Leia o texto abaixo para responder à questão.
17 de julho
Domingo. Um dia maravilhoso. O céu azul sem nuvem. O
Sol está tepido. Deixei o leito as 6,30. Fui buscar agua. Fiz café.
Tendo só um pedaço de pão e 3 cruzeiros. Dei um pedaço a cada
um, puis feijão no fogo que ganhei ontem do Centro Espirita da
Rua Vergueiro 103. Fui lavar minhas roupas. Quando retornei do
rio o feijão estava cosido. Os filhos pediram pão. Dei os 3
cruzeiros ao João José para ir comprar pão. Hoje é a Nair Mathias
quem começou impricar com os meus filhos. A Silvia e o esposo
já iniciaram o espetaculo ao ar livre. Ele está lhe espancando. E
eu estou revoltada com o que as crianças presenciam. Ouvem
palavras de baixo calão. Oh! se eu pudesse mudar daqui para um
nucleo mais decente.
Fui na D. Florela pedir um dente de alho. E fui na D. Analia.
E recebi o que esperava:
— Não tenho!
Fui torcer as minhas roupas. A D. Aparecida perguntou-me:
— A senhora está gravida?
— Não senhora — respondi gentilmente.
E lhe chinguei interiormente. Se estou gravida não é de sua
conta. Tenho pavor destas mulheres da favela. Tudo quer saber!
A lingua delas é como os pés de galinha. Tudo espalha. Está
circulando rumor que eu estou gravida! E eu, não sabia!
Saí a noite, e fui catar papel. Quando eu passava perto do
campo do São Paulo, varias pessoas saiam do campo. Todas
brancas, só um preto. E o preto começou insultar-me:
— Vai catar papel, minha tia? Olha o buraco, minha tia.
Eu estava indisposta. Com vontade de deitar. Mas,
prossegui. Encontrei varias pessoas amigas e parava para falar.
Quando eu subia a Avenida Tiradentes encontrei umas senhoras.
Uma perguntou-me:
— Sarou as pernas?
Depois que operei, fiquei boa, graças a Deus. E até pude
dançar no Carnaval, com minha fantasia de penas. Quem
operou-me foi o Dr. José Torres Netto. Bom médico. E falamos
de politicos. Quando uma senhora perguntou-me o que acho do
Carlos Lacerda, respondi concientemente:
— Muito inteligente. Mas não tem iducação. É um politico
de cortiço. Que gosta de intriga. Um agitador.
Uma senhora disse que foi pena! A bala que pegou o major
podia acertar no Carlos Lacerda.
— Mas o seu dia… chegará — comentou outra.
Varias pessoas afluiram-se. Eu, era o alvo das atenções.
Fiquei apreensiva, porque eu estava catando papel, andrajosa
(…) Depois, não mais quiz falar com ninguem, porque precisava
catar papel. Precisava de dinheiro. Eu não tinha dinheiro em casa
para comprar pão. Trabalhei até as 11,30. Quando cheguei em
casa era 24 horas. Esquentei comida, dei para a Vera Eunice,
jantei e deitei-me. Quando despertei, os raios solares penetrava
pelas frestas do barracão.
Jesus, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São
Paulo, 1960. Adaptado.