TEXTO III
Canção
Nunca vi ninguém viver
tão de rastro como eu vivo.
Comendo o que ninguém quer,
bebendo o que não tem gosto,
sempre de rosto para o chão,
como se o chão fosse o rosto
de quem me pudesse amar.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmã das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei.
Não sei se fico
ou passo.
(Cecília Meireles, em "Viagem"