Questões de Concurso
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Texto V
O Sertanejo
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o
raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do
litoral.
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de
5 vista revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável,
o desempeno, a estrutura corretíssima das organiza-
ções atléticas.
Entretanto, toda esta aparência de cansaço
ilude.
10 Nada é mais surpreendente do que vê-la desa-
parecer de improviso. Naquela organização combalida
operam-se, em segundos, transmutações completas.
Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe
o desencadear das energias adormidas. O homem
15 transfigura-se. Empertiga-se; e corrigem-se-lhe,
prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os
efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura
vulgar do tabaréu canhestro, reponta inesperadamente
o aspecto dominador de um titã acobreado e potente,
20 num desdobramento surpreendente de força e
agilidade extraordinárias.
CUNHA, Euclides da. Os sertões; Campanha de Canudos. Edição,
prefácio, cronologia, notas e índices de Leopoldo M. Bernucci.
São Paulo: Ateliê Editorial, 2001, p. 207-208.
No período “Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas.” (. 11-12), o verbo da oração está na voz
Texto IV
CAPÍTULO PRIMEIRO
Rubião fitava a enseada — eram oito horas da
manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no
cordão do chambre, à janela de uma grande casa de
Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de
5 água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava
em outra coisa. Cotejava o passado com o presente.
Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capita-
lista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de
Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para
10 a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e
para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo
entra na mesma sensação de propriedade.
“Vejam como Deus escreve direito por linhas
tortas”, pensa ele. “Se mana Piedade tem casado com
15 Quincas Borba, apenas me daria uma esperança
colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo
comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...”
CAPÍTULO II
Que abismo que há entre o espírito e o coração!
20 O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento,
arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa
que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a
bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o
canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham,
25 arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez
que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não
casasse; podia vir um filho ou uma filha... — Bonita
canoa! — Antes assim! — Como obedece bem aos
remos do homem! — O certo é que eles estão no Céu!
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, v. 1, p. 761-762.
A forma verbal do fragmento apresenta ideia de hipótese ou possibilidade em
Texto IV
CAPÍTULO PRIMEIRO
Rubião fitava a enseada — eram oito horas da
manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no
cordão do chambre, à janela de uma grande casa de
Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de
5 água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava
em outra coisa. Cotejava o passado com o presente.
Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capita-
lista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de
Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para
10 a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e
para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo
entra na mesma sensação de propriedade.
“Vejam como Deus escreve direito por linhas
tortas”, pensa ele. “Se mana Piedade tem casado com
15 Quincas Borba, apenas me daria uma esperança
colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo
comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...”
CAPÍTULO II
Que abismo que há entre o espírito e o coração!
20 O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento,
arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa
que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a
bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o
canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham,
25 arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez
que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não
casasse; podia vir um filho ou uma filha... — Bonita
canoa! — Antes assim! — Como obedece bem aos
remos do homem! — O certo é que eles estão no Céu!
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, v. 1, p. 761-762.
Nas frases “Que era, há um ano?” (. 7) e “Que abismo que há entre o espírito e o coração!” (. 19), justifica-se, respectivamente, o emprego do verbo haver para
Texto IV
CAPÍTULO PRIMEIRO
Rubião fitava a enseada — eram oito horas da
manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no
cordão do chambre, à janela de uma grande casa de
Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de
5 água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava
em outra coisa. Cotejava o passado com o presente.
Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capita-
lista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de
Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para
10 a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e
para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo
entra na mesma sensação de propriedade.
“Vejam como Deus escreve direito por linhas
tortas”, pensa ele. “Se mana Piedade tem casado com
15 Quincas Borba, apenas me daria uma esperança
colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo
comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...”
CAPÍTULO II
Que abismo que há entre o espírito e o coração!
20 O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento,
arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa
que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a
bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o
canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham,
25 arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez
que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não
casasse; podia vir um filho ou uma filha... — Bonita
canoa! — Antes assim! — Como obedece bem aos
remos do homem! — O certo é que eles estão no Céu!
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, v. 1, p. 761-762.
Faz parte do estilo machadiano a evocação direta do leitor/interlocutor. Essa estratégia está empregada no seguinte fragmento:
Texto IV
CAPÍTULO PRIMEIRO
Rubião fitava a enseada — eram oito horas da
manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no
cordão do chambre, à janela de uma grande casa de
Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de
5 água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava
em outra coisa. Cotejava o passado com o presente.
Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capita-
lista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de
Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para
10 a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e
para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo
entra na mesma sensação de propriedade.
“Vejam como Deus escreve direito por linhas
tortas”, pensa ele. “Se mana Piedade tem casado com
15 Quincas Borba, apenas me daria uma esperança
colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo
comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...”
CAPÍTULO II
Que abismo que há entre o espírito e o coração!
20 O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento,
arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa
que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a
bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o
canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham,
25 arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez
que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não
casasse; podia vir um filho ou uma filha... — Bonita
canoa! — Antes assim! — Como obedece bem aos
remos do homem! — O certo é que eles estão no Céu!
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, v. 1, p. 761-762.
Na frase “Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha)” (. 9), as vírgulas foram empregadas, respectivamente, para separar termos de
Texto IV
CAPÍTULO PRIMEIRO
Rubião fitava a enseada — eram oito horas da
manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no
cordão do chambre, à janela de uma grande casa de
Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de
5 água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava
em outra coisa. Cotejava o passado com o presente.
Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capita-
lista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de
Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para
10 a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e
para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo
entra na mesma sensação de propriedade.
“Vejam como Deus escreve direito por linhas
tortas”, pensa ele. “Se mana Piedade tem casado com
15 Quincas Borba, apenas me daria uma esperança
colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo
comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...”
CAPÍTULO II
Que abismo que há entre o espírito e o coração!
20 O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento,
arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa
que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a
bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o
canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham,
25 arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez
que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não
casasse; podia vir um filho ou uma filha... — Bonita
canoa! — Antes assim! — Como obedece bem aos
remos do homem! — O certo é que eles estão no Céu!
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, v. 1, p. 761-762.
No fragmento “Ele, coração, vai dizendo que, uma vez que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não casasse; podia vir um filho ou uma filha...” (. 25-27), o emprego das reticências indica a
Texto IV
CAPÍTULO PRIMEIRO
Rubião fitava a enseada — eram oito horas da
manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no
cordão do chambre, à janela de uma grande casa de
Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de
5 água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava
em outra coisa. Cotejava o passado com o presente.
Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capita-
lista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de
Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para
10 a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e
para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo
entra na mesma sensação de propriedade.
“Vejam como Deus escreve direito por linhas
tortas”, pensa ele. “Se mana Piedade tem casado com
15 Quincas Borba, apenas me daria uma esperança
colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo
comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...”
CAPÍTULO II
Que abismo que há entre o espírito e o coração!
20 O espírito do ex-professor, vexado daquele pensamento,
arrepiou caminho, buscou outro assunto, uma canoa
que ia passando; o coração, porém, deixou-se estar a
bater de alegria. Que lhe importa a canoa nem o
canoeiro, que os olhos de Rubião acompanham,
25 arregalados? Ele, coração, vai dizendo que, uma vez
que a mana Piedade tinha de morrer, foi bom que não
casasse; podia vir um filho ou uma filha... — Bonita
canoa! — Antes assim! — Como obedece bem aos
remos do homem! — O certo é que eles estão no Céu!
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, v. 1, p. 761-762.
No Capítulo II, o narrador declara o abismo que há entre o espírito e o coração, no qual se encontram os valores morais e os sentimentos. Atribui-se ao espírito a seguinte declaração:
Texto III
Poesia Pau-Brasília: Receita
Ingredientes
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 5 sonhos eróticos
2 canções dos Beatles
Modo de preparar
Dissolva os sonhos eróticos
Nos dois litros de sangue fervido
10 E deixe gelar seu coração.
Leve a mistura ao fogo
Adicionando dois conflitos de geração
Às esperanças perdidas
Corte tudo em pedacinhos
15 E repita com a canção dos Beatles
O mesmo processo usado com os sonhos eróticos
Mas dessa vez deixe ferver um pouco mais
E mexa até dissolver
Parte do sangue pode ser substituída
20 Por suco de groselha
Mas os resultados não serão os mesmos.
Sirva o poema simples
Ou com ilusões
BEHR, Nicolas, 7 fev. 2008. Disponível em: alldementedforever /
http://www.nicolas-behr.com.br (Acessado em abr. de 2009).
O processo de coesão textual pode realizar-se por meio de anáfora, quando se retomam termos e significados anteriormente expressos. Em qual das passagens abaixo NÃO se verifica a ocorrência de vocábulo em função anafórica?
Texto III
Poesia Pau-Brasília: Receita
Ingredientes
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 5 sonhos eróticos
2 canções dos Beatles
Modo de preparar
Dissolva os sonhos eróticos
Nos dois litros de sangue fervido
10 E deixe gelar seu coração.
Leve a mistura ao fogo
Adicionando dois conflitos de geração
Às esperanças perdidas
Corte tudo em pedacinhos
15 E repita com a canção dos Beatles
O mesmo processo usado com os sonhos eróticos
Mas dessa vez deixe ferver um pouco mais
E mexa até dissolver
Parte do sangue pode ser substituída
20 Por suco de groselha
Mas os resultados não serão os mesmos.
Sirva o poema simples
Ou com ilusões
BEHR, Nicolas, 7 fev. 2008. Disponível em: alldementedforever /
http://www.nicolas-behr.com.br (Acessado em abr. de 2009).
Na segunda parte da receita, os ingredientes mencionados na primeira estão precedidos de artigos definidos porque
Texto II
Grande sertão: veredas
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de
Antônio Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado
de posses – Davidão era o nome dele. Vai, um dia,
coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão
5 pegou a ter medo de morrer. Safado, pensou, propôs
este trato a um outro, pobre dos mais pobres, chamado
Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas,
em lei de caborje – invisível no sobrenatural – chegasse
primeiro o destino de Davidão morrer em combate,
10 então era o Faustino quem morria, em vez dele.
E o Faustino aceitou, recebeu, fechou. Parece que,
com efeito, no poder de feitiço ele muito não acreditava.
Então, pelo seguinte, deram um grande fogo, contra os
soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em
15 São Francisco. Combate quando findou, todos os
dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A de ver?
Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia.
Ah, e assim e assim foram, durante os meses, escapos,
alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não
20 saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e
veja: isto mesmo narrei a um rapaz de cidade grande,
muito inteligente, vindo com outros num caminhão,
para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse?
Que era assunto de valor, para se compor uma estória
25 em livro. Mas que precisava de um final sustante,
caprichado. O final que ele daí imaginou foi um: que,
um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria
revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão
não aceitava, não queria, por forma nenhuma.
30 Do discutir, ferveram nisso, ferraram numa luta
corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia,
os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso,
por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do
Faustino, que falecia...
35 Apreciei demais essa continuação inventada.
A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta
instrução não concebe! No real da vida as coisas
acabam com menos formato, nem acabam. Melhor
assim. Pelejar, por exato, dá erro contra a gente. Não
40 se queira. Viver é muito perigoso...
GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Edição comemorativa dos 50 anos de publicação da obra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 75-76. (Fragmento)
No trecho “O final que ele daí imaginou foi um: que, um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria revogar o ajuste!” (A. 26-28), a palavra que desempenha nas orações, respectivamente, quanto à sintaxe, os valores de
Texto II
Grande sertão: veredas
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de
Antônio Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado
de posses – Davidão era o nome dele. Vai, um dia,
coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão
5 pegou a ter medo de morrer. Safado, pensou, propôs
este trato a um outro, pobre dos mais pobres, chamado
Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas,
em lei de caborje – invisível no sobrenatural – chegasse
primeiro o destino de Davidão morrer em combate,
10 então era o Faustino quem morria, em vez dele.
E o Faustino aceitou, recebeu, fechou. Parece que,
com efeito, no poder de feitiço ele muito não acreditava.
Então, pelo seguinte, deram um grande fogo, contra os
soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em
15 São Francisco. Combate quando findou, todos os
dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A de ver?
Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia.
Ah, e assim e assim foram, durante os meses, escapos,
alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não
20 saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e
veja: isto mesmo narrei a um rapaz de cidade grande,
muito inteligente, vindo com outros num caminhão,
para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse?
Que era assunto de valor, para se compor uma estória
25 em livro. Mas que precisava de um final sustante,
caprichado. O final que ele daí imaginou foi um: que,
um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria
revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão
não aceitava, não queria, por forma nenhuma.
30 Do discutir, ferveram nisso, ferraram numa luta
corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia,
os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso,
por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do
Faustino, que falecia...
35 Apreciei demais essa continuação inventada.
A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta
instrução não concebe! No real da vida as coisas
acabam com menos formato, nem acabam. Melhor
assim. Pelejar, por exato, dá erro contra a gente. Não
40 se queira. Viver é muito perigoso...
GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Edição comemorativa dos 50 anos de publicação da obra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 75-76. (Fragmento)
Na frase “Mas, no confuso, por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do Faustino, que falecia...” (. 32-34), ocorre a substantivação do adjetivo “confuso”. O efeito expressivo decorrente do emprego desse termo
Texto II
Grande sertão: veredas
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de
Antônio Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado
de posses – Davidão era o nome dele. Vai, um dia,
coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão
5 pegou a ter medo de morrer. Safado, pensou, propôs
este trato a um outro, pobre dos mais pobres, chamado
Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas,
em lei de caborje – invisível no sobrenatural – chegasse
primeiro o destino de Davidão morrer em combate,
10 então era o Faustino quem morria, em vez dele.
E o Faustino aceitou, recebeu, fechou. Parece que,
com efeito, no poder de feitiço ele muito não acreditava.
Então, pelo seguinte, deram um grande fogo, contra os
soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em
15 São Francisco. Combate quando findou, todos os
dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A de ver?
Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia.
Ah, e assim e assim foram, durante os meses, escapos,
alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não
20 saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e
veja: isto mesmo narrei a um rapaz de cidade grande,
muito inteligente, vindo com outros num caminhão,
para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse?
Que era assunto de valor, para se compor uma estória
25 em livro. Mas que precisava de um final sustante,
caprichado. O final que ele daí imaginou foi um: que,
um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria
revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão
não aceitava, não queria, por forma nenhuma.
30 Do discutir, ferveram nisso, ferraram numa luta
corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia,
os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso,
por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do
Faustino, que falecia...
35 Apreciei demais essa continuação inventada.
A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta
instrução não concebe! No real da vida as coisas
acabam com menos formato, nem acabam. Melhor
assim. Pelejar, por exato, dá erro contra a gente. Não
40 se queira. Viver é muito perigoso...
GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Edição comemorativa dos 50 anos de publicação da obra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 75-76. (Fragmento)
Guimarães Rosa compõe seus textos literários com histórias colhidas no sertão mineiro, mantidas fiéis aos traços da linguagem em que essas narrativas são divulgadas.
Em: “alteração nenhuma não havendo;” ( 19) e “Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia.” (17), há duas negativas antes do verbo. Essa dupla negativa pré-verbal é marca de variação linguística própria da(o)
Texto II
Grande sertão: veredas
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de
Antônio Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado
de posses – Davidão era o nome dele. Vai, um dia,
coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão
5 pegou a ter medo de morrer. Safado, pensou, propôs
este trato a um outro, pobre dos mais pobres, chamado
Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas,
em lei de caborje – invisível no sobrenatural – chegasse
primeiro o destino de Davidão morrer em combate,
10 então era o Faustino quem morria, em vez dele.
E o Faustino aceitou, recebeu, fechou. Parece que,
com efeito, no poder de feitiço ele muito não acreditava.
Então, pelo seguinte, deram um grande fogo, contra os
soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em
15 São Francisco. Combate quando findou, todos os
dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A de ver?
Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia.
Ah, e assim e assim foram, durante os meses, escapos,
alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não
20 saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e
veja: isto mesmo narrei a um rapaz de cidade grande,
muito inteligente, vindo com outros num caminhão,
para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse?
Que era assunto de valor, para se compor uma estória
25 em livro. Mas que precisava de um final sustante,
caprichado. O final que ele daí imaginou foi um: que,
um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria
revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão
não aceitava, não queria, por forma nenhuma.
30 Do discutir, ferveram nisso, ferraram numa luta
corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia,
os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso,
por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do
Faustino, que falecia...
35 Apreciei demais essa continuação inventada.
A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta
instrução não concebe! No real da vida as coisas
acabam com menos formato, nem acabam. Melhor
assim. Pelejar, por exato, dá erro contra a gente. Não
40 se queira. Viver é muito perigoso...
GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Edição comemorativa dos 50 anos de publicação da obra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 75-76. (Fragmento)
A análise do texto, que narra um trato entre jagunços rudes do sertão, conduz à inequívoca conclusão de que a(o)
Texto II
Grande sertão: veredas
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de
Antônio Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado
de posses – Davidão era o nome dele. Vai, um dia,
coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão
5 pegou a ter medo de morrer. Safado, pensou, propôs
este trato a um outro, pobre dos mais pobres, chamado
Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas,
em lei de caborje – invisível no sobrenatural – chegasse
primeiro o destino de Davidão morrer em combate,
10 então era o Faustino quem morria, em vez dele.
E o Faustino aceitou, recebeu, fechou. Parece que,
com efeito, no poder de feitiço ele muito não acreditava.
Então, pelo seguinte, deram um grande fogo, contra os
soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em
15 São Francisco. Combate quando findou, todos os
dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A de ver?
Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia.
Ah, e assim e assim foram, durante os meses, escapos,
alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não
20 saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e
veja: isto mesmo narrei a um rapaz de cidade grande,
muito inteligente, vindo com outros num caminhão,
para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse?
Que era assunto de valor, para se compor uma estória
25 em livro. Mas que precisava de um final sustante,
caprichado. O final que ele daí imaginou foi um: que,
um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria
revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão
não aceitava, não queria, por forma nenhuma.
30 Do discutir, ferveram nisso, ferraram numa luta
corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia,
os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso,
por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do
Faustino, que falecia...
35 Apreciei demais essa continuação inventada.
A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta
instrução não concebe! No real da vida as coisas
acabam com menos formato, nem acabam. Melhor
assim. Pelejar, por exato, dá erro contra a gente. Não
40 se queira. Viver é muito perigoso...
GUIMARÃES ROSA, João. Grande sertão: veredas. Edição comemorativa dos 50 anos de publicação da obra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 75-76. (Fragmento)
Guimarães Rosa costumava construir seus textos com personagens reais, como é o caso de Antônio Dó, e com histórias ouvidas no sertão mineiro, em que realidade e ficção se confundem.
O fragmento de Grande sertão: veredas, ora transcrito, é um exemplo disso, pois, na história dos jagunços, o narrador-personagem toma por base
Texto I
Lisboa: aventuras
Tomei um expresso
cheguei de foguete
subi num bonde
desci de um elétrico
5 pedi cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar meias
só vendiam peúgas
fui dar descarga
10disparei um autoclismo
gritei “ó cara!”
responderam-me “ó pá!”
positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
PAES, José Paulo. Lisboa: aventuras. A poesia está morta, mas
juro que não fui eu. São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 40.
Assinale a opção em que todas as palavras contêm dígrafos.
Texto I
Lisboa: aventuras
Tomei um expresso
cheguei de foguete
subi num bonde
desci de um elétrico
5 pedi cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar meias
só vendiam peúgas
fui dar descarga
10disparei um autoclismo
gritei “ó cara!”
responderam-me “ó pá!”
positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
PAES, José Paulo. Lisboa: aventuras. A poesia está morta, mas
juro que não fui eu. São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 40.
Entre os versos
“fui dar descarga
disparei um autoclismo”, (v. 9-10)
está implícita a noção de
Texto I
Lisboa: aventuras
Tomei um expresso
cheguei de foguete
subi num bonde
desci de um elétrico
5 pedi cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar meias
só vendiam peúgas
fui dar descarga
10disparei um autoclismo
gritei “ó cara!”
responderam-me “ó pá!”
positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
PAES, José Paulo. Lisboa: aventuras. A poesia está morta, mas
juro que não fui eu. São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 40.
Os infinitivos das formas verbais presentes nos versos
“subi num bonde
desci de um elétrico” (v. 3-4)
Texto I
Lisboa: aventuras
Tomei um expresso
cheguei de foguete
subi num bonde
desci de um elétrico
5 pedi cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar meias
só vendiam peúgas
fui dar descarga
10disparei um autoclismo
gritei “ó cara!”
responderam-me “ó pá!”
positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
PAES, José Paulo. Lisboa: aventuras. A poesia está morta, mas
juro que não fui eu. São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 40.
Diz-se que há intertextualidade quando um texto interfere ou se faz presente em outro. É o que acontece no último verso do poema “Lisboa: aventuras”, em que o autor incorpora um trecho da “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. No poema de José Paulo Paes,
Texto I
Lisboa: aventuras
Tomei um expresso
cheguei de foguete
subi num bonde
desci de um elétrico
5 pedi cafezinho
serviram-me uma bica
quis comprar meias
só vendiam peúgas
fui dar descarga
10disparei um autoclismo
gritei “ó cara!”
responderam-me “ó pá!”
positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
PAES, José Paulo. Lisboa: aventuras. A poesia está morta, mas
juro que não fui eu. São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 40.
O poema de José Paulo Paes apresenta diferenças linguísticas entre o Português
Dentre as atividades motoras abaixo, aquela que caracteriza a combinação de movimentos fundamentais é