“A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de
contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma
vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isto,
a morte é que deve vir em nosso socorro. A covardia
mental e moral do Brasil não permite movimentos de
independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nos pareceres.
Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de
espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro
e os títulos. A agitação de uma ideia não repercute na
massa e, quando esta sabe que se trata de contrariar
uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco. Nunca
foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina, que fizeram as grandes reformas
no mundo. Todas elas têm sido feitas por homens, e
às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos. A divisa
deles consiste em não seguir a opinião de todos, por
isso mesmo podem ver mais longe do que os outros.
Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, não
teríamos ainda saído das cavernas. O que é preciso,
portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento
do nosso destino, para própria felicidade da espécie
humana. Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo
os desejos dos poderosos e prepotentes. Os órgãos
de publicidade por onde se podiam elas revelar são
fechados e não aceitam nada que os possa lesar. Dessa forma, quem, como eu, nasceu pobre e não quer
ceder uma linha da sua independência de espírito e
inteligência, só tem que fazer elogios à morte”. (Elogio
da morte, com adaptações).