A sofisticação das línguas indígenas
Você provavelmente já encontrou pelas redes sociais o
famigerado #sqn, aquele jeito telegráfico de dizer que tal
coisa é muito legal, “só que não”. Agora, imagine uma
língua totalmente diferente do português que conta com
um conceito parecido na própria estrutura das palavras, o
que os linguistas apelidaram de “sufixo frustrativo” – um
#sqn que faz parte da própria história do idioma.
É exatamente assim que funciona no kotiria, um idioma
da família linguística tukano que é falado por indígenas do
Alto Rio Negro, na fronteira do Brasil com a Colômbia.
Para exprimir a função frustrativa, o kotiria usa um sufixo
com a forma -ma. Quando se quer dizer que foi até um
lugar sem conseguir o que queria indo até lá, basta pegar
o verbo “ir”, que é wa’a em kotiria, e acrescentar o sufixo -
ma: wa’ama, “ir em vão”.
Outra propriedade presente em diversas línguas
indígenas, que aparece no kotiria, mas também na língua
hup, sem parentesco direto com ela e membro de uma
pequena família de idiomas do Alto Rio Negro, é a
serialização verbal – ou seja, a capacidade de transformar
vários verbos numa coisa só, que ajuda a descrever uma
ação complexa. Talvez o mais fascinante é perceber como
as palavras do cotidiano abrem uma janela para o modo
de vida desses povos.
Na língua hup, alguns advérbios tão comuns como os
nossos “aqui”, “ali” e “lá” são mét’ah, “rio abaixo”, e wá’ah,
“do outro lado do rio”. Entre os verbos, temos hi, que
significa “seguir rio abaixo”, mas também “descer de um
lugar elevado”, e sop, que é tanto “se afastar do rio”,
quanto “subir uma colina”.
No entanto, é nos substantivos que esse lado
metafórico da língua hup realmente brilha. Algumas das
palavras mais comuns de quem vive na floresta tropical
são k’et (folha), tëg (tronco), tat (fruta) e tít (cipó), mas dá
para combinar tít com a palavra para “barriga”, e formar
tok-tít, “cipó-de-barriga”, ou seja, “intestino”. Ou tëg com
pih para formar “tronco de música” ou “flauta”.
É como se cada parte das árvores se tornasse uma
porta para conceitos novos, maiores que a soma das
palavras individuais. E isso pode ser tudo, menos
“primitivo”.
(Fonte: Superinteressante – adaptado.)