TEXTO: Quanto custa um sonho?
Quanto custa um sonho?
Alguma coisa ele sempre custa.
Muitas vezes muitas coisas ele custa, outras vezes outros
sonhos ele custa.
Não importam os percalços, os sacrifícios, os espinhosos
enredos.
Não importa.
Uma vez vivido, o sonho está sempre num ótimo preço!
Elisa Lucinda – A Conta do Sonho
Considero lindo e verdadeiro esse poema! E adoro
quando ela diz “Uma vez vivido, o sonho está sempre num
ótimo preço!”, o que me faz lembrar a alegria que sente uma
mulher quando recebe em seus braços o filho que acaba de
nascer. Naquele momento, passam para o esquecimento
eventuais dificuldades para engravidar, sustos, medos, inseguranças, problemas durante a gestação, as dores do
parto1. Tudo isso cede espaço ao sonho realizado.
E sempre admiramos quem corre atrás dos seus
sonhos, quem tem persistência, resiliência, fé, quem cai,
levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Porque todos
temos sonhos, mas, na maioria das vezes, pouco fazemos
para realizá-los, gastando mais tempo e energia buscando
desculpas para a nossa INÉRSIA/INÉRCIA, a nossa
ineficácia.
Só que pode acontecer de, ao conseguirmos
realizar nosso sonho, descobrirmos que tudo o que mais
queríamos não passava de um pesadelo
DISFARÇADO/DISFARSADO que nos traz sofrimento,
desencanto, tristeza e raiva de nós mesmos por não termos
considerado os ventos, as nuvens carregadas, os conselhos
que prenunciavam a terrível tempestade que se formava.
De qualquer forma, o que encontramos pelo
caminho2, de bom e de mau, nos prepara melhor para viver o
sonho, assim como nos prepara para enfrentar o pesadelo
que pode estar a nossa espera após tantas lutas. E até na
hipótese ruim, podemos, uns com mais, outros com menos
facilidade, reorganizarmo-nos na tentativa de, no mínimo,
conseguirmos nos proteger da dor do que costumamos
chamar fracasso.
Mas também pode ocorrer de nos depararmos com
um vazio que em nada se parece nem com a realização de
um sonho nem mesmo com um pesadelo
DISCIMULADO/DISSIMULADO. Para mim, esse é o pior
cenário. Não nos preparamos para o nada. Não sabemos
lidar com o nada. E ficamos ali estarrecidos, com a sensação
de que até o instinto de sobrevivência nos abandonou.
E eu acredito que isso pode acontecer quando,
como diz Elisa Lucinda, aquele sonho custou outros sonhos,
quando ainda não entendemos que somos muito mais do
que aquele ANSEIO/ANCEIO e nele apostamos todas as
nossas fichas, como se nada mais existisse.
Sonhos precisam ser sempre reavaliados, e não há
nada de errado em desistirmos de um ou mais deles. Até
porque estamos sempre em evolução, e alguns podem
perder totalmente o sentido com o passar do tempo, com o
nosso amadurecimento.
Dizem que a felicidade está mais na jornada do que
no destino. Então, é preciso que tenhamos olhos para ver e
ouvidos para ouvir tudo e todos ao longo do processo.
Somente se nos permitirmos ponderar, sopesar nossos
sonhos e nos abrirmos para a beleza do percurso, estaremos
protegidos do paralisante, do assustador vazio que pode nos
devorar emocionalmente e nos embotar3 a ponto de não
mais voltarmos a sonhar.
Nós nunca perdemos. Mesmo quando o sonho
exigiu de nós um enorme investimento e não se realizou
como desejávamos, todo o aprendizado, toda a
VIVÊNSIA/VIVÊNCIA do percurso continuará a nosso dispor4
para novos sonhos. Isso jamais se perderá. Serão sempre
como tesouros que nem a traça nem a ferrugem conseguirão
corroer, que nem ladrões poderão escavar e roubar. E é neles
que estará também o nosso coração, ainda mais preparado
para a próxima jornada.
SANT’ANA, Maraci. Quanto custa um sonho? Correio Braziliense, 20
de julho de 2023. Opinião. Disponível em:
https://blogs.correiobraziliense.com.br/consultoriosentimental/qua
nto-custa-um-sonho/. Acesso em: 25 jan. 2024. Adaptado.