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    01
    Q512458
    Ano: 2015
    Banca: CS-UFG
    Órgão: UFG
    Texto 1

                                   Cem cruzeiros a mais

    Ao receber certa quantia num guichê do Ministério, verificou que o funcionário lhe havia dado cem cruzeiros a mais. Quis voltar para devolver, mas outras pessoas protestaram: entrasse na fila.
    Esperou pacientemente a vez, para que o funcionário lhe fechasse na cara a janelinha de vidro:
    – Tenham paciência, mas está na hora do meu café.
    Agora era uma questão de teimosia. Voltou à tarde, para encontrar fila maior – não conseguiu sequer aproximar-se do guichê antes de encerrar-se o expediente.
    No dia seguinte era o primeiro da fila:
    – Olha aqui: o senhor ontem me deu cem cruzeiros a mais.
    – Eu?
    Só então reparou que o funcionário era outro.
    – Seu colega, então. Um de bigodinho.
    – O Mafra.
    – Se o nome dele é Mafra, não sei dizer.
    – Só pode ter sido o Mafra. Aqui só trabalhamos eu e o Mafra. Não fui eu. Logo...
    Ele coçou a cabeça, aborrecido:
    – Está bem, foi o Mafra. E daí?
    O funcionário lhe explicou com toda urbanidade que não podia responder pela distração do Mafra:
    – Isto aqui é uma pagadoria, meu chapa. Não posso receber, só posso pagar. Receber, só na  recebedoria. O próximo!
    O próximo da fila, já impaciente, empurrou-o com o cotovelo. Amar o próximo como a ti mesmo! Procurou conter-se e se afastou, indeciso. Num súbito impulso de indignação – agora iria até o fim – dirigiu-se à recebedoria.
    – O Mafra? Não trabalha aqui, meu amigo, nem nunca trabalhou.
    – Eu sei. Ele é da pagadoria. Mas foi quem me deu os cem cruzeiros a mais.
    Informaram-lhe que não podiam receber: tratava-se de uma devolução, não era isso mesmo? E não de pagamento. Tinha trazido a guia? Pois então? Onde já se viu pagamento sem guia? Receber mil   cruzeiros a troco de quê?
    – Mil não: cem. A troco de devolução.
    – Troco de devolução. Entenda-se.
    – Pois devolvo e acabou-se.
    – Só com o chefe. O próximo!
    O chefe da seção já tinha saído: só no dia seguinte. No dia seguinte, depois de fazê-lo esperar mais de meia hora, o chefe informou-lhe que deveria redigir um ofício historiando o fato e devolvendo o dinheiro.
    – Já que o senhor faz tanta questão de devolver.
    – Questão absoluta.
    – Louvo o seu escrúpulo.
    – Mas o nosso amigo ali do guichê disse que era só entregar ao senhor – suspirou ele.
    – Quem disse isso?
    – Um homem de óculos naquela seção do lado de lá. Recebedoria, parece.
    – O Araújo. Ele disse isso, é? Pois olhe: volte lá e diga-lhe para deixar de ser besta. Pode dizer que fui eu que falei. O Araújo sempre se metendo a entendido!
    – Mas e o ofício? Não tenho nada com essa briga, vamos fazer logo o ofício.
    – Impossível: tem de dar entrada no protocolo.
    Saindo dali, em vez de ir ao protocolo, ou ao Araújo para dizer-lhe que deixasse de ser besta, o honesto cidadão dirigiu-se ao guichê onde recebera o dinheiro, fez da nota de cem cruzeiros uma bolinha, atirou-a lá dentro por cima do  vidro e foi-se embora.

                                                                  SABINO, Fernando. Disponível em: <:// www.velhosamigos.com.br/
                                                   Colaboradores/Diversos/fernando sabino2.html>. Acesso em: 13 abr. 2015.



    Texto 2






    Nos Textos 1 e 2, a palavra “Próximo!” auxilia na produção do

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