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- Lilia Schwarcz. Nada que seja tóxico pode ser bom. Nexo Jornal.
Internet: <https://www.nexojornal.com.br> (com adaptações).

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Internet: <https://www.nexojornal.com.br> (com adaptações).

- Lilia Schwarcz. Nada que seja tóxico pode ser bom. Nexo Jornal.
Internet: <https://www.nexojornal.com.br> (com adaptações).

- Lilia Schwarcz. Nada que seja tóxico pode ser bom. Nexo Jornal.
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- Lilia Schwarcz. Nada que seja tóxico pode ser bom. Nexo Jornal.
Internet: <https://www.nexojornal.com.br> (com adaptações).

- Lilia Schwarcz. Nada que seja tóxico pode ser bom. Nexo Jornal.
Internet: <https://www.nexojornal.com.br> (com adaptações).
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Cem anos sem Kafka: como sua obra foi publicada contra sua vontade
Há cem anos morria de tuberculose Franz Kafka, o escritor austro-húngaro (nascido em Praga, hoje seria tcheco) que inaugurou uma nova era da literatura. Sua obra é tão importante que seu nome até virou adjetivo: chamamos de kafkiano aquilo que é inexplicavelmente confuso e frustrante, mas que temos que aceitar.
Morto aos 40 anos, Kafka publicou poucos contos em vida, sem chamar muita atenção do público. A Metamorfose, O Veredito e Na Colônia Penal são as histórias curtas mais conhecidas publicadas com a autorização do autor, mas só foram reconhecidas como geniais após a morte de Kafka. O resto de sua obra, como os célebres romances O Processo e O Castelo, foram publicados e venerados depois que Kafka morreu, mudando a história da literatura mundial. Mas tudo isso quase não aconteceu, já que o autor queria que seus manuscritos fossem queimados.
Com 29 anos, Franz Kafka ainda não tinha publicado nenhum livro, só alguns contos em revistas literárias. Seu amigo da época da universidade, Max Brod, era um ano mais jovem e um autor importante da literatura expressionista, responsável por apresentar a obra de Kafka para seu editor alemão, Kurt Wolff. O editor lembrou de Kafka, anos depois, como o único autor que lhe disse que ficaria mais grato pela devolução do manuscrito do que pela publicação. O editor não ouviu o jovem autor, inseguro com sua literatura, e publicou diversos livros do autor tcheco, até mesmo após sua morte.
Durante a vida, se estima que Kafka queimou cerca de 90% de seus escritos. No leito de morte, ele revisou o livro Um artista da fome, o último livro publicado com a autorização do autor. Depois disso, ele deixou Brod como o responsável pelo seu testamento, e seu pedido foi bem claro: queime tudo que esteja inédito e incompleto. “Caríssimo Max, meu último pedido”, escreveu Kafka. “Queimar completamente, sem ler, tudo o que se encontrar no meu espólio […]”.
O último desejo de Kafka não foi respeitado. Se tivesse sido, o mundo nunca teria lido O Processo, América ou O Castelo, obras que foram escritas por Kafka, mas organizadas e editadas por Brod.
O Processo é um romance que não tinha uma ordem definida por Kafka. Os capítulos poderiam ser lidos individualmente, sem seguir uma cronologia muito óbvia. Os episódios mais delimitados temporalmente são o que apresenta a detenção e, portanto, inicia a história, e o capítulo com o título “Fim”. A ordem em que o romance é conhecido foi desenvolvida e pensada por Brod, finalizando o livro do amigo por ele.
Brod confiou mais na qualidade da obra literária do amigo do que no desejo expresso de Kafka de ter seus escritos queimados. Depois da morte de Brod, os arquivos de Kafka ficaram com a secretária do amigo, Esther Hoffe. Ela morreu aos 101 anos, em Tel Aviv, e aí começou uma disputa legal pelo espólio de Kafka entre suas herdeiras, o Estado de Israel e sua Biblioteca Nacional, e a Alemanha, por meio do Arquivo Literário de Marbach.
Franz Kafka não é o único autor a ser desrespeitado por seus herdeiros e testamentários. Roberto Bolaño, escritor chileno influenciado por Kafka e um dos maiores nomes da literatura latino-americana, morreu aos 50 anos de falência hepática em 2003. No ano seguinte, ele teve um livro publicado contra sua vontade. Gabriel García Márquez, o escritor colombiano que ganhou o Nobel de Literatura, começou a escrever seu primeiro conto um dia depois de ler A Metamorfose. Em 2024, foi publicado um romance póstumo que García Márquez disse que nunca deveria ser lançado.
Pode ser um exercício interessante pensar no que teria acontecido se a vontade de Kafka tivesse sido respeitada, mas uma coisa é certa: a literatura mundial seria bem diferente.
Revista Superinteressante. Adaptado. Disponível em:https://super.abril.com.br/cultura/cem-anos-sem-kafka-como-sua-obra-foi-publicada-contra-sua-vontade
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Cem anos sem Kafka: como sua obra foi publicada contra sua vontade
Há cem anos morria de tuberculose Franz Kafka, o escritor austro-húngaro (nascido em Praga, hoje seria tcheco) que inaugurou uma nova era da literatura. Sua obra é tão importante que seu nome até virou adjetivo: chamamos de kafkiano aquilo que é inexplicavelmente confuso e frustrante, mas que temos que aceitar.
Morto aos 40 anos, Kafka publicou poucos contos em vida, sem chamar muita atenção do público. A Metamorfose, O Veredito e Na Colônia Penal são as histórias curtas mais conhecidas publicadas com a autorização do autor, mas só foram reconhecidas como geniais após a morte de Kafka. O resto de sua obra, como os célebres romances O Processo e O Castelo, foram publicados e venerados depois que Kafka morreu, mudando a história da literatura mundial. Mas tudo isso quase não aconteceu, já que o autor queria que seus manuscritos fossem queimados.
Com 29 anos, Franz Kafka ainda não tinha publicado nenhum livro, só alguns contos em revistas literárias. Seu amigo da época da universidade, Max Brod, era um ano mais jovem e um autor importante da literatura expressionista, responsável por apresentar a obra de Kafka para seu editor alemão, Kurt Wolff. O editor lembrou de Kafka, anos depois, como o único autor que lhe disse que ficaria mais grato pela devolução do manuscrito do que pela publicação. O editor não ouviu o jovem autor, inseguro com sua literatura, e publicou diversos livros do autor tcheco, até mesmo após sua morte.
Durante a vida, se estima que Kafka queimou cerca de 90% de seus escritos. No leito de morte, ele revisou o livro Um artista da fome, o último livro publicado com a autorização do autor. Depois disso, ele deixou Brod como o responsável pelo seu testamento, e seu pedido foi bem claro: queime tudo que esteja inédito e incompleto. “Caríssimo Max, meu último pedido”, escreveu Kafka. “Queimar completamente, sem ler, tudo o que se encontrar no meu espólio […]”.
O último desejo de Kafka não foi respeitado. Se tivesse sido, o mundo nunca teria lido O Processo, América ou O Castelo, obras que foram escritas por Kafka, mas organizadas e editadas por Brod.
O Processo é um romance que não tinha uma ordem definida por Kafka. Os capítulos poderiam ser lidos individualmente, sem seguir uma cronologia muito óbvia. Os episódios mais delimitados temporalmente são o que apresenta a detenção e, portanto, inicia a história, e o capítulo com o título “Fim”. A ordem em que o romance é conhecido foi desenvolvida e pensada por Brod, finalizando o livro do amigo por ele.
Brod confiou mais na qualidade da obra literária do amigo do que no desejo expresso de Kafka de ter seus escritos queimados. Depois da morte de Brod, os arquivos de Kafka ficaram com a secretária do amigo, Esther Hoffe. Ela morreu aos 101 anos, em Tel Aviv, e aí começou uma disputa legal pelo espólio de Kafka entre suas herdeiras, o Estado de Israel e sua Biblioteca Nacional, e a Alemanha, por meio do Arquivo Literário de Marbach.
Franz Kafka não é o único autor a ser desrespeitado por seus herdeiros e testamentários. Roberto Bolaño, escritor chileno influenciado por Kafka e um dos maiores nomes da literatura latino-americana, morreu aos 50 anos de falência hepática em 2003. No ano seguinte, ele teve um livro publicado contra sua vontade. Gabriel García Márquez, o escritor colombiano que ganhou o Nobel de Literatura, começou a escrever seu primeiro conto um dia depois de ler A Metamorfose. Em 2024, foi publicado um romance póstumo que García Márquez disse que nunca deveria ser lançado.
Pode ser um exercício interessante pensar no que teria acontecido se a vontade de Kafka tivesse sido respeitada, mas uma coisa é certa: a literatura mundial seria bem diferente.
Revista Superinteressante. Adaptado. Disponível em:https://super.abril.com.br/cultura/cem-anos-sem-kafka-como-sua-obra-foi-publicada-contra-sua-vontade
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Cem anos sem Kafka: como sua obra foi publicada contra sua vontade
Há cem anos morria de tuberculose Franz Kafka, o escritor austro-húngaro (nascido em Praga, hoje seria tcheco) que inaugurou uma nova era da literatura. Sua obra é tão importante que seu nome até virou adjetivo: chamamos de kafkiano aquilo que é inexplicavelmente confuso e frustrante, mas que temos que aceitar.
Morto aos 40 anos, Kafka publicou poucos contos em vida, sem chamar muita atenção do público. A Metamorfose, O Veredito e Na Colônia Penal são as histórias curtas mais conhecidas publicadas com a autorização do autor, mas só foram reconhecidas como geniais após a morte de Kafka. O resto de sua obra, como os célebres romances O Processo e O Castelo, foram publicados e venerados depois que Kafka morreu, mudando a história da literatura mundial. Mas tudo isso quase não aconteceu, já que o autor queria que seus manuscritos fossem queimados.
Com 29 anos, Franz Kafka ainda não tinha publicado nenhum livro, só alguns contos em revistas literárias. Seu amigo da época da universidade, Max Brod, era um ano mais jovem e um autor importante da literatura expressionista, responsável por apresentar a obra de Kafka para seu editor alemão, Kurt Wolff. O editor lembrou de Kafka, anos depois, como o único autor que lhe disse que ficaria mais grato pela devolução do manuscrito do que pela publicação. O editor não ouviu o jovem autor, inseguro com sua literatura, e publicou diversos livros do autor tcheco, até mesmo após sua morte.
Durante a vida, se estima que Kafka queimou cerca de 90% de seus escritos. No leito de morte, ele revisou o livro Um artista da fome, o último livro publicado com a autorização do autor. Depois disso, ele deixou Brod como o responsável pelo seu testamento, e seu pedido foi bem claro: queime tudo que esteja inédito e incompleto. “Caríssimo Max, meu último pedido”, escreveu Kafka. “Queimar completamente, sem ler, tudo o que se encontrar no meu espólio […]”.
O último desejo de Kafka não foi respeitado. Se tivesse sido, o mundo nunca teria lido O Processo, América ou O Castelo, obras que foram escritas por Kafka, mas organizadas e editadas por Brod.
O Processo é um romance que não tinha uma ordem definida por Kafka. Os capítulos poderiam ser lidos individualmente, sem seguir uma cronologia muito óbvia. Os episódios mais delimitados temporalmente são o que apresenta a detenção e, portanto, inicia a história, e o capítulo com o título “Fim”. A ordem em que o romance é conhecido foi desenvolvida e pensada por Brod, finalizando o livro do amigo por ele.
Brod confiou mais na qualidade da obra literária do amigo do que no desejo expresso de Kafka de ter seus escritos queimados. Depois da morte de Brod, os arquivos de Kafka ficaram com a secretária do amigo, Esther Hoffe. Ela morreu aos 101 anos, em Tel Aviv, e aí começou uma disputa legal pelo espólio de Kafka entre suas herdeiras, o Estado de Israel e sua Biblioteca Nacional, e a Alemanha, por meio do Arquivo Literário de Marbach.
Franz Kafka não é o único autor a ser desrespeitado por seus herdeiros e testamentários. Roberto Bolaño, escritor chileno influenciado por Kafka e um dos maiores nomes da literatura latino-americana, morreu aos 50 anos de falência hepática em 2003. No ano seguinte, ele teve um livro publicado contra sua vontade. Gabriel García Márquez, o escritor colombiano que ganhou o Nobel de Literatura, começou a escrever seu primeiro conto um dia depois de ler A Metamorfose. Em 2024, foi publicado um romance póstumo que García Márquez disse que nunca deveria ser lançado.
Pode ser um exercício interessante pensar no que teria acontecido se a vontade de Kafka tivesse sido respeitada, mas uma coisa é certa: a literatura mundial seria bem diferente.
Revista Superinteressante. Adaptado. Disponível em:https://super.abril.com.br/cultura/cem-anos-sem-kafka-como-sua-obra-foi-publicada-contra-sua-vontade
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Cem anos sem Kafka: como sua obra foi publicada contra sua vontade
Há cem anos morria de tuberculose Franz Kafka, o escritor austro-húngaro (nascido em Praga, hoje seria tcheco) que inaugurou uma nova era da literatura. Sua obra é tão importante que seu nome até virou adjetivo: chamamos de kafkiano aquilo que é inexplicavelmente confuso e frustrante, mas que temos que aceitar.
Morto aos 40 anos, Kafka publicou poucos contos em vida, sem chamar muita atenção do público. A Metamorfose, O Veredito e Na Colônia Penal são as histórias curtas mais conhecidas publicadas com a autorização do autor, mas só foram reconhecidas como geniais após a morte de Kafka. O resto de sua obra, como os célebres romances O Processo e O Castelo, foram publicados e venerados depois que Kafka morreu, mudando a história da literatura mundial. Mas tudo isso quase não aconteceu, já que o autor queria que seus manuscritos fossem queimados.
Com 29 anos, Franz Kafka ainda não tinha publicado nenhum livro, só alguns contos em revistas literárias. Seu amigo da época da universidade, Max Brod, era um ano mais jovem e um autor importante da literatura expressionista, responsável por apresentar a obra de Kafka para seu editor alemão, Kurt Wolff. O editor lembrou de Kafka, anos depois, como o único autor que lhe disse que ficaria mais grato pela devolução do manuscrito do que pela publicação. O editor não ouviu o jovem autor, inseguro com sua literatura, e publicou diversos livros do autor tcheco, até mesmo após sua morte.
Durante a vida, se estima que Kafka queimou cerca de 90% de seus escritos. No leito de morte, ele revisou o livro Um artista da fome, o último livro publicado com a autorização do autor. Depois disso, ele deixou Brod como o responsável pelo seu testamento, e seu pedido foi bem claro: queime tudo que esteja inédito e incompleto. “Caríssimo Max, meu último pedido”, escreveu Kafka. “Queimar completamente, sem ler, tudo o que se encontrar no meu espólio […]”.
O último desejo de Kafka não foi respeitado. Se tivesse sido, o mundo nunca teria lido O Processo, América ou O Castelo, obras que foram escritas por Kafka, mas organizadas e editadas por Brod.
O Processo é um romance que não tinha uma ordem definida por Kafka. Os capítulos poderiam ser lidos individualmente, sem seguir uma cronologia muito óbvia. Os episódios mais delimitados temporalmente são o que apresenta a detenção e, portanto, inicia a história, e o capítulo com o título “Fim”. A ordem em que o romance é conhecido foi desenvolvida e pensada por Brod, finalizando o livro do amigo por ele.
Brod confiou mais na qualidade da obra literária do amigo do que no desejo expresso de Kafka de ter seus escritos queimados. Depois da morte de Brod, os arquivos de Kafka ficaram com a secretária do amigo, Esther Hoffe. Ela morreu aos 101 anos, em Tel Aviv, e aí começou uma disputa legal pelo espólio de Kafka entre suas herdeiras, o Estado de Israel e sua Biblioteca Nacional, e a Alemanha, por meio do Arquivo Literário de Marbach.
Franz Kafka não é o único autor a ser desrespeitado por seus herdeiros e testamentários. Roberto Bolaño, escritor chileno influenciado por Kafka e um dos maiores nomes da literatura latino-americana, morreu aos 50 anos de falência hepática em 2003. No ano seguinte, ele teve um livro publicado contra sua vontade. Gabriel García Márquez, o escritor colombiano que ganhou o Nobel de Literatura, começou a escrever seu primeiro conto um dia depois de ler A Metamorfose. Em 2024, foi publicado um romance póstumo que García Márquez disse que nunca deveria ser lançado.
Pode ser um exercício interessante pensar no que teria acontecido se a vontade de Kafka tivesse sido respeitada, mas uma coisa é certa: a literatura mundial seria bem diferente.
Revista Superinteressante. Adaptado. Disponível em:https://super.abril.com.br/cultura/cem-anos-sem-kafka-como-sua-obra-foi-publicada-contra-sua-vontade
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Cem anos sem Kafka: como sua obra foi publicada contra sua vontade
Há cem anos morria de tuberculose Franz Kafka, o escritor austro-húngaro (nascido em Praga, hoje seria tcheco) que inaugurou uma nova era da literatura. Sua obra é tão importante que seu nome até virou adjetivo: chamamos de kafkiano aquilo que é inexplicavelmente confuso e frustrante, mas que temos que aceitar.
Morto aos 40 anos, Kafka publicou poucos contos em vida, sem chamar muita atenção do público. A Metamorfose, O Veredito e Na Colônia Penal são as histórias curtas mais conhecidas publicadas com a autorização do autor, mas só foram reconhecidas como geniais após a morte de Kafka. O resto de sua obra, como os célebres romances O Processo e O Castelo, foram publicados e venerados depois que Kafka morreu, mudando a história da literatura mundial. Mas tudo isso quase não aconteceu, já que o autor queria que seus manuscritos fossem queimados.
Com 29 anos, Franz Kafka ainda não tinha publicado nenhum livro, só alguns contos em revistas literárias. Seu amigo da época da universidade, Max Brod, era um ano mais jovem e um autor importante da literatura expressionista, responsável por apresentar a obra de Kafka para seu editor alemão, Kurt Wolff. O editor lembrou de Kafka, anos depois, como o único autor que lhe disse que ficaria mais grato pela devolução do manuscrito do que pela publicação. O editor não ouviu o jovem autor, inseguro com sua literatura, e publicou diversos livros do autor tcheco, até mesmo após sua morte.
Durante a vida, se estima que Kafka queimou cerca de 90% de seus escritos. No leito de morte, ele revisou o livro Um artista da fome, o último livro publicado com a autorização do autor. Depois disso, ele deixou Brod como o responsável pelo seu testamento, e seu pedido foi bem claro: queime tudo que esteja inédito e incompleto. “Caríssimo Max, meu último pedido”, escreveu Kafka. “Queimar completamente, sem ler, tudo o que se encontrar no meu espólio […]”.
O último desejo de Kafka não foi respeitado. Se tivesse sido, o mundo nunca teria lido O Processo, América ou O Castelo, obras que foram escritas por Kafka, mas organizadas e editadas por Brod.
O Processo é um romance que não tinha uma ordem definida por Kafka. Os capítulos poderiam ser lidos individualmente, sem seguir uma cronologia muito óbvia. Os episódios mais delimitados temporalmente são o que apresenta a detenção e, portanto, inicia a história, e o capítulo com o título “Fim”. A ordem em que o romance é conhecido foi desenvolvida e pensada por Brod, finalizando o livro do amigo por ele.
Brod confiou mais na qualidade da obra literária do amigo do que no desejo expresso de Kafka de ter seus escritos queimados. Depois da morte de Brod, os arquivos de Kafka ficaram com a secretária do amigo, Esther Hoffe. Ela morreu aos 101 anos, em Tel Aviv, e aí começou uma disputa legal pelo espólio de Kafka entre suas herdeiras, o Estado de Israel e sua Biblioteca Nacional, e a Alemanha, por meio do Arquivo Literário de Marbach.
Franz Kafka não é o único autor a ser desrespeitado por seus herdeiros e testamentários. Roberto Bolaño, escritor chileno influenciado por Kafka e um dos maiores nomes da literatura latino-americana, morreu aos 50 anos de falência hepática em 2003. No ano seguinte, ele teve um livro publicado contra sua vontade. Gabriel García Márquez, o escritor colombiano que ganhou o Nobel de Literatura, começou a escrever seu primeiro conto um dia depois de ler A Metamorfose. Em 2024, foi publicado um romance póstumo que García Márquez disse que nunca deveria ser lançado.
Pode ser um exercício interessante pensar no que teria acontecido se a vontade de Kafka tivesse sido respeitada, mas uma coisa é certa: a literatura mundial seria bem diferente.
Revista Superinteressante. Adaptado. Disponível em:https://super.abril.com.br/cultura/cem-anos-sem-kafka-como-sua-obra-foi-publicada-contra-sua-vontade
Com a leitura da reportagem apresentada, conclui-se que:
“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”
No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna.
Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava:
Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus
amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava
tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela
May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento
de que não queria estar no show sem a minha mãe.
Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de
voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe.
Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora,
roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54
no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna
por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.
Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas
contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar
uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte
na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas
e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me
ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá.
Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade
de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era
importante pra mim.
No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que
ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It
Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e
viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter]
como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador
disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe
quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se
peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do
ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo
que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a
tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe
sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.
Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir
um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna,
Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao
Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática.
Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei
fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos.
Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei
mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos
artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez
a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de
quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo
ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei
mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O
espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse
possível.
Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha
irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras.
Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da
apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou
para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também
estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que
pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.
Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para
acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei
pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de
que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos
oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se
incomodarem, que se mexam.
Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando
a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se
eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial
poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que
desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna
isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então,
subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo
músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo
da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no
nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito
especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe
colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz
depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light.
Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a
minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que
essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele
momento no show significaria para ela.
Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o
luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de
“é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o
aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas
não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem
ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe?
Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de
amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha
mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda
estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.
(...)
(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)
Na afirmação: É de suma importância que mantenhamos a calma durante o show da Madona.
O termo destacado é classificado como:
“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”
No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna.
Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava:
Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus
amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava
tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela
May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento
de que não queria estar no show sem a minha mãe.
Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de
voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe.
Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora,
roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54
no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna
por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.
Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas
contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar
uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte
na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas
e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me
ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá.
Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade
de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era
importante pra mim.
No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que
ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It
Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e
viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter]
como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador
disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe
quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se
peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do
ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo
que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a
tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe
sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.
Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir
um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna,
Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao
Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática.
Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei
fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos.
Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei
mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos
artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez
a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de
quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo
ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei
mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O
espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse
possível.
Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha
irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras.
Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da
apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou
para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também
estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que
pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.
Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para
acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei
pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de
que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos
oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se
incomodarem, que se mexam.
Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando
a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se
eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial
poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que
desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna
isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então,
subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo
músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo
da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no
nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito
especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe
colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz
depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light.
Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a
minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que
essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele
momento no show significaria para ela.
Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o
luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de
“é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o
aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas
não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem
ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe?
Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de
amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha
mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda
estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.
(...)
(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)
Dada a palavra em destaque, classifique-a de acordo com o processo de formação das palavras:
“Então, subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos”
“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”
No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna.
Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava:
Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus
amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava
tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela
May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento
de que não queria estar no show sem a minha mãe.
Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de
voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe.
Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora,
roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54
no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna
por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.
Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas
contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar
uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte
na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas
e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me
ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá.
Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade
de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era
importante pra mim.
No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que
ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It
Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e
viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter]
como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador
disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe
quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se
peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do
ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo
que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a
tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe
sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.
Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir
um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna,
Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao
Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática.
Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei
fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos.
Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei
mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos
artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez
a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de
quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo
ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei
mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O
espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse
possível.
Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha
irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras.
Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da
apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou
para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também
estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que
pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.
Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para
acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei
pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de
que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos
oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se
incomodarem, que se mexam.
Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando
a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se
eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial
poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que
desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna
isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então,
subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo
músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo
da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no
nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito
especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe
colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz
depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light.
Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a
minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que
essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele
momento no show significaria para ela.
Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o
luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de
“é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o
aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas
não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem
ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe?
Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de
amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha
mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda
estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.
(...)
(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)
Símbolos gráficos, ou sinais de pontuação, são usados para organizar a escrita e ajudar na compreensão da mensagem. No texto a seguir, o sentido não é alterado em caso de substituição dos travessões por:
Fiquei eufórica quando a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou: - Você está bem? Quer sentar ou beber água? - Também por isso foi tão especial poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. (adaptado)
“UM APRENDIZADO, UM ABRAÇO, UM SOCO NA CARA”
No último mês, fiquei obcecada com o show da Madonna.
Pensava: preciso ir, vou de qualquer jeito. Moro em São Paulo e me questionava:
Onde me hospedar no Rio de Janeiro? Com quem ir? Tentei criar um grupo com meus
amigos, mas a maior parte não acompanha o trabalho da Madonna. Ninguém estava
tão animado. De toda forma, me organizei e fui com minha irmã gêmea, Estela
May, para o Rio no dia 30 de abril. Ao mesmo tempo, crescia em mim o sentimento
de que não queria estar no show sem a minha mãe.
Teve até um momento em que bateu uma vontade imensa de
voltar para São Paulo na mesma hora. Não queria mais ir, não sem a minha mãe.
Foi uma obsessão tão louca que só na véspera do aniversário dela [a escritora,
roteirista, atriz e apresentadora Fernanda Young, que morreu em 2019 e faria 54
no último 1º de maio] percebi que sentia que deveria estar no show da Madonna
por ela. Estava muito sensível. Minha mãe sempre dizia que sou muito sensível.
Desde que o evento foi anunciado, vi muitas pessoas
contando histórias relacionadas a Madonna. Pensei: “Ah, quer saber? Vou tirar
uma foto que prova que meu nome é Madonna como o dela.” Peguei o meu passaporte
na mesa de cabeceira e tirei a foto. Foi. Achei que ia render umas cem curtidas
e algumas risadas. Mas o post foi longe e as pessoas começaram a me
ajudar. Aliás, sou muito grata a todo mundo que sentiu que eu deveria estar lá.
Isso é uma das coisas que mais me emocionaram nesta história e fico com vontade
de chorar só de falar. Achei lindo o fato de entenderem como esse show era
importante pra mim.
No dia do aniversário da minha mãe, o quinto desde que
ela morreu, eu não esperava nada. Estava no chuveiro, ouvindo What It
Feels Like For A Girl, aquela música que ela traduziu no Saia Justa e
viralizou no Twitter recentemente. Logo depois entrei no X [antigo Twitter]
como se não quisesse nada e estava lá a mensagem do patrocinador
disponibilizando os ingressos. Na hora minha irmã virou e falou: “Você sabe
quem foi, né” A gente sempre fica procurando sinais da minha mãe. Não sei se
peguei isso do meu pai. Meu pai sente muito sinal por música. Em dezembro do
ano passado nós estávamos em um hotel aqui do Rio para pegar o meu livro [Tudo
que eu posso te contar] impresso pela primeira vez e, do nada, começou a
tocar Forever Young do Alphaville. Justo a música que minha mãe
sempre falou que era a nossa família. Ela sempre escutava, era nosso hino.
Como cheguei no Rio com antecedência, consegui curtir
um tempo na cidade, mas meus dias foram realmente Madonna, Madonna, Madonna,
Madonna. Não conseguia pensar em outra coisa, não conseguia fazer nada. Fui ao
Copacabana Palace tentar ver a Madonna. No dia do show, eu estava monotemática.
Minha irmã foi à praia e eu fiquei dando voltas no quarto do hotel. Mandei
fazer uma bolsa e uma saia cheia de correntes, crucifixos e enfeitezinhos.
Passei o dia inteiro pulando e reparando que a saia fazia muito barulho. Tentei
mexer nela enquanto ouvia a Madonna. Normalmente com outros shows, mesmo dos
artistas que conheço só três ou quatro músicas, já fico ansiosa. Mas dessa vez
a sensação triplicou. Mal consegui comer. Pedi um bule de café no serviço de
quarto, que tomei loucamente. E continuei ouvindo Madonna. “Será que já devo
ir?”, “Será que já posso ir?”, era o que eu pensava a todo momento. Mandei
mensagem pra minha irmã falando: “Pelo amor de Deus, volta dessa praia agora” O
espaço abria às 18h, e cheguei lá nessa hora, mas chegaria muito antes se fosse
possível.
Antes de o show começar, já na área vip, eu e minha
irmã ficamos desconfortáveis. Tinham muitas famílias tradicionais brasileiras.
Escutamos comentários desnecessários e alguns homofóbicos. Pouco antes da
apresentação começar, um dos convidados da área vip me reconheceu e me chamou
para ficar mais próximo do palco. Neste momento, um outro rapaz que também
estava ali disse que se tivesse com uma faca mataria. A primeira coisa que
pensei foi que nem mesmo no show de Madonna ficamos seguros.
Fiquei preocupada e cogitei procurar outro lugar para
acompanhar a apresentação. Mas, por mais que o caso tenha sido horrível, fiquei
pensando que foi bom o agressor ter assistido ao show. Também me dei conta de
que, afinal, é disto que a Madonna fala: de não deixar essas pessoas nos
oprimirem. Decidi: vamos ficar aqui berrando e dançando, e, se eles se
incomodarem, que se mexam.
Essa é a celebração da Madonna. Fiquei eufórica quando
a Madonna entrou no palco. Chorei muito. Minha irmã, preocupada, perguntou se
eu estava bem, se queria sentar ou beber água. Também por isso foi tão especial
poder ir ao show com ela. Somos muito diferentes. A sensação que tenho é que
desde pequenas fomos pegando o que cada uma gostava para si, mas com Madonna
isso não ia funcionar, ninguém ia abrir mão de amar a Madonna. Então,
subconscientemente, escolhemos dividir esse amor por períodos. Óbvio que amo
músicas de todas as fases, mas prefiro as canções da década de 1980, do começo
da carreira. A Estela elegeu os álbuns atuais. Apesar de não ter Madonna no
nome, acho que ela é mais fã que eu. Viver esse momento com ela foi muito
especial, porque na minha memória, éramos nós duas no carro com a minha mãe
colocando o CD da Madonna para ouvir. Ela sabe que a primeira coisa que fiz
depois que a minha mãe faleceu foi ir ao meu quarto escutar Ray of Light.
Então, quando a Madonna começou a cantar essa música, e eu desabei em choro, a
minha irmã reconheceu o que isso significava para nós duas. Estela sabe que
essa era a música que a minha mãe mais gostava de escutar e o que aquele
momento no show significaria para ela.
Já faz quase 5 anos que a minha mãe faleceu, mas o
luto demora para acontecer. Você acha que superou e do nada cai uma ficha de
“é, acho que não”. Maio é sempre um mês difícil pra gente, porque começa com o
aniversário da minha mãe e logo vem o dia das mães. É uma dobradinha de datas
não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem
ao mesmo tempo. E o show da Madonna, bem no meio disso, é como um abraço, sabe?
Foi um aprendizado, foi um abraço, foi um soco na cara. Ficou um sentimento de
amor imenso e gratidão. Escrevi no meu diário que fiz isso por mim e pela minha
mãe, e que de alguma maneira serviu para fechar algumas feridas que ainda
estavam abertas em relação a tudo o que aconteceu. E foi mágico.
(...)
(Cecília Madonna, Revista Piauí, 11 maio 2024 08h59)
“É uma dobradinha de datas não divertidas nesse processo, ou até divertidas e de celebração, mas que doem ao mesmo tempo”
Das opções a seguir, marque a palavra que não segue a mesma regra de acentuação básica da palavra destacada: