Questões de Concurso Público Prefeitura de Carangola - MG 2019 para Agente de Combate às Endemias - ACE

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Q4369138 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

A linguagem predominante no texto é classificada como:
Alternativas
Q4369139 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

“Ela vinha descendo em vertical desde a nuvem...” (L. 38).

A palavra sublinhada retoma, no texto, o vocabulário:
Alternativas
Q4369140 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

“Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais separados.” (L. 43-46)

O período acima sublinhado denota a ação descrita pela narradora que é baseada em:
Alternativas
Q4369141 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

Recurso linguístico muito comum na produção textual é aquele capaz de referir-se a seres irracionais ou a objetos inanimados, ações, qualidades e sentimentos que são próprios dos seres humanos. Assinale a opção que contém um exemplo desse recurso.

Assinale a opção que contém um exemplo desse recurso.
Alternativas
Q4369142 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

O sentido geral do texto é construído pela autora com imagens:
Alternativas
Q4369143 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

O par de vocábulos do texto acentuado pela mesma razão é:
Alternativas
Q4369144 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

Assinale a opção em que o emprego do sinal indicativo de crase é facultativo.
Alternativas
Q4369145 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

A _____ possibilidade de uma grande tempestade me deixou _____ e extremamente _____. Assine a opção de preencher corretamente as lacunas do fragmento acima com as palavras corretamente grafadas.

Assinale a opção que preenche corretamente as lacunas do fragmento acima com as palavras corretamente grafadas.
Alternativas
Q4369146 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

Assinale a alternativa em que a palavra sublinhada possui o valor semântico de condição:
Alternativas
Q4369147 Português

Tempo de chuva é março


      Chove. Coisa abençoada é chuva de verão, pois generosamente nos refresca, a nós que ingratos a chamamos de “mau tempo”.


    Acordei de madrugada com o grande espetáculo operístico de trovões e relâmpagos, fui verificar janelas, verifique ralos de terraço, evite inundações. Dever cumprido, voltei para a cama. Mas lamento que o ar condicionado me impeça de ouvir o gotejar lá fora, delícia maior é proteger-se debaixo dos lençóis enquanto a natureza esbraveja.


      E porque eu tentei inutilmente ouvir a voz da chuva sem que a volta ao sono me fosse consentida, revi mentalmente uma imagem de publicidade da TV, gota d'água caindo em câmara lenta noutra água, e me colocai no lugar dos pingos que despencam em rota especial de especificações.


     O impacto mais contundente é certamente aquele contra qualquer superfície de metal. Sinos costumam estar protegidos em campanários ou debaixo de telhados, mas gosto de imaginar que emitiriam sua voz se tocados por uma ou muitas gotas. Os telhados de zinco e os aparelhos de ar condicionado fazem o que podem, mas não foram concebidos para o som, não são dotados. [...]


      É em silêncio, ou quase, que uma gota de chuva encontra outra água. Olho o mar e penso no quase aniquilamento, na renúncia de si, que a chuva faz chegar que água salgada e revolta. Não há reconhecimento, embora a origem ali esteja. A evaporação transforma, e o calor que a gerou, purifica. A água do mar tornou-se doce no trânsito até a nuvem e doce despenca. Mas só até o impacto que obrigará a incorporar o antigo sal, a antiga identidade e novamente faz-se mar, onda, espuma, abrigo de sereia.


     Distinto é o encontro da chuva com água do lago. A boa filha à casa torna, recebida pelos grandes braços do lago sempre abertos. Bem-vinda seja. Morei, na infância, em cidade lacustre à qual voltei mais tarde, mas dias de chuva traziam consigo uma melancolia especial, neblina pairando sobre uma superfície que se faz fosca. Talvez fosse o doce choro do reencontro.


      Mal posso pensar no impacto de uma gota de chuva com água do rio. Ela vinha descendo na vertical desde uma nuvem distante e, com só bater na correnteza, é obrigada a mudar o prumo e correr, correr, correr na horizontal, por vezes batendo-se entre pedras. Melhor cair em cachoeira e conservar por mais um tanto a verticalidade.


     Quando eu era adolescente e não existiam os produtos e as promessas capilares que nos submergiam atualmente, lavávamos o cabelo com água de chuva certos de que ficariam mais felizes. Não era tempo de poluição, mas o trânsito celeste e a filtragem das nuvens deixavam garantir uma pureza maior, alada e mágica, que se transmitiria aos nossos cabelos. Hoje a chuva é ácida, contaminada, e mais prudente é enfrentá-la de guarda-chuva em punho. Ainda assim, continua sendo a benção da terra.


      Só a cidade não gosta de chuva. Mas a culpa não é da chuva. É da cidade, que se expande frenética e se impermeabiliza no asfalto impedindo a água de penetrar no chão. A cidade é fábrica de enchentes,a serem postadas na conta do “mau tempo”.


     O campo, ao contrário, ama a chuva e o desejo, encontro casado em choque que não se vê, cada gota absorvida continuando seu percurso terra adentro para dar de beber as raízes e seres. A chuva, no campo ou no bosque, amamenta a vida.


(Marina Colasanti)

A expressão “ainda assim” que aparece em “Ainda assim, continua sendo a benção da terra.” (L. 50 e 51), introduz uma ideia de
Alternativas
Respostas
1: A
2: B
3: D
4: C
5: B
6: C
7: A
8: B
9: C
10: A