi, ou em trem Maria Fumaça, longuíssima viagem até Porto Alegre, com baldeação em Santa Maria da Boca do Monte. Outro dia, seguindo informações vagas de parentes, remexendo em livros de História, descobri que um de meus antepassados foi Cristóvão Pereira de Abreu, tropeiro solitário que abriu caminho pela primeira vez entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba, imagino que talvez lá pelo século 17 ou 18. Deve estar no sangue, portanto, no DNA. Como afirmam que “quem herda aos seus não rouba”, está tudo certo e é assim que é e assim que sou.

    Pois adoro viajar. Quem sabe porque o transitório que é a vida, em viagem deixa de ser metáfora e passa a ser real? Para mim, nada mais vivo do que ver o povo e paisagem passar e passar além de uma janela em movimento. Talvez trouxe esta mania dos trens (janela de trem é a melhor que existe), carros e ônibus da infância, porque mesmo em avião hoje em dia, só viajo na janela. Quem já viu de cima Paris, o Rio de Janeiro ou a antiga Berlim do muro sabe que vale a pena.

    Topo qualquer negócio por uma viagem. Quando mais jovem, cheguei a fazer mais de uma vez São Paulo-Salvador de ônibus (na altura de Jequié você entende o sentido da palavra exaustão), há três anos naveguei São Luís do Maranhão-Alcântara num barquinho saltitante (na maré baixa, você caminha quilômetros pelo manguezal), e exatamente há um ano atrás, já bastante bombardeado, encarei Paris-Lisboa de ônibus, e logo depois ParisOslo de ônibus também. Não por economia, a diferença de avião é mínima — mas por pura paixão pela janela. Sábia paixão. Não fosse isso, jamais teria comprado aquela fita de Nina Hagen numa lanchonete de beira de estrada nos Países Bascos (tristes e feios) à margem dos Pireneus, ou visto a cidadezinha onde nasceu Ingrid Bergman, num vale belíssimo na fronteira da Suécia com a Noruega.

    Para suportar tais fadigas, é preciso não só gostar de viajar, mas principalmente de ver. Para um verdadeiro apaixonado pelo ver, não há necessidade sequer de fotografar, vídeo então seria ridículo. Quando não se tem a voracidade de registrar o que se vê, vê-se mais e melhor, sem ânsia de guardar, mostrar ou contar o visto. Vê-se solitária e talvez inutilmente, para dentro, secretamente, pois ninguém poderá provar jamais que viu mesmo. Além do mais a memória filtra e enfeita as coisas. Até hoje não sei se aquela Ciudad Rodrigo que vi pela janela do ônibus, envolta em névoas no alto de uma colina no norte da Espanha, seria mesmo real ou metade efeito de um Lexotan dado por meu amigo Gianni Crotti em Lisboa. Cá entre nós, nem preciso saber.

     Mando esta da estrada, ando com o pé que é um leque outra vez. Lembro um velho poema de Manuel Bandeira — «café com pão/café com pão” — recriando a sonoridade dos trens de antigamente. Pois aqui nesta janela, além dela, passa boi, passa boiada, passa cascata, matagal, vilarejo e tudo mais que compõe a paisagem das coisas viventes, embora passe também cemitério e fome. Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar. 


       ABREU, Caio Fernando. Pequenas epifanias. Porto Alegre: Sulina, 1996. p. 155–157. 

O uso do provérbio “quem herda aos seus não rouba” é uma estratégia argumentativa do autor para
Alternativas
Respostas
61: E
62: E
63: B
64: E
65: B
66: C
67: B
68: D
69: A
70: A
71: E
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80: B