Questões de Concurso Comentadas sobre português

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Q3753929 Português

Texto 1

Por que homens não são julgados pela aparência tanto quanto mulheres?

Martha Medeiros 


    Acho que foi a saudosa Danuza Leão que escreveu, certa vez, que não deveríamos sair de casa sem batom nem mesmo para ir até o mercado da esquina comprar um quilo de arroz. Vá que justamente neste intervalo de tempo você cruze na calçada com um ex-namorado que ainda faça seu coração saltar. Fosse hoje, Danuza correria o risco de ser cancelada por esse tipo de conselho — não bastassem nossas preocupações, ainda precisamos estar bonitas para encontros hipotéticos com sujeitos que já nem fazem parte da nossa vida?


    Alguém poderia sugerir que os homens, dentro do mesmo princípio, também deveriam colocar uma camiseta limpa antes de ir ao açougue comprar carne para o churrasco, mas esta equiparidade costuma ser derrubada pelas nossas diferenças de expectativas. Eu, ao menos, tenho um fraco por desgrenhados. Uma camisa para fora das calças, uma bota ainda com a poeira de algum show, aquela barba eternamente por fazer.


    Não estou dizendo que banho não seja importante, mas deixar o cabelo secar ao deus-dará não é pecado, tem até quem consiga emprego na Globonews sem jamais ter visto um pente. Cancelada serei eu por celebrar a liberdade que os homens têm de não serem julgados pela aparência e ainda apreciar a descompostura deles (sem exagero, claro — prefiro estar acompanhada por um homem de terno numa festa de casamento). Porém, considere este texto parte da luta: reivindico a mesma liberdade para nós.


    Não estaria na hora de reduzirmos os excessos de artifício? Somos perfeitamente atraentes com nossos cílios de nascença, com unhas aparadas e com os lábios que nos coube. Se é para inflar a boca, que seja a boca das calças: as skinny deram lugar às pantalonas e tudo bem seguir tendências da moda, é divertido e menos radical do que mudar o próprio rosto.


    Algumas mulheres ficarão de bronca comigo, mas é clássico: quanto mais natural, mais elegante.


    Mesmo assim, reconheço que não é fácil se libertar da patrulha dos costumes. Outro dia, entrei num mercado de esquina para comprar tomates, era só um pulinho, então nem me importei por estar com o cabelo mal preso num rabo de cavalo, os trapos que uso para trabalhar em casa e, claro, sem nenhum vestígio de batom. Mas, ao ser interpelada por um moço educado (e, se não me falha a memória, bem-vestido, o que põe em dúvida a minha preferência por esculhambação), lembrei dos conselhos da Danuza. Que ideia foi aquela de eu sair de cara lavada e com um mocassim de 1997? Eu sei, mais antigo que o mocassim, só esse desejo de causar boa impressão.


    Resta confiar que a nossa autenticidade dá conta do recado a cada vez que somos flagradas quando menos se espera, com os lábios nus.


Acessível em https://oglobo.globo.com/ela/martha-medeiros/coluna/2025/10/por-que-homens-nao-sao-julgados-pela-aparencia-tanto-quanto-mulheres.ghtml 

No período “¹Fosse hoje, ²Danuza correria o risco de ser cancelada por esse tipo de conselho...”, falta a conjunção que ligaria as duas orações – 1 e 2; mas, pelo contexto, é possível perceber que, entre elas, estabelece-se uma ideia de
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Q3753928 Português

Texto 1

Por que homens não são julgados pela aparência tanto quanto mulheres?

Martha Medeiros 


    Acho que foi a saudosa Danuza Leão que escreveu, certa vez, que não deveríamos sair de casa sem batom nem mesmo para ir até o mercado da esquina comprar um quilo de arroz. Vá que justamente neste intervalo de tempo você cruze na calçada com um ex-namorado que ainda faça seu coração saltar. Fosse hoje, Danuza correria o risco de ser cancelada por esse tipo de conselho — não bastassem nossas preocupações, ainda precisamos estar bonitas para encontros hipotéticos com sujeitos que já nem fazem parte da nossa vida?


    Alguém poderia sugerir que os homens, dentro do mesmo princípio, também deveriam colocar uma camiseta limpa antes de ir ao açougue comprar carne para o churrasco, mas esta equiparidade costuma ser derrubada pelas nossas diferenças de expectativas. Eu, ao menos, tenho um fraco por desgrenhados. Uma camisa para fora das calças, uma bota ainda com a poeira de algum show, aquela barba eternamente por fazer.


    Não estou dizendo que banho não seja importante, mas deixar o cabelo secar ao deus-dará não é pecado, tem até quem consiga emprego na Globonews sem jamais ter visto um pente. Cancelada serei eu por celebrar a liberdade que os homens têm de não serem julgados pela aparência e ainda apreciar a descompostura deles (sem exagero, claro — prefiro estar acompanhada por um homem de terno numa festa de casamento). Porém, considere este texto parte da luta: reivindico a mesma liberdade para nós.


    Não estaria na hora de reduzirmos os excessos de artifício? Somos perfeitamente atraentes com nossos cílios de nascença, com unhas aparadas e com os lábios que nos coube. Se é para inflar a boca, que seja a boca das calças: as skinny deram lugar às pantalonas e tudo bem seguir tendências da moda, é divertido e menos radical do que mudar o próprio rosto.


    Algumas mulheres ficarão de bronca comigo, mas é clássico: quanto mais natural, mais elegante.


    Mesmo assim, reconheço que não é fácil se libertar da patrulha dos costumes. Outro dia, entrei num mercado de esquina para comprar tomates, era só um pulinho, então nem me importei por estar com o cabelo mal preso num rabo de cavalo, os trapos que uso para trabalhar em casa e, claro, sem nenhum vestígio de batom. Mas, ao ser interpelada por um moço educado (e, se não me falha a memória, bem-vestido, o que põe em dúvida a minha preferência por esculhambação), lembrei dos conselhos da Danuza. Que ideia foi aquela de eu sair de cara lavada e com um mocassim de 1997? Eu sei, mais antigo que o mocassim, só esse desejo de causar boa impressão.


    Resta confiar que a nossa autenticidade dá conta do recado a cada vez que somos flagradas quando menos se espera, com os lábios nus.


Acessível em https://oglobo.globo.com/ela/martha-medeiros/coluna/2025/10/por-que-homens-nao-sao-julgados-pela-aparencia-tanto-quanto-mulheres.ghtml 

Com base no Texto 1, considerando as regras de concordância verbal da língua portuguesa, assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Q3753927 Português

Texto 1

Por que homens não são julgados pela aparência tanto quanto mulheres?

Martha Medeiros 


    Acho que foi a saudosa Danuza Leão que escreveu, certa vez, que não deveríamos sair de casa sem batom nem mesmo para ir até o mercado da esquina comprar um quilo de arroz. Vá que justamente neste intervalo de tempo você cruze na calçada com um ex-namorado que ainda faça seu coração saltar. Fosse hoje, Danuza correria o risco de ser cancelada por esse tipo de conselho — não bastassem nossas preocupações, ainda precisamos estar bonitas para encontros hipotéticos com sujeitos que já nem fazem parte da nossa vida?


    Alguém poderia sugerir que os homens, dentro do mesmo princípio, também deveriam colocar uma camiseta limpa antes de ir ao açougue comprar carne para o churrasco, mas esta equiparidade costuma ser derrubada pelas nossas diferenças de expectativas. Eu, ao menos, tenho um fraco por desgrenhados. Uma camisa para fora das calças, uma bota ainda com a poeira de algum show, aquela barba eternamente por fazer.


    Não estou dizendo que banho não seja importante, mas deixar o cabelo secar ao deus-dará não é pecado, tem até quem consiga emprego na Globonews sem jamais ter visto um pente. Cancelada serei eu por celebrar a liberdade que os homens têm de não serem julgados pela aparência e ainda apreciar a descompostura deles (sem exagero, claro — prefiro estar acompanhada por um homem de terno numa festa de casamento). Porém, considere este texto parte da luta: reivindico a mesma liberdade para nós.


    Não estaria na hora de reduzirmos os excessos de artifício? Somos perfeitamente atraentes com nossos cílios de nascença, com unhas aparadas e com os lábios que nos coube. Se é para inflar a boca, que seja a boca das calças: as skinny deram lugar às pantalonas e tudo bem seguir tendências da moda, é divertido e menos radical do que mudar o próprio rosto.


    Algumas mulheres ficarão de bronca comigo, mas é clássico: quanto mais natural, mais elegante.


    Mesmo assim, reconheço que não é fácil se libertar da patrulha dos costumes. Outro dia, entrei num mercado de esquina para comprar tomates, era só um pulinho, então nem me importei por estar com o cabelo mal preso num rabo de cavalo, os trapos que uso para trabalhar em casa e, claro, sem nenhum vestígio de batom. Mas, ao ser interpelada por um moço educado (e, se não me falha a memória, bem-vestido, o que põe em dúvida a minha preferência por esculhambação), lembrei dos conselhos da Danuza. Que ideia foi aquela de eu sair de cara lavada e com um mocassim de 1997? Eu sei, mais antigo que o mocassim, só esse desejo de causar boa impressão.


    Resta confiar que a nossa autenticidade dá conta do recado a cada vez que somos flagradas quando menos se espera, com os lábios nus.


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Considerando o trecho “Se é para inflar a boca, que seja a boca das calças...”, do Texto 1, a partir da análise do emprego da linguagem e do sentido expresso pela autora, assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Q3753926 Português

Texto 1

Por que homens não são julgados pela aparência tanto quanto mulheres?

Martha Medeiros 


    Acho que foi a saudosa Danuza Leão que escreveu, certa vez, que não deveríamos sair de casa sem batom nem mesmo para ir até o mercado da esquina comprar um quilo de arroz. Vá que justamente neste intervalo de tempo você cruze na calçada com um ex-namorado que ainda faça seu coração saltar. Fosse hoje, Danuza correria o risco de ser cancelada por esse tipo de conselho — não bastassem nossas preocupações, ainda precisamos estar bonitas para encontros hipotéticos com sujeitos que já nem fazem parte da nossa vida?


    Alguém poderia sugerir que os homens, dentro do mesmo princípio, também deveriam colocar uma camiseta limpa antes de ir ao açougue comprar carne para o churrasco, mas esta equiparidade costuma ser derrubada pelas nossas diferenças de expectativas. Eu, ao menos, tenho um fraco por desgrenhados. Uma camisa para fora das calças, uma bota ainda com a poeira de algum show, aquela barba eternamente por fazer.


    Não estou dizendo que banho não seja importante, mas deixar o cabelo secar ao deus-dará não é pecado, tem até quem consiga emprego na Globonews sem jamais ter visto um pente. Cancelada serei eu por celebrar a liberdade que os homens têm de não serem julgados pela aparência e ainda apreciar a descompostura deles (sem exagero, claro — prefiro estar acompanhada por um homem de terno numa festa de casamento). Porém, considere este texto parte da luta: reivindico a mesma liberdade para nós.


    Não estaria na hora de reduzirmos os excessos de artifício? Somos perfeitamente atraentes com nossos cílios de nascença, com unhas aparadas e com os lábios que nos coube. Se é para inflar a boca, que seja a boca das calças: as skinny deram lugar às pantalonas e tudo bem seguir tendências da moda, é divertido e menos radical do que mudar o próprio rosto.


    Algumas mulheres ficarão de bronca comigo, mas é clássico: quanto mais natural, mais elegante.


    Mesmo assim, reconheço que não é fácil se libertar da patrulha dos costumes. Outro dia, entrei num mercado de esquina para comprar tomates, era só um pulinho, então nem me importei por estar com o cabelo mal preso num rabo de cavalo, os trapos que uso para trabalhar em casa e, claro, sem nenhum vestígio de batom. Mas, ao ser interpelada por um moço educado (e, se não me falha a memória, bem-vestido, o que põe em dúvida a minha preferência por esculhambação), lembrei dos conselhos da Danuza. Que ideia foi aquela de eu sair de cara lavada e com um mocassim de 1997? Eu sei, mais antigo que o mocassim, só esse desejo de causar boa impressão.


    Resta confiar que a nossa autenticidade dá conta do recado a cada vez que somos flagradas quando menos se espera, com os lábios nus.


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Com base no Texto 1, de autoria de Martha Medeiros, assinale a alternativa correta que expressa a ideia central defendida pela autora. 
Alternativas
Q3753925 Português

Texto V — Sobre a morte e o morrer


    Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora...Eram 6h; minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar...”. Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.


    Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”. Dona Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante: “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa...”.


    Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão; ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte; medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.


    Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.


    Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.


    Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama — de repente, um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.


    Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os zigue-zagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?


    Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.


    Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.


    Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para quê, eu não sei...”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.


    Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


(Rubem Alves, crônica publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse”, 12/10/2003.)

Os termos destacados nos fragmentos a seguir apresentam processos coesivos de construção textual. São respectivamente classificados como:


Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais.

Eram 6h; minha filha me acordou. Ela tinha três anos.

Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”.

A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir.

Alternativas
Q3753924 Português

Texto V — Sobre a morte e o morrer


    Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora...Eram 6h; minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar...”. Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.


    Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”. Dona Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante: “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa...”.


    Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão; ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte; medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.


    Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.


    Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.


    Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama — de repente, um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.


    Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os zigue-zagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?


    Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.


    Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.


    Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para quê, eu não sei...”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.


    Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


(Rubem Alves, crônica publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse”, 12/10/2003.)

Observe os termos destacados a seguir e responda, marcando a opção correta:


1. Por ser sempre assim na UTI, já ninguém dá atenção.

2. Sem segurarem sua mão, não há morte humanizada.

3. Sem saber do seu momento final, estou aqui com você.

4. Para poder descansar em paz, decidi falar carinhosamente sobre o desenlace.


( ) Oração subordinada adverbial concessiva
( ) Oração subordinada adverbial causal
( ) Oração subordinada adverbial final
( ) Oração subordinada adverbial condicional

Alternativas
Q3753923 Português

Texto V — Sobre a morte e o morrer


    Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora...Eram 6h; minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar...”. Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.


    Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”. Dona Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante: “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa...”.


    Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão; ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte; medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.


    Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.


    Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.


    Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama — de repente, um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.


    Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os zigue-zagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?


    Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.


    Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.


    Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para quê, eu não sei...”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.


    Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


(Rubem Alves, crônica publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse”, 12/10/2003.)

Estabelece estreito diálogo com o décimo parágrafo do texto:
Alternativas
Q3753922 Português

Texto V — Sobre a morte e o morrer


    Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora...Eram 6h; minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar...”. Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.


    Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”. Dona Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante: “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa...”.


    Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão; ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte; medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.


    Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.


    Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.


    Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama — de repente, um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.


    Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os zigue-zagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?


    Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.


    Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.


    Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para quê, eu não sei...”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.


    Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


(Rubem Alves, crônica publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse”, 12/10/2003.)

“Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.” Sobre tal afirmativa, é correto afirmar, exceto:

Alternativas
Q3753921 Português

Texto V — Sobre a morte e o morrer


    Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora...Eram 6h; minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar...”. Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.


    Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”. Dona Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante: “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa...”.


    Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão; ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte; medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.


    Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.


    Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.


    Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama — de repente, um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.


    Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os zigue-zagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?


    Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.


    Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.


    Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para quê, eu não sei...”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.


    Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


(Rubem Alves, crônica publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse”, 12/10/2003.)

Durante o desenvolvimento do texto, o narrador substitui o vocábulo morte por outros vocábulos e expressões. Das opções a seguir, aponte a que não está presente no texto:
Alternativas
Q3753920 Português

Texto V — Sobre a morte e o morrer


    Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora...Eram 6h; minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar...”. Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.


    Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”. Dona Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante: “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa...”.


    Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão; ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte; medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.


    Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.


    Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.


    Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama — de repente, um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.


    Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os zigue-zagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?


    Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.


    Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.


    Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para quê, eu não sei...”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.


    Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.


(Rubem Alves, crônica publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse”, 12/10/2003.)

Observe o texto e responda o que se pede:



I. As palavras destacadas são respectivamente formadas por composição e derivação imprópria.

II. O narrador afirma ser a morte algo inevitável, considera a morte como algo além do biológico e, portanto, não há por que temê-la.

III. Esvaziados emoções e sentimentos, o ser já não tem nenhuma razão em afirmar-se vivo.

IV. Dor e sofrimento são inevitáveis, o que não significa dizer que devam ser sanados.

Alternativas
Q3753919 Português

Marque a opção que esteja em desacordo com a tirinha a seguir:


Texto IV


Imagem associada para resolução da questão



Alternativas
Q3753918 Português

Tendo em vista a correta estrutura e interdependência que os enunciados comportam, marque a alternativa que completa corretamente o fragmento a seguir:


____________, entre sociólogos e cientistas políticos, que, se o governo __________ uma política educacional digna e um real investimento na educação e se o legislativo __________ as perdas salariais dos professores, não __________ sérios problemas a serem resolvidos e, quando os pais e alunos __________, estará resolvido o déficit na educação do Brasil.

Alternativas
Q3753917 Português

De acordo com as flexões dos verbos fazer, haver e existir, complete corretamente as lacunas da afirmação a seguir:

_______ 25 anos que o Brasil obtém nota muito abaixo da média. ________ muitos implicativos para este fato, ________muitas nuances que necessitam de um olhar bem apurado neste caso.

Alternativas
Q3753916 Português

Marque a opção que preenche corretamente os parenteses sobre gêneros do discurso em sala de aula: 


( ) A publicação do Parâmetro Curricular Nacional de Língua Portuguesa – PCN tem acarretado muito debate para o ensino dos gêneros discursivos.


( ) O viés enunciativo-discursivo possui base teórica e ideais pautados em Bakhtin; seus fundamentos coadunam com a didatização ou escolarização dos gêneros do discurso.


( ) Bakhtin defende que os gêneros discursivos resultam em formas-padrão “relativamente estáveis” de um determinado enunciado; essas formas seriam determinadas sócio-historicamente.


( ) Os gêneros sofrem modificações de acordo e em consequência do momento histórico no qual estão inseridos; assim, podemos compreender que cada situação social dá origem a um gênero com suas próprias peculiaridades.


( ) A habilidade linguística de uso dos diversos gêneros depende do domínio da língua. A facilidade de reconhecer e empregar os gêneros perpassa pelo treino, pela observação dos aspectos formais e pelas regras fixas neles existentes.

Alternativas
Q3753915 Português

Dado o fragmento: A humanidade não tem lado de fora. O que está fora da humanidade é desumano, pois ela nada mais é que a relação entre os homens. O termo destacado é considerado:

Alternativas
Q3753914 Português

Observe as conjunções destacadas nos exemplos e, em seguida, estabeleça a relação de sentido existente:


1. ... professores relataram enfrentar “barulho perturbador e desordem” durante a aula.

2. Nem olhei os resultados da OCDE, porque estava cansada.

3. Estudei muito para o concurso, logo, cheguei cansado na prova.

4. Estava tranquila na minha profissão, então apareceu este resultado.

5. Minha sala de aula era muito boa, mas muito boa!


a. Conclusão.
b. Adição.
c. Tempo.
d. Intensidade.
e. Explicação.

Alternativas
Q3753913 Português
Veja o excerto (Texto III) e, em seguida, marque a opção que apresenta divergência das características nele existentes:

Professores brasileiros gastam mais de 20% do tempo de aula para manter a ordem em sala – acima da média internacional de 16%. O dado faz parte da nova edição do Talis, a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Teaching and Learning International Survey, na sigla em inglês), divulgada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) na segunda-feira (6).

Mais de 50% dos professores relataram enfrentar “barulho perturbador e desordem” durante a aula. Nesse caso, o índice representa mais que o dobro da média entre os países avaliados pela OCDE, que é de 20% – ou um em cada cinco professores.(...)


(https://g1.globo.com/educacao/noticia/2025/10/07/brasil-tem-indisciplina-escolar-acima-da-media)

Alternativas
Q3753912 Português

Dado o fragmento a seguir, marque a opção que classifica sintaticamente o termo em destaque: As enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul no ano passado causaram o descumprimento da meta de alfabetização do país.

Alternativas
Q3753911 Português
Texto I: Desempenho do Brasil no PISA: por que ninguém se importa?


Recentemente, o Brasil obteve resultados preocupantes no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), piorando em matemática, leitura e ciências após a pandemia e ficando entre os piores no teste de criatividade. Antes de tudo, esses resultados não surpreendem, pois, historicamente, o desempenho do país no exame tem sido abaixo da média. No entanto, surge uma reflexão essencial: por que as pessoas não se importam com isso? Esse cenário deveria soar como um alerta nacional, mas acaba sendo tratado com normalidade.

Para entender a relevância dessa avaliação, vale explicar o que é o PISA. Trata-se de um exame organizado pela OCDE que avalia jovens de 15 anos em matemática, leitura e ciências, oferecendo uma análise da base educacional do ensino fundamental. Além disso, estudos do Banco Mundial demonstram a relação direta entre o desempenho no PISA e o crescimento econômico. Conforme esse estudo, países que melhoram 100 pontos no PISA em matemática tendem a crescer 2% ao ano de forma contínua.

Nesse sentido, o impacto econômico é significativo. Se o Brasil elevasse sua pontuação atual de 414 para 514, o PIB poderia crescer 2% ao ano de maneira sustentável. No entanto, o país cresceu apenas 0,6% ao ano nos últimos 25 anos, com períodos de retração em alguns momentos.

Países que alcançam bons resultados no PISA demonstram uma base educacional sólida. Ou seja, eles investem de forma adequada em educação como estratégia essencial para o desenvolvimento econômico e social. Ainda mais, o Banco Mundial alerta que, sem capital intelectual, um país não consegue crescer de forma contínua. Por isso, mesmo as nações mais ricas seguem investindo pesado em educação.

Agora, analisando o cenário nacional, dois fatores explicam o desempenho insatisfatório do Brasil: o país investe pouco em educação básica e, ainda pior, investe errado. Em comparação, o Brasil aplica menos de um terço do que os países desenvolvidos investem em educação pública. Isso reduz drasticamente os recursos para melhorar a infraestrutura escolar, capacitar professores e garantir a qualidade do ensino.

Além disso, a falta de foco no aluno agrava a situação. Sem identificar as necessidades específicas dos estudantes e sem cobrar resultados das instituições, o sistema educacional se torna ineficiente.

Analogamente ao que ocorreu na Polônia e no Vietnã, o Brasil tem o potencial de evoluir. Em apenas seis anos, a Polônia saiu de um desempenho abaixo da média europeia para estar entre os 10% melhores do continente. Da mesma forma, o Vietnã deu um salto significativo em matemática ao investir em capacitação contínua de professores e garantir recursos adequados para as escolas.

Esses exemplos mostram que uma mudança real depende de planejamento, continuidade nas políticas educacionais e um compromisso com resultados concretos.

Por fim, o desempenho do Brasil no PISA não é apenas uma questão de orgulho nacional, mas uma estratégia concreta para impulsionar o desenvolvimento econômico e social. Portanto, o país precisa repensar suas prioridades e focar na educação básica.


Por Mário Ghio, 17/dezembro — 2024



Texto II

Segundo o levantamento, 11 estados atingiram a meta de 60% de crianças alfabetizadas projetada para 2024 (em relação a 2023): Ceará, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso, Piauí, São Paulo, Paraíba, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Sergipe.

Já Rio Grande do Sul, Amazonas, Bahia, Paraná, Pará e Rondônia tiveram desempenho pior do que em 2023. De acordo com Camilo Santana, ministro da Educação, esses estados estão tendo acompanhamento priorizado para a recuperação dos dados.

De modo geral, o Brasil aumentou o número de crianças de até 7 anos alfabetizadas em 2024, mas não atingiu a meta de 60% dos alunos na faixa etária estabelecida pelo governo federal. Os últimos números indicam que 59,2% dos estudantes do 2º ano do ensino fundamental são capazes de ler e escrever textos simples. Em 2023, esse índice era de 56%.

Segundo o ministro da Educação, as enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul no ano passado causaram o descumprimento da meta de alfabetização do país. A tragédia levou o índice de alfabetização do estado a desabar de 63,4%, em 2023, para 44,7% em 2024.

(Heloísa Noronha, colaboração para a CNN Brasil, São Paulo, 11/07/2025, às 16h02.)
O descumprimento da meta de alfabetização do país. Segue a mesma regra de acentuação da palavra em destaque:
Alternativas
Q3753910 Português
Texto I: Desempenho do Brasil no PISA: por que ninguém se importa?


Recentemente, o Brasil obteve resultados preocupantes no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), piorando em matemática, leitura e ciências após a pandemia e ficando entre os piores no teste de criatividade. Antes de tudo, esses resultados não surpreendem, pois, historicamente, o desempenho do país no exame tem sido abaixo da média. No entanto, surge uma reflexão essencial: por que as pessoas não se importam com isso? Esse cenário deveria soar como um alerta nacional, mas acaba sendo tratado com normalidade.

Para entender a relevância dessa avaliação, vale explicar o que é o PISA. Trata-se de um exame organizado pela OCDE que avalia jovens de 15 anos em matemática, leitura e ciências, oferecendo uma análise da base educacional do ensino fundamental. Além disso, estudos do Banco Mundial demonstram a relação direta entre o desempenho no PISA e o crescimento econômico. Conforme esse estudo, países que melhoram 100 pontos no PISA em matemática tendem a crescer 2% ao ano de forma contínua.

Nesse sentido, o impacto econômico é significativo. Se o Brasil elevasse sua pontuação atual de 414 para 514, o PIB poderia crescer 2% ao ano de maneira sustentável. No entanto, o país cresceu apenas 0,6% ao ano nos últimos 25 anos, com períodos de retração em alguns momentos.

Países que alcançam bons resultados no PISA demonstram uma base educacional sólida. Ou seja, eles investem de forma adequada em educação como estratégia essencial para o desenvolvimento econômico e social. Ainda mais, o Banco Mundial alerta que, sem capital intelectual, um país não consegue crescer de forma contínua. Por isso, mesmo as nações mais ricas seguem investindo pesado em educação.

Agora, analisando o cenário nacional, dois fatores explicam o desempenho insatisfatório do Brasil: o país investe pouco em educação básica e, ainda pior, investe errado. Em comparação, o Brasil aplica menos de um terço do que os países desenvolvidos investem em educação pública. Isso reduz drasticamente os recursos para melhorar a infraestrutura escolar, capacitar professores e garantir a qualidade do ensino.

Além disso, a falta de foco no aluno agrava a situação. Sem identificar as necessidades específicas dos estudantes e sem cobrar resultados das instituições, o sistema educacional se torna ineficiente.

Analogamente ao que ocorreu na Polônia e no Vietnã, o Brasil tem o potencial de evoluir. Em apenas seis anos, a Polônia saiu de um desempenho abaixo da média europeia para estar entre os 10% melhores do continente. Da mesma forma, o Vietnã deu um salto significativo em matemática ao investir em capacitação contínua de professores e garantir recursos adequados para as escolas.

Esses exemplos mostram que uma mudança real depende de planejamento, continuidade nas políticas educacionais e um compromisso com resultados concretos.

Por fim, o desempenho do Brasil no PISA não é apenas uma questão de orgulho nacional, mas uma estratégia concreta para impulsionar o desenvolvimento econômico e social. Portanto, o país precisa repensar suas prioridades e focar na educação básica.


Por Mário Ghio, 17/dezembro — 2024



Texto II

Segundo o levantamento, 11 estados atingiram a meta de 60% de crianças alfabetizadas projetada para 2024 (em relação a 2023): Ceará, Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso, Piauí, São Paulo, Paraíba, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Sergipe.

Já Rio Grande do Sul, Amazonas, Bahia, Paraná, Pará e Rondônia tiveram desempenho pior do que em 2023. De acordo com Camilo Santana, ministro da Educação, esses estados estão tendo acompanhamento priorizado para a recuperação dos dados.

De modo geral, o Brasil aumentou o número de crianças de até 7 anos alfabetizadas em 2024, mas não atingiu a meta de 60% dos alunos na faixa etária estabelecida pelo governo federal. Os últimos números indicam que 59,2% dos estudantes do 2º ano do ensino fundamental são capazes de ler e escrever textos simples. Em 2023, esse índice era de 56%.

Segundo o ministro da Educação, as enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul no ano passado causaram o descumprimento da meta de alfabetização do país. A tragédia levou o índice de alfabetização do estado a desabar de 63,4%, em 2023, para 44,7% em 2024.

(Heloísa Noronha, colaboração para a CNN Brasil, São Paulo, 11/07/2025, às 16h02.)
Sem cobrar resultados das instituições. Segue a mesma regra da palavra destacada o plural de:
Alternativas
Respostas
21761: A
21762: B
21763: D
21764: C
21765: C
21766: C
21767: E
21768: C
21769: A
21770: D
21771: B
21772: C
21773: D
21774: A
21775: A
21776: D
21777: D
21778: E
21779: A
21780: B