Para responder à pergunta, leia a reportagem de
João Jonas Veiga Sobral (professor de Língua Portuguesa e
orientador educacional) intitulada "A ansiedade é medo e
desejo" para a Revista Educação (disponível em <
https://www.revistaeducacao.com.br/coluna-ansiedade/>).
Nelson Rodrigues, com o humor ácido que lhe era
próprio, afirmou: “O ser humano é o único que se falsifica.
Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de
preservar, até a morte, o seu nobilíssimo rugido. E assim o
sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi
um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano
pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo
tempo, falsifica o mundo”.
Para o bem e para o mal, o ser humano é condenado
a fazer escolhas, seguir e abandonar caminhos e ideias,
acender velas para Deus e para o Diabo, inventar a si e ao
próprio mundo. O ser e o estar exigem de cada um de nós
assumir um ponto de vista, uma condição social, uma
identidade, uma margem do rio. Não se consegue o tempo
todo viver na neutralidade ou na isenção absolutas. Não se
interage com os outros sem que a afetação mútua não se dê
como fato e como interpretação.
Fazemos escolhas que nos representam e nos
reafirmam, mas também fazemos escolhas fraudulentas –
autoenganosas, em busca de alguma vantagem ou de um
menor prejuízo. Falsificamo-nos também e o mundo com a
dissimulação, ora hipócrita ora necessária. E também
falsificamos o mundo com a pintura, com a música, com a
literatura, com a expressão artística em geral, com a
linguagem, com a figuração.
Em nossa condenação capital, humana e diária de
falsificar ou reinventar o mundo com as escolhas que
fazemos, somos também sentenciados a recorrer ao léxico
e fazer nele as escolhas que reflitam, escondam, sugiram,
reafirmem nossas intencionalidades.
“Tenha um bom dia, cavalheiro.” Em uma simples
frase como essa, a depender do que ocorreu antes entre os
interlocutores, não se pode dizer que o desejo expresso de
“bom dia” seja a verdadeira intenção do enunciador. Em O
segredo do Bonzo, Machado de Assis vaticina: “… se uma
cousa pode existir na opinião, sem existir na realidade, e
existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que
das duas existências paralelas a única necessária é a da
opinião, não da realidade, que é apenas conveniente”. A
ironia, figura de linguagem predominante nos textos de
Machado, é fundamental nesse jogo de ser e parecer, uma
vez que ela mesma é um recurso linguístico que contribui
para que aquilo que se enuncia seja uma falsificação – já
que desdiz o dito, afirma o contrário do que se afirma.
Quando escolhemos uma determinada palavra para
expressar o que pensamos, podemos fazer um recorte de
seu sentido, conforme nosso gosto e intenção. O dicionário
Michaelis assim define a palavra ansiedade: “1 Sofrimento
físico e psíquico; aflição, agonia, angústia, ânsia, nervosismo. 2 Estado emocional frente a um futuro incerto e
perigoso no qual um indivíduo se sente impotente e indefeso.
3 Desejo ardente ou veemente; anelo. 4 Sentimento e
sensação de intranquilidade, medo ou receio”.
O filósofo e pensador cristão Sören Kierkegaard
propõe que ansiedade é um desejo daquilo que tememos,
um temor daquilo que desejamos. É um poder estranho que
agarra o indivíduo sem que ele possa desvencilhar-se dele,
nem queira desvencilhar-se, pois tem medo disso. Mas esse
medo é também um desejo.
Evidentemente que outros já se debruçaram sobre o
tema e sobre a palavra, e óbvio que há outras acepções e
sinônimos para ela. O recorte feito por mim ilustra a tese que
defendo, ou seja, podemos escolher as palavras e suas
acepções para apresentar em uma enunciação uma
mensagem, uma ideia, mas também serve para que se
falseie o que se deseja apresentar também.
Quando se elege entre os sinônimos disponíveis para
ansiedade os sentidos de “aflição, amargura, medo,
nervosismo, consternação”, busca-se, possivelmente,
apresentar o caráter negativo desse termo. Em
contrapartida, na escolha das acepções “rapidez,
voracidade, precaução, prevenção”, pode-se desejar atribuir
à ansiedade um valor positivo.
Nem sempre, nas delicadas relações humanas,
podemos ser transparentes nas enunciações e revelar nossa
cara lavada, como sugere Caeiro, heterônimo de Fernando
Pessoa: “E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos /
desencaixotar as minhas emoções verdadeiras /
Desembrulhar-me e ser eu”.
Neste mundo cheio de intenções e gestos, somos
condenados, como dizia o Nelson, a falsear a si e ao mundo.
E a palavra é a nossa máscara.