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    01
    Q419512
    Ano: 2013
    Banca: INSTITUTO AOCP
    Órgão: IBC
                    Os legisladores e o Verbo Divino

                                              Cláudio de Moura e Castro

        1.§ Pensemos na seguinte situação. Três pessoas 
    estão em uma sala, prontas para devorar uma travessa de 
    comida. E eis que chegam mais três. Será preciso deitar 
    água no feijão, para dividi-lo entre os comensais. Todos 
    comem feijão aguado. Os mesmos três estão ouvindo um 
    cantor, quando irrompem mais três na sala. Mas agora é 
    diferente, ninguém ouve ou vê menos pela presença dos 
    outros. Não há do que privar-se, pois ninguém “come” 
    o som e a imagem dos outros. Se continuar a chegar 
    gente, acabarão todos se acotovelando e cochichos 
    atrapalharão o deleite da música. Mas quantos serão, a 
    ponto de reduzir o prazer da cantoria? Obviamente, isso 
    dependerá do tamanho da sala, do formato, da acústica, 
    do volume da voz e se há amplificação, entre outros 
    fatores. Não há um número mágico.
        2.§ Esse experimento abstrato pode ser comparado 
    a uma sala de aula. Quando chegam mais alunos, não 
    é como o caso do feijão aguado. Pelo contrário, é 
    semelhante ao do cantor. Mais gente na sala não prejudica 
    o aprendizado. E não é preciso muita imaginação para 
    concluir que aulas maiores custam menos, economizando 
    recursos, vantagem nada trivial. No primeiro ano de 
    Harvard, muitas aulas são em anfiteatros, com todos os 
    400 alunos iniciantes. O curso de introdução à economia, 
    em Berkeley, tinha 1200. Se essa fórmula fosse tão ruim, 
    Harvard não seria a melhor universidade do mundo e 
    Berkeley, a melhor pública. As salas do ensino médio 
    coreano tinham mais de sessenta alunos. Mesmo assim, 
    a Coreia já possuía um excelente sistema educativo. No 
    Brasil, temos o exemplo dos cursinhos, operando com 
    salas enormes. Para a maioria dos alunos, é o melhor 
    ensino que jamais experimentarão.
        3.§ A realidade é ainda mais turva. Pergunte-se 
    ao público se prefere ouvir Caetano Veloso em uma 
    sala com 100 espectadores ou um cantor menor, em 
    uma sala com 35. Pergunte-se aos alunos se preferem 
    um grande professor, em uma sala enorme, ou um 
    medíocre, em uma salinha de 35 lugares. Em ambos os 
    casos, a resposta é a mesma e óbvia. Para os puristas, 
    se há muitos alunos, dilui-se a interação deles com o 
    professor. É um argumento sério, sempre e quando tal 
    interação for praticada. Mas isso é raríssimo, qualquer 
    que seja o tamanho da sala. Tais perplexidades atraíram 
    muitos estudos, na tentativa de determinar o impacto do 
    tamanho da sala de aula sobre o aprendizado. De fato, 
    esse é um dos temas mais pesquisados, com medidas 
    cuidadosas e grupos de controle. São centenas de 
    pesquisas, tantas que não mais se justifica fazer outras. 
    E o que nos dizem? Simplesmente, com a única exceção 
    constituída pelos alunos pobres dos anos iniciais, não há 
    nenhuma associação entre o tamanho da sala e o nível de 
    aprendizado. Infere-se que os casos de interação aluno-
    professor são raríssimos. Desde que se possa ver e ouvir 
    o mestre, pôr ou tirar alunos não afeta o rendimento. 
    É leviano negar o que diz a avalanche de pesquisas. 
    Entendamos, os resultados descrevem o coletivo das 
    escolas.
        4.§ Tais análises não avaliam métodos eficazes que 
    requerem poucos alunos. Isso porque sua superioridade 
    não pode ser medida se quem os adota está perdido em 
    um mundão de escolas tradicionais. A própria definição 
    de tamanho de sala vai se esfarelando. Imaginemos um 
    colégio com professores excelentes dando aulas em 
    salas com sessenta estudantes. Depois, grupos de dez 
    alunos se reúnem com professores mais jovens para 
    discutir os assuntos da aula. Além disso, os alunos fazem 
    duas disciplinas a distância, uma delas com um tutor por 
    500 alunos e outra, totalmente informatizada (relação 
    aluno/professor = infinito). Quantos professores por 
    aluno há nessa escola? Desde que temos Ideb e Enem, 
    o tema é irrelevante. Se o estudante aprendeu, pouco 
    importa como funciona a sala de aula. Pois não é que o 
    nosso Legislativo, com uma pauta atolada de problemas 
    angustiantes, se mete a legislar sobre o número de 
    alunos na sala de aula? Pela proposta em discussão, no 
    ensino médio, não será possível ultrapassar o número 
    mágico de 35. Deve ser uma cifra que, em sua infinita 
    magnificência, Deus revelou aos legisladores, pois de 
    nenhuma pesquisa saiu. 
                                      Revista Veja, edição 2.299, p. 28.

    “...Harvard não seria a melhor universidade do mundo e Berkeley, a melhor pública.” (2.§) No fragmento acima, temos um exemplo de figura de

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