“A diferença entre passado, presente e futuro é uma
ilusão, ainda que persistente”, Einstein escreveu. A ideia do
físico ali não era lacrar uma discussão. O italiano Michele
Besso, seu melhor amigo dos tempos de faculdade, tinha
acabado de morrer. A frase foi escrita numa carta à esposa
de Besso. Era uma forma de consolar a ela, e a ele próprio,
pela perda.
Ninguém jamais teve tanta propriedade para falar
sobre o tempo do que Einstein. O alemão descobriu que o
tempo passa em ritmos diferentes para coisas diferentes. Do
ponto de vista de um buraco negro, caso ele tivesse ponto
de vista, o Universo não existe mais. Trilhões e trilhões de
anos já se passaram. Todas as estrelas já se apagaram, os
prótons decaíram.
A densidade virtualmente infinita do centro do
buraco negro “estica” o tecido do espaço-tempo também de
forma infinita. O resultado de tal estiramento é uma
aceleração igualmente sem fim no ritmo da passagem do
tempo, até o ponto em que o próprio tempo, como
entidade, chega à última gota. Esse processo de deformação
do tecido espaço-tempo por lá começou na própria
formação do centro do buraco, provavelmente há bilhões de
anos.
Ou seja: do ponto de vista dele, fatos como o
nascimento do seu terceiro neto, as eleições presidenciais
do ano de 2158 e os resultados de todas as Copas do
Mundo, daqui até a última edição do evento na história da
humanidade, estão resolvidos há bilhões de anos.
Agora dê uma olhada no céu, no lugar onde fica a
constelação de Sagitário. É lá que está o buraco negro
supermassivo do centro da Via Láctea, em torno do qual
todas as centenas de bilhões de estrelas da nossa galáxia
giram. Não dá para ver, claro, mas ele está ali. Agora
mesmo. De alguma forma, ele “sabe” como será cada
momento do nosso futuro. Tudo o que para nós ainda segue
em aberto, para ele é parte do passado. Já está resolvido.
Não vai mudar. Presente, passado e futuro, portanto, são
uma ilusão. Ainda que persistente.
A maleabilidade do tempo na física inspira olhar com
mais carinho para as agruras do tempo em outra área da
ciência: a psicologia. A forma como a mente entende o
tempo também varia. Você sabe: uma hora na sala de
espera do médico demora bem mais para passar do que
uma hora de conversa com amigos que não se veem há
muito tempo. Por outro lado, a memória dessa hora na sala
de espera deixa de existir assim que você é chamado para a
consulta. E a da conversa com os amigos fica para sempre,
como se tivesse durado 20 horas.
Há uma armadilha nessa lógica, porém. As horas e
horas que você passa maratonando séries, jogando
videogame ou rolando o Insta também passam rapidinho.
Mas não deixam memórias. O que enriquece a vida é a
interação com outras pessoas. O resto não rende juros para
a biografia.
Estamos há praticamente um ano sob algum grau de
restrição na nossa vida social. Pouca gente, a essa altura,
está completamente isolada desde lá. Mas a maior parte de
nós não voltou à vida como ela era (o que é ótimo do ponto
de vista epidemiológico).
Então sempre vale lembrar: dê uma chance extra
para aquelas conversas de Zoom que já enjoaram, telefone
para os seus pais e avós, não suma dos grupos de Whats,
mande DM quando gostar da foto de um amigo; puxe
conversa. Senão, quando você olhar para trás, não haverá
nada. Cuide bem da formação de suas novas memórias.
Porque, sem elas, a vida se converte numa ilusão, ainda que
persistente.
(Fonte: Superinteressante - adaptado.)