Questões de Concurso Público Prefeitura de Boa Vista do Sul - RS 2026 para Fonoaudiólogo

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Q4177280 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

No texto, o episódio da aluna que se declara exausta diante de uma agenda composta por massagem, palestra e jantar funciona como ponto de partida para uma reflexão mais ampla. Considerando a tessitura argumentativa, esse episódio permite ao autor evidenciar que: 
Alternativas
Q4177281 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

No trecho “lecionava latim, português em escolas maristas”, a forma verbal lecionava está flexionada no: 
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Q4177282 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

Ao recuperar a frase paterna “minha agenda é por minuto”, mesmo quando o pai já não possuía grandes atividades, o autor constrói uma reflexão sobre a persistência de determinadas autoimagens. Nesse contexto, a permanência da expressão revela que: 
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Q4177283 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

A afirmação “Agenda é uma concepção psíquica e cultural” sintetiza uma das ideias centrais do texto. Considerando os exemplos mobilizados pelo autor, essa frase significa que: 
Alternativas
Q4177284 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

No trecho em que menciona a “glamourização do cansaço”, o autor critica uma forma contemporânea de prestígio social. A partir do texto, essa crítica recai sobre: 
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Q4177285 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

No trecho “Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres”, a expressão querida leitora e estimado leitor exerce a função sintática de:
Alternativas
Q4177286 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

No encerramento, ao afirmar “Tenho esperança em gente fácil”, o autor ressignifica uma expressão que poderia ter valor depreciativo. No contexto da crônica, “gente fácil” designa pessoas que: 
Alternativas
Q4177287 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

No trecho “Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz”, a conjunção destacada estabelece uma relação lógico-sintática essencial para a construção do argumento. Considerando a articulação entre as orações, assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Q4177288 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

No período “Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope”, o termo quem desempenha papel relevante na organização sintática e na generalização do argumento. Sobre esse emprego, analise as assertivas: 
I. Em ambas as ocorrências, quem funciona como pronome relativo indefinido, introduzindo orações de valor substantivo que assumem função de sujeito das formas verbais “enfrenta” e “descobre”. 
II. Em ambas as ocorrências, quem funciona como conjunção integrante, pois introduz orações que completam o sentido dos verbos “enfrenta” e “descobre”.
Das assertivas, pode-se afirmar que:
Alternativas
Q4177289 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.



Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum


    O fato ocorreu. Uma aluna de um curso livre reclamou que tivera uma massagem pela manhã, minha palestra sobre arte depois do almoço e, ainda, enfrentaria um jantar com amigas à noite. Fazia ar de cansada. Um dia com três compromissos! Eu soltei uma ironia: “Não sei como a senhora aguenta”. Ela sorriu e leu como solidariedade minha frase. Mais tarde, pensei que minha resposta era filha de uma inveja ressentida. Eu ministrava 64 aulas por semana, inclusive aos sábados à tarde. Tinha de prepará-las e deslocar-me pela cidade. Se me oferecessem uma jornada com massagem matinal, lindas imagens numa sala climatizada à tarde e comida de forma abundante à noite, eu teria um dia livre e feliz. A senhora, em questão, sentia genuíno esgotamento. 


    Cansaço é relativo. Diz respeito às potências do sujeito e dos seus hábitos. Quem dá 64 aulas por semana olha para alguém que leciona 30 como um quase vagabundo. Existem especificidades também: há pessoas que vão ao supermercado e entram em coma, logo em seguida. O curioso não parece estar na variedade infinita do gênero humano, todavia no fato de que quase todo mundo se considera muito ocupado. 


    Meu pai trabalhou bastante. Houve um momento em que ele cursava Direito em Porto Alegre, lecionava latim, português em escolas maristas e era vereador em São Leopoldo (RS). Estudava nos ônibus. Emagrecia devido ao esforço. Depois, já com o título jurídico, atendia até a noite. Dizia a todos: “Minha agenda é por minuto”. Era verdade pelas audiências, viagens, consultas e compromissos. Passaram-se os anos, ele se concentrou apenas no escritório, abandonou o magistério e a política. Casal tradicional, ele nada fazia no nosso lar. Minha mãe providenciava tudo. Nos últimos dez anos da sua existência, deixou de advogar e entrou no merecido descanso. Curiosidade: a expressão “minha agenda é por minuto” permaneceu. Aos 75 anos, seus compromissos eram ler jornais, alimentar-se, ir à missa e jogar xadrez. O dia se esgarçava, lânguido. Sua consciência de homem atarefado sobreviveu. Morreu tranquilo, sem grandes atividades. Entrou na eternidade, com os minutos contados e agenda imaginária repleta. A família adotou com ironia o lema paterno: repetimos “minha agenda é por minuto” para lembrar nosso amado pai e a relatividade da fala. 


    Sentir-se ocupado atende a uma demanda de culpa comum. Temos a dificuldade que a aristocracia superou há séculos: existir sem compromissos. Melhor – a nobreza entende como agenda o que a classe trabalhadora imagina ser lazer. 


    Volto à minha simpática aluna, paulista quatrocentona. Cada atividade implica preparar-se, vestir-se, ocupar a mente e enfrentar um novo ambiente. Eu entendo como compromisso de fato o que gera dinheiro. Não nasci duque. Um jantar está em escaninho diferente no cérebro. Para ela e para a Condessa Viúva da série Downton Abbey (feita pela genial Maggie Smith), emerge a dúvida: o que é um fim de semana? Todos os dias são tomados de jantares, eventos, aulas. Interessante: se alguém desejar marcar algo para a próxima semana, ela responderá como o mais ocupado dos pediatras de um posto do SUS: “Não posso!” Agenda é uma concepção psíquica e cultural.


    Exagero? Você já se encontrou com alguém que assume o ócio, afirma que nada faz e diz que possui o tempo todo livre? Deve ser alguém raro... Tente marcar um teatro para hoje à noite. Todos dirão que é muito em cima da hora, mesmo não tendo quaisquer compromissos no horizonte. Quase todos nos consideramos extremamente ocupados. E ainda ficamos ao celular nos elevadores para deixar claro ao mundo que a vida nos absorve por completo.


    Sim, eu sei, querida leitora e estimado leitor, vocês têm muitos afazeres. Quem trabalha fora enfrenta o caos do mundo. Quem fica em casa descobre uma rotina de Penélope, a rainha da Ítaca que tinha de tecer todo dia e desfazer à noite o realizado. Uma casa é um buraco negro de tempo. Apesar disso, já pararam para pensar que sempre alegamos mais ocupações do que, de fato, temos? Identifico um discurso que nem sempre se casa com o real. É considerado chique no mundo da glamourização do cansaço (denunciada por Byung-Chul Han) andar rápido e consultar o celular como se nele houvesse os códigos das armas nucleares. Sim, somos atarefados. A pergunta: por que aumentamos ainda mais nossa ocupação? Do que nos defendemos quando encarnamos a figura do ser sem tempo para coisa alguma?


    Convidei no fim da tarde um casal querido para um happy hour. Meu amigo respondeu: “Com prazer, desde que você não nos considere fáceis”. Aparentemente, ter tempo para a felicidade pode ser visto com desconfiança, pois a pessoa poderá ser classificada como “fácil”. Acredite: existe gente que, podendo, aceita um convite no dia e permite-se a alegria sem medo do julgamento. Tenho esperança em gente fácil. Os difíceis podem ter problemas cardíacos bem mais cedo... Boa semana para ocupados e para felizes. 


Autor: Leandro Karnal - Estadão (adaptado). 

No trecho “Um jantar está em escaninho diferente no cérebro”, a palavra destacada foi empregada com sentido figurado, indicando que, para o autor, certas atividades são colocadas em uma espécie de __________ mental, isto é, em uma categoria distinta daquela reservada aos compromissos que ele considera efetivamente obrigatórios.
Assinale a alternativa que preenche corretamente a lacuna.  
Alternativas
Respostas
1: A
2: A
3: B
4: B
5: A
6: A
7: C
8: A
9: B
10: D