Questões de Concurso Comentadas sobre pontuação em português

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Q3438791 Português
Acerca do uso de ponto e vírgula podemos dizer corretamente, EXCETO:
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Q3436338 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.

Por que você deve focar em ganhar músculos - e não em emagrecer - conforme fica mais velho

Em um vídeo que atingiu milhões de pessoas nas redes sociais, uma senhora que aparenta ter mais de setenta anos levanta uma barra com pesos na academia. Na sequência, a imagem a mostra fazendo o mesmo, mas com compras de supermercado.

A mensagem do vídeo coincide com aquela que a médica norte-americana Gabrielle Lyon passa aos seus pacientes há anos: para envelhecer bem e ter qualidade de vida, é necessário construir e manter músculos. "Além disso, manter massa muscular previne doenças crônicas como obesidade, diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares."

Embora o apelo para ganhar músculos seja mais popular entre as gerações jovens, que buscam melhorar a aparência do corpo ou a performance esportiva, Lyon defende que são aqueles com mais de cinquenta anos os que mais deveriam se preocupar com a composição corporal.

"Existe mesmo essa transição com a idade, de ligarmos menos para o físico. Quando somos jovens, concentramo-nos na aparência, e tudo bem, porque isso cria bons hábitos. Mas há uma diferença: nem sempre se trata só de estética. E, na verdade, nunca é tarde demais para ficar mais forte e ganhar músculos."

Lyon defende que nunca é cedo demais para começar a treinar. "A atividade física deve ser um modo de vida. Sou mãe de dois filhos pequenos, e já fazemos exercícios em família − claro, no caso deles, de forma adequada para crianças. Se você treina desde cedo, isso prepara o músculo para ser mais saudável no futuro."

Mesmo para alguém que treina desde jovem e constantemente, a médica admite que perder massa muscular continua sendo bastante fácil. "Em uma semana de inatividade, já vemos perdas relevantes. Isso fica muito claro quando analisamos pessoas que ficaram internadas na UTI."

Por outro lado, mais otimista, Lyon explica que os músculos têm uma espécie de memória. "É muito mais fácil recuperar a forma do que ficar em forma partindo do zero. Se você começar jovem, melhor ainda."

Ela explica que isso não deve assustar quem vai começar a se exercitar mais velho: é possível conseguir bons resultados em qualquer idade, e uma dieta equilibrada e um treino focado para suas características pessoais somente trazem benefícios. "O corpo depende de atividade. Fomos feitos para sermos criaturas ativas, e quando reduzimos a atividade física, corremos o risco de deficiências físicas."

A médica defende que, à medida que envelhecemos, precisamos nos tornar mais ativos, não menos. "A inatividade não é uma opção para uma pessoa saudável. 

Quanto mais massa muscular saudável você tem, maior a sua capacidade de sobrevivência contra todos os tipos de doença, seja câncer, quedas ou qualquer outra. Quanto mais massa muscular saudável você tem, melhor a sua capacidade de ser autônomo e sobreviver. Não há nada mais importante para a população idosa do que ter músculos."

E para quem está querendo sair do sedentarismo, Lyon deixa um conselho. "Não espere motivação e nem dependa de metas específicas. O mais importante é pensar que os anos que você tem de vida serão mudados se você fizer boas escolhas por si mesmo."

https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce7rpdkxr6wo. adaptado.
Em um vídeo que atingiu milhões de pessoas nas redes sociais, uma senhora que aparenta ter mais de setenta anos levanta uma barra com pesos na academia.

Assinale a opção correta quanto à nova pontuação sem alteração do sentido original da frase. 
Alternativas
Q3436264 Português
Considere as sentenças:

I. Ele, então, confessou o crime à polícia.
II. A garota, mesmo deprimida, foi à escola, deu atenção às amigas, fez as tarefas.
III. Não se sabe, o porquê.

Aquela(s) que apresenta(m) a pontuação correta é (são):
Alternativas
Q3434138 Português

Considere as sentenças a seguir:

I. A menina, filha única do casal, tem parecido muito deprimida e solitária.

II. Desde o desaparecimento do cãozinho, a família tenta ser mais unida.

III. A escola não será mais a mesma sem você, meu amigo.

Nas sentenças dadas, o emprego da vírgula introduz um aposto apenas em: 

Alternativas
Q3433876 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


As surpreendentes vantagens de se andar com os pés descalços


Nas últimas décadas, o hábito de caminhar de pés descalços ganhou cada vez mais adeptos.


Enquanto alguns veem a moda como passageira, outros argumentam que é uma prática saudável, enraizada em nossa natureza.


Na verdade, muitos pais e mães de crianças que ainda não aprenderam a andar mostram grande preocupação com o desenvolvimento dos pés infantis, o que ajuda a explicar a ampla adoção, atualmente, do chamado calçado minimalista, aquele que proporciona uma experiência semelhante à de andar descalço, na idade pediátrica.


Andar descalço seria igualmente importante para os adultos? O pé não é simplesmente um elemento para caminhar e suportar o nosso peso. Ele é um complexo sistema biomecânico composto por vinte e oito ossos especializados em outras várias funções relacionadas à estabilidade, ao equilíbrio e à eficiência ao caminhar.


Em alguns centímetros quadrados, o pé assegura que possamos realizar uma atividade tão básica quanto nos deslocarmos de um lugar a outro. Além disso, a sola do pé tem quase tantas terminações nervosas quanto as das mãos e é uma grande reguladora da nossa postura e movimento.


Andar descalço por vontade própria não é uma invenção moderna. Algumas culturas antigas consideravam que, ao fazê-lo, era estabelecida uma conexão direta com a terra. No entanto, com a invenção do calçado, priorizou-se a proteção e o status em detrimento da naturalidade.


Nas sociedades modernas, o calçado é um elemento essencial de vestuário, tanto por razões de higiene quanto de posição social. Faz sentido, então, prescindir dele em muitos momentos?


As pesquisas científicas revelam que favoreceria a conexão com a natureza e, de um ponto de vista emocional, com nós mesmos.


No que diz respeito aos aspectos meramente físicos, há diferenças entre andar calçado ou de pés descalços, e sabe-se disso há algum tempo.


Já em 1905, o Dr. Phil Hoffman comparou os pés de pessoas que andavam descalças com os de quem usava calçados e encontrou grandes diferenças entre eles, tanto na forma quanto na função do pé. Uma revisão sistemática realizada em 2015 endossou os achados de Hoffman e detectou várias diferenças-chave.


https://www.bbc.com/portuguese/articles/c51nnlqq5yvo. adaptado.
Na verdade, muitos pais e mães de crianças que ainda não aprenderam a andar mostram grande preocupação com o desenvolvimento dos pés infantis.

Assinale a opção correta quanto à nova pontuação sem alteração do sentido original da frase.
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Q3432739 Português

                                        Leia o texto a seguir para responder à questão.

                                                     Dinheiro na mão é vendaval 

                        Notas e moedas sumiram de nossas vidas - e ninguém 2 percebeu. 


Walcyr Carrasco



    Outro dia, eu resolvi ir a um restaurante no Rio de Janeiro, localizado em um bairro da Zona Sul, tradicional e elegante. Vesti uma roupa especial para a ocasião, passei um bom perfume, peguei a carteira com meus cartões, apesar de usar mais os virtuais hoje em dia. Empoderado e bem acompanhado, entrei no local, certo de que faria uma deliciosa refeição. Pedi uma mesa para dois. Quando sentamos, o garçom nos trouxe o menu e perguntou: "Já conhecem o restaurante?". Respondi: "Não, mas já há algum tempo queria conhecer”. Ele disse: “Só quero adiantar que não trabalhamos com cartões." Sorri e disse: "Tudo bem, eu faço um Pix." Aí ele frisou: "Só aceitamos pagamento em cash.” Meu mundo desmoronou. Ele nos acompanhou até a saída. Logo ao lado havia outro restaurante. Entramos. A mesma cena se repetiu. Surpreso, soube que os dois eram do mesmo dono. Questionei como isso era possível nos dias atuais. Há muito tempo não passava por uma situação assim. O segundo garçom explicou que os dois restaurantes eram frequentados por clientes antigos e fiéis, que já conheciam as normas e sempre estavam preparados. Realmente, observei, e o restaurante estava longe de parecer vazio. Corremos para um food truck, e nos resolvemos.

    Refleti que, de fato, eu utilizo cada vez menos dinheiro em papel ou moeda, assim como todos os meus amigos e conhecidos. Antes, eu sempre tinha um trocado. Separava o dinheiro do restaurante, do táxi, da gorjeta. Sempre tinha uma bolsinha para as moedas. Hoje, basicamente, eu preciso do meu celular. Carro é por aplicativo, reservas on-line, restaurantes pagos por aproximação do celular. E a gorjeta? O exército de profissionais que dependia de gorjetas dançou, porque ninguém mais anda com dinheiro vivo. A não ser que se dê a gorjeta também no cartão. Mas o mundo avançou tanto na seara digital que, há pouco tempo, na entrada do Aeroporto Santos Dumont, um senhor me estendeu a mão pedindo uma ajuda. Respondi que não tinha dinheiro em mãos. "Aceito Pix", ele respondeu. Para um amigo que queria um queijo coalho na Praia de Ipanema e estava desprevenido, a vendedora propôs, mostrando um cartão: "Aponta seu celular pra esse QR code que o pagamento vai cair direto na minha conta.” Minha reflexologista anda com uma maquininha de cobrança no próprio celular. Mas dinheiro virou algo simbólico. Obsoleto. Mesmo os grandes bancos se resolvem com cifras digitais. Imagine se todos os correntistas de qualquer banco exigirem, no mesmo dia, retirar tudo em dinheiro. O banco entra em colapso.

    As cédulas coloridas, as moedas desenhadas, o cheirinho da grana, tudo isso tornou-se raro. Uma mala cheia de dinheiro vivo hoje em dia é suspeita. No mínimo, vão achar que é propina de político. Ou algum pagamento questionável, que alguém recebe e não declara. Outro dia vi a clássica imagem de Tio Patinhas nadando em dinheiro. Hoje em dia seria impossível. O próprio Tio Patinhas teria seus apps. A canção de Paulinho da Viola, intitulada Pecado Capital, diz que “dinheiro na mão é vendaval na vida de um sonhador.” Foi premonitória. O vendaval já passou. Dinheiro na mão? Ninguém tem mais.

                                                                 Publicado em VEJA de 1° de margo de 2024, edição nº 2882.  

"Vesti uma roupa especial para a ocasião, passei um bom perfume, peguei a carteira com meus cartões, apesar de usar mais os virtuais hoje em dia.” 1º§ 


As duas primeiras vírgulas nesse trecho separam:

Alternativas
Q3424047 Português
Darwin no Brasil: encanto com a Natureza e choque com a escravidão

          Em 27 de dezembro de 1832, depois de ser deslocado duas ou três vezes por ventos contrários, o HMS Beagle, um brigue com 10 canhões sob o comando do capitão Fitz-Roy deixou a localidade de Davenport, no sudoeste da Inglaterra, para uma viagem de quatro anos e nove meses ao redor do mundo.
          Um personagem, que a história tornaria o passageiro mais importante a bordo do Beagle, tinha pouco mais de 22 anos e havia sofrido alguns reveses profissionais antes de se envolver com a história natural. Charles Robert Darwin (Shrewsbury, 12 de fevereiro de 1809 – Downe, Kent, 19 de abril de 1882), cujo nome seria sinônimo de evolucionismo, ainda era um criacionista despreocupado, quando o Atlântico se abriu a sua frente para a viagem que reformularia não apenas suas convicções pessoais, mas mudaria profundamente toda a história da ciência.
          Darwin fez uma parada no arquipélago de Cabo Verde, onde registrou minuciosamente suas observações e se impressionou com o arquipélago de São Pedro e São Paulo, antes de passar por Fernando de Noronha. Mas foi no Rio de Janeiro, especialmente por uma incursão de alguns dias pelo interior, que pôde sentir a diversidade de Natureza que deveria conhecer antes de, inteiramente contra a vontade, tornar-se um evolucionista.
          Em “Viagens de um naturalista ao redor do mundo” (Voyage of a naturalist round the world), em que faz um detalhado registro de sua longa exploração, Darwin dedica menos de dez páginas a Salvador, na Bahia, aonde chegou em 29 de fevereiro de 1833, para uma estada curta, mas já fascinado pela exuberância da natureza tropical.
          Em 4 de abril, o Beagle atracou no Rio de Janeiro e aí começaram as descobertas que, do ponto de vista natural, seduziram e encantaram o jovem naturalista, ainda que, do ponto de vista social, tenham sido motivo de frustração, desencanto e, em alguns momentos, de completo horror. (...)
          A incursão começou em 8 de abril, formada por uma equipe de sete pessoas. Darwin conta que, em meio a um calor intenso, o silêncio da mata é completo, quebrado apenas pelo voo preguiçoso de borboletas. A vista e as cores na passagem de Praia Grande (atual Niterói) absorvem toda a atenção de Darwin ao menos até o meio-dia, quando o grupo para, para almoçar em “Ithacaia”, aldeia cercada de choças ocupadas por negros escravos.
          Com a lua cheia, que nasce cedo no céu, o grupo decide prosseguir viagem para dormir na Lagoa de Maricá e, no trajeto, passam por regiões escarpadas, entre elas uma meseta em torno de onde escravos formaram quilombos, a que Darwin se refere genericamente como refúgio. Aí, reproduz um relato que diz ter ouvido de alguém. Um grupo de soldados teria sido enviado para recuperar esses fugitivos e todos se renderam, à exceção de uma mulher, já velha, que se atira contra as rochas. Então, ele faz uma das observações que revelam sua profunda repulsa à escravidão que tem diante dos olhos: “Praticado por uma matrona romana esse ato seria interpretado e difundido como amor à liberdade, mas da parte de uma pobre negra, limitaram-se a dizer que não passou de um gesto bruto.”

CAPAZZOLI, Ulisses. Scientfic American Brasil. Fev. 2009, nº 81, ano 7. Edição Especial. (Adaptado)
Analise o emprego das vírgulas nos fragmentos abaixo e assinale a alternativa em que se identifica um uso facultativo delas, ou seja, poder-se-ia eliminar tal uso, mantendo-se a correção gramatical e o valor semântico pretendidos em cada passagem: 
Alternativas
Q3423640 Português

INSTRUÇÃO: Leia, com atenção, o texto 01 e, a seguir, responda à questão, que a ele se refere. 


Texto 01


Como abandonar o perfeccionismo e ter uma vida mais leve 




Entregar uma demanda, agradecer por um elogio ou celebrar uma conquista são situações normais, mas não para os perfeccionistas. O perfeccionismo é um padrão de comportamento que preza por algo impossível de conseguir: a perfeição. E isso traz efeitos negativos para a vida dessas pessoas. 



“O perfeccionista nunca está livre”, resume Heloísa Capelas, escritora e especialista em autoconhecimento e inteligência emocional. Isso porque pessoas com essa característica vão à exaustão, fazendo e refazendo suas atividades para alcançar a perfeição. Apesar de desgastante, o perfeccionista encara isso como seu dever. “Ser perfeccionista é muito cansativo, porque nada mais importa a não ser que você faça direito, a não ser que você faça perfeito.”



Além desse comportamento ser cansativo, tira possibilidades de aproveitar a vida. Heloísa explica que o perfeccionista fica preso em uma atividade, em vez de finalizá-la e seguir adiante. Isso se estende para aprender e tentar coisas novas, se ele não for bom em algo imediatamente, é possível que pare de praticar a atividade. “Ele tem a dificuldade de começar um dia de cada vez, fazendo cada dia melhor”, explica. 



A alegria e o prazer da vida acabam sendo perdidos nessa dinâmica. “Ele está perdendo a [chance de viver a] vida, está perdendo a felicidade, está perdendo o prazer”, conclui Heloísa. 



Para a especialista, a preocupação com a opinião do outro é o centro desse comportamento, que pode ter origem nos modelos aprendidos na infância. “Pais que se cobram muito, que são muito exigentes com eles mesmos e com a criança” dão as condições para o desenvolvimento do perfeccionismo. “Ela [a criança] vai desenvolver essa preocupação com a opinião do outro”, conclui.



Para lidar com o perfeccionismo e ter uma vida mais leve e prazerosa, Heloísa aponta o caminho da aceitação e do autoconhecimento. 



“A aceitação é um dos sentimentos e das expressões na vida mais importantes”, inicia a escritora. “Aceitar a vida como ela é, nos aceitar com todo o nosso bem e nosso mal. Aceitar que eu estou em processo de aprimoramento. Isso traz um nível de tranquilidade”, explica.



Para ela, a aceitação é o primeiro passo, seguido de reflexão sobre a situação e disposição para mudança. “Aceito que é isso que eu estou vivendo para daí me perguntar: o que eu faço com isso?”, exemplifica. “Esse é o caminho inteligente, da auto-observação sem julgamento.” [...]  



Disponível em: https://vidasimples.com. Acesso em: 20 fev. 2024. Adaptado.


As falas da especialista Heloísa Capelas são demarcadas no texto por meio do uso de 
Alternativas
Q3422040 Português
Sabemos que a vírgula não pode ser colocada em qualquer posição dentro de uma oração. Nesse sentido, assinalar a alternativa que apresenta emprego da vírgula de modo INCORRETO:
Alternativas
Q3421929 Português
No segmento textual: “A raça japonesa Tosa Inu é banida em 18 países, como Reino Unido, Dinamarca e França.", as vírgulas foram empregadas para: 
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Q3421836 Português
Na seguinte frase "Ainda nesta mesma semana, planejo organizar minhas finanças e encontrar maneiras de economizar", a função desempenhada pela vírgula        
Alternativas
Q3421524 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.



O DIREITO DE NÃO AMAR


Se o homem destrói aquilo que mais ama como afirmava Oscar Wilde, a vontade de destruição se aguça demais quando aquilo está amando um outro. O egoísmo, sem dúvida o traço mais poderoso de qualquer sexo, transborda então intenso e borbulhante como água em pia entupida, artérias e canos congestionados na explosão aguda: "nem comigo nem com ninguém!" Deste raciocínio para o tiro, veneno ou faca, vai um fio.


A segunda porta foi a que escolheu aquele meu colega de Academia quando descobriu que a pior das vinganças é não matar mas deixar o objeto amado viver, viver à vontade, "pois que ela viva!" − decidiu ele na sua fúria vingativa.


Amou-a perdidamente. Acho que nunca vi ninguém amar tanto assim, talvez com a mesma intensidade com que amava o primo, disse isso mesmo numa hora de impaciência, estou apaixonada por outro, quer ter a bondade de desaparecer da minha frente? Mas o meu colega (vinte anos?) acreditava na luta e como ele lutou, meu Deus, como ele lutou! Tentou conquista-la com presentes, era rico. Depois, com intermináveis poemas de amor, era poeta. Na fase final, no auge da cólera − era violento − começou com as ameaças. Ela guardou os presentes, rasgou os poemas, fez a queixa a um tio que era delegado da seção de homicídios e foi cair nos braços do primo sem o recurso das rimas e dos diamantes mas que conseguia fazê-la palpitar mais branca e perfumada do que a açucena do campo.


Meu colega dava murros nas paredes, nos móveis. Puxava os cabelos, "ela não tem o direito de me fazer isso!". Com a débil voz da razão, tentei dizer-lhe que ela bem que tinha esse direito de amar ou não amar, vê se entende essa coisa tão simples! Mas ele era só ilogicidade e desordem: "Vou lá, dou-lhe um tiro no peito e me mato em seguida!" - jurou. Mas a tantos repetiu esse juramento que fiquei mais tranquilizada, com a presença de que a energia canalizada para o ato acabaria se exaurindo nas palavras.


O que aconteceu. Uma noite me procurou todo penteado, todo contido, com um sorrisinho no canto da boca, sorriso meio sinistro, mas lúcido: "Achei uma solução melhor", foi logo dizendo. "Vou ficar quieto, que se case com esse tipo, ótimo que se casem depressa porque é nesse casamento que está minha vingança. No casamento e no tempo. Se nenhum casamento dá certo, por que o deles vai dar? Vai ser infeliz à beça! Pobre, com um filho debiloide, já andei investigando tudo, ele tem retardados na família, ih! O quando ela vai se arrepender, por que não me casei com o outro? Vai ficar gorda, tem propensão para engordar e eu estarei jovem e lépido porque sou esportista e rico, vou me conservar, mas ela, velha, obesa, ô delícia!".


Há ainda uma terceira porta, saída de emergência para os desiludidos do amor, não, nada de matar o objeto da paixão ou esperar com o pensamento negro de ódio que ela vire uma megera jogando moscas na sopa do marido hemiplégico, mas renunciar. Simplesmente renunciar com o coração limpo de mágoa ou rancor, tão limpo que em meio do maior abandono (difícil, hem!) ainda tenha forças para se voltar na direção da amada como um girassol na despedida do crepúsculo. E desejar que ao menos ela seja feliz.


(Lygia Fagundes Telles)
As aspas, o travessão e o verbo de elocução, no 2º parágrafo, indicam:
Alternativas
Q3421518 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.



O DIREITO DE NÃO AMAR


Se o homem destrói aquilo que mais ama como afirmava Oscar Wilde, a vontade de destruição se aguça demais quando aquilo está amando um outro. O egoísmo, sem dúvida o traço mais poderoso de qualquer sexo, transborda então intenso e borbulhante como água em pia entupida, artérias e canos congestionados na explosão aguda: "nem comigo nem com ninguém!" Deste raciocínio para o tiro, veneno ou faca, vai um fio.


A segunda porta foi a que escolheu aquele meu colega de Academia quando descobriu que a pior das vinganças é não matar mas deixar o objeto amado viver, viver à vontade, "pois que ela viva!" − decidiu ele na sua fúria vingativa.


Amou-a perdidamente. Acho que nunca vi ninguém amar tanto assim, talvez com a mesma intensidade com que amava o primo, disse isso mesmo numa hora de impaciência, estou apaixonada por outro, quer ter a bondade de desaparecer da minha frente? Mas o meu colega (vinte anos?) acreditava na luta e como ele lutou, meu Deus, como ele lutou! Tentou conquista-la com presentes, era rico. Depois, com intermináveis poemas de amor, era poeta. Na fase final, no auge da cólera − era violento − começou com as ameaças. Ela guardou os presentes, rasgou os poemas, fez a queixa a um tio que era delegado da seção de homicídios e foi cair nos braços do primo sem o recurso das rimas e dos diamantes mas que conseguia fazê-la palpitar mais branca e perfumada do que a açucena do campo.


Meu colega dava murros nas paredes, nos móveis. Puxava os cabelos, "ela não tem o direito de me fazer isso!". Com a débil voz da razão, tentei dizer-lhe que ela bem que tinha esse direito de amar ou não amar, vê se entende essa coisa tão simples! Mas ele era só ilogicidade e desordem: "Vou lá, dou-lhe um tiro no peito e me mato em seguida!" - jurou. Mas a tantos repetiu esse juramento que fiquei mais tranquilizada, com a presença de que a energia canalizada para o ato acabaria se exaurindo nas palavras.


O que aconteceu. Uma noite me procurou todo penteado, todo contido, com um sorrisinho no canto da boca, sorriso meio sinistro, mas lúcido: "Achei uma solução melhor", foi logo dizendo. "Vou ficar quieto, que se case com esse tipo, ótimo que se casem depressa porque é nesse casamento que está minha vingança. No casamento e no tempo. Se nenhum casamento dá certo, por que o deles vai dar? Vai ser infeliz à beça! Pobre, com um filho debiloide, já andei investigando tudo, ele tem retardados na família, ih! O quando ela vai se arrepender, por que não me casei com o outro? Vai ficar gorda, tem propensão para engordar e eu estarei jovem e lépido porque sou esportista e rico, vou me conservar, mas ela, velha, obesa, ô delícia!".


Há ainda uma terceira porta, saída de emergência para os desiludidos do amor, não, nada de matar o objeto da paixão ou esperar com o pensamento negro de ódio que ela vire uma megera jogando moscas na sopa do marido hemiplégico, mas renunciar. Simplesmente renunciar com o coração limpo de mágoa ou rancor, tão limpo que em meio do maior abandono (difícil, hem!) ainda tenha forças para se voltar na direção da amada como um girassol na despedida do crepúsculo. E desejar que ao menos ela seja feliz.


(Lygia Fagundes Telles)
"Vou lá, dou-lhe um tiro no peito e me mato em seguida!". Sobre o excerto, é correto afirmar:
Alternativas
Q3421428 Português
Na seguinte frase "Ainda nesta mesma semana, planejo organizar minhas finanças e encontrar maneiras de economizar", a função desempenhada pela vírgula é: 
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Q3421329 Português
        O que menos fazemos hoje no telefone celular é telefonar. O smartphone se transformou em uma ferramenta essencial para o trabalho e um passatempo indispensável. Nos aplicativos de redes sociais e comunicação, compartilhamos bons e maus momentos em textos, áudios e vídeos, criando uma nova forma de interação social.
        A revolução de colocar o mundo na palma da mão é recente, um fragmento na história da humanidade que redefiniu a maneira como nos conectamos e comunicamos. O telefone celular, que começou como um dispositivo para ligações simples, evoluiu para uma central multifuncional que integra diversas atividades do nosso cotidiano.
        Há 20 anos, o Brasil superava a marca de 40 milhões de celulares em operação, registrando um crescimento impressionante de 30% em doze meses. Três em cada quatro eram da modalidade pré−pago. O número de telefones móveis ultrapassou o total de linhas de telefone fixo naquele ano, marcando uma mudança significativa nos hábitos de comunicação. Mesmo assim, com uma população superior a 170 milhões, a maioria dos brasileiros ainda não tinha comprado o primeiro celular.
        Os celulares de 20 anos atrás eram essencialmente para ligações e torpedos, as curtas mensagens de texto. Em alguns aparelhos, já era possível baixar jogos, gravar voz e até fazer fotos de baixa qualidade. No entanto, nem imaginávamos a revolução que estava por vir, transformando esses dispositivos em verdadeiras extensões de nossas vidas.
        Em 2023, o Brasil ultrapassou a marca de 250 milhões de telefones móveis ativos, um número surpreendente que supera a própria população do país. Essa explosão no número de smartphones mostra como são importantes no nosso cotidiano, uma peça fundamental nessa época de muita informação e conexão.
 
(Fonte: Leandro Staudt. GZH — adaptado.)
A supressão da(s) vírgula(s) altera o sentido da seguinte frase:
Alternativas
Q3419465 Português
Leia o texto para responder à questão.


      Por vezes assalta-me a sensação de que estou me esquecendo da realidade com a mesma rapidez com que me esqueço dos sonhos. Começa a ser difícil saber se estou me esquecendo de um sonho ou da realidade.

       Acontece-me, por exemplo, assistir a um filme e, no meio, descobrir que já o vi antes. Com os livros de ficção, isso nunca me aconteceu, o que me leva a supor que a leitura implique uma mobilização mais profunda de certas áreas do cérebro. Faz sentido, na medida em que ao lermos um romance somos convidados a recriá-lo, imaginando o rosto dos personagens, e uma larga parte dos cenários e das situações. Cada leitor rescreve o romance que está lendo.

     O problema é que aquilo que me acontece com os filmes também ocorre com as pessoas. Encontro com alguém num casamento, começamos a conversar, e só quando a festa se aproxima do fim é que o reconheço.

     Pode ser que o problema não seja meu, e sim do cinema que se faz hoje – e da atual humanidade. Talvez eu julgue estar revendo um filme, e seja um outro; no entanto, os enredos, o estilo, os cenários, é tudo tão parecido que muito antes do final eu já conheço o desfecho.

       Para funcionar, da forma mais eficiente possível, um exército começa por uniformizar os seus soldados; ou seja, por lhes retirar a individualidade. As nossas sociedades tecnológicas estão fazendo o mesmo a um nível mais íntimo e profundo. Acho isso assustador.

      Fico feliz quando encontro um filme (ou uma pessoa) capaz de me surpreender, como “Dias perfeitos”, de Wim Wenders, que acompanha o cotidiano de um homem de meia-idade, Hirayama, responsável pela limpeza de banheiros públicos em Tóquio. Hirayama cumpre a sua tarefa com extraordinário zelo e dedicação.

        Na sua aparente simplicidade, Hirayama distingue-se de quem o rodeia. Não é uniformizável. O faxineiro erudito de Wim Wenders é um colecionador de pequenos espantos, de fulgores e de momentos únicos. É um colecionador de vida. Pessoas e personagens assim são inconfundíveis e inesquecíveis. Precisamos deles para travar a uniformização do mundo e ressuscitar a alegria e o espanto.


(José Eduardo Agualusa. A vida ambiciona o espanto. https://oglobo.globo. com, 03.02.2024. Adaptado) 
As vírgulas em “… os enredos, o estilo, os cenários, é tudo tão parecido que muito antes do final eu já conheço o desfecho” (4o parágrafo) foram empregadas pelo mesmo motivo que no trecho:
Alternativas
Q3419296 Português
Leia o texto para responder à questão.



Como funciona o “manto da invisibilidade” desenvolvido por chineses 


Batizado de Chimera, projeto experimental foi inspirado em características do camaleão, da rã-de-vidro e do dragão-barbudo; detalhes foram publicados em revista científica


Acadêmicos das universidades de Tsinghua e de Jilin, ambas na China, têm feito pesquisas com o objetivo de desenvolver um “manto da invisibilidade”. Em artigo publicado no último dia 29 de janeiro na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), a equipe compartilha o andamento do projeto. “Nosso trabalho tira as tecnologias de camuflagem de um cenário restrito e as leva para terrenos em constante mudança”, afirmam.


Denominado Chimera, o “manto da invisibilidade” é feito de metamateriais, ou seja, materiais sintéticos capazes de manipular ondas eletromagnéticas e ficarem imperceptíveis a radares, conforme explica o South China Morning Post. E o nome não foi escolhido à toa: aspectos fundamentais do projeto estão associados a três animais diferentes — a quimera, por sua vez, é uma figura mitológica grega cujo corpo consiste em uma mistura de animais.


O trabalho tem como base características de répteis de sangue frio. Do camaleão, a habilidade de mudar de cor; da rã-de-vidro, a capacidade de tornar parte do corpo transparente; e do lagarto dragão-barbudo, o poder de regular a temperatura corporal. A ideia é construir uma “metassuperfície” que seja indetectável a luz visível, micro-ondas e raios infravermelhos.


Segundo o artigo disponível na PNAS, a Chimera demonstrou capacidade de se adaptar a diferentes paisagens (incluindo superfícies aquáticas, praias, desertos e solos congelados) devido à propriedade de reflexão de microondas. E, utilizando plástico PET e vidro de quartzo, os pesquisadores também conseguiram que ela ficasse transparente, do ponto de vista óptico, como a rã-de-vidro. Além disso, para evitar que o calor gerado pela eletricidade da Chimera fosse captado por detectores de infravermelho, os pesquisadores recorreram aos conhecimentos sobre o dragão-barbudo, que controla a temperatura corporal mudando a cor das suas costas. Com uma tecnologia mecânica baseada nesse fato, foi possível diminuir a diferença térmica da Chimera.


Apesar de ainda ser uma tecnologia experimental, os pesquisadores apontam possíveis aplicações. Por exemplo, no âmbito militar, a Chimera poderia esconder objetos ou pessoas, sendo assim uma ferramenta estratégica. Já no âmbito da preservação ambiental, o “manto da invisibilidade” poderia contribuir para a observação não invasiva de animais em seus habitats.


Revista Galileu. Adaptado. Adaptado. Disponível em
<https://revistagalileu.globo.com/tecnologia/notici
a/2024/02/como-funciona-o-manto-dainvisibilidade-desenvolvido-por-chineses.ghtml>
Considere o excerto: “Acadêmicos das universidades de Tsinghua e de Jilin, ambas na China, têm feito pesquisas com o objetivo de desenvolver um ‘manto da invisibilidade’.” Nesse contexto, a expressão “ambas na China” se apresenta entre vírgulas, pois:
Alternativas
Q3418708 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


As receitas


Quando eu era menino, na escola, as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as ideias que moram na cabeça do pintor. São as ideias dançantes na cabeça que fazem as tintas dançar sobre a tela.


Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre. Somos pobres em idéias. Não sabemos pensar. Nisto nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. Hoje, nas relações de troca entre os países, o bem mais caro, o bem mais cuidadosamente guardado, o bem que não se vende, são as ideias. É com as ideias que o mundo é feito. Prova disso são os tigres asiáticos, Japão, Coreia, Formosa que, pobres de recursos naturais, se enriqueceram por ter se especializado na arte de pensar.


Minha filha me fez uma pergunta: "O que é pensar?" Disse-me que 'esta era uma pergunta que o professor de filosofia havia proposto à classe. Pelo que lhe dou os parabéns. Primeiro por ter ido diretamente à questão essencial. Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer a pergunta, sem dar a resposta. Porque, se tivesse dado a resposta, teria com ela cortado as asas do pensamento. O pensamento é como a águia que só alça vôo nos espaços vazios do desconhecido. Pensar é voar sobre o que não se sabe. Não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido.


E, no entanto, não podemos viver sem as respostas. As asas, para o impulso inicial do vôo, dependem de pés apoiados na terra firme. Os pássaros, antes de saber voar, aprendem a se apoiar sobre os seus pés. Também as crianças, antes de aprender a voar, têm que aprender a caminhar sobre a terra firme. Terra firme: as milhares de perguntas para as quais as gerações passadas já descobriram as respostas. O primeiro momento da educação é a transmissão deste saber. Nas palavras de Roland Barthes: "Há um momento em que se ensina o que se sabe ... " E o curioso é que este aprendizado é justamente para nos poupar da necessidade de pensar.


As gerações mais velhas ensinam às mais novas as receitas que funcionam. Sei amarrar os meus sapatos automaticamente, sei dar o nó na minha gravata automaticamente: as mãos fazem o seu trabalho com destreza enquanto as ideias andam por outros lugares. Aquilo que um dia eu não sabia me foi ensinado; eu aprendi com o corpo e esqueci com a cabeça. E a condição para que minhas mãos saibam bem é que a cabeça não pense sobre o que elas estão fazendo. Um pianista que, na hora da execução, pensa sobre os caminhos que seus dedos deverão seguir, tropeçará fatalmente. Há a estória de uma centopeia que andava feliz pelo jardim, quando foi interpelada por um grilo: "Dona Centopeia, sempre tive curiosidade sobre uma coisa: quando a senhora anda, qual, dentre as suas cem pernas, é aquela que a senhora movimenta primeiro?" "Curioso", ela respondeu. "Sempre andei, mas nunca me propus esta questão. Da próxima vez, prestarei atenção." Termina a estória dizendo que a centopéia nunca mais conseguiu andar. 


Todo mundo fala, e fala bem. Ninguém sabe como a linguagem foi ensinada e nem como ela foi aprendida. A despeito disto, o ensino foi tão eficiente que não preciso pensar para falar. Ao falar não sei se estou usando um substantivo, um verbo ou um adjetivo, e nem me lembro das regras da gramática. Quem, para falar, tem de se lembrar destas coisas, não sabe falar. Há um nível de aprendizado em que o pensamento é um estorvo. Só se sabe bem com o corpo aquilo que a cabeça esqueceu. E assim escrevemos, lemos, andamos de bicicleta, nadamos, pregamos pregos, guiamos carros: sem saber com a cabeça, porque o corpo sabe melhor. É um conhecimento que se tornou parte inconsciente de mim mesmo. E isso me poupa do trabalho de pensar o já sabido. Ensinar aqui, é inconscientizar.


O sabido é o não-pensado, que fica guardado, pronto para ser usado como receita, na memória desse computador que se chama cérebro. Basta aper tar a tecla adequada para que a receita apareça no vídeo da consciência. Aperto a tecla moqueca. A receita aparece no meu vídeo cerebral: panela de barro, azeite, peixe, tomate, cebola, coentro, cheiro verde, urucum, sal, pimenta, seguidos de uma se série de instruções sobre o que fazer. Não é coisa que eu tenha inventado. Me foi ensinado. Não precisei pensar. Gostei. Foi para a memória. Esta é a regra fundamental desse computador que vive no corpo humano: só vai para a memória aquilo que e objeto do desejo.


A tarefa primordial do professor: seduzir o aluno para que ele deseje e, desejando, aprenda. E o saber fica memorizado de cor - etimologicamente, no coração -, à espera de que a tecla do desejo de novo o chame do seu lugar de esquecimento. Memória: um saber que 0 passado sedimentou. Indispensável para se repetir as receitas que os mortos nos legaram. E elas são boas. Tão boas que elas nos fazem esquecer que é preciso voar. Permitem que andemos pelas trilhas batidas. Mas nada têm a dizer sobre mares desconhecidos. Muitas pessoas, de tanto repetir as receitas,  metamorfosearam-se de águias em tartarugas. E não são poucas as tartarugas que possuem diplomas universitários. Aqui se encontra o perigo das escolas: de tanto ensinar o que o passado legou - e ensinar bem - fazem os alunos se esquecer de que o seu destino não é o passado cristalizado em saber, mas um futuro que se abre como vazio, um não saber que somente pode ser explorado com as asas do pensamento. Compreende-se então que 8arthes tenha dito que, seguindo-se ao tempo em que se ensina o que se sabe, deve chegar o tempo quando se ensina o que não se sabe. 


(Rubem Alves, no livro "A alegria de ensinar". São Paulo: Ars Poetica Editora Lida, 1994.) 
"Quando eu era menino, na escola, as professoras me ensinaram ( ... )". Todas as alternativas estão corretas, exceto: 
Alternativas
Q3418117 Português
Analise as sentenças a seguir e assinale aquela em que há inadequação no emprego do(s) sinal(is) de pontuação. 
Alternativas
Q3417863 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


As receitas 


Quando eu era menino, na escola, as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as ideias que moram na cabeça do pintor. São as ideias dançantes na cabeça que fazem as tintas dançar sobre a tela.

Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre. Somos pobres em ideias. Não sabemos pensar. Nisto nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. Hoje, nas relações de troca entre os países, o bem mais caro, o bem mais cuidadosamente guardado, o bem que não se vende, são as ideias. É com as ideias que o mundo é feito. Prova disso são os tigres asiáticos, Japão, Coreia, Formosa que, pobres de recursos naturais, se enriqueceram por ter se especializado na arte de pensar.  

Minha filha me fez uma pergunta: "O que é pensar?" Disse-me que 'esta era uma pergunta que o professor de filosofia havia proposto à classe. Pelo que lhe dou os parabéns. Primeiro por ter ido diretamente à questão essencial. Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer a pergunta, sem dar a resposta. Porque, se tivesse dado a resposta, teria com ela cortado as asas do pensamento. O pensamento é como a águia que só alça voo nos espaços vazios do desconhecido. Pensar é voar sobre o que não se sabe. Não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido. 

E, no entanto, não podemos viver sem as respostas. As asas, para o impulso inicial do voo, dependem de pés apoiados na terra firme. Os pássaros, antes de saber voar, aprendem a se apoiar sobre os seus pés. Também as crianças, antes de aprender a voar, tem que aprender a caminhar sobre a terra firme. Terra firme: as milhares de perguntas para as quais as gerações passadas já descobriram as respostas. O primeiro momento da educação é a transmissão deste saber. Nas palavras de Roland Barthes: "Há um momento em que se ensina o que se sabe..." E o curioso é que este aprendizado é justamente para nos poupar da necessidade de pensar. 

As gerações mais velhas ensinam as mais novas as receitas que funcionam. Sei amarrar os meus sapatos automaticamente, sei dar o nó na minha gravata automaticamente: as mãos fazem o seu trabalho com destreza enquanto as ideias andam por outros lugares. Aquilo que um dia eu não sabia me foi ensinado; eu aprendi com o corpo e esqueci com a cabeça. E a condição para que minhas mãos saibam bem é que a cabeça não pense sobre o que elas estão fazendo. Um pianista que, na hora da execução, pensa sobre os caminhos que seus dedos deverão seguir, tropeçara fatalmente. Há a estória de uma centopeia que andava feliz pelo jardim, quando foi interpelada por um grilo: "Dona Centopeia, sempre tive curiosidade sobre uma coisa: quando a senhora anda, qual, dentre as suas cem pernas, é aquela que a senhora movimenta primeiro?" "Curioso", ela respondeu. "Sempre andei, mas nunca me propus esta questão. Da próxima vez, prestarei atenção." Termina a estória dizendo que a centopeia nunca mais conseguiu andar.  

Todo mundo fala, e fala bem. Ninguém sabe como a linguagem foi ensinada e nem como ela foi aprendida. A despeito disto, o ensino foi tão eficiente que não preciso pensar para falar. Ao falar não sei se estou usando um substantivo, um verbo ou um adjetivo, e nem me lembro das regras da gramatica. Quem, para falar, tem de se lembrar destas coisas, não sabe falar. Há um nível de aprendizado em que o pensamento é um estorvo. Só se sabe bem com o corpo aquilo que a cabeça esqueceu. E assim escrevemos, lemos, andamos de bicicleta, nadamos, pregamos pregos, guiamos carros: sem saber com a cabeça, porque o corpo sabe melhor. É um conhecimento que se tornou parte inconsciente de mim mesmo. E isso me poupa do trabalho de pensar o já sabido. Ensinar aqui, é inconscientizar.  

O sabido é o não-pensado, que fica guardado, pronto para ser usado como receita, na memória desse computador que se chama cérebro. Basta apertar a tecla adequada para que a receita apareça no vídeo da consciência. Aperto a tecla moqueca. A receita aparece no meu vídeo cerebral: panela de barro, azeite, peixe, tomate, cebola, coentro, cheiro verde, urucum, sal, pimenta, seguidos de uma se série de instruções sobre o que fazer. Não é coisa que eu tenha inventado. Me foi ensinado. Não precisei pensar. Gostei. Foi para a memória. Esta é a regra fundamental desse computador que vive no corpo humano: só vai para a memoria aquilo que e objeto do desejo.  

A tarefa primordial do professor: seduzir o aluno para que ele deseje e, desejando, aprenda. E o saber fica memorizado de cor - etimologicamente, no coração -, à espera de que a tecla do desejo de novo o chame do seu lugar de esquecimento. Memória: um saber que o passado sedimentou. Indispensável para se repetir as receitas que os mortos nos legaram. E elas são boas. Téo boas que elas nos fazem esquecer que é preciso voar. Permitem que andemos pelas trilhas batidas. Mas nada tem a dizer sobre mares desconhecidos. Muitas pessoas, de tanto repetir as receitas, metamorfosearam-se de águias em tartarugas. E não são poucas as tartarugas que possuem diplomas universitários. Aqui se encontra o perigo das escolas: de tanto ensinar o que o passado legou - e ensinar bem — fazem os alunos se esquecer de que o seu destino não é o passado cristalizado em saber, mas um futuro que se abre como vazio, um não saber que somente pode ser explorado com as asas do pensamento. Compreende-se então que Barthes tenha dito que, seguindo-se ao tempo em que se ensina o que se sabe, deve chegar o tempo quando se ensina o que não se sabe. —



(Rubem Alves, no livro "A alegria de ensinar”. São Paulo: Ars Poetica Editora Ltda, 1994.)
"Quando eu era menino, na escola, as professoras me ensinaram (...)". Todas as alternativas estão corretas, exceto:  
Alternativas
Respostas
2441: B
2442: E
2443: D
2444: A
2445: B
2446: A
2447: D
2448: D
2449: A
2450: D
2451: B
2452: C
2453: D
2454: D
2455: A
2456: E
2457: B
2458: B
2459: E
2460: A