O passado que não passou
Virou museu, livro, festival. Só não virou passado. Barbacena, entre uma ladeira e outra de Minas, dificilmente é separada do
seu passado como casa da loucura brasileira. Foi abrigo de vários hospitais psiquiátricos, como o famoso Colônia, palco de mais
de 60 mil mortes numa época em que ser triste era loucura. As fortes cenas de internos dormindo no chão, já que entre cama e
concreto não havia diferença, indigentes num lugar que deveria ser o caminho para a recuperação e que foi, no melhor dos casos,
o caminho mais curto para o fim de tantas vidas são, agora, história, literatura, reflexão e debate na sociedade local. Porém, a cada
4 anos, temos uma dose de insanidade para nos lembrar da nossa dolorosa alcunha.
O jornalista Hiram Firmino comenta, no livro Nos porões da loucura, sobre os alicerces dos centros psiquiátricos — plataformas
de deputados, prefeitos, secretários e diretores. As diretrizes dos tratamentos em Barbacena eram formadas a partir de interesses
econômicos e eleitorais, dificilmente tendo em vista o real avanço da saúde pública e da humanização dos pacientes. Milhares de
corpos eramvendidos para os cursos demedicina, já que cadáveres não faltavamnos hospícios,mas simmédico, apoio, investimento.
Faltava boa vontade dos governantes. Homens, mulheres e crianças eram internados porque bebiam demais, namoravam demais,
choravam demais e as instituições aceitavam, porque políticos e diretores lucravam demais. E os barbacenenses, de berço ou de
coração, não estamos muito longe dos protagonistas deste drama.
Num trecho do livro O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino, o herói Viramundo é questionado por ummorador de Barbacena
se é biista ou bonifacista. Seria alheio ao enredo da loucura não fosse o fato de Viramundo ter sido internado como louco, não fosse
o fato de que biista é quem vota na família Bias Fortes e bonifacista é quem vota na família Bonifácio Andrada. O ponto aqui é que
as famílias Bias Fortes e Bonifácio Andrada ainda são as duas grandes vertentes da política local. Não subo, porém, no palanque
da oposição contra as duas famílias; o que exponho é que não somos capazes de sair do script já tão bem conhecido de alternância
de poder, em que até as divergências começam a convergir.
De que a psiquiatria viveu maus momentos aqui não há dúvidas, mas Barbacena não é só o porão da loucura brasileira. A
cidade também é das rosas, do povo mineiro que acolhe todos os anos mais de 150 jovens, meninos ainda, de todo o Brasil que vêm
para cá em busca do sonho de se tornarem oficiais aviadores e encontram aqui os seus novos lares. Não sou mineiro, mas sou filho
adotivo de Barbacena — que de madrasta não tem nada. Não só o Hospital Colônia, não só o Holocausto Brasileiro: Barbacena é
seu povo e a história de cada um que aqui vive ou viveu, loucos ou sãos, esta é BQ, a Barbacena Querida. É por isso que o nosso
dever é o de sermos lúcidos, o passado já mostrou que não existe riqueza neste mundo que pague o preço do descaso. É este
descaso que precisamos analisar, já que o que aconteceu não foi só fruto de uma medicina precária, mas de uma política de má-fé
que temo perdurar até hoje por aqui.
Seja Andrada, Bias, ou Viramundo, o que Barbacena precisa é de um povo que, cansado da loucura a nós imposta, vote com a
consciência dos que se recusam a aceitar a senilidade como cultura. Observemos o que Saramago expõe em seu romance Ensaio
sobre a lucidez: a ideia de uma conscientização autônoma da população frente ao poder político. Uma comoção sem arma, sem
luta, sem loucura. Uma comoção sã, de fazer da urna a extensão da força de um povo guerreiro. E quando me perguntarem, ao
descobrirem que vivi na Cidade dos Loucos, se sou biista ou bonifacista, se sou louco ou são, responderei sem sombra de dúvidas:
sou filho adotivo de Barbacena, cidade de subidas intermináveis e de pessoas memoráveis. Sou filho da cidade das rosas, do
céu mais bonito que já vi. Louco eu seria se não visse beleza no “trem” de Minas, como no “meu” do meu berço paulista. Talvez
sejamos todos um pouco loucos, mas é uma loucura de querer sorrir — a tristeza já morou por muito tempo em nossa cidade e está
convidada a se retirar.
Disponível em: https://medium.com/medium-brasil/o-passado-que-nao-passou-caa48be90f15. Acesso em: 04.mai.2025. Adaptado.