O filtro embelezador da hipocrisia
Leonardo de Moraes (*)
Publicado em 17/02/2024 às 08:00.
A expressão “viva sua verdade” se tornou palavra fácil
em reality shows, redes sociais e conversas de bar. Estamos
vivenciando a era dos egos semi-analisados, em que a suposta
autoaceitação de erros e virtudes se tornou pedra fundamental
para se expressar culturalmente. Essa tendência é ruim? Não.
Ainda que pseudo-libertária, querer “ser você mesmo” segue no
sentido correto de evolução do tecido social.
Cada um de nós, atentos à verdade dos nossos
corações, poderemos trazer luz e clareza - ou somente disrupção
– à coletividade e, ao menos, estaremos no campo da verdade e
da justiça. Talvez seja o início do fim da hipocrisia social, tão
presente em cada ditadura, criada por cada suposto salvador da
moral e dos costumes, cujas únicas virtudes sempre foram
carisma e oratória, quase nunca elevação espiritual.
Etimologicamente, “hipocrisia” significa a representação
de um ator, o fingimento deliberado de uma ficção escondida. Ela
reside no ditado “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”,
presente em boa parte das relações familiares, sociais,
profissionais e econômicas da humanidade.
Identificamos com clareza a hipocrisia dos líderes de uma
nação: incitamento a multidões desavisadas, perseguições a
novos pensadores, manipulações dos desejos do povo. Com
hipocrisia, presidentes da República transformam seus países na
sala de estar de seus preconceitos, engomados como valores
tradicionais. A hipocrisia é o véu que leva povos à guerra, incitada
por egos tortos. Mas ela também está nos filtros que disfarçam
imperfeições físicas, no aplauso à luta por Direitos Ambientais,
seguidos do consumo de brinquedos de montar feitos de plástico
duro.
É com hipocrisia que bradamos “aceite sua aparência
natural”, mas encapamos dentes saudáveis com lâminas –
também – de plástico.
É com hipocrisia que estofamos nossas
relações de mentiras e nossos corpos de plástico, para então
bradarmos em reality shows que “vivemos nossa verdade”.
Humanos, somos contraditórios; mas quando negamos
nossas inconsistências, nos tornamos também hipócritas. É
apenas graças aos humildes, seguros em suas imperfeições, que
se formam as correntes de mudança efetiva no mundo.
Você pode se orgulhar de “viver sua verdade” quando
enfrenta seus desejos obscuros, suas teimosias e invejas,
abraçando suas limitações.
É preciso coragem para aceitar sua própria imagem no
espelho e recusar o véu – aliás, o filtro embelezador – da
hipocrisia. Só assim as relações sociais poderão ser mais
saudáveis, e libertaremos as novas gerações de nossos ciclos de
mentiras, competições e guerras.
Mestre em Direito do Estado, professor de Direitos Humanos e tabelião. Nas
artes é roteirista, artista visual e autor do romance Tia Beth, sobre as dores e
perdas da ditadura militar.
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