Questões de Concurso Comentadas sobre português
Foram encontradas 198.119 questões
Poltrona sete
Desci para a plataforma de embarque. Vi o ônibus. Entrei.
Tudo era fim de tarde naquele universo de sol morrendo aos poucos. Poltrona sete. Sentei. O sol queria permanecer um pouco mais. A vida inteira cabia naquele espaço tão fechado quanto o tempo em meu rosto insone.
Aventurei um riso — me frustrei. Levantei as pernas em abraço de feto na barriga de uma mãe ausente — entristeci. O sol escureceu meus olhos — angustiei. Iria para sempre. Passei a mão no rosto. Iria para sempre. A boca amarga. Iria para sempre. Enquanto me perdia em solidão e caos, olhei pela janela.
Na rodoviária, com o sol se pondo, vi o amor se materializar na figura de dois rapazes.
De frente um para o outro, como se quisessem adiar a despedida, eles se abraçaram. Um era anêmico pela própria natureza — os cabelos escuros caíam nos olhos. O outro era sério — olhava perdido para o mundo e trazia nos ombros a letargia do domingo à tarde.
O sol espalhava prenúncios de adeus.
Com o transporte às vésperas de sair, o amor se fez carne e habitou entre nós. Eles se beijaram. Tanta ternura se deu no beijo, tanto amor concretizado se fez no gesto, mas o ódio, intolerante, resolveu puni-los.
O velho ao lado dele saiu com nojo. O menino que olhava foi repreendido pela mãe. O atendente da lanchonete riu. A mulher que limpava o local, estarrecida, cessou a vassoura. A moça com Frida Kahlo na blusa fez esforço para agir naturalmente. O homem ao lado dela conferiu o relógio e virou-se. A freira de hábito irrepreensível fez o sinal da cruz.
O desconforto passeou pela rodoviária, mas o amor, indiferente, dançou no espelho dos olhares perplexos. Quando o amor dança, o ódio não consegue prendê-lo com seus grilhões enferrujados.
Depois um se arrastou para o ônibus e o outro paralisou na plataforma. Sob vigília, eles sentiram o sol se tornar áspero. Irmãos de muitas lutas, não saberiam lidar com a distância que lhes queria perfurar os corações exangues.
O que se foi baixou os olhos. O que ficou conteve o choro. Nuvem não segura tempestade que teima em descer. Aos poucos, o que era lágrimas se fez soerguer do corpo.
Uns riam, outros estranhavam. Uns diziam que era o fim do mundo, outros reprovavam em silêncio.
O amor tem duas margens e um rio que lhe atravessa.
Eu contemplava a cena em silêncio. Não se pode dizer muito quando o amor derrama ausências. A distância cria ciladas.
Aonde iria um? Aonde iria o outro?
A rodoviária era pequena para o amor de dois homens em estado de lágrimas. O sol vestiu ausência, a lua solidão.
Eu flagrava a cena em silêncio, mas...
Sofri pancada no rosto ou pressenti o transporte em prenúncios de partida?
Saindo da rodoviária, constatei que um dos rapazes em despedida era eu. A escuridão engoliu meu corpo. Fiquei aos gritos. Ninguém me ouviu da sepultura. Elza Soares cantou Lírio Rosa. Apaguei os olhos para não ver pela janela.
Desejei dizer que... Minha boca tentou, mas... Meu corpo queria, só que... Não pude fugir, apesar de... Na poltrona, fui afixado por milhões de pregos.
E fui embora, doendo sempre nos solavancos do ter-que-ir-para-nunca-mais.
(Cardoso, Emerson. O baile das assimetrias. “Poltrona sete”. São Paulo: OIA, 2002.)
Podemos dizer que a motivação maior do texto é:
Poltrona sete
Desci para a plataforma de embarque. Vi o ônibus. Entrei.
Tudo era fim de tarde naquele universo de sol morrendo aos poucos. Poltrona sete. Sentei. O sol queria permanecer um pouco mais. A vida inteira cabia naquele espaço tão fechado quanto o tempo em meu rosto insone.
Aventurei um riso — me frustrei. Levantei as pernas em abraço de feto na barriga de uma mãe ausente — entristeci. O sol escureceu meus olhos — angustiei. Iria para sempre. Passei a mão no rosto. Iria para sempre. A boca amarga. Iria para sempre. Enquanto me perdia em solidão e caos, olhei pela janela.
Na rodoviária, com o sol se pondo, vi o amor se materializar na figura de dois rapazes.
De frente um para o outro, como se quisessem adiar a despedida, eles se abraçaram. Um era anêmico pela própria natureza — os cabelos escuros caíam nos olhos. O outro era sério — olhava perdido para o mundo e trazia nos ombros a letargia do domingo à tarde.
O sol espalhava prenúncios de adeus.
Com o transporte às vésperas de sair, o amor se fez carne e habitou entre nós. Eles se beijaram. Tanta ternura se deu no beijo, tanto amor concretizado se fez no gesto, mas o ódio, intolerante, resolveu puni-los.
O velho ao lado dele saiu com nojo. O menino que olhava foi repreendido pela mãe. O atendente da lanchonete riu. A mulher que limpava o local, estarrecida, cessou a vassoura. A moça com Frida Kahlo na blusa fez esforço para agir naturalmente. O homem ao lado dela conferiu o relógio e virou-se. A freira de hábito irrepreensível fez o sinal da cruz.
O desconforto passeou pela rodoviária, mas o amor, indiferente, dançou no espelho dos olhares perplexos. Quando o amor dança, o ódio não consegue prendê-lo com seus grilhões enferrujados.
Depois um se arrastou para o ônibus e o outro paralisou na plataforma. Sob vigília, eles sentiram o sol se tornar áspero. Irmãos de muitas lutas, não saberiam lidar com a distância que lhes queria perfurar os corações exangues.
O que se foi baixou os olhos. O que ficou conteve o choro. Nuvem não segura tempestade que teima em descer. Aos poucos, o que era lágrimas se fez soerguer do corpo.
Uns riam, outros estranhavam. Uns diziam que era o fim do mundo, outros reprovavam em silêncio.
O amor tem duas margens e um rio que lhe atravessa.
Eu contemplava a cena em silêncio. Não se pode dizer muito quando o amor derrama ausências. A distância cria ciladas.
Aonde iria um? Aonde iria o outro?
A rodoviária era pequena para o amor de dois homens em estado de lágrimas. O sol vestiu ausência, a lua solidão.
Eu flagrava a cena em silêncio, mas...
Sofri pancada no rosto ou pressenti o transporte em prenúncios de partida?
Saindo da rodoviária, constatei que um dos rapazes em despedida era eu. A escuridão engoliu meu corpo. Fiquei aos gritos. Ninguém me ouviu da sepultura. Elza Soares cantou Lírio Rosa. Apaguei os olhos para não ver pela janela.
Desejei dizer que... Minha boca tentou, mas... Meu corpo queria, só que... Não pude fugir, apesar de... Na poltrona, fui afixado por milhões de pregos.
E fui embora, doendo sempre nos solavancos do ter-que-ir-para-nunca-mais.
(Cardoso, Emerson. O baile das assimetrias. “Poltrona sete”. São Paulo: OIA, 2002.)
Dadas as alternativas, marque a correta no que se refere à leitura do primeiro parágrafo do texto:
I. O parágrafo introdutório prepara o leitor para a leitura de uma densidade emocional típica de contos introspectivos e/ou passagens existenciais.
II. A viagem de ônibus pode ser vista como uma metáfora para o isolamento, a passagem do tempo e a finitude.
III. O “fim de tarde” e o “sol morrendo aos poucos” são descrições meteorológicas que apenas servem para contextualizar o leitor do tempo em que se passa a narrativa.
IV. O narrador projeta seu interior no cenário: o mundo lá fora está “morrendo”, assim como algo dentro dele parece estar se apagando ou pausando.
V. O desejo do sol de “permanecer um pouco mais” reflete a pressa do ser humano de segurar momentos que estão escapando, ou seja, medo de perder o ônibus.
O trecho destacado faz referência a:
“Talvez sorria, ou diga: — Alô, iniludível!”
Assinale o sinônimo adequado para o termo “iniludível”:
"Talvez eu tenha medo."
Assinale a opção que apresenta a classificação correta do verbo destacado
"O meu dia foi bom, pode a noite descer."
Assinale a opção que apresenta uma substituição correta da palavra destacada sem alterar o sentido do verso:
Nesse contexto, o poeta se refere à morte de forma indireta, pois há atenuação da palavra “morte”, socialmente percebida como indesejável.
O recurso de linguagem utilizado nesse verso constitui um exemplo de:
“As cerimônias de noivado organizavam a transmissão de bens, mas não havia casamento verdadeiro a não ser que tivesse havido união carnal”
Qual é a relação semântica desse trecho com a afirmação anterior?
“Essas uniões eram essencialmente políticas e sociais, decididas pelos pais.” (último parágrafo)
Quanto ao uso da vírgula no trecho acima, é CORRETO afirmar que:
“Se uma esposa morresse, o viúvo se casaria com a irmã dela.”
É CORRETO afirmar que sua estrutura é composta por:
“[...] e, se as alucinações forem controladas e não houver muitos novos danos, o chatGPT permanecerá sendo muito usado. ” (Parágrafo 6)
Nesse caso, o emprego do “se” introduz ideia de:
O mesmo ocorre com o par de palavras apresentado em:
( ) O texto afirma que a Inteligência Artificial pode substituir diversas profissões, especialmente aquelas baseadas em grandes bases de dados digitalizados.
( ) O autor defende que a IA é totalmente confiável e não apresenta falhas significativas.
( ) O texto aponta que, além do risco de aceitar como reais produções da IA, há também o perigo de considerar falsas produções humanas autênticas.
A sequência CORRETA é:
Assinale a opção que melhor apresenta a estratégia de argumentação predominante no texto.
Vaca Estrela e Boi Fubá
(Patativa do Assaré)
“… fez os açude secar. Assinale a alternativa em que todas as palavras apresentam o fonema sibilante /s/ igual aos destacados, independentemente da grafia.
Vaca Estrela e Boi Fubá
(Patativa do Assaré)
Dado o excerto, marque a opção em que não apareça a mesma regra de acentuação gráfica da palavra destacada:
“Ê ê ê ê lá a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela / Ô ô ô ô Boi Fubá.”
Vaca Estrela e Boi Fubá
(Patativa do Assaré)