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Q2370430 Arquivologia
O princípio arquivístico segundo o qual os arquivos (conjuntos documentais) originários de uma instituição ou de uma pessoa devem ter mantida sua individualidade, ou seja, não devem ser misturados aos de origem diversa é: 
Alternativas
Q2370429 Arquivologia
Diante da crescente demanda de digitalização de documentos em suporte papel, a Administração Pública tem investido nessa atividade. Para que um projeto de digitalização de determinado conjunto documental seja bem-sucedido, é, antes de tudo, necessário:
Alternativas
Q2370428 Arquivologia
De acordo com a Lei nº 8.159/1991, os documentos públicos são identificados, no que diz respeito às fases de seu ciclo vital, em:
Alternativas
Q2370427 Arquivologia
De acordo com a Lei nº 12.527, de 2011, conhecida como Lei de Acesso à Informação, a publicidade deve ser observada como preceito geral e o sigilo, como exceção. No entanto, o Decreto nº 7.724, de 2012, apresenta a condução que deve ser adotada pela Administração Pública quando o pedido de informação pelo cidadão exigir trabalhos adicionais de análise, interpretação ou consolidação de dados e informações, serviço de produção ou tratamento de dados que não sejam de competência do órgão ou entidade. A orientação legal é:
Alternativas
Q2370426 Arquivologia
No que diz respeito à eliminação de documentos de arquivo produzidos e custodiados por instituições públicas, considere as afirmativas abaixo.

I- A eliminação de documentos produzidos por instituições públicas e de caráter público será realizada mediante autorização da instituição arquivística pública, na sua específica esfera de competência.
II- Para serem eliminados, os documentos de arquivo devem estar apenas descritos.
III- Os documentos de valor permanente são inalienáveis e imprescritíveis.
IV- Os documentos de arquivo passíveis de serem eliminados são aqueles que nunca possuíram valor primário (probatório).
V- O procedimento mais adequado para a eliminação de documentos de arquivo públicos é a incineração.

É CORRETO o que se afirma apenas em: 
Alternativas
Q2370425 Arquivologia
No momento do tratamento documental arquivístico, a função da Classificação Arquivística é a responsável por permitir ao profissional de arquivo a representação do contexto de produção e a organização dos documentos a partir da adoção de um método de classificação específico. Ao se atribuir um código de classificação aos documentos, há a criação de séries documentais. Desse modo, o que seriam as séries documentais? 
Alternativas
Q2370424 Arquivologia
Considera-se gestão de documentos o conjunto de procedimentos e operações técnicas referentes à sua produção, tramitação, uso, avaliação e arquivamento em fase corrente e intermediária, visando à sua eliminação ou recolhimento para guarda permanente. Como consequência da implementação de um programa de Gestão de Documentos, temos alguns benefícios, EXCETO: 
Alternativas
Q2370423 Arquivologia
A adoção de uma rotina de protocolo é fundamental para: 
Alternativas
Q2370422 Arquivologia
São atividades típicas de uma unidade de protocolo e de uma unidade protocolizadora, EXCETO:
Alternativas
Q2370421 Arquivologia
Arquivamento é a sequência de operações intelectuais e físicas que visam à guarda ordenada de documentos, seja em ambiente analógico, seja digital. Para seu sucesso, devem ser adotados sistemas e métodos de arquivamento adequados, que levem em consideração o produtor, o conjunto documental e o suporte dos documentos. Diante desse cenário, qual o maior risco da realização de um arquivamento INCORRETO?
Alternativas
Q2339235 Conhecimentos Gerais
Observe a imagem abaixo sobre atividades agropecuárias e em seguida leia o texto sobre este tema.


Imagem associada para resolução da questão


(Disponível em: https://www.google.com/search?C3%B3cio+no+brasil&sca_esv=572573644&hl=pt-BR&tbm=isch&sxsrf. Acesso em: 11/10/2023).

A imagem apresenta algumas atividades e produtos da agropecuária. Este setor econômico tem grande importância para a economia brasileira, sobretudo nas exportações. Ele envolve um conjunto de atividades econômicas relacionadas com a produção agropecuária, com a comercialização dos produtos, atuação de grandes empresas, fornecimento de sementes, de produtos químicos e máquinas avançadas, dentre outros.

Assinale a alternativa que indica a denominação do setor da economia apresentado no texto: 
Alternativas
Q2339234 Conhecimentos Gerais
Leia o texto abaixo sobre um dos problemas da educação de jovens no Brasil:

“Por trás de situações de abandono existem situações diversas, desde gravidez, falta de conexão dos conteúdos com os interesses dos estudantes, necessidade imediata de geração de renda, entre outros. (...) Em 2019, 7% da população entre 15 e 17 anos estava fora da escola, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD – 2019), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.”

(Disponível em: https://observatoriodeeducacao.institutounibanco.org.br/em-debate. Adaptado. Acesso em 11/10/2023).


Assinale a alternativa que apresenta o nome do problema da educação no Brasil, relatado no texto e confirmado pelo IBGE.
Alternativas
Q2339231 Conhecimentos Gerais
Leia os versos abaixo sobre o racismo no Brasil

Mesmo após o decreto da princesa Há algumas correntes e grilhões Há mucamas, senzalas e porões E o racismo ofendendo a natureza Entre brancos e negros com certeza Nunca houve e nem há essa igualdade Preconceitos inda é realidade No emprego, na rua, na escola Só com outro Zumbi e Quilombola Pode o negro alcançar a liberdade.
(MEDEIROS, I, e RODRIGUES, J. R. Ivanildo Vila Nova: Mitos, versos & viola. João Pessoa, PB. Editora a União, 2016. P.219).

O Brasil é o país com a maior população negra fora do continente africano, esta população tem sido historicamente discriminada na sociedade brasileira. Analisando os versos sobre o racismo e considerando a realidade atual dos negros no Brasil, considere as proposições a seguir:

I- O Brasil passou por um longo período de escravidão e a abolição do trabalho escravo não assegurou, para os negros, a igualdade de direitos com os brancos.

II- O racismo no Brasil, atualmente, se manifesta apenas na esfera da política, pois a população negra não se encontra representada nos poderes legislativo e executivo.

III- O racismo no Brasil é estrutural e ocorre em diversas esferas da vida social e do cotidiano do país: na escola, nas instituições, na cultura e no mercado de trabalho.

IV- A inexistência de leis e normas que proíbam, criminalizem e punam a prática do racismo no Brasil, é uma das causas da existência do preconceito contra os negros.

Está CORRETO o que se afirma apenas em:
Alternativas
Q2339228 Conhecimentos Gerais
Observe a charge abaixo, sobre as desigualdades sociais no Brasil e, em seguida, leia o texto:

Imagem associada para resolução da questão



(Disponível em: https://www.google.com/search?q=charge+sobre+a+desguladade+social&sca. Acesso em 09/10/2023)


“De acordo com o estudo liberado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a concentração de renda aumentou em 2018 no país. Os dados mostram que o rendimento mensal dos 1% mais ricos do país é quase 34 vezes maior do que o rendimento da metade mais pobre da população.”
(Disponível em: https://www.politize.com.br/desigualdade-social/#:~:text=A%20desigualdade%20social. Acesso em: 09/10/2023).


Após a leitura da charge e do texto acima, que tratam da desigualdade social, e considerando a realidade atual do Brasil, é CORRETO afirmar: 
Alternativas
Q2339225 Matemática
Um recipiente para produzir gelo é dividido em 12 compartimentos iguais com formatos de blocos retangulares de base quadrada, cujo lado mede 2,5 cm, conforme representado na figura. Sabendo que o recipiente pode ser completamente preenchido com 240 ml de água, é CORRETO afirmar que a altura desse recipiente é de: (Desconsidere a espessura do material)

Imagem associada para resolução da questão
Alternativas
Q2339222 Matemática
Em um terreno retangular, medindo 25 m, de comprimento, foi construída uma casa de base retangular com 18 m de comprimento. O recuo lateral da casa é de 2 metros em ambos os lados, conforme representado na figura. Sabendo-se que a área da parte não construída, ou seja, a área do terreno menos a área da casa, é de 156 m2 , qual é a área total do terreno?


Imagem associada para resolução da questão
Alternativas
Q2339216 Português
TEXTO III


Bola-de-gude-azul

Clarissa Moura


           Rita me fitava com aqueles olhos azuis estrábicos e esbugalhados. Assim que entrou aqui em casa, foi a primeira coisa que vi, olhos-bola-de-gude, criança feia, careca. Todos os bebês são feios, acho que eu nasci feia também. Essa menina vem atrapalhando minha vida, desde que ainda estava dentro da minha mãe.

        Na verdade, tudo muda quando uma criatura vai pra dentro de uma fêmea. Percebi isso quando Nina, nossa cadela, pegou um bucho do cachorro vira-lata que minha mãe odeia. Ela achou ruim, reclamou. Brigava dia e noite com Nina, a cachorra fujona que saiu e voltou prenha de cinco cachorrinhos. Morreram todos. Coitada de Nina, ela ficou cansada, lenta, dorminhoca. Não fazia mais nada, só dormia. Minha mãe reclamou tanto, tanto, mais tanto, que pegou um bucho também.

           Mamãe colocou o nome da minha irmã de Rita de Cássia, a santa dela. Acho engraçado isso de dizer que a santa é sua. Pra mim, as coisas só são nossas quando a gente compra ou ganha. Do nada, a santa vira boneca que protege gente. Enquanto a barriga crescia, ela todo dia acendia uma vela, se alisava e rezava. Amenina, lá dentro, não sentia nada, não sabia de nada. Ganhou o nome da santinha que fica no quartinho ao lado da sala.

           Depois que minha mãe disse que eu ia ter uma irmãzinha, que ela ia ser minha melhor amiga e companheira, tudo mudou. Mamãe só vivia vomitando, com sono, não queria brincar comigo, triste e deitada. O médico disse que ela tinha que passar a gravidez toda acamada pra menina vingar. Toda noite que minha mãe rezava, eu rezava junto, pedindo pra aquela menina não nascer. Queria minha mãe só pra mim. Mas não adiantou.

          Meu pai, que quase não tinha tempo pra brincar comigo, passou a trabalhar mais. Eu só via ele nos fins de semana, e sempre cansado porque tinha mais uma boca pra alimentar. Minha filha, papai tem que trabalhar pra dar o melhor pra você e sua irmãzinha. Mas o melhor pra mim era ter meu pai e minha mãe somente pra mim. E, mesmo antes de nascer, a bola-de-gude-azul roubou meus pais.

         Eu queria ser filha única, como meu pai e minha mãe. Não tenho tios, e nem sinto falta. Família boa é família que tem tempo pra ficar junto e brincar feliz. Agora eu fico sozinha o tempo todo. Desde que Nina teve os cachorrinhos mortos, também não quer brincar comigo. Os bichinhos pareciam uns ratinhos, pretinhos, tamanhico de nada. Mamãe falou que eles não tinham como ficar vivos e que quase matou nossa cadela. Que ela teve sorte. Sorte mesmo seria se ela nunca tivesse pegado um bucho.

            Faz cinco dias que eu não consigo dormir, Rita está dormindo no quarto da minha mãe. Só vive pendurada nos peitos dela, mamando, mamando. Minha mãe chama ela de minha bezerrinha. Vai ser a bezerrinha mais forte de todas. Será que ela me acha fraca só porque eu não tô pendurada sugando o leite dela? Eu prefiro comer bolacha desmanchada no leite. Era tão bom quando minha mãe colocava minha comidinha, e a gente ficava vendo televisão e conversando. Ela sempre sentava em uma cadeira e ficava me vendo comer. É tão lindo te ver comendo Maria, você é a gulosa de mamãe. Eu ria, e ela alisava meus cachinhos.

             Hoje tive que apresentar um trabalho na escola. Segurei a cartolina e não consegui lembrar de nada. Comecei a gaguejar e a chorar. Todo mundo riu de mim. Burra, burra, chorona, chorona. A professora mandou todo mundo se calar. Eu empurrei o Carlinhos, o imbecil que puxou o coro, e chorei mais ainda. Fui levada pra diretoria, fizeram um bilhete pra meus pais, e amanhã eu só posso assistir aula se eles vierem me deixar. Me ferrei.

             Sinto medo da pisa que vou levar, do castigo que não vai acabar nunca. Eu não vou poder sair pra brincar com as meninas na rua, vou ter que ficar trancada dentro de casa fazendo o dever que não tem fim. A pirralha começa a berrar de novo, muito alto. Essa menina só chora. Se não fosse por ela, eu teria dormido bem e lembraria do nome de todos os répteis da cartolina. Ódio.

             Vou pro quarto, minha mãe tá dormindo pesado, roncando. Parece a Bela Adormecida que não vai acordar nunca mais. Rita chora, chora, chora, eu choro. Corro na cozinha, pego a faca de cortar pão, volto pro quarto, seguro a fralda na boca dela até abafar o choro, enfio a faca nos olhos-azuis-bola-de-gude dela e arranco. Pego as bolinhas agora vermelhas, se desmanchando na minha mão, e coloco na minha sacola de bolas-de-gude.

        Será que amanhã eu ainda vou estar de castigo?

Clarissa Moura (1987, João Pessoa/Paraíba) é advogada, escritora, membro do Clube do Conto da Paraíba. Publica seus textos – crônicas e contos – no Medium https://clarissagmoura.medium.com/ e outras redes sociais. É coorganizadora do ebook Antologia Poética – Poemas dos Dez Melhores Poetas do Extremo Oriental das Américas, publicada pela Rubaiyat Edições em 2022. É uma das autoras da Antologia Prosas de Oficina vol. II, publicação da Editora Escaleras em 2022.


Fonte: https://revistaacrobata.com.br/ 
A narradora encerra seu relato com o seguinte questionamento: “Será que amanhã eu ainda vou estar de castigo?”. Esse trecho sugere:
Alternativas
Q2339215 Português
TEXTO III


Bola-de-gude-azul

Clarissa Moura


           Rita me fitava com aqueles olhos azuis estrábicos e esbugalhados. Assim que entrou aqui em casa, foi a primeira coisa que vi, olhos-bola-de-gude, criança feia, careca. Todos os bebês são feios, acho que eu nasci feia também. Essa menina vem atrapalhando minha vida, desde que ainda estava dentro da minha mãe.

        Na verdade, tudo muda quando uma criatura vai pra dentro de uma fêmea. Percebi isso quando Nina, nossa cadela, pegou um bucho do cachorro vira-lata que minha mãe odeia. Ela achou ruim, reclamou. Brigava dia e noite com Nina, a cachorra fujona que saiu e voltou prenha de cinco cachorrinhos. Morreram todos. Coitada de Nina, ela ficou cansada, lenta, dorminhoca. Não fazia mais nada, só dormia. Minha mãe reclamou tanto, tanto, mais tanto, que pegou um bucho também.

           Mamãe colocou o nome da minha irmã de Rita de Cássia, a santa dela. Acho engraçado isso de dizer que a santa é sua. Pra mim, as coisas só são nossas quando a gente compra ou ganha. Do nada, a santa vira boneca que protege gente. Enquanto a barriga crescia, ela todo dia acendia uma vela, se alisava e rezava. Amenina, lá dentro, não sentia nada, não sabia de nada. Ganhou o nome da santinha que fica no quartinho ao lado da sala.

           Depois que minha mãe disse que eu ia ter uma irmãzinha, que ela ia ser minha melhor amiga e companheira, tudo mudou. Mamãe só vivia vomitando, com sono, não queria brincar comigo, triste e deitada. O médico disse que ela tinha que passar a gravidez toda acamada pra menina vingar. Toda noite que minha mãe rezava, eu rezava junto, pedindo pra aquela menina não nascer. Queria minha mãe só pra mim. Mas não adiantou.

          Meu pai, que quase não tinha tempo pra brincar comigo, passou a trabalhar mais. Eu só via ele nos fins de semana, e sempre cansado porque tinha mais uma boca pra alimentar. Minha filha, papai tem que trabalhar pra dar o melhor pra você e sua irmãzinha. Mas o melhor pra mim era ter meu pai e minha mãe somente pra mim. E, mesmo antes de nascer, a bola-de-gude-azul roubou meus pais.

         Eu queria ser filha única, como meu pai e minha mãe. Não tenho tios, e nem sinto falta. Família boa é família que tem tempo pra ficar junto e brincar feliz. Agora eu fico sozinha o tempo todo. Desde que Nina teve os cachorrinhos mortos, também não quer brincar comigo. Os bichinhos pareciam uns ratinhos, pretinhos, tamanhico de nada. Mamãe falou que eles não tinham como ficar vivos e que quase matou nossa cadela. Que ela teve sorte. Sorte mesmo seria se ela nunca tivesse pegado um bucho.

            Faz cinco dias que eu não consigo dormir, Rita está dormindo no quarto da minha mãe. Só vive pendurada nos peitos dela, mamando, mamando. Minha mãe chama ela de minha bezerrinha. Vai ser a bezerrinha mais forte de todas. Será que ela me acha fraca só porque eu não tô pendurada sugando o leite dela? Eu prefiro comer bolacha desmanchada no leite. Era tão bom quando minha mãe colocava minha comidinha, e a gente ficava vendo televisão e conversando. Ela sempre sentava em uma cadeira e ficava me vendo comer. É tão lindo te ver comendo Maria, você é a gulosa de mamãe. Eu ria, e ela alisava meus cachinhos.

             Hoje tive que apresentar um trabalho na escola. Segurei a cartolina e não consegui lembrar de nada. Comecei a gaguejar e a chorar. Todo mundo riu de mim. Burra, burra, chorona, chorona. A professora mandou todo mundo se calar. Eu empurrei o Carlinhos, o imbecil que puxou o coro, e chorei mais ainda. Fui levada pra diretoria, fizeram um bilhete pra meus pais, e amanhã eu só posso assistir aula se eles vierem me deixar. Me ferrei.

             Sinto medo da pisa que vou levar, do castigo que não vai acabar nunca. Eu não vou poder sair pra brincar com as meninas na rua, vou ter que ficar trancada dentro de casa fazendo o dever que não tem fim. A pirralha começa a berrar de novo, muito alto. Essa menina só chora. Se não fosse por ela, eu teria dormido bem e lembraria do nome de todos os répteis da cartolina. Ódio.

             Vou pro quarto, minha mãe tá dormindo pesado, roncando. Parece a Bela Adormecida que não vai acordar nunca mais. Rita chora, chora, chora, eu choro. Corro na cozinha, pego a faca de cortar pão, volto pro quarto, seguro a fralda na boca dela até abafar o choro, enfio a faca nos olhos-azuis-bola-de-gude dela e arranco. Pego as bolinhas agora vermelhas, se desmanchando na minha mão, e coloco na minha sacola de bolas-de-gude.

        Será que amanhã eu ainda vou estar de castigo?

Clarissa Moura (1987, João Pessoa/Paraíba) é advogada, escritora, membro do Clube do Conto da Paraíba. Publica seus textos – crônicas e contos – no Medium https://clarissagmoura.medium.com/ e outras redes sociais. É coorganizadora do ebook Antologia Poética – Poemas dos Dez Melhores Poetas do Extremo Oriental das Américas, publicada pela Rubaiyat Edições em 2022. É uma das autoras da Antologia Prosas de Oficina vol. II, publicação da Editora Escaleras em 2022.


Fonte: https://revistaacrobata.com.br/ 
Considere o seguinte trecho do Texto III.

“A pirralha começa a berrar de novo, muito alto. Essa menina só chora. Se não fosse por ela, eu teria dormido bem e lembraria do nome de todos os répteis da cartolina. Ódio. Vou pro quarto, minha mãe tá dormindo pesado, roncando. Parece a Bela Adormecida que não vai acordar nunca mais. Rita chora, chora, chora, eu choro. Corro na cozinha, pego a faca de cortar pão, volto pro quarto, seguro a fralda na boca dela até abafar o choro, enfio a faca nos olhos-azuis-bola-de-gude dela e arranco. Pego as bolinhas agora vermelhas, se desmanchando na minha mão, e coloco na minha sacola de bolas-de-gude. Será que amanhã eu ainda vou estar de castigo?"

Com base no trecho, assinale a alternativa CORRETA sobre a atmosfera e aos elementos presentes no conto:
Alternativas
Q2339214 Português
TEXTO III


Bola-de-gude-azul

Clarissa Moura


           Rita me fitava com aqueles olhos azuis estrábicos e esbugalhados. Assim que entrou aqui em casa, foi a primeira coisa que vi, olhos-bola-de-gude, criança feia, careca. Todos os bebês são feios, acho que eu nasci feia também. Essa menina vem atrapalhando minha vida, desde que ainda estava dentro da minha mãe.

        Na verdade, tudo muda quando uma criatura vai pra dentro de uma fêmea. Percebi isso quando Nina, nossa cadela, pegou um bucho do cachorro vira-lata que minha mãe odeia. Ela achou ruim, reclamou. Brigava dia e noite com Nina, a cachorra fujona que saiu e voltou prenha de cinco cachorrinhos. Morreram todos. Coitada de Nina, ela ficou cansada, lenta, dorminhoca. Não fazia mais nada, só dormia. Minha mãe reclamou tanto, tanto, mais tanto, que pegou um bucho também.

           Mamãe colocou o nome da minha irmã de Rita de Cássia, a santa dela. Acho engraçado isso de dizer que a santa é sua. Pra mim, as coisas só são nossas quando a gente compra ou ganha. Do nada, a santa vira boneca que protege gente. Enquanto a barriga crescia, ela todo dia acendia uma vela, se alisava e rezava. Amenina, lá dentro, não sentia nada, não sabia de nada. Ganhou o nome da santinha que fica no quartinho ao lado da sala.

           Depois que minha mãe disse que eu ia ter uma irmãzinha, que ela ia ser minha melhor amiga e companheira, tudo mudou. Mamãe só vivia vomitando, com sono, não queria brincar comigo, triste e deitada. O médico disse que ela tinha que passar a gravidez toda acamada pra menina vingar. Toda noite que minha mãe rezava, eu rezava junto, pedindo pra aquela menina não nascer. Queria minha mãe só pra mim. Mas não adiantou.

          Meu pai, que quase não tinha tempo pra brincar comigo, passou a trabalhar mais. Eu só via ele nos fins de semana, e sempre cansado porque tinha mais uma boca pra alimentar. Minha filha, papai tem que trabalhar pra dar o melhor pra você e sua irmãzinha. Mas o melhor pra mim era ter meu pai e minha mãe somente pra mim. E, mesmo antes de nascer, a bola-de-gude-azul roubou meus pais.

         Eu queria ser filha única, como meu pai e minha mãe. Não tenho tios, e nem sinto falta. Família boa é família que tem tempo pra ficar junto e brincar feliz. Agora eu fico sozinha o tempo todo. Desde que Nina teve os cachorrinhos mortos, também não quer brincar comigo. Os bichinhos pareciam uns ratinhos, pretinhos, tamanhico de nada. Mamãe falou que eles não tinham como ficar vivos e que quase matou nossa cadela. Que ela teve sorte. Sorte mesmo seria se ela nunca tivesse pegado um bucho.

            Faz cinco dias que eu não consigo dormir, Rita está dormindo no quarto da minha mãe. Só vive pendurada nos peitos dela, mamando, mamando. Minha mãe chama ela de minha bezerrinha. Vai ser a bezerrinha mais forte de todas. Será que ela me acha fraca só porque eu não tô pendurada sugando o leite dela? Eu prefiro comer bolacha desmanchada no leite. Era tão bom quando minha mãe colocava minha comidinha, e a gente ficava vendo televisão e conversando. Ela sempre sentava em uma cadeira e ficava me vendo comer. É tão lindo te ver comendo Maria, você é a gulosa de mamãe. Eu ria, e ela alisava meus cachinhos.

             Hoje tive que apresentar um trabalho na escola. Segurei a cartolina e não consegui lembrar de nada. Comecei a gaguejar e a chorar. Todo mundo riu de mim. Burra, burra, chorona, chorona. A professora mandou todo mundo se calar. Eu empurrei o Carlinhos, o imbecil que puxou o coro, e chorei mais ainda. Fui levada pra diretoria, fizeram um bilhete pra meus pais, e amanhã eu só posso assistir aula se eles vierem me deixar. Me ferrei.

             Sinto medo da pisa que vou levar, do castigo que não vai acabar nunca. Eu não vou poder sair pra brincar com as meninas na rua, vou ter que ficar trancada dentro de casa fazendo o dever que não tem fim. A pirralha começa a berrar de novo, muito alto. Essa menina só chora. Se não fosse por ela, eu teria dormido bem e lembraria do nome de todos os répteis da cartolina. Ódio.

             Vou pro quarto, minha mãe tá dormindo pesado, roncando. Parece a Bela Adormecida que não vai acordar nunca mais. Rita chora, chora, chora, eu choro. Corro na cozinha, pego a faca de cortar pão, volto pro quarto, seguro a fralda na boca dela até abafar o choro, enfio a faca nos olhos-azuis-bola-de-gude dela e arranco. Pego as bolinhas agora vermelhas, se desmanchando na minha mão, e coloco na minha sacola de bolas-de-gude.

        Será que amanhã eu ainda vou estar de castigo?

Clarissa Moura (1987, João Pessoa/Paraíba) é advogada, escritora, membro do Clube do Conto da Paraíba. Publica seus textos – crônicas e contos – no Medium https://clarissagmoura.medium.com/ e outras redes sociais. É coorganizadora do ebook Antologia Poética – Poemas dos Dez Melhores Poetas do Extremo Oriental das Américas, publicada pela Rubaiyat Edições em 2022. É uma das autoras da Antologia Prosas de Oficina vol. II, publicação da Editora Escaleras em 2022.


Fonte: https://revistaacrobata.com.br/ 
Com base na leitura do texto sugerido, acerca do foco narrativo utilizado pela narradora, é CORRETO afirmar que predomina:
Alternativas
Q2339213 Português
TEXTO III


Bola-de-gude-azul

Clarissa Moura


           Rita me fitava com aqueles olhos azuis estrábicos e esbugalhados. Assim que entrou aqui em casa, foi a primeira coisa que vi, olhos-bola-de-gude, criança feia, careca. Todos os bebês são feios, acho que eu nasci feia também. Essa menina vem atrapalhando minha vida, desde que ainda estava dentro da minha mãe.

        Na verdade, tudo muda quando uma criatura vai pra dentro de uma fêmea. Percebi isso quando Nina, nossa cadela, pegou um bucho do cachorro vira-lata que minha mãe odeia. Ela achou ruim, reclamou. Brigava dia e noite com Nina, a cachorra fujona que saiu e voltou prenha de cinco cachorrinhos. Morreram todos. Coitada de Nina, ela ficou cansada, lenta, dorminhoca. Não fazia mais nada, só dormia. Minha mãe reclamou tanto, tanto, mais tanto, que pegou um bucho também.

           Mamãe colocou o nome da minha irmã de Rita de Cássia, a santa dela. Acho engraçado isso de dizer que a santa é sua. Pra mim, as coisas só são nossas quando a gente compra ou ganha. Do nada, a santa vira boneca que protege gente. Enquanto a barriga crescia, ela todo dia acendia uma vela, se alisava e rezava. Amenina, lá dentro, não sentia nada, não sabia de nada. Ganhou o nome da santinha que fica no quartinho ao lado da sala.

           Depois que minha mãe disse que eu ia ter uma irmãzinha, que ela ia ser minha melhor amiga e companheira, tudo mudou. Mamãe só vivia vomitando, com sono, não queria brincar comigo, triste e deitada. O médico disse que ela tinha que passar a gravidez toda acamada pra menina vingar. Toda noite que minha mãe rezava, eu rezava junto, pedindo pra aquela menina não nascer. Queria minha mãe só pra mim. Mas não adiantou.

          Meu pai, que quase não tinha tempo pra brincar comigo, passou a trabalhar mais. Eu só via ele nos fins de semana, e sempre cansado porque tinha mais uma boca pra alimentar. Minha filha, papai tem que trabalhar pra dar o melhor pra você e sua irmãzinha. Mas o melhor pra mim era ter meu pai e minha mãe somente pra mim. E, mesmo antes de nascer, a bola-de-gude-azul roubou meus pais.

         Eu queria ser filha única, como meu pai e minha mãe. Não tenho tios, e nem sinto falta. Família boa é família que tem tempo pra ficar junto e brincar feliz. Agora eu fico sozinha o tempo todo. Desde que Nina teve os cachorrinhos mortos, também não quer brincar comigo. Os bichinhos pareciam uns ratinhos, pretinhos, tamanhico de nada. Mamãe falou que eles não tinham como ficar vivos e que quase matou nossa cadela. Que ela teve sorte. Sorte mesmo seria se ela nunca tivesse pegado um bucho.

            Faz cinco dias que eu não consigo dormir, Rita está dormindo no quarto da minha mãe. Só vive pendurada nos peitos dela, mamando, mamando. Minha mãe chama ela de minha bezerrinha. Vai ser a bezerrinha mais forte de todas. Será que ela me acha fraca só porque eu não tô pendurada sugando o leite dela? Eu prefiro comer bolacha desmanchada no leite. Era tão bom quando minha mãe colocava minha comidinha, e a gente ficava vendo televisão e conversando. Ela sempre sentava em uma cadeira e ficava me vendo comer. É tão lindo te ver comendo Maria, você é a gulosa de mamãe. Eu ria, e ela alisava meus cachinhos.

             Hoje tive que apresentar um trabalho na escola. Segurei a cartolina e não consegui lembrar de nada. Comecei a gaguejar e a chorar. Todo mundo riu de mim. Burra, burra, chorona, chorona. A professora mandou todo mundo se calar. Eu empurrei o Carlinhos, o imbecil que puxou o coro, e chorei mais ainda. Fui levada pra diretoria, fizeram um bilhete pra meus pais, e amanhã eu só posso assistir aula se eles vierem me deixar. Me ferrei.

             Sinto medo da pisa que vou levar, do castigo que não vai acabar nunca. Eu não vou poder sair pra brincar com as meninas na rua, vou ter que ficar trancada dentro de casa fazendo o dever que não tem fim. A pirralha começa a berrar de novo, muito alto. Essa menina só chora. Se não fosse por ela, eu teria dormido bem e lembraria do nome de todos os répteis da cartolina. Ódio.

             Vou pro quarto, minha mãe tá dormindo pesado, roncando. Parece a Bela Adormecida que não vai acordar nunca mais. Rita chora, chora, chora, eu choro. Corro na cozinha, pego a faca de cortar pão, volto pro quarto, seguro a fralda na boca dela até abafar o choro, enfio a faca nos olhos-azuis-bola-de-gude dela e arranco. Pego as bolinhas agora vermelhas, se desmanchando na minha mão, e coloco na minha sacola de bolas-de-gude.

        Será que amanhã eu ainda vou estar de castigo?

Clarissa Moura (1987, João Pessoa/Paraíba) é advogada, escritora, membro do Clube do Conto da Paraíba. Publica seus textos – crônicas e contos – no Medium https://clarissagmoura.medium.com/ e outras redes sociais. É coorganizadora do ebook Antologia Poética – Poemas dos Dez Melhores Poetas do Extremo Oriental das Américas, publicada pela Rubaiyat Edições em 2022. É uma das autoras da Antologia Prosas de Oficina vol. II, publicação da Editora Escaleras em 2022.


Fonte: https://revistaacrobata.com.br/ 
Leia o trecho a seguir:

“A pirralha começa a berrar de novo, muito alto. Essa menina só chora. Se não fosse por ela, eu teria dormido bem e lembraria do nome de todos os répteis da cartolina. ”

Com base no trecho, qual é o sentimento da narradora em relação à irmãzinha, Rita?
Alternativas
Respostas
9761: A
9762: D
9763: E
9764: A
9765: D
9766: B
9767: A
9768: D
9769: B
9770: E
9771: B
9772: C
9773: D
9774: D
9775: B
9776: A
9777: E
9778: E
9779: A
9780: C