A PeNSE e os nossos filhos, vamos pensar?
No fim de março, foram publicados os dados da 5a
edição
da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) referentes ao ano de 2024, envolvendo mais de 118 mil adolescentes
de cerca de 4 mil escolas públicas e privadas do nosso país.
Os resultados são como um grande checape da saúde coletiva
dos jovens entre 13 e 17 anos. O levantamento apresenta um
retrato complexo da realidade infantojuvenil, trazendo notícias
de alívio, mas também acendendo alertas vermelhos que não
podem ser ignorados, seja na rotina familiar, seja nos consultórios, seja nas emergências hospitalares.
O dado mais celebrado nessa edição é a queda consistente no consumo de substâncias que historicamente assombram as famílias: o álcool e as drogas ilícitas. Ver a redução
na experimentação de bebidas alcoólicas e o recuo no uso
de drogas entre estudantes é uma vitória da prevenção e da
conscientização. O desenvolvimento cerebral na adolescência é marcado por processos críticos; quanto mais adiarmos
o contato com substâncias nocivas, mais protegemos a maturação do córtex pré-frontal – responsável pelas decisões e
controle de impulsos – e garantimos a integridade cognitiva e
emocional desses jovens.
A pesquisa revela, entretanto, que o tabagismo mudou
de face: enquanto o cigarro convencional cai em desuso, o
cigarro eletrônico avançou expressivamente. Cerca de 29,6%
dos estudantes já experimentaram esses dispositivos, frequentemente atraídos por aromas frutados e por uma falsa
sensação de segurança amplificada pela divulgação que visa
ao lucro das empresas. É preciso clareza e firmeza nesse
ponto: esses aparelhos entregam doses elevadas de nicotina
e substâncias tóxicas diretamente nos pulmões em formação, o que favorece a dependência química precoce sob uma
roupagem tecnológica que não deixa cheiro nem pista para
os pais.
Outro ponto que exige nossa atenção imediata é o
cenário da saúde mental. A pesquisa aponta que 19,8% dos
estudantes relatam que a vida não vale a pena ser vivida e
23,4% apresentam sintomas de transtornos de ansiedade ou
depressão. O dado é especialmente crítico entre as meninas:
o percentual daquelas que sentem que a vida não vale a pena
ou que experimentam tristeza profunda é quase o dobro em
relação aos meninos. Esses indicadores são um alerta sobre
o sofrimento psíquico enfrentado pelos jovens, reforçando a
necessidade de políticas públicas e redes de apoio familiar
que priorizem o bem-estar emocional nessa fase da vida.
Para nós, mães, pais, pediatras e educadores, o desafio
é transformar esses números em ação. Não basta saber que
o consumo de álcool caiu e o de cigarro eletrônico subiu. Não
basta lamentar a tristeza das meninas; precisamos fortalecer sua autoestima contra algoritmos predatórios. A PeNSE
aponta o caminho, cabe a nós, com leveza para acolher e
firmeza para orientar, caminhar ao lado deles nessa travessia
tão bonita e desafiadora que é a adolescência.
(Andréa Jácomo.
Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao,
11.05.2026. Adaptado)