Questões de Concurso Público Prefeitura de Delta - MG 2023 para Eletricista
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O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
Assinale a alternativa correta:
De acordo com o texto, a vida no Brasil é mais difícil para:
O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
Observe cuidadosamente as figuras dentro da tabela que estão no início do texto. Observe também a legenda (a explicação do significado das figuras).
Marque a alternativa incorreta.
O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
“...a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica...”
A expressão destacada significa que:
O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
O que é ser menina no Brasil? – Desigualdade de gênero desde a infância
Por Eliziane Lara
Desde que a entrada da mulher no mercado de trabalho se consolidou, nos acostumamos a ouvir a expressão “jornada dupla”. Ela serve para explicar que a mulher trabalha fora de casa e quando volta ainda tem que realizar todas as tarefas de casa, diferentemente dos homens que, em geral, assumem bem menos atividades no lar. O que revela uma pesquisa inédita realizada pela Plan, organização internacional que atua na defesa de direitos da criança, é que essa jornada dupla feminina, no Brasil, começa já na infância.
Intitulado “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências”, o estudo ouviu 1.771 meninas de 6 a 14 anos nas cinco regiões do país e constatou uma desigualdade gritante na distribuição de tarefas domésticas entre meninas e meninos. Para se ter uma ideia do tamanho desse abismo, 81,4% das meninas relataram que arrumam a própria cama, tarefa que só é executada por 11,6% dos irmãos meninos. 76,8% das meninas lavam a louça e 65,6% limpam a casa, enquanto apenas 12,5% dos irmãos lavam a louça e 11,4% limpam a casa. E a lista de atividades realizadas pelas meninas não para por aí, como mostra a tabela abaixo.


Os pesquisadores entrevistaram meninas matriculadas em escolas públicas e particulares, situadas no campo e na cidade. Assim, foi possível detectar a interferência de diferentes contextos sociais no cenário mapeado. Como exemplo, a pesquisa constatou que o trabalho doméstico das meninas é mais presente na zona rural (74,3% das meninas nas escolas rurais declararam limpar a casa) que no meio urbano (o percentual desce para 67,6% nas escolas públicas urbanas e para 46,6% nas escolas particulares urbanas).
A gerente técnica de empoderamento econômico e gênero da Plan, Célia Bonilha, explica que a cooperação nas atividades domésticas é importante para o desenvolvimento de meninas e meninos. “A gente constrói a nossa identidade de família a partir do momento em que divide as tarefas, mas a sobrecarga no caso das meninas é muito grande”. Célia chama atenção para o fato de que desde cedo já se começa a naturalizar nas famílias que cabe às meninas o papel de cuidadoras. Ainda pequenas elas ganham bonecas e fogõezinhos. Enquanto elas arrumam a própria cama, os irmãos saem para brincar e jogar bola, pois cuidar da casa “não é coisa de menino”.
Em efeito cascata, a sobrecarga de atividades para as meninas se acentua nos casos em que as mães possuem duplas jornadas de trabalho. Como explica Célia Bonilha, nessas situações as meninas assumem ainda mais responsabilidades no cuidado com a casa e os irmãos. Uma menina que antes de ir para a escola precisa arrumar a casa e lavar louça e quando chega prepara o almoço e cuida dos irmãos menores está assumindo um papel que traz muitas consequências. “Qual é o tempo que ela tem para estudar? Por que ela falta tanto às aulas? Falta porque tem que cuidar de alguém. Então a gente está proibindo, tirando o direito da menina de ser criança, de viver plenamente essa época de construção dos seus saberes, das relações sociais”, analisa Célia.
Outros caminhos
Há mais ou menos dois anos, a família de Soraya e de Assis Fideles precisou abrir mão da empregada doméstica que cuidava da casa enquanto eles trabalhavam, o que implicou uma nova forma de distribuição de tarefas entre eles e os dois filhos: a jovem Lindwie Fideles, de 17 anos, e o garoto Thandwie, de 11 anos. As atividades foram distribuídas de acordo com as habilidades e idades de cada um. O pai e servidor público Assis Fideles cozinha e lava as roupas, Lindwie lava o banheiro e Thandwie arruma a cama e ajuda com o lixo. “O desafio é a gente ver a família como uma comunidade. Então estamos todos fazendo por nós. Não é um favor que estou fazendo para os outros”, explica a mãe e jornalista Soraya. Ela também destaca que sempre contratou outras mulheres para ajudar na arrumação da casa, sinal do quanto a nossa sociedade atribui o cuidado doméstico ao feminino.
A forma como Assis e Soraya cuidam da própria casa é diferente daquilo que experimentaram na casa dos pais. Soraya vem de uma família de cinco irmãs e apenas um irmão, com quem ela sempre discutia, pois ele não arrumava a própria cama. Como resposta, era comum ouvir “Por que eu vou fazer isso se tem cinco mulheres nessa casa?”. Na casa de Assis, a mãe sempre assumiu todas as tarefas do lar e chegava a se levantar no meio da noite para preparar a comida para um dos filhos que chegasse mais tarde.
Outra situação preocupante mapeada pela pesquisa da Plan é que 13,7% das meninas de 6 a 14 anos declararam que trabalham ou já trabalharam fora de casa. Além disso, 2,3% afirmaram que estão procurando trabalho e 10,6% não quiseram responder a essa pergunta. No caso das meninas quilombolas o cenário é ainda mais grave: 24,1% delas responderam que trabalham ou já trabalharam. Entre todas as meninas que trabalham, o maior percentual (37,4%) afirmou que está realizando trabalho doméstico na casa de outra pessoa. Esse percentual chega a 50% no Mato Grosso e a 46,2% no Pará. Assim, quando saem de casa para trabalhar, as meninas irão se dedicar, em grande parte dos casos, aos cuidados com outros lares. Além de prejudicar a vivência da infância e da adolescência, Célia explica que a exploração do trabalho infantil doméstico expõe as meninas a várias outras violências, como o abuso sexual. Também há o risco de acidentes, pois elas desempenham tarefas para as quais ainda não estão prontas, como cozinhar ou passar roupas.
Para Soraya Fideles, uma das dimensões mais cruéis do trabalho doméstico é que ele é invisível. “Ninguém reconhece o esforço que está por trás de uma casa sempre limpa e de uma comida quentinha”, avalia. E uma das principais motivações que levaram a Plan a realizar o estudo é justamente a de tirar as meninas brasileiras, de 6 a 14 anos, de uma situação de invisibilidade. “Nós [equipe da Plan] fomos olhar pesquisas nacionais e vimos que existem estudos sobre meninas de 0 a 6 anos de idade e, depois, quando estão na adolescência. Nessa faixa de 6 a 14 anos elas somem, elas estão numa caixinha de cristal, como se não existissem”, afirma Célia Bonilha.
Homens e o direito de cuidar
Uma das perguntas feitas às meninas que participaram da pesquisa foi a seguinte: “Quem cuida de você no dia a dia?”. Com possibilidade de citar mais de uma pessoa, 76,3% responderam “mãe” e 26,8%, “pai”, na sequência, apareceu “avó” com 15,6%. Para Célia, se por um lado as respostas reiteram que o cuidado é visto com uma atividade tipicamente feminina, por outro ajudam a pensar também que a cultura machista brasileira está retirando do homem o direito de ser o cuidador.
O pai e produtor audiovisual, Davi Fuzari, sabe bem o que é poder usufruir do direito de cuidar. Desde que sua companheira, a bióloga Laura Barroso, engravidou, ele começou a diminuir as atividades no escritório e a assumir ainda mais cuidados com a casa e com Laura. Com o nascimento da filha, Helena, a mudança se aprofundou. Davi, que tem mais flexibilidade de horários para trabalhar, levou os equipamentos do escritório para casa, onde fica o dia todo cuidando da pequena Helena, nascida em abril de 2014. Laura, que tem emprego fixo, cumpre sua jornada fora de casa, mas se desdobra para continuar amamentando a filha, o que significa correr contra o trânsito e o relógio e poder passar em casa no horário de almoço e, depois, voltar o mais cedo que conseguir ao final do expediente.
As próprias famílias de Laura e Davi estranharam o modo como eles dividiram as tarefas. “Minha avó levou o maior susto quando viu o Davi trocando a fralda da Helena. Ela contou que meu avô não pegava os filhos quando eles eram bebês”, conta Laura. A organização familiar de Davi e Laura, ambos com 28 anos, representa uma mudança que ainda está em curso e ela não provoca estranhamento apenas em outras gerações. “Ainda é forte essa ideia de que o homem só brinca com as crianças. Vejo que a maioria dos meus amigos prefere ter um emprego melhor para poder pagar alguém que limpe a casa e cuide dos filhos”, reflete Davi.
Ele reconhece que cuidar da casa e da filha exige muito e implicou também uma revisão do planejamento financeiro, uma vez que ele teve que diminuir o ritmo de trabalho. Para 2015, Davi e Laura já preveem a necessidade de colocar Helena numa creche por pelo menos meio período, mas para eles todo o esforço é válido para poder ficar junto da filha o maior tempo possível. “Fico feliz porque vejo que a Helena está sendo bem assistida e está crescendo feliz e saudável”, conta Laura.
(Fonte:https://www.geledes.org.br/o-que-e-sermenina-no-brasil-desigualdade-de-genero-desdeinfancia/Acesso em 15/05/2023)
Observe a ilustração abaixo e marque a resposta correta sobre ela.

Fonte: http://www.otempo.com.br/charges/chargeo-tempo-31-01-1.1223683
Leia a tirinha abaixo e assinale a alternativa incorreta sobre ela.

BROWNE, D. “Hagar, o horrível”. Porto Alegre: LP&M, 2008. p. 40.
SONHO LONGE
Maria Dinorah
No campo
o mato
a enxada, a dança
do menino
que corta e carpe
e não descansa.
A boia
é fraca e fria.

SONHO LONGE
Maria Dinorah
No campo
o mato
a enxada, a dança
do menino
que corta e carpe
e não descansa.
A boia
é fraca e fria.
