Atualizando histórico

Estamos atualizando seu histórico de questões resolvidas, por favor aguarde alguns instantes.

Menu
Cadastre-se

Questões de Concursos - Questões

ver filtro
filtros salvos
  • Você ainda não salvou nenhum filtro
    • Apenas que tenham
    • Excluir questões
    salvar
    salvar x
    limpar
    1 questão encontrada
    01
    Q479207
    Ano: 2012
    Banca: CETRO
    Órgão: Prefeitura de Manaus - AM
    Leia o texto abaixo para responder à  questão.

    Você reconhece quem teve uma festa de criança em casa no dia anterior. Alguma coisa no rosto. A expressão de quem chegou à terrível conclusão de que Herodes talvez tivesse razão.

    - Que respiração ofegante o senhor tem!
    - Foi de tanto encher balão.
    - Que dificuldade o senhor tem para caminhar!
    - Foi de tanto levar canelada tentando apartar briga.
    - Como suas mãos estão trêmulas!
    - Foi de tanto me controlar para não esgoelar ninguém!

    Respeito e consideração para quem teve uma festa de criança em casa no dia anterior.

    O pai e a mãe estão atirados num sofá, um para cada lado. Semiconscientes. Já é noite, mas a festa ainda não acabou. Sobram três crianças que não param de correr pela casa.

    - Tenho uma ideia - diz o pai.
    - Qual é?
    - Vamos mandar eles brincarem no meio da rua. Esta hora tem bastante movimento.

    - Não seja malvado. Daqui a pouco eles vão embora.
    - Quando? Essas três foram as primeiras a chegar. Acho que os pais deixaram elas aqui e fugiram para o exterior.

    Uma menina cruza a sala na corrida. Quando chegou, tinha o vestido mais engomado da festa. Depois de três banhos de guaraná e uma batalha de brigadeiro, parece uma veterana das trincheiras.

    - Essa aí é a pior - diz o pai, num sussurro dramático.
    - Essa baixinha! É um terror!
    - Coitadinha. É a Cândida.
    - Cândida?! É uma terrorista!
    - Sshhh. - De onde é que saiu essa figura?
    - É uma colega do Paulinho.
    - E aquele ranhento que não para de comer?
    - É o Chico. Também é colega.
    - Será que não alimentam ele em casa? E o outro, o que está pulando de cima da mesa?
    - É o Paulinho! Você não reconhece o seu próprio filho?
    - Ele está coberto de chocolate.
    - É que ele teve uma luta de brigadeiros com a Cândida...
    - E perdeu, claro. A Cândida é imbatível. Guerra de brigadeiros, jiu-jítsu, vôlei com balão, hipismo com cachorro. Ela foi a única que conseguiu montar no Atlas.
    - Por falar nisso, onde é que anda o Atlas?
    - Fugiu de casa, lógico. Era o que eu devia ter feito.
    - Ora, é só uma vez por ano...
    - Você precisava me lembrar? Pensar que daqui a um ano tem outra...
    - Você não pode falar. Você também gosta de fazer festa no seu aniversário.
    - Mas nós somos finos. Nenhuma festa teve guerra de chocolate. Nos embebedamos como pessoas civilizadas.
    - Ah é? E o anão com o trombone?
    - Ah, não? A Araci é que sabe dessa história. Só que ela foi embora no mesmo dia. O Chico se aproxima.
    - Tem mais cachorro, quente?
    - Não, meu filho. Acabou. - Brigadeiro?
    - Também acabou, Chico.
    - Dá uma lambida na cabeça do Paulinho
    - sugere o pai, sob um olhar de reprimenda da mãe. - Puxa, não tem mais nada?
    - diz Chico. E se afasta, desconsolado.
    - E ainda reclama, o filho da mãe!
    - Shhh.
    - Bom, você eu não sei, mas eu...
    - Você o quê? - Vou tomar meu banho, se é que ainda tenho forças para ligar um chuveiro, e ver televisão na cama.
    - E quando chegarem os pais? - Que pais?
    - Os pais da Cândida e dos outros, ora.
    - O que é que eu tenho com eles?
    - Quando eles chegarem, você tem que receber. - Ah, não.
    - Ah, sim!
    - Mais essa?
    Batem na porta. O pai vai abrir, esbravejando sem palavras. É um casal que se identifica como os pais da Cândida.
    - Entrem, entrem.
    - Entrem, entrem. - Nós só viemos buscar a...
    - Não, entrem. A Cândida não vai querer sair agora. Ela é um encanto. Meu bem, os pais da Cândida. Sentem, sentem.
    O pai esfrega as mãos, subitamente reanimado.
    - Quem sabe uma cervejinha? Querida, vá buscar.
    Como Araci se foi, a própria mãe - que se ocupou com a festa desde de manhã cedo, que mal se aguenta em pé, que podia matar o marido - vai buscar a cerveja. Pisando nos embrulhos de doces, nos copos de papelão e nos balões estourados que cobrem o chão e que ela mesma terá que limpar no dia seguinte. Respeito e comiseração para as mães que tiveram festa de criança em casa, no dia seguinte.

    Enquanto isso o pai acaba de abrir a porta para os pais do Chico e os manda entrar, entusiasmado com a ideia de começar sua própria festa.
    - Querida, mais cerveja!

                                                                        Luis Fernando Veríssimo. In: comédias da vida privada - 101
                                                                                                                     crônicas escolhidas. P. 223-225.

    Em relação ao texto e de acordo com a pontuação e a norma-padrão da Língua Portuguesa, assinale a alternativa correta.

    Você configurou para não ver comentários antes de resolver uma questão.