Professora ensina português de graça a
venezuelanos
Quem nunca ouviu que a educação é capaz de mudar o
mundo? No Brasil, a frase mais parece chavão, clichê,
especialmente em ano eleitoral, quando as promessas
de priorizar o ensino passam a fazer parte dos discursos
políticos. Mas não para a professora pública Rosângela
Moura, que resolveu colocar a máxima em prática,
ensinando português de graça a imigrantes
venezuelanos. Isso em plena pandemia, sem estrutura e
de forma online. O projeto Esperança Venezuela surgiu
bem antes da chegada do novo coronavírus ao Brasil.
Coordenadora do Centro de Ensino de Línguas (CEL) de
Osasco, do governo do Estado, Rosângela, formada em
Letras pela USP, passou a debater a crise venezuelana
de 2018 com os alunos durante as aulas de espanhol. Já
naquele ano, eles resolveram arrecadar donativos aos refugiados que chegavam a São Paulo. "Os próprios
alunos começaram a pensar em como ajudar, apesar de
eles próprios serem de famílias carentes. Eu levei o que
conseguimos juntar: roupas, bilhetes de metrô e
alimentos para a Casa do Migrante da Missão Paz, em
São Paulo, e lá percebi que eles precisavam de muito
mais", contou. Depois de alguns anos, em plena
pandemia, a professora decidiu ajudar com o que mais
sabe fazer: ensinar. "Para quem muda de país, o idioma
faz toda a diferença. Sem conseguir pronunciar o
português, fica difícil procurar emprego ou entender
como se tirar documentos, por exemplo. É difícil para
eles palavras com acento circunflexo, como avô, e
também com 'lh'", disse. Determinada, ela montou um
currículo e foi atrás dos alunos por meio de uma página
no Facebook. "Entrei nos grupos de refugiados e alertei
sobre o curso que seria dado pelo google meet. Pensei
que apareceriam uns 30. Mas vieram 100, 200, 500. De
repente, em uma única noite, tinham 600 interessados.
Fiquei surpresa e preocupada porque não sabia como
iria dar aulas para tanta gente", lembrou. A solução foi
buscar ajuda ali mesmo no CEL. Eva Cristina Esteves e
Daniela Cavalcanti, também professoras estaduais,
aceitaram o convite e o trio ,então, dividiu-se para
atender quatro turmas, de cem alunos cada - quantidade
máxima permitida pelo sistema online. "E foi aí que
descobrimos as outras tantas dificuldades. Tinha gente
com problema de conexão para assistir às aulas, outros
com urgência em aprender determinado vocabulário para
trabalhar e alguns em busca de ajuda para traduzir um
currículo. Cheguei a ensinar receita de bolo para uma
venezuelana com entrevista marcada em uma doceria.
"O curso foi montado com 15 aulas de 1 hora e 20
minutos cada. O foco foi ensinar em grupo o básico de
gramática e, especialmente, de pronúncia. Dúvidas
individuais eram atendidas pelo WhatsApp. "Não
pudemos avançar muito porque nos faltava recursos e
mais gente para assumir esse compromisso." Ainda
assim, Rosângela conseguiu abrir outras três turmas,
alcançando 650 alunos no total. "Ao final do curso, o que
nós percebemos é que, com ajuda, eles melhoraram
muito rápido a pronúncia e passaram a se sentir mais
seguros para conversar e procurar emprego. Nós
aprendemos muito também, como se colocar no lugar do
outro. A educação faz isso."
(Disponível em: Professora ensina português de graça a venezuelanos
(msn.com).Adaptado.)