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    1 questão encontrada
    Ano: 2014
    Banca: FCC
    Órgão: TRF - 4ª REGIÃO
    Atenção: Para responder a questão considere o texto abaixo.


             Ler um livro é desinteressar-se a gente deste mundo co-
    mum e objetivo para viver noutro mundo. A janela iluminada noi-
    te adentro isola o leitor da realidade da rua, que é o sumidouro
    da vida subjetiva. Árvores ramalham. De vez em quando pas-
    sam passos. Lá no alto estrelas teimosas namoram inutilmente
    a janela iluminada. O homem, prisioneiro do círculo claro da
    lâmpada, apenas ligado a este mundo pela fatalidade vegetativa
    do seu corpo, está suspenso no ponto ideal de uma outra di-
    mensão, além do tempo e do espaço. No tapete voador só há
    lugar para dois passageiros: Leitor e autor.
            O leitor ingênuo é simplesmente ator. Quero dizer que,
    num folhetim ou num romance policial, procura o reflexo dos
    seus sentimentos imediatos, identificando-se logo com o pro-
    tagonista ou herói do romance. Isto, aliás, se dá mais ou menos
    com qualquer leitor, diante de qualquer livro; de modo geral, nós
    nos lemos através dos livros.
            Mas no leitor ingênuo, essa lei dos reflexos toma a forma
    de um desinteresse pelo livro como obra de arte. Pouco importa
    a impressão literária, o sabor do estilo, a voz do autor. Quer di-
    vertir-se, esquecer as pequenas misérias da vida, vivendo ou-
    tras vidas desencadeadas pelo bovarismo da leitura. E tem ra-
    zão. Há dentro dele uma floração de virtualidades recalcadas
    que, não encontrando desimpedido o caminho estreito da ação,
    tentam fugir pela estrada larga do sonho.
            Assim éramos nós então, por não sabermos ler nas en-
    trelinhas. E daquela primeira fase de educação sentimental, que
    parecia inevitável como as espinhas, passava quase sempre o
    jovem monstro para uma crise de hipercrítica. Devido à neces-
    sidade de um restabelecimento de equilíbrio, o excesso engen-
    drava o excesso contrário. A pouco e pouco os românticos per-
    diam terreno em proveito dos naturalistas. Dava-se uma verda-
    deira subversão de valores na escala da sensibilidade e a fanta-
    sia comprazia-se em derrubar os antigos ídolos. Formava-se
    muitas vezes, coincidindo com manifestações mórbidas que são
    do domínio da psicanálise, um pedantismo da clarividência, tão
    nocivo como a intemperança imaginosa ou sentimental, e talvez
    mais ingênuo, pois refletia um ressentimento de namorado ain-
    da ferido nas suas primeiras ilusões. 

    (Adaptado de: MEYER, Augusto. “Do Leitor”, In: À sombra da
    estante
    , Rio de Janeiro, José Olympio, 1947, p. 11-19)
    O segmento que expressa causa está sublinhado em:

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