As várias formas de violência contra o idoso
A todo tempo assistimos a cenas de violência em nosso
cotidiano: é uma grosseria desnecessária e sem qualquer explicação ou até mesmo uma briga de trânsito que acaba levando a
óbito alguém que só pretendia chegar até o trabalho. E de tanto
assistirmos à barbárie corremos o risco de começarmos a achar
normal aquilo que de fato não o é.
Não é novidade para ninguém que, a depender do grau de
vulnerabilidade do idoso, sua fragilização física e cognitiva e prejuízo na capacidade de gerir a própria vida, os cuidados com essa
população podem se tornar mais exigentes e o idoso necessite
cada dia mais de outras pessoas a ajudarem na manutenção de
suas atividades básicas da vida diária, porém em muitas situações
isso não acontece, ficando o velho desguarnecido de cuidados
básicos, como higiene, alimentação, medicação e até moradia.
A violência contra o idoso não é assunto novo e é romântico
imaginarmos que em tempos passados isto não ocorria. Sempre
ocorreu; no entanto, somente a partir da década de 70 é que os
maus-tratos contra os idosos mereceram algum destaque em
pesquisas médicas e sociológicas. No Brasil, somente nos últimos
trinta anos é que começamos a discutir com verdade a violência
que os idosos sofrem, dentro e fora de casa.
Foi por meio da assinatura de Tratados e Convenções Internacionais que o tema foi tomando corpo social e hoje já contamos
com inúmeros instrumentos, tanto nacionais quanto internacionais para proteção da população idosa. Segundo a Organização
Mundial de Saúde, a violência contra o idoso ocorre por meio de
ações ou omissões, que prejudicam a integridade física e emocional da pessoa idosa, impedindo o seu desenvolvimento social.
O Estatuto do Idoso, seguindo os moldes da Organização
Mundial de Saúde, considera violência contra o idoso qualquer
ação ou omissão praticada em local público ou privado, que lhe
acarrete a morte, dano ou sofrimento físico ou psicológico. O
mesmo documento considera a violência contra o idoso caso de
notificação compulsória pelos serviços de saúde público ou
privado, que deverá ser comunicado à autoridade policial, ao
Ministério Público, ao Conselho Municipal do Idoso, ao Conselho
Estadual do Idoso ou ao Conselho Nacional do Idoso.
Estudos demonstram que a violência contra o idoso pode
ser oriunda de diversos meios, que vão desde maus-tratos físicos,
passando por abusos psicológicos, sexuais e financeiros, além de
abandono, negligência e autonegligência. Os maus-tratos físicos
vão desde os nada inocentes beliscões até mesmo surras,
privação de comida, de higiene e de cuidados básicos do dia a dia,
não deixando de mencionar os casos em que o idoso é levado a
óbito em decorrência dos maus-tratos físicos ou negligência em
oferecer-lhes o básico para a sua sobrevivência.
Os abusos psicológicos, muitas vezes travestidos de simples
xingamentos, podem trazer para o idoso um declínio de sua autoestima e da visão positiva que tem sobre a vida. Estudos demonstram que quanto menor a renda e maior o grau de dependência econômica e social possui o idoso, maiores são as chances
de ele ser vítima dessa espécie de abuso. Novamente quem passou a vida na penúria é penalizado quando do seu envelhecimento.
Ao contrário do que podem pensar os mais desavisados, os
idosos não estão imunes a serem vítimas de abusos sexuais.
Nesses casos, eles podem ser vítimas de violência física, verbal ou
ameaças caso não cumpra o favor sexual solicitado pelo agressor.
Um estudo nacional conduzido por Melo demonstrou que cerca
de 1% dos idosos sofrem violência sexual e destes, 95% são
mulheres.
Uma outra espécie de violência ainda pouco estudada, mas
que merece destaque, é a financeira. Não são poucos os idosos
arrimos de família que veem seus salários servirem integralmente
ao sustento do lar, faltando-lhes, inclusive, medicação de uso
diário. Muitas vezes o salário do idoso é o único rendimento fixo
daquele núcleo familiar e não é incomum que os familiares
“administrem” integralmente seus ganhos, deixando pouca ou
nenhuma margem para que os idosos deem a destinação que
bem entenderem para o dinheiro.
E, por fim, a pior espécie de violência que pode sofrer o
idoso é aquela que acontece no seio de sua própria família, já que
ali era o lugar no qual imaginamos idilicamente que estariam
protegidos e abrigados dos males que a vida em sociedade pode
trazer. O triste em tal realidade é que os casos de denúncia ainda
são raros, seja por vergonha, por medo da exposição ou por
temor de não ter com quem contar nos dias finais da vida: os
idosos ainda se calam diante de familiares que usam da violência
sua linguagem comunicativa.
Não se tem dúvida dos males que a violência pode ocasionar
para os idosos, que têm na vulnerabilidade sua condição existencial, cabe a nós, membros da sociedade que está em franco processo de envelhecimento, buscarmos por implantação de políticas públicas capazes de mitigar as causas da violência, criando
meios e oportunidades para que as nossas sociedades possam
ser, de fato, partilhadas entre jovens, adultos e velhos, com o reconhecimento recíproco uns dos outros.
Lutar contra a violência em qualquer faixa etária é um
compromisso de uma sociedade civilizada e lutar contra esta violência praticada contra os idosos é ainda mais necessário, não
só pela vulnerabilidade desta população, mas também porque
todos na sociedade envelhecerão e se este problema não for
adequadamente abordado e solucionado, todas as pessoas correrão o risco de serem vítimas desta crueldade. Fazer mal a
quem não tem como se defender, principalmente os mais fragilizados, não é uma atitude humana. Cuidemos de nossos idosos.
Amanhã seremos nós que seremos os velhos.
(Juraciara Vieira Cardoso e José Milton Cardoso Junior, 11/07/2022. Disponível
em: https://www.em.com.br/app/colunistas/vitalidade/2022/07/11/noticiavitalidade,1379359/as-varias-formas-de-violencia-contra-o-idoso.shtml.
Acesso em: 07/2022. Adaptado.)