Questões de Concurso
Comentadas sobre uso dos dois-pontos em português
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I. As aspas são empregas como recurso para marcar transcrição da fala do autor americano (1.º parágrafo).
II. O uso dos dois pontos indica inserção de uma explicação que vem na sequência (1.º parágrafo).
III. ‘Por exemplos’ deveria estar entre vírgulas, pois é um aposto explicativo (3.º parágrafo).
IV. Os travessões poderiam ser substituídos por parênteses ou vírgulas sem prejuízo ao sentido da frase (4.º parágrafo).
São CORRETAS as afirmativas:
(SCHWARTSMAN, Helio. Sempre teremos Paris? Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas)
A alteração na última frase do texto que mantém o sentido e correta pontuação é:
Texto 02
Feridas do esquecimento
Certa vez, tomei conhecimento de um episódio impressionante, que causou um forte impacto sobre a minha vida, especialmente no que diz respeito à importância dos relacionamentos significativos da vida e de como eles se tornam periféricos em nossos dias, sobretudo, por conta do individualismo que tem marcado a nossa geração.
Quando foi receber o prêmio Nobel da Paz, em 1979, Madre Tereza de Calcutá fez menção a uma visita que fizera a um dos mais luxuosos asilos para idosos, na América. A beleza e o luxo deixaram-na impressionada. Contudo, algo a impactou mais ainda: os velhinhos ali colocados pelos próprios filhos tinham no rosto uma profunda expressão de tristeza. Ela, intrigada, indagou a si mesma: “por que tanta tristeza e expressão de dor naquelas pessoas, apesar do conforto material que as rodeava?”
De repente, percebeu que todos eles olhavam para uma grande porta. Curiosa, perguntou à sua acompanhante: “Por que todos olham para a mesma porta? E por que não conseguem sorrir?” A responsável pela visita respondeu-lhe: “Eles olham para aquela porta porque esperam ansiosamente a visita dos filhos, e este semblante triste e distante que trazem no rosto é porque se sentem feridos. Acham que foram esquecidos por seus familiares. Infelizmente, de fato, foram esquecidos pelos seus” [...].
(FERNANDES, Estevam. In: Quando vem a brisa. Rio de Janeiro: Ed. Central, 2009, p. 75).
No enunciado “Ela, intrigada, indagou a si mesma: por que tanta tristeza e expressão de dor naquelas pessoas, apesar do conforto material que as rodeava?”, pode-se afirmar que:
I- Há um discurso indireto livre, introduzido depois dos dois pontos, tendo em vista que se expressam duas vozes: a do narrador e a do personagem.
II- O termo “as” é um artigo definido plural, pois se refere a um elemento presente na situação de enunciação.
III- O termo “intrigada” exerce a função sintática de vocativo, pois vem entre virgulas. Analise as proposições e marque a alternativa adequada.
Está(ão) correta(s) apenas:
Releia-se a seguinte passagem:
Não raro as palavras "moral" e "ética" aparecem num mesmo contexto e, às vezes, são erroneamente entendidas como sinônimos. A primeira tem caráter prático, relativo e restrito a determinada circunstância. Já a segunda é a reflexão filosófica sobre a moral, busca compreender sua lógica e justificá-la. (S 1)
Dentre as instruções de mudança de pontuação sugeridas a seguir, aquela que a gramática condena é:
O cérebro imoral – Mentes corrompidas
DANIEL MARTINS DE BARROS
As decisões morais, como todo tipo de decisão, passam por nosso cérebro. Se não sabemos ao certo todos os elementos que levam alguém a se corromper, conhecemos pelo menos algumas áreas cerebrais que falham na tentativa de impedir tais decisões.
As mentes corruptas podem ser influenciadas pelo poder – o sujeito passa a se achar menos condenável que os outros por ser poderoso (hipocrisia moral) – e também pelas atitudes – depois de se corromper as pessoas se convencem que não era errado, para fugir da dissonância ética. Mas o que será que acontece no cérebro corrompido?
A corrupção é uma atitude que resulta de um cálculo no qual pesam dois principais fatores: a importância que se dá às normas sociais e o risco de ser pego. Outras variáveis podem influir na decisão, como a quantidade roubada, quem será prejudicado, por quanto tempo durará o crime, o meio de perpetrálo etc., mas de uma maneira ou outra estão todas atreladas aos dois primeiros. Quanto mais se consideram os valores da sociedade, menor a chance de violá-los. Como menor também é a chance de fazer algo errado na proporção que cresce a chance de ser flagrado. Essa tomada de decisão moral, como todas as outras, no fim das contas, depende de um cérebro bem afinado. Sobretudo no componente emocional.
Um dos modelos usados para compreender a relação entre cérebro e comportamento moral é o da psicopatia. Embora não exista uma causa para ela, nem um exame cerebral que a diagnostique, sabese que, de forma geral, o cérebro dos psicopatas funciona de forma diferente do das outras pessoas. Sua frieza, baixa reação emocional, ausência de medo devem-se – ao menos em parte – a um menor funcionamento das estruturas cerebrais chamadas amígdalas (nada a ver com as da garganta). Elas captam sinais de perigo, de ameaças, e disparam reações físicas automáticas, como aceleração do coração e sudorese, reações que os psicopatas não apresentam (daí serem literalmente frios). Tais reações não se devem apenas ao que vemos e ouvimos, mas também à forma como interpretamos as situações com base em memórias, conhecimento e raciocínio – o que ocorre numa outra região com o longo nome de córtex pré-frontal ventromedial (VMPFC, na sigla em inglês). É nessa região que ocorre a deliberação, onde os aspectos emocionais e racionais são calculados e a decisão é tomada. Pacientes que sofrem lesões neurológicas nessa área mudam seu comportamento e tornam-se mais indiferentes aos outros, egoístas, decidindo de forma mais imediatista e irresponsável – não por acaso, tal condição é por vezes chamada de “psicopatia adquirida”.
Se muitas vezes deixamos de fazer o que queríamos é por conta desses freios emocionais que faltam aos psicopatas. Não falo só de sermos capazes de resistir àquela vontade de avançar no pescoço de alguém, mas também de não trapacear no trabalho para conseguir uma promoção; não prejudicar um amigo por dinheiro; não pegar da geladeira o último pedaço de doce que não é nosso. Imaginamos que as pessoas afetadas irão sofrer, o que nos faz pensar duas vezes. O medo de ser pego também nos segura. Esses dois breques comportamentais faltam absolutamente nos psicopatas e parcialmente nos corruptos. Como a corrupção é sempre lesiva para alguém, para se corromper a pessoa tem que superar os sentimentos negativos que seu ato gera, além de passar por cima do medo.
Claro que nem todo corrupto tem o diagnóstico de psicopatia (a maioria não deve ter), mas fica evidente que corromper-se é, em alguma medida, pensar como um psicopata, é buscar o máximo de ganho com o mínimo de esforço, pagando por isso apenas o preço de lesar os outros. E é o tamanho desse “apenas” que diferencia o cidadão que opta por não roubar, o corrupto que supera sua culpa e o psicopata incapaz de empatia.
E nós, com que tipo de cérebro queremos pensar nosso país?
Texto adaptado de: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/o-cerebro-imoral-mentes-corrompidas-parte-3/ Acesso em 23 de março de 2016.
Considerações sobre a loucura
Ferreira Gullar
Ouço frequentemente pessoas opinarem sobre tratamento psiquiátrico sem na verdade conhecerem o problema. É bacana ser contra internação. Por isso mesmo traçam um retrato equivocado de como os pacientes eram tratados no passado em manicômios infernais por médicos que só pensavam em torturá-los com choques elétricos, camisas de força e metê-los em solitárias.
Por isso mesmo exaltam o movimento antimanicomial, que se opõe à internação dos doentes mentais. Segundo eles, os pacientes são metidos em hospitais psiquiátricos porque a família quer se ver livre deles. Só pode fazer tal afirmação quem nunca teve que conviver com um doente mental e, por isso, ignora o tormento que tal situação pode implicar.
Nada mais doloroso para uma mãe ou um pai do que ter de admitir que seu filho é esquizofrênico e ser, por isso, obrigado a interná-lo. Há certamente pais que se negam a fazê-lo, mas ao custo de ser por ele agredido ou vê-lo por fim à própria vida, jogando-se da janela do apartamento.
Como aquelas pessoas não enfrentam tais situações, inventam que os hospitais psiquiátricos, ainda hoje, são locais de tortura. Ignoram que as clínicas atuais, em sua maioria, graças aos remédios neuroléticos, nada têm dos manicômios do passado.
Recentemente, num desses programas de televisão, ouvi pessoas afirmarem que o verdadeiro tratamento psiquiátrico foi inventado pela médica Nise da Silveira, que curava os doentes com atividades artísticas. Trata-se de um equívoco. A terapia ocupacional, artística ou não, jamais curou algum doente.
Trata-se, graças a Nise, de uma ocupação que lhe dá prazer e, por mantê-lo ocupado, alivia-lhe as tensões psíquicas. Quando o doente é, apesar de louco, um artista talentoso, como Emygdio de Barros ou Arthur Bispo do Rosário, realiza-se artisticamente e encontra assim um modo de ser feliz.
Graças à atividade dos internados no Centro Psiquiátrico Nacional, do Engenho de Dentro, no Estado do Rio, criou-se o Museu de Imagens do Inconsciente, que muito contribuiu para o reconhecimento do valor estético dos artistas doentes mentais. Mas é bom entender que não é a loucura que torna alguém artista; de fato, ele é artístico apesar de louco.
Tanto isso é verdade que, das dezenas de pacientes que trabalharam no ateliê do Centro Psiquiátrico, apenas quatro ou cinco criaram obras de arte. Deve-se reconhecer, também, que conforme a personalidade de cada um seu estado mental compõe a expressão estética que produz.
No tal programa de TV, alguém afirmou que, graças a Nise da Silveira, o tratamento psiquiátrico tornou-se o que é hoje. Não é verdade, isso se deve à invenção dos remédios neurolépticos que possibilitam o controle do surto psíquico.
É também graças a essa medicação que as internações se tornaram menos frequentes e, quando necessárias, duram pouco tempo – o tempo necessário ao controle do surto por medicação mais forte. Superada a crise, o paciente volta para casa e continua tomando as doses necessárias à manutenção da estabilidade mental.
Não pretendo com esses argumentos diminuir a extraordinária contribuição dada pela médica Nise da Silveira ao tratamento dos doentes mentais no Brasil. Fui amigo dela e acompanhei de perto, juntamente com Mário Pedrosa, o seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional.
Uma das qualidades dela era o seu afeto pelas pessoas e particularmente pelo doente mental. Eis um exemplo: como o Natal se aproximava, ela perguntou aos pacientes o que queriam de presente. Emygdio respondeu: um guarda-chuva.
Como dentro do hospital naturalmente não chovia, ela concluiu que ele queria ir embora para casa. E era. Ela providenciou para que levasse consigo tinta e tela, a fim de que não parasse de pintar.
Ele se foi, mas, passado algum tempo, alguém toca a campainha do gabinete da médica. Ela abre a porta, era o Emygdio, de paletó, gravata e maleta na mão. “Voltei para continuar pintando, porque lá em casa não dava pé.” E ficou pintando ali até completar 80 anos, quando, por lei, teve que deixar o hospital e ir para um abrigo de idosos, onde morreu anos depois.
(Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ferreiragullar/2016/02/174 1258-consideracoes-sobre-a-loucura.shtml)
A mãe ideal (só que não)
Basta uma mulher contar que está grávida para que apareça um exército de palpiteiros. Conselhos e dicas a respeito da gravidez, do parto e dos cuidados com o bebê pipocam de todos os cantos.
O parto deve ser natural, de preferência em casa; a amamentação, exclusiva até pelo menos o sexto mês, em livre demanda (o bebê mama quando desejar). Os conselhos ainda tratam da maneira correta de carregar a criança, como fazê-la dormir a noite toda e alimentá-la sem agrotóxicos e alimentos industrializados.
A maioria está bem-intencionada, acredita que se sua receita funcionou para si, será, portanto, útil a todas as outras mães. E os conselhos vêm de todo o lado: da mãe, das irmãs, das amigas, da vizinha. A mulher, despreparada e ainda sem dominar o universo que acabou de adentrar, ouve tudo com atenção, como se seguisse uma receita em que a perda de um único ingrediente pudesse estragar completamente o resultado final.
Então chega a hora tão aguardada. E aí a mulher se depara com a realidade que cedo ou tarde cai como um meteoro na cabeça de qualquer mãe: nem tudo sai como o esperado.
O parto não foi bem como ela imaginou, a amamentação não corre às mil maravilhas, a criança não para de chorar, nenhuma receita para acabar com a cólica do bebê funciona, e a mãe se vê, muitas vezes, impelida a pedir ajuda, a ir em busca de informações. Porque, com a internet e todos os mil movimentos existentes, receitas não faltam.
A pressão pela perfeição atinge as mulheres em outras fases da vida, mas em nenhuma outra é tão cruel quanto no início da maternidade. É nesse momento em que a mulher está desprotegida, em que se sente responsável por outro ser que a cobrança pode ser mais implacável.
A intenção inicial pode não ter sido essa, mas cada vez que uma regra é adotada como geral, aquelas que não a seguem se sentem, no mínimo, incompetentes. Afinal, que mãe não quer acertar e fazer tudo o que pode pelo bem-estar e saúde do filho?
Acontece que regras e dogmas podem ser bastante aprisionadores e opressivos, tornando a mulher insatisfeita e insegura. Desnorteada, ela deixa de ouvir a pessoa mais importante nesse momento: ela mesma.
A verdade é que não existe uma receita a ser seguida. A maternidade é uma busca quase solitária, que envolve a mãe e o bebê. Cada mulher precisa buscar e encontrar seu caminho. Dicas podem ser bem-vindas, desde que dadas com sensibilidade e não com a intenção de ensinar.
Dá para ser boa mãe sem ser perfeita. Não é fácil, mas é possível. Mesmo para quem, como eu, não segue a cartilha da mãe ideal.
(Mariana Fusco Varella. Publicado em 29/01/2015. Disponível em: http://drauziovarella.com.br/para-as-mulheres/a-mae-ideal-so-quenao/#content. Acesso em: 19/05/2016.)
Por que é importante educar para valores?
O noticiário da semana traz informações tristes sobre as perspectivas da paz na Colômbia, os resultados das eleições para prefeito e, num cantinho, quase despercebida, uma nota sobre o referendo na Hungria a propósito da cota de imigrantes que a União Europeia estabeleceu para cada país-membro. A Hungria decidira, por 95% dos votos, não abrigar refugiados. Por sorte, dado o baixo comparecimento, o resultado do referendo não teve valor.
A Hungria é um país com um sistema educacional expressivamente melhor que o nosso, posicionando-se em 39º lugar no Pisa, contra nossa desconfortável 58ª posição, embora com uma média inferior à da OCDE.
Pensei, quando li, em como pode ser falacioso acharmos que basta oferecer educação de qualidade para tornarmos o indivíduo mais apto a vencer preconceitos e a se perceber como parte da grande “tribo” humana. Afinal, as identidades nacionais, nos séculos 19 e 20, se definiram num processo de “nós” contra os “outros”.
A solidariedade e a compaixão seriam sentimentos reservados a nós, não aos outros. Vencer essa lógica é dificílimo, mesmo entre grupos étnicos no mesmo país, independentemente da aparente qualidade do sistema educacional vigente.
Lembrei-me de outras ondas de refugiados, estes oriundos da Hungria: os judeus, especialmente em 1944, e os perseguidos políticos em 1956, depois de uma “primavera húngara” dizimada por tanques. Os refugiados húngaros foram recebidos em diversos países, inclusive no Brasil. E, agora, em transição demográfica acentuada, precisando de jovens para incorporar à sua envelhecida força de trabalho, não querem refugiados dos outros?
A verdade é que não basta ter uma população com bom estudo ou até com nível superior. Há também que se formar para valores, nas famílias e nas escolas.
Isso não quer dizer, no Brasil, acrescentar mais uma disciplina às já 13 que disputam as quatro horas de aula, no nosso sofrível ensino médio. Quer dizer que devemos ensinar os conteúdos de forma diferente, formando, como nos é proposto pelo recente documento aprovado pela ONU em 2015, “alunos como cidadãos globais”. Alunos comprometidos com os destinos do planeta, aptos a serem autônomos, mas também solidários, e não só com seus conterrâneos ou correligionários.
Alunos persistentes, mas também abertos a novas experiências e a novos horizontes, que podem entender que o diferente não é ilegítimo, que o estrangeiro não é uma ameaça.
Educar para valores em 2016 é não permitir nunca mais que crianças sírias naveguem sem rumo e que povos que agora não necessitem mais de ajuda fechem-lhes as portas, não importando quão melhores sejam seus sistemas de ensino.
(COSTIN, Cláudia. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudia-costin/2016/10/1820521-por-que-e-importante-educar-paravalores.shtml. Acesso em: 07/10/2016.)
Sou todo ouvidos
Passear com um cachorro todas as manhãs pode render ao seu dono preciosas incursões nos mistérios da alma humana. (Ficou bonita esta frase! Parece abertura de TCC. Vou usá-la outra vez). Estabeleci com o Bruno – o vira-lata mais cordial da Serra – algumas rotinas e trajetos com variáveis em função do meu humor matinal e, principalmente, do humor dele. A verdade é que não passeamos com os cães; eles é que nos levam pra rua, puxando-nos por onde bem desejam. No meu caso, construí com o Bruno uma convivência amigável. Ou quase: às vezes discutimos sobre atravessar a rua em determinado ponto; fazer xixi nesta ou naquela árvore ou dar mais uma volta no gramado. Nem sempre venço e geralmente desisto, deixando-o rebocar-me à revelia.
O melhor das manhãs é que vou colhendo pequenos fragmentos, cenas inteiras ou reprises do que escuto na rua. Numa das rotas passo bem cedo por um apartamento térreo onde já estão todos acordados. A dez metros da janela, instalada logo acima do passeio, ouve-se a discussão habitual. Curioso: os moradores daquela unidade habitacional de classe média discutem todas as manhãs. Bruno ergue as orelhas e eu faço o mesmo, bisbilhotando a vida alheia que salta pra rua, em alto e bom som, exibindo-se sem pudores. Aperto o passo, mas é inevitável captar impropérios e troca de acusações. São sempre vozes masculinas. A mais eloquente é a de um homem mais velho. E as outras vozes, deduzo, são de rapazes. Um sermão matinal familiar? O pai de dois boêmios, plantado a madrugada inteira no sofá, fumando e vendo TV, à espera dos dois folgados que sempre chegam bêbados? Ou uma quadrilha de assaltantes batendo boca em torno da divisão de lucros, após uma noite de crimes? A paz não reina naquele apartamento. Um dia ainda estico o pescoço, boto o nariz na janela e decifro este caso que tanto me intriga.
No quarteirão seguinte encontro o Profeta Simpatia. Batizei-o em segredo porque o cara nasceu pra isso. Noto que ele está a caminho do trabalho; tem o modelo de burocrata inofensivo com um terno surrado e uma pasta velha. Entretanto, está realmente em missão divina: salvar as almas incautas que cruzam seu trajeto de manhã – queiram elas ou não, o que complica um pouco, convenhamos. Dirige seu apostolado a gente simples: lavadores de carros, babás com bebês, domésticas voltando da padaria, pedreiros na entrada da obra. Sempre me cumprimenta, fazendo uma pausa nos horrores do inferno e na salvação do rebanho. Reduz o volume de sua voz grave e sorri, voltando às exortações logo que me afasto. Ele sabe que sou um pecador sem cura, jamais desperdiçaria tempo comigo.
Na subida da avenida, quase à mesma hora, cruzo com a Dama do Celular. Lá vem ela muito bem vestida, perfumada, cheia de colares e usando sapatos de salto que ressoam apressados no cimento – toc, toc, toc! Fala altíssimo ao telefone e gesticula, inflamada. Imaginei duas opções: ou é uma executiva atarefadíssima a caminho do escritório, açoitando à distância um exército de empregados incompetentes; ou uma rica provedora do lar dando ordens à babá, chofer, seguranças, jardineiro e talvez até ao marido, aquele inútil que ainda dorme. Mais de uma vez escutei-a repetindo a frase ameaçadora: “Mas tem de ser pra hoje, tá ouvindo, fulano?”
Nem sempre – e por isso felizmente – costumo deparar-me com o Casal Assustado das Oito. Avistam-me e afastam-se imediatamente para o meio da rua, de olho no Bruno, como se eu levasse pela coleira não um animal boa praça, mas um Dragão-de-komodo assassino. Deles escuto pouco. Resmungam qualquer censura, fazem cara feia e depois retornam à calçada. Não sei se o que os amedronta é mesmo o meu cachorro ou se já fomos protagonistas de algum sério entrevero numa encarnação passada.
Passear com um cachorro pode render ao seu dono preciosas incursões nos mistérios da alma humana. (Gostei da frase. Não disse que iria repeti-la?) No meio de barulhos matinais, há silêncios nos olhares perdidos voltados para os ipês da avenida. Ou no breve intervalo entre o sinal abrir e o motorista de trás meter a mão na buzina, violentando a calma da manhã. São silhuetas disfarçadas por vidros escuros. Caras preocupadas, inquietas, mãos a tamborilar nos volantes. Dormiram com seus problemas, tomaram café em companhia deles e seguem juntos para seus destinos. Preocupações corriqueiras: as contas do mês, o resultado daquele exame. A nota baixa do filho, a vida difícil. O amor que se foi ou o que ainda pode vir a ser. As encruzilhadas; as escolhas penosas, o dilema do faço-ou-não-faço. O silêncio é muito mais fácil de se ouvir.
(FABRINI, Fernando. Disponível em: http://www.otempo.com.br/opini%C3%A3o/fernando-fabbrini/sou-todo-ouvidos-1.1384729.)
A vida é muito curta para fazer dieta
A vida é mesmo muito curta. Quantas vezes ouvimos falar que o tempo voa, quantas vezes os mais experientes nos disseram que queriam ter descansado mais, viajado mais, aproveitado mais os companheiros, os filhos. A gente nem vê os dias passando, justamente porque prevemos muita vida pela frente. Imagine quanto tempo nós já perdemos negando prazeres, deixando para aproveitar depois mesmo sabendo que nada retrocede. Então, de que adianta sermos prisioneiros de nós mesmos, escravos do tempo? Se sabemos que somos feitos de agora, não faz sentido esperar para desfrutar amanhã.
Do mesmo jeito que a vida é curta para guardar rancor, para ficar de mau humor, para cumprir só com as obrigações, ela também é curta para passar por privações que nós mesmos criamos. Pense bem. É como estar num cativeiro com as chaves no bolso. Caramba. Somos crescidos o bastante para sermos os donos do nosso nariz, do coração, do estômago e do corpo inteiro.
A vida é muito curta para negar prazeres. E comer, definitivamente, é um enorme prazer. Sem contar que a comida aproxima as pessoas, como na casa da avó, onde toda a família se reúne espremida na cozinha para enfiar o dedo no molho, raspar a panela de doce e roubar uma colherinha antes de servir os pratos. Quantos pedidos de namoro foram feitos num jantar à luz de velas? Quantos casamentos começaram entre louças e taças de vinho? Quanto amor surgiu em volta de tabuleiros, quantas histórias compartilhadas entre cafés, sorrisos e pedaços de bolo?
Sinto muito, mas eu não vou tomar sopa e comer clara de ovo com batata doce 365 dias por ano, sozinha, tirando foto do meu prato e compartilhando a minha triste e solitária refeição insossa com as mulheres da academia. Não vou passar os meus dias comendo por obrigação, porque a sensação que me dá é a mesma de um astronauta que se alimenta de pílulas ou um enfermo mantido a caldo ralo. Eu não vou dispensar um vinho com as minhas amigas nem um jantar a dois pensando nos carboidratos. Não vou deixar de tomar cerveja porque dá barriga, e muito menos trocar o bom e velho brigadeiro por uma barra de proteína. Não vou azucrinar o garçom para saber o valor calórico dos bolinhos e da linguiça. Não vou encher o saco doutrinando sobre a dieta paleolítica.
É que não faz nenhum sentido viver sob a pressão de um corpo perfeito, de um modelo de beleza esquálido, só porque as capas de revista esfregam na nossa cara o que é “bonito”. Outra coisa: não existe perfeição, como também não existe um só tipo de beleza, um só tipo de cabelo, uma única cor de olhos. Que mania que as pessoas têm de rotular tudo e todo mundo, dividir em espécies, classificar e, no fim das contas, separar o bom do ruim, o que presta do que não presta.
A vida passa tão rápido que ninguém pensa no tempo que se perde vivendo para ser como os outros e esquecendo de viver para si. Estão todos sozinhos, com pressa, mastigando as suas marmitas sem glúten e pouco sódio. Não é permitido aproveitar o hoje porque é preciso estar linda amanhã. Você deve castrar as suas vontades se quiser ser “gostosa”. Ninguém vai te amar se você tiver a barriguinha saliente e uma dúzia de celulites. Das mais inadmissíveis loucuras para emagrecer aos produtos que inflem os músculos e o ego. É batata. É impossível ser bonita se você não for como elas.
A alimentação não tem que ser um check list que deve ser cumprido. No final das contas, sabe o que eu queria? Eu queria mesmo é que a gente se libertasse das obrigações e dos conceitos que o mundo impõe, começando pela ilusão de que felicidade é privação. Pra mim, ser feliz é justamente o contrário. Felicidade é permitir-se.
[...]
Dizem que aquela mulher que se alimenta a base de shakes é feliz. Eu tenho as minhas dúvidas.
Disponível em: <http://www.revistabula.com/5786-a-vidae-muito-curta-para-fazer-dieta/>.
Leia o trecho a seguir.
“É que não faz nenhum sentido viver sob a pressão de um corpo perfeito,de um modelo de beleza esquálido,só porque as capas de revista esfregam na nossa cara o que é ‘bonito’ .Outra coisa: não existe perfeição, como também não existe um só tipo de beleza,um só tipo de cabelo,uma única cor de olhos.”
Segundo a norma padrão da língua portuguesa,os dois-pontos,destacados no trecho,podem ser substituídos,sem alteração de sentido, por:
INSTRUÇÃO: Leia o texto a seguir para responder à questão.
Cochilar melhora a produtividade econômica?
Sempre bate aquela preguicinha ao voltar para o trabalho após o almoço. A ciência explica: estudos mostram que a nossa energia começa a diminuir por volta de sete horas depois de termos acordado, momento do dia que coincide justamente com a volta do almoço.
Aqui no Brasil costumamos tomar um cafezinho e dar continuidade às tarefas do dia. Já a Espanha lida com isso de forma diferente. O país é conhecido justamente por suas sestas, período de três horas de duração que engloba o almoço e o descanso dos trabalhadores.
Isso significa que, enquanto em outros países os trabalhadores têm expedientes que vão das 9h às 18h, os espanhois entram no trabalho às 9h e saem por volta das 20h. A eficácia desse esquema tem sido colocada em cheque há um tempo. Estudos mostram que os alemães, por exemplo, trabalham menos, porém são mais produtivos que os espanhois. Por conta disso, o chefe do governo da Espanha, Mariano Rajoy, quer acabar com a tão querida sesta.
Há muito o que ser considerado no que diz respeito a essa decisão. Um estudo [...] realizado pelos economistas Matthew Gibson e Jeffrey Shrader é um dos primeiros a considerar a relação entre o sono e a produtividade econômica. A dupla não estuda especificamente as sestas ou cochilos, e sim os benefícios de mais horas dormidas por semana.
Gibson e Shrader observaram que uma boa noite de sono tem sim relação com a produtividade dos trabalhadores. Quando dormem pelo menos uma hora a mais por semana, eles trabalham melhor e mais, sendo mais propensos a serem bem-sucedidos e receberem aumentos.
Considerando essa lógica e outros estudos, talvez o problema não seja a sesta propriamente dita, mas a duração dela. Na pesquisa em questão, os cientistas afirmam que cada soneca tem efeitos diferentes dependendo de sua duração. Um cochilo de trinta minutos, por exemplo, é o ideal para a produtividade, pois o cérebro não avança para estágios mais demorados do sono. Já uma soneca com duração de 45 a 90 minutos permite que o cérebro entre em um modo de ondas lentas, causando preguiça ao acordar. [...] Ainda assim, os economistas apostam no sono da noite. “O sono noturno é bem melhor do que os cochilos”, disse Jeffrey Shrader ao Science of Us. Mas um cochilo ia bem, não?
Disponível em: <http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/04/cochilar-melhora-produtividade-economica.html>
“A ciência explica: estudos mostram que a nossa energia começa a diminuir por volta de sete horas depois de termos acordado, momento do dia que coincide justamente com a volta do almoço.”
Com base nesse trecho, é correto afirmar que:
Agora é oficial: homeopatia não funciona
Estudo analisou a eficácia da homeopatia em 68 doenças
Em 1796, o alemão Samuel Hahnemann publicava suas primeiras observações sobre uma nova forma de enxergar a medicina: a homeopatia. Esse é o nome dado a uma linha de tratamento que se baseia na chamada “lei dos semelhantes”. Enquanto a medicina tradicional, também conhecida como alopatia, usa compostos com efeitos opostos aos sintomas que deseja tratar, a homeopatia segue a lógica contrária: seus supostos remédios contêm substâncias que causariam exatamente o mal que você está passando. Em termos práticos, se você tem alergia a abelhas, um médico homeopata lhe receitaria como tratamento o veneno diluído do animal. Mas esse procedimento é questionado desde a criação da homeopatia. Outro ponto crítico é a diluição. Na homeopatia, as substâncias ativas são diluídas em uma grande quantidade de água – a ponto de, tecnicamente, certos medicamentos homeopáticos conterem apenas H2O.
Agora, 220 anos depois, mais um argumento vai ser usado nas discussões entre apoiadores e críticos: um pesquisador australiano afirma que a homeopatia não cura nenhuma das 68 doenças que ele avaliou. As doenças incluem alergia, asma, fibromialgia, diarreia e até condições mais específicas, como afasia de Broca (distúrbio neurológico em que o paciente perde a fala).
[...]
Paul Glasziou é professor na Universidade Bond, localizada na Austrália, e ocupa uma cadeira no Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica. Lá ele foi responsável por analisar 176 estudos que procuravam medir a eficiência da homeopatia em tratamentos curativos. O resultado é que os exames não mostraram uma melhora maior do que as taxas de placebo (quando o paciente acredita estar sendo tratado, mas recebe apenas uma substância inócua). Ou seja: quando alguém toma algum remédio homeopático e apresenta melhora, isso na verdade se deve à autossugestão daquela pessoa.
“Eu consigo entender que Hahnemann estava insatisfeito com as práticas médicas do século 18, como as sangrias, e tentou achar uma alternativa melhor”, afirma Glasziou em uma postagem no blog do Conselho. “Mas eu acho que ele ficaria desapontado pelo fracasso coletivo da homeopatia de, ao invés de continuar seguindo suas investigações inovadoras, seguir perseguindo um beco sem saída terapêutico”, conclui.
GERMANO, Felipe. Super Interessante. Disponível em:<http://zip.net/blsVGb>
Releia o trecho a seguir.
“Em 1796, o alemão Samuel Hahnemann publicava suas primeiras observações sobre uma nova forma de enxergar a medicina: a homeopatia.”
Em relação ao uso de dois-pontos, de acordo com a norma padrão da língua portuguesa e nesse contexto, assinale a alternativa INCORRETA.
Ética de princípios.
Rubem Alves
AS DUAS ÉTICAS: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos - a que os filósofos dão o nome de ética contextual.
Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre os estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não veem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe ... Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos veem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...
Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo desta?”
Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer? Se o médico for um adepto da ética estrelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: “Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer ...”. Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações.
A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade. Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: “Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano - 'A senhora breve estará curada ...' -, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?” E ele dirá: “Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer ...”. Aí, então, os dois conversarão longamente - como se estivessem de mãos dadas ... - sobre a morte que os dois haverão de enfrentar.
Com o sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade. Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem. Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da Aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará?
Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: “Qual delas está mais a serviço do amor?”