Questões de Concurso Sobre paralelismo sintático e semântico em português

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Q4117696 Português
Texto 1


Tô bem de baixo pra poder subir

Tô bem de cima pra poder cair

Tô dividindo pra poder sobrar

Desperdiçando pra poder faltar


Devagarinho pra poder caber

Bem de leve pra não perdoar

Tô estudando pra saber ignorar

Eu tô aqui comendo para vomitar


Eu tô te explicando pra te confundir

Eu tô te confundindo pra te esclarecer

Tô iluminado pra poder cegar

Tô ficando cego pra poder guiar


[...]


Suavemente pra poder rasgar

Olho fechado pra te ver melhor

Com alegria pra poder chorar

Desesperado pra ter paciência


Carinhoso pra poder ferir

Lentamente pra não atrasar

Atrás da vida pra poder morrer

Eu tô me despedindo pra poder voltar


TOM ZÉ. Tô. Disponível em: https://www.letras.mus.br/tom-ze/164918/. Acesso em: 17 jan. 2026.
Apesar da recorrência de enunciados paradoxais, a canção constrói um sentido global reconhecível. Esse efeito de coerência decorre principalmente da 
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Q4102208 Português
“O leitor compreende um texto não apenas pelo significado isolado das palavras, mas também pelas pistas deixadas na organização textual. Conectivos, estruturas paralelas e retomadas lexicais orientam a interpretação. Da mesma forma que um mapa conduz o viajante por um percurso, os mecanismos linguísticos ajudam o leitor a estabelecer relações entre as partes do texto. Sem esses elementos, a progressão das ideias pode tornar-se fragmentada e confusa.” FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006.

Com base nas ideias de Fiorin, pode-se afirmar que:
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Q4090552 Português

Texto 1


Quarto de Despejo: Diário de uma favelada


“20 DE JULHO

Deixei o leito as 4 horas para escrever. Abri a porta e contemplei o céu estrelado. Quando o astro-rei começou despontar eu fui buscar agua. Tive sorte! As mulheres não estavam na torneira. Enchi minha lata e zarpei. (...) Fui no Arnaldo buscar o leite e o pão. Quando retornava encontrei o senhor Ismael com uma faca de 30 centimetros mais ou menos. Disse-me que estava a espera do Binidito e do Miguel para matá-los, que eles lhe expancaram quando ele estava embriagado.


Lhe aconselhei a não brigar, que o crime não trás vantagens a ninguém, apenas deturpa a vida. Senti o cheiro de álcool, disisti. Sei que os ebrios não atende. O senhor Ismael quando não está alcoolizado demonstra sua sapiência. Já foi telegrafista. E do Circulo Exoterico. Tem conhecimentos biblicos, gosta de dar conselhos. Mas não tem valor. Deixou o álcool lhe dominar, embora seus conselho seja util para os que gostam de levar vida decente.


Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia. Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe dar uma refeição condigna.


Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. E só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possível. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela.


...Durante o dia, os jovens de 15 e 18 anos sentam na grama e falam de roubo. E já tentaram assaltar o emporio do senhor Raymundo Guello. E um ficou carimbado com uma bala. O assalto teve inicio as 4 horas. Quando o dia clareou as crianças catava dinheiro na rua e no capinzal. Teve criança que catou vinte cruzeiros em moeda. E sorria exibindo o dinheiro. Mas o juiz foi severo. Castigou impiedosamente.


Fui no rio lavar as roupas e encontrei D. Mariana. Uma mulher agradavel e decente. [...] Estendi as roupas rapidamente e fui catar papel. Que suplicio catar papel atualmente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela está com dois anos, e não gosta de ficar em casa. Eu ponho o saco na cabeça e levo-a nos braços. Suporto o peso do saco na cabeça e suporto o peso da Vera Eunice nos braços. Tem hora que revolto-me. Depois domino-me. Ela não tem culpa de estar no mundo”.

[...]


Adaptado de: JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2020.

No fragmento “Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco.”, verifica-se um mecanismo de coesão em que a progressão textual se faz por
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Q4088353 Português
Leia o texto e responda à questão.

O quintal que só fica bonito para visita

    No bairro, existe um fenômeno curioso, silencioso e muito brasileiro: o quintal de ocasião. Ele passa semanas convivendo em paz com o mato mais confiante, com a garrafa plástica que “depois eu junto”, com o balde que “não tem problema nenhum” e com o pneu velho que, misteriosamente, um dia ainda “vai servir para alguma coisa”. Mas basta surgir a notícia de uma visita, e acontece o milagre. O quintal, antes entregue à própria filosofia, descobre de repente sua vocação para a limpeza.
    É quase emocionante.
   A vassoura, que andava aposentada num canto, volta ao serviço como se tivesse sido convocada para uma missão de honra. Os recipientes com água parada desaparecem em velocidade suspeita. O mato é aparado com a energia de quem quer não apenas organizar a casa, mas reescrever a própria história. Em poucas horas, o cenário muda tanto que, se o quintal pudesse falar, talvez pedisse um minuto para se reconhecer.
    Nessas horas, a casa ganha até um certo ar de inocência. Tudo parece dizer: “Aqui sempre foi assim. Organizado, limpo, preventivo, quase exemplar.” O balde seco posa de cidadão de bem. A calha desentupida ostenta uma honestidade recente. O vasinho virado para baixo age como se nunca tivesse colaborado com mosquito algum. E o morador, com a serenidade de um artista diante da obra pronta, recebe a visita com a tranquilidade de quem acabou de vencer uma disputa particular contra a vergonha.
    Não é exatamente mentira. Também não chega a ser verdade. É um tipo de sinceridade de última hora.
    O mais engraçado é que esse impulso de arrumação não nasce do amor pela ordem, nem de uma súbita paixão pela saúde pública. Nasce do velho desconforto de ser visto. Muita gente não se incomoda tanto com o risco. Incomoda-se com o olhar sobre o risco. Conviver com o problema parece aceitável. Ser flagrado convivendo com ele já é uma afronta moral, quase uma ofensa à reputação doméstica.
    E assim seguimos, numa estranha pedagogia da aparência: limpa-se quando alguém vai olhar, corrige-se quando alguém vai notar, previne-se quando alguém vai perguntar. Como se o mosquito da dengue fosse um fiscal sensível à agenda alheia. Como se a água parada respeitasse o calendário das visitas. Como se o perigo tivesse a delicadeza de esperar a casa estar despenteada para agir.
    Mas o quintal, coitado, não entende de cerimônia. Ele não sabe a diferença entre terça comum e dia de inspeção. O mosquito também não. A larva não suspende expediente porque o morador prometeu cuidar “amanhã sem falta”. Do ponto de vista do risco, a desculpa é sempre um enfeite inútil.
    Talvez a lição esteja justamente aí, onde a ironia perde a graça e vira conselho. Cuidado de verdade não é o que se faz para impressionar visita. É o que se repete quando ninguém está olhando. Saúde não combina com faxina teatral, dessas que entram em cena só para aplauso rápido. Ela prefere a disciplina modesta, sem plateia, sem anúncio e sem heroísmo.
    No fim, o quintal arrumado para visita é melhor do que o quintal largado de vez, claro. Já ajuda. Mas o ideal seria uma revolução menos dramática e mais constante. Porque prevenir não é posar para parecer responsável. É escolher ser responsável até nos dias em que a vassoura não tem testemunhas.

Fonte: Banca Examinadora
A alternativa cuja reescrita mantém o sentido e segue a norma padrão é:
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Q4084927 Português
Leia o texto abaixo e depois aponte a única afirmação incorreta.

O primeiro sinal que um leitor prevenido deve procurar num livro, a meu ver, é o da autenticidade. Antes de qualquer avaliação final, antes de uma colocação mais firme, importa distinguir se a obra vem das profundezas de um sujeito ou das meras superfícies, que apenas espelham os gestos dos outros. O que importa, na voz de um livro, é que seja uma voz de homem, que as palavras dessa voz estejam ligadas à lenda desse rei que cada esfinge de esquina tenta devorar. O que importa, em suma, é que a obra seja uma Mensagem.
(Gustavo Corção, em https://www.pensador.com/autor/gustavo_corcao/)
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Q4075411 Português

LEI Nº 11.350, DE 5 DE OUTUBRO DE 2006

Conversão da MPv nº 297, de 2006

(Vide § 5º do art. 198 da Constituição)


Regulamenta o § 5º do art. 198 da Constituição, dispõe sobre o aproveitamento de pessoal amparado pelo pará grafo único do art. 2º da Emenda Constitucional nº 51, de 14 de fevereiro de 2006, e dá outras providências.


Art. 4º-A. O Agente Comunitário de Saúde e o Agente de Combate às Endemias realizarão atividades de forma integrada, desenvolvendo mobilizações sociais por meio da Educação Popular em Saúde, dentro de sua área geográfica de atuação, especialmente nas seguintes situações: (Incluído dada pela Lei nº 13.595, de 2018)


I - na orientação da comunidade quanto à adoção de me didas simples de manejo ambiental para o controle de vetores, de medidas de proteção individual e coletiva e de outras ações de promoção de saúde, para a prevenção de doenças infecciosas, zoonoses, doenças de transmis são vetorial e agravos causados por animais peçonhen tos; (Incluído dada pela Lei nº 13.595, de 2018)


II - no planejamento, na programação e no desenvolvi mento de atividades de vigilância em saúde, de forma articulada com as equipes de saúde da família; (Incluído dada pela Lei nº 13.595, de 2018)


III - (VETADO); (Incluído dada pela Lei nº 13.595, de 2018)


IV - na identificação e no encaminhamento, para a uni dade de saúde de referência, de situações que, relacio nadas a fatores ambientais, interfiram no curso de do enças ou tenham importância epidemiológica; (Incluído dada pela Lei nº 13.595, de 2018)



V - na realização de campanhas ou de mutirões para o combate à transmissão de doenças infecciosas e a ou tros agravos. (Incluído dada pela Lei nº 13.595, de 2018) Art. 4º-B. Deverão ser observadas as ações de segu rança e de saúde do trabalhador, notadamente o uso de equipamentos de proteção individual e a realização dos exames de saúde ocupacional, na execução das ativida des dos Agentes Comunitários de Saúde e dos Agentes de Combate às Endemias. (Incluído dada pela Lei nº 13.595, de 2018) 



Fonte: BRASIL. Lei nº 11.350, de 5 de outubro de 2006. Re gulamenta o § 5º do art. 198 da Constituição Federal. Dispo nível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004 2006/2006/lei/l11350.htm . Acesso em: 27 abr. 2026. 

O trecho “no planejamento, na programação e no desenvolvimento de atividades de vigilância em saúde”, observa-se a repetição de uma mesma estrutura gramatical nos termos coordenados. Esse recurso caracteriza um(a): 
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Q3932489 Português
        Em 1988, ano do centenário da abolição da escravatura no Brasil, foi promulgada a atual Constituição Federal, a primeira a tratar da questão racial e a que tornou o racismo crime inafiançável e imprescritível. Naquele ano de memória e avanço civilizatório, foi feita uma pequena pesquisa sobre racismo. Seus resultados mostravam um cenário contraditório: ao mesmo tempo em que 97% dos entrevistados afirmavam não ter preconceito racial, 98% dos entrevistados diziam conhecer pessoas racistas e ter presenciado situações de discriminação racial. A melhor descrição da situação foi feita anos depois pela historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz: “A conclusão informal é de que todo brasileiro parece se sentir como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados.”

        Hoje, o debate sobre o racismo cresceu. As cotas raciais são um sucesso social e acadêmico comprovado. Tendem a ser cada vez menos numerosos os que acreditam na democracia racial e cada vez maior o número dos que sabem que o racismo deve ser extirpado.

        Entretanto, a tendência de reconhecer mais o racismo não se repete em relação ao machismo. Todos reconhecem que há discriminação contra pretos e pardos, mas não contra as mulheres; todos reconhecem que há racismo, mas não reconhecem que há machismo — embora os mais jovens não se revelem machistas. Todas as gerações negam a discriminação contra as mulheres, apesar de a geração dos que nasceram no novo milênio ser a que menos percebe a discriminação de gênero, tanto mulheres quanto homens. No Brasil de hoje, há uma regra social implícita, segundo a qual ninguém pode deixar de reconhecer o racismo, mas a sociedade não reconhece a discriminação contra a mulher como relevante.

Felipe Nunes. Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Globo, 2025, p. 185-186 (com adaptações).

Julgue o próximo item, relativo ao texto precedente.


Nos trechos “reconhecem que há discriminação” e “reconhecem que há machismo” (segundo período do terceiro parágrafo), a substituição do segmento “que há” por a existência de manteria tanto a correção gramatical quanto o paralelismo sintático no período. 

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Q4359317 Português

Texto para a questão.



O QUE É A CULTURA WOKE? POR QUE GEROU UMA GUERRA CULTURAL?


    Foi no início do século XXI que a cultura woke ganhou uma nova conotação que dura até os dias de hoje. Atualmente, a palavra woke se refere a narrativas e a linhas de pensamento, como pautas progressistas e relativistas


    Segundo o dicionário inglês de Cambridge, a palavra woke, em sua acepção moderna, significa: “estar consciente sobre temas sociais e políticos, especialmente sobre o racismo”.


    O termo é comumente utilizado para se referir à inserção desse tipo de conteúdo em filmes, em séries e em outros meios de entretenimento, mas a expressão também é utilizada para se referir à esquerda política e a suas pautas sociais.


    Em tradução literal, a palavra woke significa “acordado”. Ativistas políticos passaram a utilizar o verbo para designar aqueles que estão “acordados”, atentos a questões de justiça social.


    Pensadores da linha da filosofia clássica, como o Bispo americano Robert Barron, afirmam que o termo woke é utilizado para se referir aos adeptos do relativismo moral e de outras políticas progressistas, como Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Michel Foucault e Jean Paul Sartre. Todos defendiam o relativismo moral em algum grau.


    A cultura woke afirma que o certo e o errado se tornam conceitos vagos que variam de pessoa para pessoa, de acordo com sua cultura e criação. Tudo se torna uma questão de ponto de vista e de circunstância. Esse princípio faz com que realidades universais e objetivas sejam descartadas. Na cultura woke, “é proibido proibir”.


    Como consequência lógica desse tipo de pensamento, os arquétipos clássicos da cultura ocidental precisaram ser transformados. A cultura woke busca mudar o pressuposto de que há realidades naturais e objetivas, como família e liberdade de expressão. 


    Pensadores contrários à cultura woke, como Bispo Barron, afirmam que esse tipo de pensamento é o inverso da cultura ocidental. Para a filosofia clássica, especialmente para o pensamento aristotélico-tomista, o intelecto humano é capaz de analisar a realidade e de descobrir a essência das coisas e as leis universais de diversos tipos, como a gravidade, a inércia, e até mesmo os valores morais, como os princípios da justiça, da liberdade e da propriedade.


Disponível em: https://www.brasilparalelo.com.br/artigos/o-que-e-a-cultura-woke. Acesso em: 16.fev.2025. Adaptado.

A passagem a seguir torna-se coerente em decorrência do processo de coesão sem nenhuma infração ao paralelismo sintático realçado no período.
“[...] o intelecto humano é capaz de analisar a realidade e de descobrir a essência das coisas e as leis universais de diversos tipos, como a gravidade, a inércia, e até mesmo os valores morais, como os princípios da justiça, da liberdade e da propriedade.” 
Essa articulação coesiva é denominada de
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Q4292577 Português

Texto 3


Cotidiano


Chico Buarque


Todo dia ela faz tudo sempre igual

Me sacode às seis horas da manhã

Me sorri um sorriso pontual

E me beija com a boca de hortelã


Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar

E essas coisas que diz toda mulher

Diz que está me esperando pro jantar

E me beija com a boca de café 


Todo dia eu só penso em poder parar

Meio dia eu só penso em dizer não

Depois penso na vida pra levar

E me calo com a boca de feijão


Seis da tarde como era de se esperar

Ela pega e me espera no portão

Diz que está muito louca pra beijar

E me beija com a boca de paixão


Toda noite ela diz pra eu não me afastar

Meia-noite ela jura eterno amor

E me aperta pra eu quase sufocar

E me morde com a boca de pavor


Todo dia ela faz tudo sempre igual

Me sacode às seis horas da manhã

Me sorri um sorriso pontual

E me beija com a boca de hortelã


Disponível em:  <https://www.chicobuarque.com.br/obra/cancao/97>

Os aspectos linguístico-textuais revelam que 
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Q4260156 Português
A questão refere-se ao texto a seguir. Os parágrafos estão numerados e algumas palavras ou segmentos textuais estão sublinhados para facilitar sua identificação pelos candidatos.


A inclusão da terceira idade no mercado de trabalho: uma análise jurídica e social


Gilda Figueiredo Ferraz de Andrade


[...]

[1] Este artigo explora os aspectos jurídicos e sociais da inclusão da terceira idade no mercado de trabalho, destacando os desafios e as perspectivas de avanço.

[2] A Constituição Federal de 1988 estabelece, em seu art. 7º, inciso XXXI, a proibição de discriminação por idade para efeitos de admissão ao trabalho. Além disso, o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003), em seu art. 27, veio garantir a proteção contra a discriminação no mercado de trabalho e tem promovido o acesso da pessoa idosa a programas de capacitação e reinserção profissional.

[3] Essas normas refletem a necessidade de garantir igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, reconhecendo a experiência e a contribuição da população idosa para a sociedade, entretanto a efetividade dessas disposições depende de sua implementação prática e da conscientização social sobre a importância da inclusão.

[4] A inserção da terceira idade no mercado de trabalho não é apenas uma questão de direitos, mas também de desenvolvimento social e econômico. A experiência acumulada por esses trabalhadores pode ser um diferencial competitivo, realidade que contribuirá para a inovação e a transmissão de conhecimento no ambiente profissional, entretanto desafios significativos permanecem, como o preconceito etário e a falta de adaptação das empresas às necessidades dos idosos. A ausência de políticas voltadas para a capacitação e a reinserção profissional também limita, e muito, as oportunidades para essa faixa etária.

[5] A promoção da inclusão da terceira idade no mercado de trabalho requer esforços coordenados entre o setor público e o privado. Políticas públicas, como incentivos fiscais para empresas que contratem idosos, e programas de capacitação específicos são fundamentais para garantir a empregabilidade desse importante nicho populacional.

[6] Demais disso, iniciativas privadas podem desempenhar um papel importante, como a criação de ambientes de trabalho inclusivos e flexíveis, que atendam às necessidades de saúde e bem-estar dos trabalhadores idosos.

[7] Com o envelhecimento populacional, urge repensar o papel da terceira idade no mercado de trabalho. A transição para uma economia mais inclusiva exige não apenas mudanças legais, mas também transformações culturais que valorizem a diversidade etária. A Agenda 2030 da ONU, por meio do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8, reforça a necessidade de promover o trabalho decente para todos, independentemente da idade. Essa diretriz pode orientar a criação de políticas mais abrangentes e eficazes no Brasil e no mundo.

[8] A inclusão da terceira idade no mercado de trabalho é uma questão central para a promoção da igualdade e do desenvolvimento sustentável. Embora o Brasil possua um arcabouço jurídico que garante o direito ao trabalho sem discriminação etária, a implementação de políticas públicas e iniciativas privadas ainda é um desafio. Somente por meio de esforços conjuntos será possível construir um mercado de trabalho verdadeiramente inclusivo para a população idosa.


(Disponível em: https://www.migalhas.com.br/depeso/422388/ terceira-idade-no-mercado-de-trabalho-analise-juridica-e-social. Acesso em: 9 jan. 2025. Com supressões, adaptações e grifos nossos)
Há, no texto, um problema de organização textual que interfere (negativamente) na coesão. Em qual das alternativas se aponta essa falha coesiva e uma possível solução para o problema? 
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Q3759677 Português
Emerita


    Emerita. Um nome ou um anagrama? Por mais que pareça coincidência, gostava de viajar. Aí o tédio soprou‑lhe ao ouvido que era hora de mais emoção. E estava certa (como não?), só errou na dose. Largou o marido e pegou um traficante famoso. Os primeiros meses foram adrenalínicos. Praia, montanha, motos, carros, servos, dinheiro e sexo, tudo num estalo.

    Aí veio o desfibrilador: cela para ela, caixão fechado para ele. Dez anos após estava livre, pobre, endividada e dez anos mais velha. O ex‑marido ainda era servidor público e pai dedicado. E marido há cerca de 9 anos.


Internet:<folhadabaixada.com.br> (com adaptações).

Com base nos aspectos gerais do texto, julgue o item a seguir.


Em “Por mais que pareça coincidência, gostava de viajar”, a expressão “por mais que” poderia ser substituída por “porquanto que”.

Alternativas
Q3624876 Português
Você pode estar sofrendo de fadiga digital e nem percebeu

        Nos últimos anos, o avanço das tecnologias digitais e a popularização do trabalho remoto transformaram a forma como as pessoas se relacionam com o ambiente virtual. A rotina de passar horas seguidas diante de telas, seja para atividades profissionais, estudo ou lazer, tornou-se parte do cotidiano de milhões de indivíduos. Esse novo cenário trouxe à tona um fenômeno cada vez mais discutido: o surgimento de tipos inéditos de cansaço mental associados às longas jornadas on-line.

        O esgotamento provocado pelo uso prolongado de dispositivos digitais vai além do simples cansaço físico. Muitas pessoas relatam sintomas como dificuldade de concentração, irritabilidade e sensação de esvaziamento mental após períodos extensos conectados. Esse quadro tem chamado a atenção de pesquisadores e profissionais da saúde, que buscam compreender as causas e impactos desse fenômeno no bem-estar da população. Recentemente, instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e universidades de referência, como a Universidade de São Paulo, vêm promovendo estudos para entender melhor a relação entre o ambiente digital e a saúde mental, trazendo novas perspectivas sobre o tema.

        Estudos recentes indicam que a exposição contínua a estímulos digitais pode sobrecarregar áreas do cérebro responsáveis pela atenção e processamento de informações. O excesso de notificações, reuniões virtuais e multitarefas digitais exige uma adaptação constante, levando à chamada fadiga digital. Esse tipo de exaustão mental difere do cansaço tradicional, pois está relacionado à hiperestimulação e à dificuldade de desconectar-se do ambiente virtual. 

        Além disso, a ausência de pausas regulares e a falta de interação presencial contribuem para o aumento do estresse e da ansiedade. O cérebro, ao ser submetido a longos períodos de atividade on-line, tende a apresentar sinais de esgotamento, como lapsos de memória e sensação de confusão mental. Tais sintomas são cada vez mais comuns em profissionais que atuam em home office ou estudantes em regime remoto. 

        O esgotamento causado pelas longas jornadas on-line possui características distintas em relação ao estresse convencional. Enquanto o estresse físico está geralmente associado a esforços corporais ou preocupações pontuais, o cansaço digital resulta da sobrecarga de informações e da necessidade de estar sempre disponível no ambiente virtual.

        Além disso, a ausência de limites claros entre trabalho, lazer e vida pessoal intensifica o desgaste mental. O acesso constante a redes sociais, e-mails e aplicativos de mensagens faz com que o cérebro permaneça em estado de alerta, dificultando o relaxamento e a recuperação das energias.

        Para reduzir os efeitos do cansaço mental digital, especialistas recomendam adotar algumas estratégias simples no dia a dia. Entre elas, destaca-se a importância de realizar pausas regulares durante o uso de dispositivos eletrônicos, evitando períodos prolongados sem descanso. A prática de atividades físicas e o contato com ambientes naturais também contribuem para aliviar a tensão acumulada.

        Outra medida eficaz é estabelecer horários definidos para o uso de tecnologias, separando momentos de trabalho, estudo e lazer. Desativar notificações não essenciais e priorizar interações presenciais sempre que possível são atitudes que ajudam a preservar a saúde mental e a qualidade de vida em um mundo cada vez mais conectado. Empresas como Google e Apple têm implementado ferramentas em seus dispositivos para auxiliar os usuários na gestão do tempo de tela, facilitando o equilíbrio entre o digital e o offline. 

(Disponível em: https://www.em.com.br/emfoco. Acesso em: julho de 2025. Adaptado.)
“Enquanto o estresse físico está geralmente associado a esforços corporais ou preocupações pontuais, o cansaço digital resulta da sobrecarga de informações e da necessidade de estar sempre disponível no ambiente virtual.” (5º§). A conjunção “enquanto” dá ao excerto uma ideia de:
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Q3610460 Português
A atividade física pode‑se efetivar nos três níveis que organizam a rede de atenção à saúde no Brasil, estabelecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Por isso, é importante analisar a associação entre atividade física e prevenção ou tratamento das doenças crônicas não transmissíveis e da incapacidade funcional e as recomendações atuais para a prática de exercícios nessas situações.

        Diversos estudos epidemiológicos mostram associação entre aumento dos níveis de atividade física e redução da mortalidade geral e por doenças cardiovasculares em indivíduos adultos e idosos. Embora ainda não estejam totalmente compreendidos, os mecanismos que ligam a atividade física à prevenção e ao tratamento de doenças e da incapacidade funcional envolvem, principalmente, a redução da adiposidade corporal, a queda da pressão arterial, a melhora do perfil lipídico e da sensibilidade à insulina, o aumento do gasto energético, da massa e força muscular, da capacidade cardiorrespiratória, da flexibilidade e do equilíbrio.

        De forma geral, os consensos para a prática de exercícios preventivos ou terapêuticos recomendam atividades aeróbias e resistidas, preferencialmente somadas às atividades físicas do cotidiano. Particularmente para idosos ou adultos com comorbidades ou limitações que afetem a capacidade de realizar atividades físicas, os consensos preconizam, além dessas atividades, a inclusão de exercícios para o desenvolvimento da flexibilidade e do equilíbrio.

        Algumas doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, seus fatores de risco metabólicos (diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemias) e a incapacidade funcional são importantes causas de morbidade e mortalidade entre adultos e idosos. Em geral, essas doenças são de longa duração, múltiplas, exigem acompanhamento multidisciplinar permanente, intervenções contínuas e grandes recursos materiais e humanos, gerando encargos ao sistema público e social. No Brasil, por exemplo, respondem por, aproximadamente, 70% dos gastos assistenciais com a saúde.

        Apesar de a herança genética ser fator de relevância na determinação da suscetibilidade à doença, o desenvolvimento dessas morbidades se dá, primordialmente, por fatores ambientais e ligados ao estilo de vida. Estima‑se que 75% dos casos novos de doenças não transmissíveis poderiam ser explicados por dieta inadequada e inatividade física. O baixo condicionamento cardiorrespiratório, a pouca força muscular e o sedentarismo, por exemplo, aumentam de três a quatro vezes a prevalência da síndrome metabólica. Nesses casos, é essencial para um metabolismo saudável a prática regular de exercícios físicos, que aumenta a massa muscular e acelera o metabolismo, além de uma alimentação equilibrada.

Internet:<www.scielo.br> (com adaptações).

Quanto à estruturação linguística e gramatical do texto, julgue o item seguinte.


Nos trechos “os consensos para a prática de exercícios preventivos ou terapêuticos recomendam atividades” e “os consensos preconizam, além dessas atividades, a inclusão de exercícios”, as formas verbais “recomendam” e “preconizam” têm a mesma função sintática e semântica na oração em que se encontram.

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Q3541331 Português
Texto 2


O LINGUISTA LIBERTÁRIO

Carlos Fioravanti (Jornal da Unicamp)

Quem foi e como era sua primeira professora ou professor de português?

Ataliba Castilho – Foi o professor Amaury de Assis Ferreira (1920-1995), pai do apresentador de TV Amauri Jr. Era um professor muito bom, lia e estudava muito, mostrava os livros que comprava com muito entusiasmo. De vez em quando eu ia na casa dele, meu pai era eletricista e ia trocar a resistência de seu fogão elétrico. Ele me chamava e mostrava a biblioteca e os livros que tinha comprado. Ele tinha muito prazer no que ele fazia. Pensei: “Quero ser um cara assim”. Depois peguei outros professores ótimos em São Paulo, como o Theodoro Maurer, meu orientador de doutorado. Quietinho, magrinho, filho de suíços, ele escreveu sozinho um dos trabalhos mais extensos do mundo sobre a gramática e a sintaxe do latim vulgar.

Qual sua participação no Museu da Língua Portuguesa?

Ataliba Castilho – Em 2004, Jarbas Mantovanini, que atuava na Fundação Roberto Marinho, apareceu na USP, apresentou o projeto do museu e disse que queria me fazer dois pedidos. O primeiro era dar ideias para o museu. O segundo era para fazer a linha do tempo sobre a história do português. Aryon iria fazer a parte das línguas indígenas e Yeda Pessoa de Castro, da Universidade Federal da Bahia, se ocuparia das línguas africanas. Jarbas disse para chamar quem eu quisesse. Chamei Mário Viaro e Marilza de Oliveira, os dois da USP, para fazer outras partes. Jarbas me perguntou como eu queria representar a linha do tempo, se com filmes ou painéis fixos. Preferi os painéis, porque já haveria filmes do outro lado da sala. Entreguei o projeto, ele gostou: “Está tudo muito bonito, mas no lugar do último quadro vou colocar um espelho. Todos vão percorrer aquela baita história de 2 mil anos e quando chegam no final vão ver a si mesmos”. Sabe que ele acertou na mosca? Muita gente que via a própria imagem, depois de fazer o percurso histórico, caía no choro. Uma colega de Minas, Maria Antonieta Cohen, ia no começo para ver o museu e depois para ver as pessoas quando chegavam no espelho. Ela me perguntou: “Por que será que elas choram?”. Fiquei pensando muito naquilo. As pessoas choravam, decerto, porque viam ali sua identidade. O que é a língua portuguesa? Sou eu, que represento agora todo esse percurso. A língua é minha identidade.


Adaptado de: https://unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2017/10/06/olinguista-libertario/. Acesso em: 04 de abr. de 2025.
Qual é o papel semântico desempenhado pelo termo destacado em: “[...] ele escreveu sozinho um dos trabalhos mais extensos do mundo sobre a gramática e a sintaxe do latim vulgar.”?
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Q3437705 Português
Contador é achado morto pela família, com ferimentos no rosto e peito,
em casa de alto padrão em SP; Polícia investiga homicídio

        Um contador foi encontrado morto pela família, na manhã de quinta‑feira (16), na casa de alto padrão onde ele morava, na Zona Norte de São Paulo. Leandro Trusko Machado foi achado no corredor da residência, com ferimentos no rosto e no peito. A suspeita é de que ele tenha sido baleado. Aparentemente nenhum pertence da vítima foi levado.

        A Polícia Civil investiga o caso, que foi registrado como homicídio no 13º Distrito Policial (DP), Casa Verde. A investigação será feita pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Até a última atualização desta reportagem nenhum suspeito pelo crime havia sido identificado ou preso. A arma do crime não foi encontrada, mas havia marca de disparo numa parede.

        Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), como os parentes de Leandro contaram à polícia, resolveram ir até o imóvel depois que o contador parou de responder as mensagens. Ele foi encontrado pela mãe e pelo irmão. Ambos tentaram fazer manobras de socorro para reanimá‑lo, mas quando o Corpo de Bombeiros chegou ao local constatou o óbito dele.

        A investigação irá buscar câmeras do imóvel e da vizinhança, que possam ter gravado a entrada e saída de algum suspeito do assassinato de Leandro. A residência dele fica na Rua Locarno, no bairro Jardim Leonor Mendes de Barro. Em princípio, o sistema de segurança da casa estaria desligado no momento do crime em razão da falta de energia na região.

       “Foi solicitada perícia ao local, bem como exames necroscópico, toxicológico, sexológico e de material genético. As investigações prosseguem para esclarecer os fatos”, informa trecho da nota divulgada pela pasta da Segurança, por meio de sua assessoria de imprensa.

        O celular da vítima foi apreendido para análise. O DHPP também ouvirá os depoimentos dos parentes e eventuais testemunhas.

        Vizinhos contaram aos policiais que viram ao menos dois homens suspeitos passando pelo local num carro Hyundai HB20. De acordo com eles, a dupla havia entrado num terreno vizinho à casa de Leandro e o veículo tinha se envolvido num acidente numa rua próxima.

        A reportagem não conseguiu localizar parentes de Leandro para comentar o assunto.

Internet:<www.g1.globo.com>  (com adaptações).

Com base no texto, julgue o item a seguir. 


Em “‘As investigações prosseguem para esclarecer os fatos’” oração “para esclarecer os fatos” tem função adverbial e indica circunstância de tempo.

Alternativas
Q3298335 Português

Leia o Texto 2 para responder à questão.


Texto 2


                        Guerra


Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte...

É a dramatização sangrenta e dura

Da avidez com que o Espírito procura

Ser perfeito, ser máximo, ser forte!


É a Subconsciência que se transfigura

Em volição conflagradora... É a coorte

Das raças todas, que se entrega à morte

Para a felicidade da Criatura!


É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendo

De subir, na ordem cósmica, descendo

À irracionalidade primitiva...


É a Natureza que, no seu arcano,

Precisa de encharcar-se em sangue humano

Para mostrar aos homens que está viva!


ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 42. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. p. 63.

No texto, a sentença “Para mostrar aos homens que está viva!” possui, com a sentença anterior, uma relação sintática e semântica de 
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Q3285595 Português
A era da inteligência artificial (IA)



Internet:<https://cienciahoje.org.br> .
Em “Ainda que não tenhamos uma definição exata” (linha 16), a expressão “Ainda que” estabelece uma circunstância de
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Q3275894 Português

Leia o texto 1 a seguir para responder a questão.


Texto 1


Eu sei, mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma.


Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.


A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.


A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.


A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.


A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.


A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.


A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.


A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


COLASANTI. Marina. Crônicas para jovens. Editora Rocco - Rio de Janeiro, 2012. 

A construção do texto de Marina Colasanti segue um movimento progressivo em que pequenas mudanças de comportamento geram transformações mais amplas.
Esse efeito é construído, principalmente, pelo uso:
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Q3243321 Português

O texto seguinte servirá de base para responder a questão: 


Não espalha


Prendemo-nos ao "eu te amo" como se fosse uma convenção inadiável, uma etiqueta implacável. Seu pronunciamento é uma sentença obrigatória, uma sondagem diária da fidelidade.


Há aqueles que não saem de casa se o cônjuge não retribui as palavrinhas mágicas.


Não sou adepto dessa birra e chantagem com Beatriz. Que ela simplesmente me ame, sem depender de provas, sem se ver ameaçada por testes quantitativos.


Circula uma tirania de que precisamos falar sempre, para que a companhia não tenha dúvidas daquilo que sentimos.


Mas a jura não é tão importante quanto demonstrar amor. E você pode expressar o carinho silenciosamente, a lealdade secretamente.


Ou seja, é preferível mais proteger, confiar e selar a empatia em atos de confluência do que gritar votos aos quatro ventos.


A ostentação não suplanta a simplicidade.


Quando existe o exercício pleno do amor, passa a ser ridículo qualquer questionamento.


O que vale é agir amorosamente, é se preocupar amorosamente, é se interessar pelo outro, é suprir o seu par com atenção, é trocar a saudade pela gentileza.


E, de repente, quem ama muito nem diz "eu te amo", economiza no "eu te amo", porém é abundante na prática da reciprocidade. É alguém que não se nega a estar perto, acessível, consciente de sua influência.


As palavras enganam, as atitudes jamais.


Esse arcabouço de comportamentos deve prevalecer no romance. Não queira que o seu parceiro diga a todo momento o que ele mesmo já realiza naturalmente. É redundância.


Recordo um diálogo que vivi com a minha filha, quando ela tinha 11 anos.


Na hora de dar boa-noite, reparei que ela estava encabulada e arredia comigo. Tentei me aproximar.


− O que houve?


− Eu não sei se te amo. Não sei o que é amor − ela me disse.


Não me senti mal. Não me senti desvalorizado. Quem nunca se perguntou isso? Há dias em que parece que você ama mais.


Há dias em que parece que você ama menos. Há dias em que você se esquece de amar. Há dias em que você ama em dobro.


Lembro que fiz carinho na sua cabeça, cantei "O Leãozinho", de Caetano, e permaneci ao seu lado até que adormecesse.


Quando jurei que ela já tinha apagado e não estava mais me ouvindo, confidenciei:


− Amar é só gostar de ficar junto, filha.


Ela, inesperadamente, respondeu:


− Então, eu te amo, pai, mas não espalha.


Fabrício Carpinejar


https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/2024/11/29/naoespalha 

A omissão do verbo "enganam" na segunda parte do período "As palavras enganam, as atitudes jamais" produz um efeito estilístico importante no contexto da frase. Assinale a alternativa que melhor explica esse efeito.
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Q3235858 Português
A mão no metrô


     Assim que o metrô chegou, ela preparou-se para incomodação. Porque o vagão estava cheio, completamente lotado, e ela já sabia o que a esperava tão logo embarcasse: sem demora, algum homem, ou vários homens, encostariam nela, tentando tirar proveito da situação. Mulher ainda jovem, bonita, estava sujeita a essas situações, que a deixavam indignada. Mas, como outras usuárias na mesma situação, resignava-se. Era, achava, o preço que tinha de pagar por ser pobre, por não ter carro, como outras colegas de escritório.

    Pensou em não entrar, em esperar outro metrô mais vazio. Mas já era tarde, e ela precisava ir para casa. Num impulso, entrou, e imediatamente viu-se na clássica posição de sardinha em lata, imprensada entre corpos, vários deles masculinos. Só faltava a mão.

    Que não tardou a se fazer presente. Aos poucos, suavemente, ela sentiu a pressão de dedos sobre seu corpo.

    Mas, surpreendentemente, aquilo não a enojou, não a alarmou. Porque era diferente, o contato daquela mão. Não se tratava de uma “mão-boba”; não havia malícia naqueles dedos, não havia safadeza. Para começar, eles estavam em lugar neutro, não nas nádegas, não nas coxas, mas nas costas, as costas que ela tinha doloridas depois de um dia de árduo trabalho. E a mão não estava em busca de prazer, de sacanagem; estava simplesmente pousada, quieta. Como se dissesse estou em busca de contato humano, é só isso que eu quero.

    Ela poderia olhar ao redor, tentar descobrir quem, daqueles homens e mulheres à sua volta, estava a tocá-la. Mas não queria fazer isso. A verdade é que a gentil mão não a incomodava. Pelo contrário, fazia com que lembrasse uma passagem na infância, o dia em que o pai a levara à escola pela primeira vez. Tinham também ido de metrô; ela estava assustada, chorosa. O pai então colocara-lhe a mão nas costas, como a ampará-la, dizendo qualquer coisa do tipo “não chore, a escola é boa, você vai gostar”. E ela se acalmara, não tanto por causa das palavras, mas pelo contato da mão paterna. E era a mesma sensação que tinha agora: a sensação de amparo, de conforto.

     Estava chegando, precisava descer. Como se houvesse percebido, a mão, discretamente, retirou-se de seu dorso. A porta se abriu e ela saiu do vagão. Ainda teve a tentação de olhar para trás, mas resistiu. Não queria associar nenhum dos rostos que ali estavam com a mão que a tocara. Queria, isto sim, guardar a lembrança dessa mão como uma entidade misteriosa que, de algum modo, a fizera viver uma estranha e perturbadora aventura.


(Moacyr Scliar. Folha de São Paulo. São Paulo. Em: 12/09/2005.)
Em todo texto de maior extensão, aparecem expressões conectoras – sejam conjunções, preposições, advérbios e respectivas locuções, que criam e sinalizam relações semânticas de diferentes naturezas. Reconhecer o tipo de relação semântica estabelecida por esses elementos de conexão é uma habilidade fundamental para a apreensão da coerência do texto; assinale a INCORRETA.
Alternativas
Respostas
21: D
22: A
23: E
24: A
25: E
26: A
27: C
28: D
29: A
30: E
31: E
32: D
33: C
34: E
35: E
36: C
37: A
38: A
39: C
40: A