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    01
    Q496632
    Ano: 2014
    Banca: CONSULPLAN
    Órgão: CBTU
    Texto

                                                                                       1º/4/1964 – Cena de rua

        Minha filha chega da escola dizendo que há revolução na rua. Em companhia de Carlos Drummond de Andrade,
    meu vizinho no Posto 6, fui ver o que estava se passando.
        Vejo um general comandar alguns rapazes naquilo que mais tarde um repórter chamou de “gloriosa barricada”. Os
    rapazes arrancam bancos e árvores impedem o cruzamento da av. Atlântica com a rua Joaquim Nabuco. O general
    destina-se a missão mais importante: apanha dois paralelepípedos e concentra-se na façanha de colocar um em cima do
    outro. Vendo-o em tarefa tão insignificante, pergunto-lhe para que aqueles paralelepípedos tão sabiamente colocados
    um sobre o outro. “Isso é para impedir os tanques do 1º Exército!”
        Acreditava, até então, que dificilmente se deteria um exército com dois paralelepípedos ali na esquina da rua onde
    moro. Ouço no rádio que a medida do general foi eficaz: o 1º Exército, em sabendo que havia tão sólida resistência,
    desistiu do vexame: aderiu aos que se chamavam de rebeldes.
        Nessa altura, há confusão na av. N. S. de Copacabana, pois ninguém sabe o que significa “aderir aos rebeldes”. A
    confusão é rápida. Não há rebeldes e todos, rebeldes ou não, aderem, que a natural tendência da humana espécie é
    aderir. Erguem o general em triunfo. Vejo o bravo general passar em glória sobre minha cabeça.
        Olho o chão, os dois paralelepípedos lá estão, intactos, invencidos, um em cima do outro. Vou lá, com a ponta do
    sapato tento derrubá-los. É coisa fácil. Das janelas, cai papel picado. Senhoras pias exibem seus pios lençóis e surge uma
    bandeira nacional. Cantam o hino e declaram todos que a pátria está salva.
        Minha filha, ao meu lado, pede uma explicação para aquilo tudo. “É carnaval, papai?” “Não.” “É Copa do Mundo?”
    “Também não.”
        Ela fica sem saber o que é. Eu também. Recolho-me ao sossego e sinto na boca um gosto azedo de covardia.

    (Carlos Heitor Cony. Cena de rua. Folha de São Paulo. 01/04/2014.
    Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/carlosheitorcony/2014/04/1433846-141964---cena-de-rua.shtml.)



    Em “Acreditava, até então, que dificilmente se deteria um exército com dois paralelepípedos ali na esquina da rua onde moro.” (3º§), as duas palavras destacadas retomam informações

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