Questões de Concurso Público Prefeitura de Tapira - MG 2023 para Professor dos Anos Finais do Ensino Fundamental II - Língua Portuguesa

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Q3661142 Português

Leia o texto para resolver a questão.



"Um homem na estrada recomeça sua vida

Sua finalidade, a sua liberdade

Que foi perdida, subtraída

E quer provar a si mesmo que realmente mudou

Que se recuperou e quer viver em paz

Não olhar para trás

Dizer ao crime, "nunca mais!"

Pois sua infância não foi um mar de rosas, não

Na FEBEM, lembranças dolorosas, então

Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim

Muitos morreram sim, sonhando alto assim

Me digam quem é feliz

Quem não se desespera

Vendo nascer seu filho no berço da miséria?

Um lugar onde só tinham como atração

O bar, e o candomblé pra se tomar a benção

Esse é o palco da história que por mim será contada

Um homem na estrada [...]"


(Um homem na estrada, RACIONAIS MC'S, 1993)



Na primeira estrofe da canção do grupo de RAP Racionais Mc's, é feita uma breve descrição da trajetória da personagem. Pode-se inferir, a partir do texto, que: 

Alternativas
Q3661143 Português

Após ler a tirinha de Teo & O Mini Mundo, responda à questão. 


Imagem associada para resolução da questão


O humor da tirinha se dá pelo fato de: 

Alternativas
Q3661144 Português
Assinale a alternativa em que a relação estabelecida pela conjunção destacada está corretamente indicada nos parênteses.
Alternativas
Q3661145 Português

De acordo com a norma gramatical, o verbo deve sempre concordar com o sujeito. No entanto, há alguns casos especiais de concordância verbal em que a dupla concordância é aceita, a depender do termo que assume a função de sujeito.


Dentre as alternativas abaixo, assinale a que o termo em destaque permite a dupla concordância:

Alternativas
Q3661146 Português

O adjetivo é a classe de palavras que tem a função de qualificar/delimitar o substantivo que acompanha; além disso, ele possui diferentes graus.


Assinale a alternativa que possui uma adjetivação realizada no grau superlativo absoluto analítico: 

Alternativas
Q3661147 Português

“Eu me considero um intelectual “outsider”, coisa que é raro no Brasil: não pertenço a partido, grupos intelectuais, não respondo a nenhum credo, não participo de qualquer militância.” (Milton Santos)


Na frase transcrita do célebre geógrafo brasileiro Milton Santos, há o uso de aspas que, nesse caso, foi utilizada para:  

Alternativas
Q3661148 Português
Dentre as alternativas a seguir, assinale a que apresenta, entre parênteses, a definição correta do termo da oração destacado. 
Alternativas
Q3661149 Português
Assinale a alternativa em que a relação lógico-semântica estabelecida pela conjunção em destaque esteja corretamente indicada nos parênteses: 
Alternativas
Q3661150 Português
Desabafo

Desculpem-me, mas não dá pra fazer uma cronicazinha divertida hoje. Simplesmente não dá. Não tem como disfarçar: esta é uma típica manhã de segunda-feira. A começar pela luz acesa da sala que esqueci ontem à noite. Seis recados para serem respondidos na secretária eletrônica. Recados chatos. Contas para pagar que venceram ontem. Estou nervoso. Estou zangado.
CARNEIRO, J. E. Veja, 11 set. 2002 (fragmento).
Nos textos em geral, é comum a manifestação simultânea de várias funções da linguagem, com o predomínio, entretanto, de uma sobre as outras.

No fragmento da crônica Desabafo, a função da linguagem predominante é a emotiva ou expressiva, pois:
Alternativas
Q3661151 Português

Leia a tirinha para resolver a questão.


Imagem associada para resolução da questão


No primeiro quadrinho, é utilizada uma sequenciação de verbos (use, beba, coma, prove). Os verbos mencionados encontram-se flexionados: 

Alternativas
Q3661152 Atualidades

“As inundações na ________ causadas pela passagem da tempestade Daniel já causaram ao menos 11,3 mil mortes, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha informou em comunicado nesta quinta-feira (14) referente apenas à cidade de Derna, cidade mais afetada”.


Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-

noticias/2023/09/12. / Acesso em: 15/09/2023



O país citado acima é: 

Alternativas
Q3661153 Atualidades

“Um forte terremoto de 6,8 de magnitude atingiu o centro da(o) ________ nesta sexta-feira (8) à noite, com epicentro próximo à capital do país, e deixou ao menos 2.012 mortos e 2.059 feridos — sendo 1.404 em estado grave —, segundo um novo relatório do Ministério do Interior publicado na noite de sábado (9). Segundo o Itamaraty, até o momento não há informações de brasileiros mortos ou feridos.”


Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-

noticias/2023/09/08. / Acesso em: 20/09/2023


O país o qual a notícia faz referência é: 

Alternativas
Q3661154 Meio Ambiente

“A COP, sigla para Conferência das Partes (do inglês, Conference of the Parties), é um evento anual promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) que reúne representantes de todo o mundo, entre eles, diplomatas, governos e membros da sociedade civil.”


Disponível em: https://exame.com/esg/entenda-o-que-e-cop28/ / Acesso em: 11/08/2023



Sobre a COP, marque a opção que indica o principal tema debatido na Conferência das Partes: 

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Q3661155 Meio Ambiente

“No dia 1º de julho de 2022, a Corte Interamericana de Direitos Humanos emitiu uma decisão em que exige uma resposta do Brasil para "proteger a vida, a integridade pessoal e a saúde dos membros do povo indígena yanomami”


Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64388465



Marque a opção que indica o principal problema que afeta a população yanomami:  

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Q3661156 Meteorologia
“A tempestade tropical Elsa pode se aproximar potencialmente da Flórida. Esta será a terceira tempestade de furacões de 2021 a ameaçar localidades nos Estados Unidos. Elsa se fortaleceu nesta quinta feira de manhã e se tornou uma tempestade tropical com ventos de 72 km/h.” 
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/tempestade-tropical-elsa.

Marque a opção que indica o local de formação da tempestade tropical Elsa:  
Alternativas
Q3663895 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.



Ortografia não é língua!


Vivemos numa cultura grafocêntrica, isto é, numa cultura em que a escrita exerce um papel central na vida diária das pessoas. Mesmo as analfabetas estão imersas nessa cultura, porque têm de pegar ônibus, fazer compras, lidar com dinheiro, cartão de banco, documentos, boletos, embalagens, ícones do telefone celular etc. A escrita está presente na vida delas o tempo todo, tanto quanto na das pessoas alfabetizadas. Aliás, justamente por isso, as especialistas no tema dizem que existem pessoas analfabetas, sim, mas não pessoas iletradas, já que todas têm de aprender a interagir a todo momento (com maior ou menor desenvoltura) com a letra, ou seja, com a escrita.


Nós também nos movemos no interior daquilo que se chama paisagem linguística. Por onde andamos, no meio urbano e também fora dele (dentro de um avião, por exemplo), estamos rodeadas de cartazes, letreiros de lojas, sinalização de trânsito, painéis de elevadores, publicidade colada nos postes, instruções escritas no asfalto, numeração das casas, folheto de cartomante, placas com nomes de ruas, inscrições em veículos etc. A paisagem linguística é objeto de conflitos em sociedades plurilíngues, onde os grupos de falantes de línguas minorizadas lutam para que todo esse universo de escrita também esteja grafado em sua língua não hegemônica. No Canadá, por exemplo, tudo o que chega às mãos da população tem de vir, obrigatoriamente, por lei, escrito em inglês e francês, assim como, na Bélgica, em neerlandês e francês. (...) Esse impacto da escrita na nossa vida em sociedade é tamanho que para muitas pessoas é difícil pensar em “língua” sem pensar imediatamente em “escrita”, quando não acham que são sinônimos! Mas não são.


Para essa enganosa sinonímia contribui muito o processo de escolarização. Mesmo sendo precário e quase indigente no Brasil, o ensino institucionalizado de língua se faz, evidentemente, por meio da escrita e da leitura do que está escrito. Isso explica, por exemplo, por que a grande maioria do que se chama “erro de português” é, na verdade, mero erro de ortografia: “Credo, o e-mail de fulano está cheio de erros de português”.


Vai ver, são basicamente erros de ortografia. Quando ouvimos alguém dizer [kizɛh], não temos a menor ideia de se, na hora de escrever, ela vai grafar quiser, com <s>, ou quizer, com <z>.  A pronúncia [kizɛh] é um fato de língua, mas a grafia considerada correta (por lei) é quiser, e isso não tem nada a ver com a língua, mas com as convenções que foram estabelecidas socioculturalmente para a representação escrita (sempre falha e incompleta) dos fatos de língua (por que existe debaixo, uma palavra só, e de cima, duas? Por que quiser com <s> e fizer, com <z>?). Tanto é assim que nossos avós escreviam physica mas pronunciavam [fizika], exatamente como pronunciamos hoje, apesar de escrevermos física. Por isso é que dizemos (e escrevemos): a ortografia não faz parte da língua. Aliás, até o início do século passado o que se escrevia era orthographia!


Quando, na linguística, falamos de língua, o que temos em mente é um conjunto de regularidades que permitem o funcionamento de um modo de falar presente numa dada comunidade humana: os sons que compõem esse idioma, a combinação deles, a morfologia e a sintaxe (ou seja, a gramática), as formas variantes que as e os falantes têm de dizer a mesma coisa (uma “pôça” ou uma “póça” d’água, por exemplo, é algo que independe da ortografia, que é poça para os dois casos, mas de fatores sociais variáveis, como a origem geográfica da pessoa) etc. É assim que aplicamos o rótulo de língua aos modos de falar de centenas de etnias indígenas diferentes, muito embora elas não tenham uma tradição escrita originária — são as pesquisadoras, antropólogas e linguistas, que, para empreender seus estudos, colocam no papel essas línguas, usando convenções gráficas que jamais passaram pela cabeça de quem as fala. Se nós escrevemos tupi, é porque falamos português. Se o Brasil tivesse sido invadido e colonizado por ingleses, por exemplo, o nome dessa etnia e de sua língua provavelmente seria escrito Toopee; se por franceses, toupi ou algo assim. Se fossem russos, nem sequer usariam o alfabeto latino… E nunca é demais lembrar: existem muitas centenas de línguas faladas no mundo hoje que não têm forma escrita, existem exclusivamente na forma oral — são as chamadas línguas ágrafas. No Brasil mesmo, passam de cem. São ágrafas, mas são línguas, em todos os sentidos da palavra.


Ortografia não é língua, ok. Mas é gramática? A resposta depende do que se entende por gramática. A grandíssima maioria das pessoas entende “gramática” como “livro de gramática”, uma obra que contém supostamente tudo o que existe na língua e, principalmente, tudo o que é “certo”. Assim, se o livro chamado “gramática” tem um capítulo que trata da ortografia, então a ortografia faz parte da gramática (foi disso que tentou me convencer a pessoa que me retrucou). Na ciência linguística, no entanto, gramática é um termo que desgina “todo o sistema e estrutura de uma língua ou das línguas em geral, habitualmente considerado como constituído de sintaxe e morfologia (incluindo flexões) e às vezes também fonologia e semântica”, conforme define o famoso dicionário Oxford da língua inglesa (pensei em usar a definição de um conhecido dicionário brasileiro, mas topei com um “estudo sistemático ... do sistema” e desisti).


Assim, para a teoria linguística, tanto “tu foi” quanto “tu foste” são regras da gramática do português brasileiro, assim como “as mesa pequena” e “as mesas pequenas”, para citar só esses mínimos exemplos. Significa que tudo o que é possível encontrar nos usos autênticos das pessoas que falam uma língua pertence à gramática dessa língua — e tudo o que é possível encontrar nesses usos pode ser sistematizado em regras. Sim, existe uma regra (cognitiva) que governa “as mesa pequena ficou lá fora”: se as gramáticas normativas não apresentam essa regra, o problema é delas. Observe que, na definição do dicionário Oxford, não aparece letra, pontuação, divisão silábica, acentuação gráfica… nada do que constitui o modo de escrever a língua. Por quê? Ora, porque a forma de escrever uma língua (e, principalmente, sua ortografia oficial) não faz parte da gramática dessa língua. Se eu enviar uma mensagem escrita assim: “quandu vossê xegá in caza, mi aviza”, a ortografia está errada, mas a gramática está perfeita, tanto que, lida em voz alta, qualquer falante de português brasileiro vai reconhecer ali sua língua.

[...]


A ortografia é uma decisão política, está regulamentada por lei, de modo que podemos, sim, dizer que existe erro de ortografia, mesmo sendo uma lei que não prevê sanções contra seu descumprimento. Por sua vez, a gramática (no sentido que se dá ao termo em linguística), seja de que língua for, não tem a mais remota possibilidade de ser regulamentada por lei, muito embora tanta gente acredite que os manuais de gramática normativa têm de ser seguidos à risca, como códigos penais. Não têm. Os usos da língua são múltiplos e variáveis, se transformam ao longo do tempo, o que provoca mudanças na gramática, mudanças às vezes acompanhadas pela ortografia oficial (como no caso do português, com tantas e obsessivas reformas ortográficas ao longo do século 20), às vezes não. (...)


A eficácia do ensino-aprendizagem da ortografia não depende do sistema de escrita nem da maior ou menor racionalidade de suas regras. O português tem uma ortografia bastante razoável no que diz respeito à relação letra-som, mas, com exceção de Portugal, os demais países que têm o português como língua oficial apresentam baixíssimos níveis de letramento de suas populações, incluindo o Brasil, em que o número de pessoas analfabetas funcionais ultrapassa facilmente os cem milhões (entre as quais, evidentemente, as pessoas que padecem de fome ou vivem na insegurança alimentar). Em contrapartida, o Reino Unido, que tem o inglês como língua de ensino, apresenta um índice de alfabetização superior a 99% de sua população de quase 68 milhões. O Sri Lanka, país em que se usa um sistema de escrito próprio e muito complexo para a língua cingalesa, tem 98% de sua população letrada. O espanhol tem uma ortografia muito racional e fácil de aprender, mas enquanto Cuba (11 milhões de habitantes) apresenta um índice de alfabetismo que beira os 100%, na Guatemala (17 milhões) 75% da população maior de 15 anos é analfabeta. A ortografia não faz parte da língua, mas oferecer (ou não) à população a oportunidade de aprendê-la para ler e escrever, como é direito de toda pessoa no mundo de hoje, faz parte do tipo de projeto que os diferentes governos têm para suas respectivas nações.


BAGNO, Marcos. Ortografia não é língua! (adaptado). Blog da Parábola Editorial, [s. l.], 2023. Disponível em: https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/ortografia-nao-e-lingua-1. Acesso em: 10 set. 2023. 

Entre as características básicas dos tipos textuais está o fato de eles serem definidos por seus traços linguísticos predominantes. Por isso, um tipo textual é dado por um conjunto de traços que formam uma sequência e não um texto. A rigor, pode-se dizer que o segredo da coesão textual está precisamente na habilidade demonstrada em fazer essa "costura" ou tessitura das sequências tipológicas como uma armação de base, ou seja, uma malha infraestrutural do texto.


Sobre as tipologias utilizadas por Marcos Bagno para compor seu texto, é possível afirmar que, no texto apresentado, predomina a tipologia: 

Alternativas
Q3663896 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.



Ortografia não é língua!


Vivemos numa cultura grafocêntrica, isto é, numa cultura em que a escrita exerce um papel central na vida diária das pessoas. Mesmo as analfabetas estão imersas nessa cultura, porque têm de pegar ônibus, fazer compras, lidar com dinheiro, cartão de banco, documentos, boletos, embalagens, ícones do telefone celular etc. A escrita está presente na vida delas o tempo todo, tanto quanto na das pessoas alfabetizadas. Aliás, justamente por isso, as especialistas no tema dizem que existem pessoas analfabetas, sim, mas não pessoas iletradas, já que todas têm de aprender a interagir a todo momento (com maior ou menor desenvoltura) com a letra, ou seja, com a escrita.


Nós também nos movemos no interior daquilo que se chama paisagem linguística. Por onde andamos, no meio urbano e também fora dele (dentro de um avião, por exemplo), estamos rodeadas de cartazes, letreiros de lojas, sinalização de trânsito, painéis de elevadores, publicidade colada nos postes, instruções escritas no asfalto, numeração das casas, folheto de cartomante, placas com nomes de ruas, inscrições em veículos etc. A paisagem linguística é objeto de conflitos em sociedades plurilíngues, onde os grupos de falantes de línguas minorizadas lutam para que todo esse universo de escrita também esteja grafado em sua língua não hegemônica. No Canadá, por exemplo, tudo o que chega às mãos da população tem de vir, obrigatoriamente, por lei, escrito em inglês e francês, assim como, na Bélgica, em neerlandês e francês. (...) Esse impacto da escrita na nossa vida em sociedade é tamanho que para muitas pessoas é difícil pensar em “língua” sem pensar imediatamente em “escrita”, quando não acham que são sinônimos! Mas não são.


Para essa enganosa sinonímia contribui muito o processo de escolarização. Mesmo sendo precário e quase indigente no Brasil, o ensino institucionalizado de língua se faz, evidentemente, por meio da escrita e da leitura do que está escrito. Isso explica, por exemplo, por que a grande maioria do que se chama “erro de português” é, na verdade, mero erro de ortografia: “Credo, o e-mail de fulano está cheio de erros de português”.


Vai ver, são basicamente erros de ortografia. Quando ouvimos alguém dizer [kizɛh], não temos a menor ideia de se, na hora de escrever, ela vai grafar quiser, com <s>, ou quizer, com <z>.  A pronúncia [kizɛh] é um fato de língua, mas a grafia considerada correta (por lei) é quiser, e isso não tem nada a ver com a língua, mas com as convenções que foram estabelecidas socioculturalmente para a representação escrita (sempre falha e incompleta) dos fatos de língua (por que existe debaixo, uma palavra só, e de cima, duas? Por que quiser com <s> e fizer, com <z>?). Tanto é assim que nossos avós escreviam physica mas pronunciavam [fizika], exatamente como pronunciamos hoje, apesar de escrevermos física. Por isso é que dizemos (e escrevemos): a ortografia não faz parte da língua. Aliás, até o início do século passado o que se escrevia era orthographia!


Quando, na linguística, falamos de língua, o que temos em mente é um conjunto de regularidades que permitem o funcionamento de um modo de falar presente numa dada comunidade humana: os sons que compõem esse idioma, a combinação deles, a morfologia e a sintaxe (ou seja, a gramática), as formas variantes que as e os falantes têm de dizer a mesma coisa (uma “pôça” ou uma “póça” d’água, por exemplo, é algo que independe da ortografia, que é poça para os dois casos, mas de fatores sociais variáveis, como a origem geográfica da pessoa) etc. É assim que aplicamos o rótulo de língua aos modos de falar de centenas de etnias indígenas diferentes, muito embora elas não tenham uma tradição escrita originária — são as pesquisadoras, antropólogas e linguistas, que, para empreender seus estudos, colocam no papel essas línguas, usando convenções gráficas que jamais passaram pela cabeça de quem as fala. Se nós escrevemos tupi, é porque falamos português. Se o Brasil tivesse sido invadido e colonizado por ingleses, por exemplo, o nome dessa etnia e de sua língua provavelmente seria escrito Toopee; se por franceses, toupi ou algo assim. Se fossem russos, nem sequer usariam o alfabeto latino… E nunca é demais lembrar: existem muitas centenas de línguas faladas no mundo hoje que não têm forma escrita, existem exclusivamente na forma oral — são as chamadas línguas ágrafas. No Brasil mesmo, passam de cem. São ágrafas, mas são línguas, em todos os sentidos da palavra.


Ortografia não é língua, ok. Mas é gramática? A resposta depende do que se entende por gramática. A grandíssima maioria das pessoas entende “gramática” como “livro de gramática”, uma obra que contém supostamente tudo o que existe na língua e, principalmente, tudo o que é “certo”. Assim, se o livro chamado “gramática” tem um capítulo que trata da ortografia, então a ortografia faz parte da gramática (foi disso que tentou me convencer a pessoa que me retrucou). Na ciência linguística, no entanto, gramática é um termo que desgina “todo o sistema e estrutura de uma língua ou das línguas em geral, habitualmente considerado como constituído de sintaxe e morfologia (incluindo flexões) e às vezes também fonologia e semântica”, conforme define o famoso dicionário Oxford da língua inglesa (pensei em usar a definição de um conhecido dicionário brasileiro, mas topei com um “estudo sistemático ... do sistema” e desisti).


Assim, para a teoria linguística, tanto “tu foi” quanto “tu foste” são regras da gramática do português brasileiro, assim como “as mesa pequena” e “as mesas pequenas”, para citar só esses mínimos exemplos. Significa que tudo o que é possível encontrar nos usos autênticos das pessoas que falam uma língua pertence à gramática dessa língua — e tudo o que é possível encontrar nesses usos pode ser sistematizado em regras. Sim, existe uma regra (cognitiva) que governa “as mesa pequena ficou lá fora”: se as gramáticas normativas não apresentam essa regra, o problema é delas. Observe que, na definição do dicionário Oxford, não aparece letra, pontuação, divisão silábica, acentuação gráfica… nada do que constitui o modo de escrever a língua. Por quê? Ora, porque a forma de escrever uma língua (e, principalmente, sua ortografia oficial) não faz parte da gramática dessa língua. Se eu enviar uma mensagem escrita assim: “quandu vossê xegá in caza, mi aviza”, a ortografia está errada, mas a gramática está perfeita, tanto que, lida em voz alta, qualquer falante de português brasileiro vai reconhecer ali sua língua.

[...]


A ortografia é uma decisão política, está regulamentada por lei, de modo que podemos, sim, dizer que existe erro de ortografia, mesmo sendo uma lei que não prevê sanções contra seu descumprimento. Por sua vez, a gramática (no sentido que se dá ao termo em linguística), seja de que língua for, não tem a mais remota possibilidade de ser regulamentada por lei, muito embora tanta gente acredite que os manuais de gramática normativa têm de ser seguidos à risca, como códigos penais. Não têm. Os usos da língua são múltiplos e variáveis, se transformam ao longo do tempo, o que provoca mudanças na gramática, mudanças às vezes acompanhadas pela ortografia oficial (como no caso do português, com tantas e obsessivas reformas ortográficas ao longo do século 20), às vezes não. (...)


A eficácia do ensino-aprendizagem da ortografia não depende do sistema de escrita nem da maior ou menor racionalidade de suas regras. O português tem uma ortografia bastante razoável no que diz respeito à relação letra-som, mas, com exceção de Portugal, os demais países que têm o português como língua oficial apresentam baixíssimos níveis de letramento de suas populações, incluindo o Brasil, em que o número de pessoas analfabetas funcionais ultrapassa facilmente os cem milhões (entre as quais, evidentemente, as pessoas que padecem de fome ou vivem na insegurança alimentar). Em contrapartida, o Reino Unido, que tem o inglês como língua de ensino, apresenta um índice de alfabetização superior a 99% de sua população de quase 68 milhões. O Sri Lanka, país em que se usa um sistema de escrito próprio e muito complexo para a língua cingalesa, tem 98% de sua população letrada. O espanhol tem uma ortografia muito racional e fácil de aprender, mas enquanto Cuba (11 milhões de habitantes) apresenta um índice de alfabetismo que beira os 100%, na Guatemala (17 milhões) 75% da população maior de 15 anos é analfabeta. A ortografia não faz parte da língua, mas oferecer (ou não) à população a oportunidade de aprendê-la para ler e escrever, como é direito de toda pessoa no mundo de hoje, faz parte do tipo de projeto que os diferentes governos têm para suas respectivas nações.


BAGNO, Marcos. Ortografia não é língua! (adaptado). Blog da Parábola Editorial, [s. l.], 2023. Disponível em: https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/ortografia-nao-e-lingua-1. Acesso em: 10 set. 2023. 

A respeito das ideias contidas no texto, é INCORRETO afirmar que: 
Alternativas
Q3663897 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.



Ortografia não é língua!


Vivemos numa cultura grafocêntrica, isto é, numa cultura em que a escrita exerce um papel central na vida diária das pessoas. Mesmo as analfabetas estão imersas nessa cultura, porque têm de pegar ônibus, fazer compras, lidar com dinheiro, cartão de banco, documentos, boletos, embalagens, ícones do telefone celular etc. A escrita está presente na vida delas o tempo todo, tanto quanto na das pessoas alfabetizadas. Aliás, justamente por isso, as especialistas no tema dizem que existem pessoas analfabetas, sim, mas não pessoas iletradas, já que todas têm de aprender a interagir a todo momento (com maior ou menor desenvoltura) com a letra, ou seja, com a escrita.


Nós também nos movemos no interior daquilo que se chama paisagem linguística. Por onde andamos, no meio urbano e também fora dele (dentro de um avião, por exemplo), estamos rodeadas de cartazes, letreiros de lojas, sinalização de trânsito, painéis de elevadores, publicidade colada nos postes, instruções escritas no asfalto, numeração das casas, folheto de cartomante, placas com nomes de ruas, inscrições em veículos etc. A paisagem linguística é objeto de conflitos em sociedades plurilíngues, onde os grupos de falantes de línguas minorizadas lutam para que todo esse universo de escrita também esteja grafado em sua língua não hegemônica. No Canadá, por exemplo, tudo o que chega às mãos da população tem de vir, obrigatoriamente, por lei, escrito em inglês e francês, assim como, na Bélgica, em neerlandês e francês. (...) Esse impacto da escrita na nossa vida em sociedade é tamanho que para muitas pessoas é difícil pensar em “língua” sem pensar imediatamente em “escrita”, quando não acham que são sinônimos! Mas não são.


Para essa enganosa sinonímia contribui muito o processo de escolarização. Mesmo sendo precário e quase indigente no Brasil, o ensino institucionalizado de língua se faz, evidentemente, por meio da escrita e da leitura do que está escrito. Isso explica, por exemplo, por que a grande maioria do que se chama “erro de português” é, na verdade, mero erro de ortografia: “Credo, o e-mail de fulano está cheio de erros de português”.


Vai ver, são basicamente erros de ortografia. Quando ouvimos alguém dizer [kizɛh], não temos a menor ideia de se, na hora de escrever, ela vai grafar quiser, com <s>, ou quizer, com <z>.  A pronúncia [kizɛh] é um fato de língua, mas a grafia considerada correta (por lei) é quiser, e isso não tem nada a ver com a língua, mas com as convenções que foram estabelecidas socioculturalmente para a representação escrita (sempre falha e incompleta) dos fatos de língua (por que existe debaixo, uma palavra só, e de cima, duas? Por que quiser com <s> e fizer, com <z>?). Tanto é assim que nossos avós escreviam physica mas pronunciavam [fizika], exatamente como pronunciamos hoje, apesar de escrevermos física. Por isso é que dizemos (e escrevemos): a ortografia não faz parte da língua. Aliás, até o início do século passado o que se escrevia era orthographia!


Quando, na linguística, falamos de língua, o que temos em mente é um conjunto de regularidades que permitem o funcionamento de um modo de falar presente numa dada comunidade humana: os sons que compõem esse idioma, a combinação deles, a morfologia e a sintaxe (ou seja, a gramática), as formas variantes que as e os falantes têm de dizer a mesma coisa (uma “pôça” ou uma “póça” d’água, por exemplo, é algo que independe da ortografia, que é poça para os dois casos, mas de fatores sociais variáveis, como a origem geográfica da pessoa) etc. É assim que aplicamos o rótulo de língua aos modos de falar de centenas de etnias indígenas diferentes, muito embora elas não tenham uma tradição escrita originária — são as pesquisadoras, antropólogas e linguistas, que, para empreender seus estudos, colocam no papel essas línguas, usando convenções gráficas que jamais passaram pela cabeça de quem as fala. Se nós escrevemos tupi, é porque falamos português. Se o Brasil tivesse sido invadido e colonizado por ingleses, por exemplo, o nome dessa etnia e de sua língua provavelmente seria escrito Toopee; se por franceses, toupi ou algo assim. Se fossem russos, nem sequer usariam o alfabeto latino… E nunca é demais lembrar: existem muitas centenas de línguas faladas no mundo hoje que não têm forma escrita, existem exclusivamente na forma oral — são as chamadas línguas ágrafas. No Brasil mesmo, passam de cem. São ágrafas, mas são línguas, em todos os sentidos da palavra.


Ortografia não é língua, ok. Mas é gramática? A resposta depende do que se entende por gramática. A grandíssima maioria das pessoas entende “gramática” como “livro de gramática”, uma obra que contém supostamente tudo o que existe na língua e, principalmente, tudo o que é “certo”. Assim, se o livro chamado “gramática” tem um capítulo que trata da ortografia, então a ortografia faz parte da gramática (foi disso que tentou me convencer a pessoa que me retrucou). Na ciência linguística, no entanto, gramática é um termo que desgina “todo o sistema e estrutura de uma língua ou das línguas em geral, habitualmente considerado como constituído de sintaxe e morfologia (incluindo flexões) e às vezes também fonologia e semântica”, conforme define o famoso dicionário Oxford da língua inglesa (pensei em usar a definição de um conhecido dicionário brasileiro, mas topei com um “estudo sistemático ... do sistema” e desisti).


Assim, para a teoria linguística, tanto “tu foi” quanto “tu foste” são regras da gramática do português brasileiro, assim como “as mesa pequena” e “as mesas pequenas”, para citar só esses mínimos exemplos. Significa que tudo o que é possível encontrar nos usos autênticos das pessoas que falam uma língua pertence à gramática dessa língua — e tudo o que é possível encontrar nesses usos pode ser sistematizado em regras. Sim, existe uma regra (cognitiva) que governa “as mesa pequena ficou lá fora”: se as gramáticas normativas não apresentam essa regra, o problema é delas. Observe que, na definição do dicionário Oxford, não aparece letra, pontuação, divisão silábica, acentuação gráfica… nada do que constitui o modo de escrever a língua. Por quê? Ora, porque a forma de escrever uma língua (e, principalmente, sua ortografia oficial) não faz parte da gramática dessa língua. Se eu enviar uma mensagem escrita assim: “quandu vossê xegá in caza, mi aviza”, a ortografia está errada, mas a gramática está perfeita, tanto que, lida em voz alta, qualquer falante de português brasileiro vai reconhecer ali sua língua.

[...]


A ortografia é uma decisão política, está regulamentada por lei, de modo que podemos, sim, dizer que existe erro de ortografia, mesmo sendo uma lei que não prevê sanções contra seu descumprimento. Por sua vez, a gramática (no sentido que se dá ao termo em linguística), seja de que língua for, não tem a mais remota possibilidade de ser regulamentada por lei, muito embora tanta gente acredite que os manuais de gramática normativa têm de ser seguidos à risca, como códigos penais. Não têm. Os usos da língua são múltiplos e variáveis, se transformam ao longo do tempo, o que provoca mudanças na gramática, mudanças às vezes acompanhadas pela ortografia oficial (como no caso do português, com tantas e obsessivas reformas ortográficas ao longo do século 20), às vezes não. (...)


A eficácia do ensino-aprendizagem da ortografia não depende do sistema de escrita nem da maior ou menor racionalidade de suas regras. O português tem uma ortografia bastante razoável no que diz respeito à relação letra-som, mas, com exceção de Portugal, os demais países que têm o português como língua oficial apresentam baixíssimos níveis de letramento de suas populações, incluindo o Brasil, em que o número de pessoas analfabetas funcionais ultrapassa facilmente os cem milhões (entre as quais, evidentemente, as pessoas que padecem de fome ou vivem na insegurança alimentar). Em contrapartida, o Reino Unido, que tem o inglês como língua de ensino, apresenta um índice de alfabetização superior a 99% de sua população de quase 68 milhões. O Sri Lanka, país em que se usa um sistema de escrito próprio e muito complexo para a língua cingalesa, tem 98% de sua população letrada. O espanhol tem uma ortografia muito racional e fácil de aprender, mas enquanto Cuba (11 milhões de habitantes) apresenta um índice de alfabetismo que beira os 100%, na Guatemala (17 milhões) 75% da população maior de 15 anos é analfabeta. A ortografia não faz parte da língua, mas oferecer (ou não) à população a oportunidade de aprendê-la para ler e escrever, como é direito de toda pessoa no mundo de hoje, faz parte do tipo de projeto que os diferentes governos têm para suas respectivas nações.


BAGNO, Marcos. Ortografia não é língua! (adaptado). Blog da Parábola Editorial, [s. l.], 2023. Disponível em: https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/ortografia-nao-e-lingua-1. Acesso em: 10 set. 2023. 

Releia o seguinte trecho:


Vai ver, são basicamente erros de ortografia. Quando ouvimos alguém dizer [kizɛh], não temos a menor ideia de se, na hora de escrever, ela vai grafar quiser, com <s>, ou quizer, com <z>.  A pronúncia [kizɛh] é um fato de língua, mas a grafia considerada correta (por lei) é quiser, e isso não tem nada a ver com a língua, mas com as convenções que foram estabelecidas socioculturalmente para a representação escrita... 


A respeito das ideias contidas no texto e em seu conhecimento sobre a relação entre fonema e grafemas, assinale a alternativa correta. 

Alternativas
Q3663898 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.



Ortografia não é língua!


Vivemos numa cultura grafocêntrica, isto é, numa cultura em que a escrita exerce um papel central na vida diária das pessoas. Mesmo as analfabetas estão imersas nessa cultura, porque têm de pegar ônibus, fazer compras, lidar com dinheiro, cartão de banco, documentos, boletos, embalagens, ícones do telefone celular etc. A escrita está presente na vida delas o tempo todo, tanto quanto na das pessoas alfabetizadas. Aliás, justamente por isso, as especialistas no tema dizem que existem pessoas analfabetas, sim, mas não pessoas iletradas, já que todas têm de aprender a interagir a todo momento (com maior ou menor desenvoltura) com a letra, ou seja, com a escrita.


Nós também nos movemos no interior daquilo que se chama paisagem linguística. Por onde andamos, no meio urbano e também fora dele (dentro de um avião, por exemplo), estamos rodeadas de cartazes, letreiros de lojas, sinalização de trânsito, painéis de elevadores, publicidade colada nos postes, instruções escritas no asfalto, numeração das casas, folheto de cartomante, placas com nomes de ruas, inscrições em veículos etc. A paisagem linguística é objeto de conflitos em sociedades plurilíngues, onde os grupos de falantes de línguas minorizadas lutam para que todo esse universo de escrita também esteja grafado em sua língua não hegemônica. No Canadá, por exemplo, tudo o que chega às mãos da população tem de vir, obrigatoriamente, por lei, escrito em inglês e francês, assim como, na Bélgica, em neerlandês e francês. (...) Esse impacto da escrita na nossa vida em sociedade é tamanho que para muitas pessoas é difícil pensar em “língua” sem pensar imediatamente em “escrita”, quando não acham que são sinônimos! Mas não são.


Para essa enganosa sinonímia contribui muito o processo de escolarização. Mesmo sendo precário e quase indigente no Brasil, o ensino institucionalizado de língua se faz, evidentemente, por meio da escrita e da leitura do que está escrito. Isso explica, por exemplo, por que a grande maioria do que se chama “erro de português” é, na verdade, mero erro de ortografia: “Credo, o e-mail de fulano está cheio de erros de português”.


Vai ver, são basicamente erros de ortografia. Quando ouvimos alguém dizer [kizɛh], não temos a menor ideia de se, na hora de escrever, ela vai grafar quiser, com <s>, ou quizer, com <z>.  A pronúncia [kizɛh] é um fato de língua, mas a grafia considerada correta (por lei) é quiser, e isso não tem nada a ver com a língua, mas com as convenções que foram estabelecidas socioculturalmente para a representação escrita (sempre falha e incompleta) dos fatos de língua (por que existe debaixo, uma palavra só, e de cima, duas? Por que quiser com <s> e fizer, com <z>?). Tanto é assim que nossos avós escreviam physica mas pronunciavam [fizika], exatamente como pronunciamos hoje, apesar de escrevermos física. Por isso é que dizemos (e escrevemos): a ortografia não faz parte da língua. Aliás, até o início do século passado o que se escrevia era orthographia!


Quando, na linguística, falamos de língua, o que temos em mente é um conjunto de regularidades que permitem o funcionamento de um modo de falar presente numa dada comunidade humana: os sons que compõem esse idioma, a combinação deles, a morfologia e a sintaxe (ou seja, a gramática), as formas variantes que as e os falantes têm de dizer a mesma coisa (uma “pôça” ou uma “póça” d’água, por exemplo, é algo que independe da ortografia, que é poça para os dois casos, mas de fatores sociais variáveis, como a origem geográfica da pessoa) etc. É assim que aplicamos o rótulo de língua aos modos de falar de centenas de etnias indígenas diferentes, muito embora elas não tenham uma tradição escrita originária — são as pesquisadoras, antropólogas e linguistas, que, para empreender seus estudos, colocam no papel essas línguas, usando convenções gráficas que jamais passaram pela cabeça de quem as fala. Se nós escrevemos tupi, é porque falamos português. Se o Brasil tivesse sido invadido e colonizado por ingleses, por exemplo, o nome dessa etnia e de sua língua provavelmente seria escrito Toopee; se por franceses, toupi ou algo assim. Se fossem russos, nem sequer usariam o alfabeto latino… E nunca é demais lembrar: existem muitas centenas de línguas faladas no mundo hoje que não têm forma escrita, existem exclusivamente na forma oral — são as chamadas línguas ágrafas. No Brasil mesmo, passam de cem. São ágrafas, mas são línguas, em todos os sentidos da palavra.


Ortografia não é língua, ok. Mas é gramática? A resposta depende do que se entende por gramática. A grandíssima maioria das pessoas entende “gramática” como “livro de gramática”, uma obra que contém supostamente tudo o que existe na língua e, principalmente, tudo o que é “certo”. Assim, se o livro chamado “gramática” tem um capítulo que trata da ortografia, então a ortografia faz parte da gramática (foi disso que tentou me convencer a pessoa que me retrucou). Na ciência linguística, no entanto, gramática é um termo que desgina “todo o sistema e estrutura de uma língua ou das línguas em geral, habitualmente considerado como constituído de sintaxe e morfologia (incluindo flexões) e às vezes também fonologia e semântica”, conforme define o famoso dicionário Oxford da língua inglesa (pensei em usar a definição de um conhecido dicionário brasileiro, mas topei com um “estudo sistemático ... do sistema” e desisti).


Assim, para a teoria linguística, tanto “tu foi” quanto “tu foste” são regras da gramática do português brasileiro, assim como “as mesa pequena” e “as mesas pequenas”, para citar só esses mínimos exemplos. Significa que tudo o que é possível encontrar nos usos autênticos das pessoas que falam uma língua pertence à gramática dessa língua — e tudo o que é possível encontrar nesses usos pode ser sistematizado em regras. Sim, existe uma regra (cognitiva) que governa “as mesa pequena ficou lá fora”: se as gramáticas normativas não apresentam essa regra, o problema é delas. Observe que, na definição do dicionário Oxford, não aparece letra, pontuação, divisão silábica, acentuação gráfica… nada do que constitui o modo de escrever a língua. Por quê? Ora, porque a forma de escrever uma língua (e, principalmente, sua ortografia oficial) não faz parte da gramática dessa língua. Se eu enviar uma mensagem escrita assim: “quandu vossê xegá in caza, mi aviza”, a ortografia está errada, mas a gramática está perfeita, tanto que, lida em voz alta, qualquer falante de português brasileiro vai reconhecer ali sua língua.

[...]


A ortografia é uma decisão política, está regulamentada por lei, de modo que podemos, sim, dizer que existe erro de ortografia, mesmo sendo uma lei que não prevê sanções contra seu descumprimento. Por sua vez, a gramática (no sentido que se dá ao termo em linguística), seja de que língua for, não tem a mais remota possibilidade de ser regulamentada por lei, muito embora tanta gente acredite que os manuais de gramática normativa têm de ser seguidos à risca, como códigos penais. Não têm. Os usos da língua são múltiplos e variáveis, se transformam ao longo do tempo, o que provoca mudanças na gramática, mudanças às vezes acompanhadas pela ortografia oficial (como no caso do português, com tantas e obsessivas reformas ortográficas ao longo do século 20), às vezes não. (...)


A eficácia do ensino-aprendizagem da ortografia não depende do sistema de escrita nem da maior ou menor racionalidade de suas regras. O português tem uma ortografia bastante razoável no que diz respeito à relação letra-som, mas, com exceção de Portugal, os demais países que têm o português como língua oficial apresentam baixíssimos níveis de letramento de suas populações, incluindo o Brasil, em que o número de pessoas analfabetas funcionais ultrapassa facilmente os cem milhões (entre as quais, evidentemente, as pessoas que padecem de fome ou vivem na insegurança alimentar). Em contrapartida, o Reino Unido, que tem o inglês como língua de ensino, apresenta um índice de alfabetização superior a 99% de sua população de quase 68 milhões. O Sri Lanka, país em que se usa um sistema de escrito próprio e muito complexo para a língua cingalesa, tem 98% de sua população letrada. O espanhol tem uma ortografia muito racional e fácil de aprender, mas enquanto Cuba (11 milhões de habitantes) apresenta um índice de alfabetismo que beira os 100%, na Guatemala (17 milhões) 75% da população maior de 15 anos é analfabeta. A ortografia não faz parte da língua, mas oferecer (ou não) à população a oportunidade de aprendê-la para ler e escrever, como é direito de toda pessoa no mundo de hoje, faz parte do tipo de projeto que os diferentes governos têm para suas respectivas nações.


BAGNO, Marcos. Ortografia não é língua! (adaptado). Blog da Parábola Editorial, [s. l.], 2023. Disponível em: https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/ortografia-nao-e-lingua-1. Acesso em: 10 set. 2023. 

“Mesmo sendo precário e quase indigente no Brasil, o ensino institucionalizado de língua se faz, evidentemente, por meio da escrita e da leitura do que está escrito.”


A única reescrita que mantém as relações de sentido contidas no período e sua correção gramatical é: 

Alternativas
Q3663899 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.



Ortografia não é língua!


Vivemos numa cultura grafocêntrica, isto é, numa cultura em que a escrita exerce um papel central na vida diária das pessoas. Mesmo as analfabetas estão imersas nessa cultura, porque têm de pegar ônibus, fazer compras, lidar com dinheiro, cartão de banco, documentos, boletos, embalagens, ícones do telefone celular etc. A escrita está presente na vida delas o tempo todo, tanto quanto na das pessoas alfabetizadas. Aliás, justamente por isso, as especialistas no tema dizem que existem pessoas analfabetas, sim, mas não pessoas iletradas, já que todas têm de aprender a interagir a todo momento (com maior ou menor desenvoltura) com a letra, ou seja, com a escrita.


Nós também nos movemos no interior daquilo que se chama paisagem linguística. Por onde andamos, no meio urbano e também fora dele (dentro de um avião, por exemplo), estamos rodeadas de cartazes, letreiros de lojas, sinalização de trânsito, painéis de elevadores, publicidade colada nos postes, instruções escritas no asfalto, numeração das casas, folheto de cartomante, placas com nomes de ruas, inscrições em veículos etc. A paisagem linguística é objeto de conflitos em sociedades plurilíngues, onde os grupos de falantes de línguas minorizadas lutam para que todo esse universo de escrita também esteja grafado em sua língua não hegemônica. No Canadá, por exemplo, tudo o que chega às mãos da população tem de vir, obrigatoriamente, por lei, escrito em inglês e francês, assim como, na Bélgica, em neerlandês e francês. (...) Esse impacto da escrita na nossa vida em sociedade é tamanho que para muitas pessoas é difícil pensar em “língua” sem pensar imediatamente em “escrita”, quando não acham que são sinônimos! Mas não são.


Para essa enganosa sinonímia contribui muito o processo de escolarização. Mesmo sendo precário e quase indigente no Brasil, o ensino institucionalizado de língua se faz, evidentemente, por meio da escrita e da leitura do que está escrito. Isso explica, por exemplo, por que a grande maioria do que se chama “erro de português” é, na verdade, mero erro de ortografia: “Credo, o e-mail de fulano está cheio de erros de português”.


Vai ver, são basicamente erros de ortografia. Quando ouvimos alguém dizer [kizɛh], não temos a menor ideia de se, na hora de escrever, ela vai grafar quiser, com <s>, ou quizer, com <z>.  A pronúncia [kizɛh] é um fato de língua, mas a grafia considerada correta (por lei) é quiser, e isso não tem nada a ver com a língua, mas com as convenções que foram estabelecidas socioculturalmente para a representação escrita (sempre falha e incompleta) dos fatos de língua (por que existe debaixo, uma palavra só, e de cima, duas? Por que quiser com <s> e fizer, com <z>?). Tanto é assim que nossos avós escreviam physica mas pronunciavam [fizika], exatamente como pronunciamos hoje, apesar de escrevermos física. Por isso é que dizemos (e escrevemos): a ortografia não faz parte da língua. Aliás, até o início do século passado o que se escrevia era orthographia!


Quando, na linguística, falamos de língua, o que temos em mente é um conjunto de regularidades que permitem o funcionamento de um modo de falar presente numa dada comunidade humana: os sons que compõem esse idioma, a combinação deles, a morfologia e a sintaxe (ou seja, a gramática), as formas variantes que as e os falantes têm de dizer a mesma coisa (uma “pôça” ou uma “póça” d’água, por exemplo, é algo que independe da ortografia, que é poça para os dois casos, mas de fatores sociais variáveis, como a origem geográfica da pessoa) etc. É assim que aplicamos o rótulo de língua aos modos de falar de centenas de etnias indígenas diferentes, muito embora elas não tenham uma tradição escrita originária — são as pesquisadoras, antropólogas e linguistas, que, para empreender seus estudos, colocam no papel essas línguas, usando convenções gráficas que jamais passaram pela cabeça de quem as fala. Se nós escrevemos tupi, é porque falamos português. Se o Brasil tivesse sido invadido e colonizado por ingleses, por exemplo, o nome dessa etnia e de sua língua provavelmente seria escrito Toopee; se por franceses, toupi ou algo assim. Se fossem russos, nem sequer usariam o alfabeto latino… E nunca é demais lembrar: existem muitas centenas de línguas faladas no mundo hoje que não têm forma escrita, existem exclusivamente na forma oral — são as chamadas línguas ágrafas. No Brasil mesmo, passam de cem. São ágrafas, mas são línguas, em todos os sentidos da palavra.


Ortografia não é língua, ok. Mas é gramática? A resposta depende do que se entende por gramática. A grandíssima maioria das pessoas entende “gramática” como “livro de gramática”, uma obra que contém supostamente tudo o que existe na língua e, principalmente, tudo o que é “certo”. Assim, se o livro chamado “gramática” tem um capítulo que trata da ortografia, então a ortografia faz parte da gramática (foi disso que tentou me convencer a pessoa que me retrucou). Na ciência linguística, no entanto, gramática é um termo que desgina “todo o sistema e estrutura de uma língua ou das línguas em geral, habitualmente considerado como constituído de sintaxe e morfologia (incluindo flexões) e às vezes também fonologia e semântica”, conforme define o famoso dicionário Oxford da língua inglesa (pensei em usar a definição de um conhecido dicionário brasileiro, mas topei com um “estudo sistemático ... do sistema” e desisti).


Assim, para a teoria linguística, tanto “tu foi” quanto “tu foste” são regras da gramática do português brasileiro, assim como “as mesa pequena” e “as mesas pequenas”, para citar só esses mínimos exemplos. Significa que tudo o que é possível encontrar nos usos autênticos das pessoas que falam uma língua pertence à gramática dessa língua — e tudo o que é possível encontrar nesses usos pode ser sistematizado em regras. Sim, existe uma regra (cognitiva) que governa “as mesa pequena ficou lá fora”: se as gramáticas normativas não apresentam essa regra, o problema é delas. Observe que, na definição do dicionário Oxford, não aparece letra, pontuação, divisão silábica, acentuação gráfica… nada do que constitui o modo de escrever a língua. Por quê? Ora, porque a forma de escrever uma língua (e, principalmente, sua ortografia oficial) não faz parte da gramática dessa língua. Se eu enviar uma mensagem escrita assim: “quandu vossê xegá in caza, mi aviza”, a ortografia está errada, mas a gramática está perfeita, tanto que, lida em voz alta, qualquer falante de português brasileiro vai reconhecer ali sua língua.

[...]


A ortografia é uma decisão política, está regulamentada por lei, de modo que podemos, sim, dizer que existe erro de ortografia, mesmo sendo uma lei que não prevê sanções contra seu descumprimento. Por sua vez, a gramática (no sentido que se dá ao termo em linguística), seja de que língua for, não tem a mais remota possibilidade de ser regulamentada por lei, muito embora tanta gente acredite que os manuais de gramática normativa têm de ser seguidos à risca, como códigos penais. Não têm. Os usos da língua são múltiplos e variáveis, se transformam ao longo do tempo, o que provoca mudanças na gramática, mudanças às vezes acompanhadas pela ortografia oficial (como no caso do português, com tantas e obsessivas reformas ortográficas ao longo do século 20), às vezes não. (...)


A eficácia do ensino-aprendizagem da ortografia não depende do sistema de escrita nem da maior ou menor racionalidade de suas regras. O português tem uma ortografia bastante razoável no que diz respeito à relação letra-som, mas, com exceção de Portugal, os demais países que têm o português como língua oficial apresentam baixíssimos níveis de letramento de suas populações, incluindo o Brasil, em que o número de pessoas analfabetas funcionais ultrapassa facilmente os cem milhões (entre as quais, evidentemente, as pessoas que padecem de fome ou vivem na insegurança alimentar). Em contrapartida, o Reino Unido, que tem o inglês como língua de ensino, apresenta um índice de alfabetização superior a 99% de sua população de quase 68 milhões. O Sri Lanka, país em que se usa um sistema de escrito próprio e muito complexo para a língua cingalesa, tem 98% de sua população letrada. O espanhol tem uma ortografia muito racional e fácil de aprender, mas enquanto Cuba (11 milhões de habitantes) apresenta um índice de alfabetismo que beira os 100%, na Guatemala (17 milhões) 75% da população maior de 15 anos é analfabeta. A ortografia não faz parte da língua, mas oferecer (ou não) à população a oportunidade de aprendê-la para ler e escrever, como é direito de toda pessoa no mundo de hoje, faz parte do tipo de projeto que os diferentes governos têm para suas respectivas nações.


BAGNO, Marcos. Ortografia não é língua! (adaptado). Blog da Parábola Editorial, [s. l.], 2023. Disponível em: https://www.parabolablog.com.br/index.php/blogs/ortografia-nao-e-lingua-1. Acesso em: 10 set. 2023. 

Sobre o seguinte trecho do texto, assinale a alternativa correta a respeito de sua função discursiva na sequenciação das ideias apresentadas pelo autor:


“Credo, o e-mail de fulano está cheio de erros de português.” 

Alternativas
Respostas
1: D
2: C
3: D
4: C
5: D
6: A
7: B
8: D
9: B
10: C
11: A
12: C
13: B
14: D
15: C
16: B
17: C
18: A
19: C
20: D