O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Royal Cinema
Tinha 13 anos quando viu o rapaz magrelo subindo a
ladeira tocando saxofone, enchendo-lhe o coração de
algo novo. Durante os dias de festa, acompanhou a
banda pelas ruas, guardando em segredo os pequenos
presentes que dele recebia, temendo a vigilância da
mãe. Aquele amor de adolescência cresceu entre
poemas, flores e sorrisos tímidos.
Com o tempo, cada um seguiu seu caminho. Ela mudou
de cidade, ele foi trabalhar longe. Mantiveram o vínculo
por cartas até que, de repente, as mensagens pararam.
Ele havia encontrado outro amor. A jovem tentou
escrever mais algumas vezes, sem resposta. Decidiu
seguir adiante e mergulhou na música, aprendendo
violoncelo e transformando lembranças em canção,
ainda guardando o sabor do primeiro beijo trocado
dentro de um ônibus.
Os anos passaram, e ela se tornou uma musicista
reconhecida. Após um concerto, caminhava
despreocupada quando ouviu a melodia que ele
costumava tocar para ela. Seguiu o som até uma igreja.
Ao entrar, reconheceu imediatamente "Royal Cinema"
ecoando pelas paredes do templo e percebeu que quem
tocava o saxofone era o mesmo rapaz, agora marcado
pelo tempo.
Aproximou-se em silêncio e, quando seus olhares
finalmente se cruzaram, uma onda de memórias atingiu
os dois. Ele abaixou os olhos, envergonhado; quando
voltou a olhar, ela já não estava mais ali. Sem palavras
para explicar o passado nem o presente, ele ajeitou a
batina e retomou a celebração do casamento, enquanto
ela saiu levando consigo aquela última melodia de um
amor que não coube no tempo.
Texto Adaptado
ARAÚJO, Jeanne. Royal Cinema. Disponível em:
https://repositorio.ufrn.br/server/api/core/bitstreams/1d8f32b3-734e-401
a-85d8-69f95fa8be05/content . Acesso em: 21 nov. 2025.