Questões de Concurso Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português

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Q2055857 Português
AMAN

A Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) forma os oficiais combatentes do Exército. Ela ocupa uma área de 67km² estendendo-se da Rodovia Presidente Dutra até as encostas da Serra da Mantiqueira e do Maciço do Itatiaia. Aberta à visitação, a AMAN dispõe de um dos maiores e mais completos parques esportivos do estado do Rio de Janeiro, além de um moderno teatro com capacidade para 2.821 pessoas.

A Cidade Acadêmica, como também é conhecida a área em que a Academia está instalada, abriga uma população aproximada de 12.000 habitantes e dispõe de um complexo arquitetônico e paisagístico dos mais bonitos.

Além do teatro acadêmico, dentro de sua área, estão o Conjunto Principal (comando, administração, salas de aula, museu, bibliotecas e refeitórios) uma ampla praça de esportes (dois estádios, parque aquático, quadras diversas, pista de treinamento utilitário, centro de excelência em reabilitação / academia de musculação, dois ginásios cobertos e centro hípico), uma das mais completas instalações de tiro do mundo, dependências próprias para a instrução militar, um Hospital Escolar, um auditório para 1.150 pessoas, vila residencial com 3 bairros, totalizando 580 moradias e instalações de apoio ao ensino, logísticas e administrativas, tudo sob a supervisão de uma prefeitura militar.

Dispõe, ainda, de agências bancárias, agência dos correios, igrejas, uma escola estadual e dois clubes recreativos - o Círculo Militar das Agulhas Negras

(CIMAN) e o Clube de Subtenentes e Sargentos das Agulhas Negras (CSSAN, o antigo GRUMC) - proporcionando apoio e serviços aos cadetes e aos moradores das vilas residenciais.

http://resende.rj.gov.br/turismo/3
“Além do teatro acadêmico, dentro de SUA área”. A palavra em destaque refere-se à(ao): 
Alternativas
Q2055849 Português
AMAN

A Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) forma os oficiais combatentes do Exército. Ela ocupa uma área de 67km² estendendo-se da Rodovia Presidente Dutra até as encostas da Serra da Mantiqueira e do Maciço do Itatiaia. Aberta à visitação, a AMAN dispõe de um dos maiores e mais completos parques esportivos do estado do Rio de Janeiro, além de um moderno teatro com capacidade para 2.821 pessoas.

A Cidade Acadêmica, como também é conhecida a área em que a Academia está instalada, abriga uma população aproximada de 12.000 habitantes e dispõe de um complexo arquitetônico e paisagístico dos mais bonitos.

Além do teatro acadêmico, dentro de sua área, estão o Conjunto Principal (comando, administração, salas de aula, museu, bibliotecas e refeitórios) uma ampla praça de esportes (dois estádios, parque aquático, quadras diversas, pista de treinamento utilitário, centro de excelência em reabilitação / academia de musculação, dois ginásios cobertos e centro hípico), uma das mais completas instalações de tiro do mundo, dependências próprias para a instrução militar, um Hospital Escolar, um auditório para 1.150 pessoas, vila residencial com 3 bairros, totalizando 580 moradias e instalações de apoio ao ensino, logísticas e administrativas, tudo sob a supervisão de uma prefeitura militar.

Dispõe, ainda, de agências bancárias, agência dos correios, igrejas, uma escola estadual e dois clubes recreativos - o Círculo Militar das Agulhas Negras

(CIMAN) e o Clube de Subtenentes e Sargentos das Agulhas Negras (CSSAN, o antigo GRUMC) - proporcionando apoio e serviços aos cadetes e aos moradores das vilas residenciais.

http://resende.rj.gov.br/turismo/3
O texto traz como conteúdo principal:
Alternativas
Q2054000 Português
Para responder a questão, considere o excerto transcrito abaixo.

Penso que o Apache ilustra uma das características mais estranhas da época em que vivemos. Temos mais confiança em máquinas do que em seres humanos . Criaturas humanas têm fraquezas, são influenciáveis e subornáveis. Muitas pessoas acreditam que, se uma máquina desempenhasse as funções de um juiz de direito, teria a vantagem de ser incorruptível.
A linguagem empregada revela um enunciador, predominantemente,
Alternativas
Q2053999 Português
Para responder a questão, considere o excerto transcrito abaixo.

Penso que o Apache ilustra uma das características mais estranhas da época em que vivemos. Temos mais confiança em máquinas do que em seres humanos . Criaturas humanas têm fraquezas, são influenciáveis e subornáveis. Muitas pessoas acreditam que, se uma máquina desempenhasse as funções de um juiz de direito, teria a vantagem de ser incorruptível.
A oração destacada 
Alternativas
Q2053997 Português
Nós, zumbis
João de Fernandes Teixeira

     Recentemente estive lendo sobre um software chamado Apache que é utilizado para gerenciar a disponibilidade de leitos nas UTls dos hospitais. Esse software desliga automaticamente os aparelhos dos pacientes em coma com base em informação estatística sobre a sobrevida média de milhares de pacientes internados com patologias semelhantes. O Apache é alimentado e atualizado constantemente por meio de técnicas de Big Data. Esse tipo de tecnologia parece se confrontar com nossas intuições morais mais primitivas. Será aceitável delegar a uma máquina a decisão de interromper uma vida humana?
     Conversei com várias pessoas sobre esse assunto e obtive diferentes pontos d e vista. Muitas delas consideram o Apache desumano. Outras argumentaram que ele diminui o sofrimento das famílias de pacientes em coma, quase sempre gerado pelas falsas esperanças de sobrevida de seus entes queridos. Apesar das diferenças, todos concordaram que uma das qualidades indiscutíveis do Apache é a imparcialidade das decisões. Não há favorecimentos. Todos são tratados de maneira equânime.
     Penso que o Apache ilustra uma das características mais estranhas da época em que vivemos. Temos mais confiança em máquinas do que em seres humanos. Criaturas humanas têm fraquezas, são influenciáveis e subornáveis. Muitas pessoas acreditam que, se uma máquina desempenhasse as funções de um juiz de direito, teria a vantagem de ser incorruptível. Uma máquina não seria tendenciosa com relação a raça, cor e gênero dos réus. A automatização dos serviços públicos é bem-aceita como uma forma de banir a corrupção. A imparcialidade e a incorruptibilidade das decisões tomadas por máquinas são invocadas como um grande benefício para eliminar privilégios indevidos e tornar as sociedades mais justas e democráticas.
     O caso do Apache mostra claramente para onde caminha nossa relação com a tecnologia. As máquinas, cada vez mais, se tornam autônomas, ou seja, nosso controle sobre elas é parcial. As tecnologias digitais nos convidam a esquecer de nós mesmos e das nossas responsabilidades. Ninguém mais quer ser responsável por nada. Caminhamos para um estado de zumbificação no qual estamos abdicando da consciência e do pouco livre-arbítrio que nos resta. É o paraíso dos zumbis, daqueles que querem viver a vida como sonâmbulos despreocupados.
     As discussões atuais sobre tecnologia se limitam a tentar adivinhar como será o futuro nos próximos 10 ou 20 anos, sobretudo com o desenvolvimento das inteligências artificiais. Mas, ao ler os futurólogos, verifica-se facilmente que nenhum deles faz qualquer referência ao papel que podem ter as escolhas humanas na construção desse futuro. Como zumbis, não nos importamos com os efeitos que essas tecnologias terão sobre nós, e, por isso, oferecemos pouca ou nenhuma resistência ao seu avanço na organização de nossas vidas. Temos uma visão passiva e fatalista do futuro tecnológico que está chegando. A tecnologia nos controla e determinará o futuro da espécie humana. Escolhemos nos tornar dependentes da tecnologia e abdicar de tomar nossas próprias decisões. Optamos por sermos todos zumbis.
     A imparcialidade da tecnologia é o resultado de uma percepção habitual, segundo a qual ela é uma ferramenta, algo neutro que direcionamos de acordo com os nossos objetivos e valores. Mas essa é uma percepção equivocada. Claro que o uso das máquinas tem um papel fundamental. Mas a peculiaridade das tecnologias digitais é o fato de elas incorporarem, intrinsecamente, um histórico de hábitos, preferências e tendências que frequentemente passam despercebidos, gerando a ilusão da imparcialidade. Somos nós que estabelecemos os parâmetros para as pesquisas que usam Big Data. São essas pesquisas, com esses parâmetros, que alimentam softwares como o Apache.
     Esquecemos que a tecnologia é o nosso espelho e que, por isso, ela incorpora, implicitamente, nossos preconceitos, impulsos e valores. Eles estão exteriorizados em máquinas, sobretudo naquelas que são utilizadas para aperfeiçoar as burocracias. A tecnologia é uma expressão do que somos. Temos de aprender a lidar com essa expressão quando a encontramos nas sociedades. A tecnologia segue uma marcha inexorável na história. Mas nossas atitudes em relação a ela não precisam ser tão ingênuas a ponto de não percebermos como seus fabricantes embutem seus valores nas máquinas e inibem as discussões sobre o modo como elas são utilizadas.
     Vivemos em sociedades que valorizam mais as máquinas do que os seres humanos. A organização das sociedades complexas se sobrepôs ao bem-estar de seus habitantes. Passamos a acreditar que o bem-estar depende dessa organização e, por isso, precisamos cuidar da tecnologia muito mais do que de nós mesmos. A tecnologia se tornou mais importante do que os motivos pelos quais ela foi inventada, transformando-se em uma prioridade para si mesma.
     A discussão sobre a tecnologia tem sido relegada a um segundo plano em nosso país. A grande mídia dirige, quase obsessivamente, as preocupações da maioria da população para o debate político, enquanto a revolução tecnológica progride de forma sorrateira e implacável. É uma manobra ideológica sutil, mas que não poderá durar muito tempo. 

TEIXEIRA, João de Fernandes. Filosofia, Ciência e Vida. São Paulo: Editora Escala, Ed. 142, fev. 2019. p. 58-60. [Adaptado].
A linguagem empregada no texto 
Alternativas
Q2053995 Português
Nós, zumbis
João de Fernandes Teixeira

     Recentemente estive lendo sobre um software chamado Apache que é utilizado para gerenciar a disponibilidade de leitos nas UTls dos hospitais. Esse software desliga automaticamente os aparelhos dos pacientes em coma com base em informação estatística sobre a sobrevida média de milhares de pacientes internados com patologias semelhantes. O Apache é alimentado e atualizado constantemente por meio de técnicas de Big Data. Esse tipo de tecnologia parece se confrontar com nossas intuições morais mais primitivas. Será aceitável delegar a uma máquina a decisão de interromper uma vida humana?
     Conversei com várias pessoas sobre esse assunto e obtive diferentes pontos d e vista. Muitas delas consideram o Apache desumano. Outras argumentaram que ele diminui o sofrimento das famílias de pacientes em coma, quase sempre gerado pelas falsas esperanças de sobrevida de seus entes queridos. Apesar das diferenças, todos concordaram que uma das qualidades indiscutíveis do Apache é a imparcialidade das decisões. Não há favorecimentos. Todos são tratados de maneira equânime.
     Penso que o Apache ilustra uma das características mais estranhas da época em que vivemos. Temos mais confiança em máquinas do que em seres humanos. Criaturas humanas têm fraquezas, são influenciáveis e subornáveis. Muitas pessoas acreditam que, se uma máquina desempenhasse as funções de um juiz de direito, teria a vantagem de ser incorruptível. Uma máquina não seria tendenciosa com relação a raça, cor e gênero dos réus. A automatização dos serviços públicos é bem-aceita como uma forma de banir a corrupção. A imparcialidade e a incorruptibilidade das decisões tomadas por máquinas são invocadas como um grande benefício para eliminar privilégios indevidos e tornar as sociedades mais justas e democráticas.
     O caso do Apache mostra claramente para onde caminha nossa relação com a tecnologia. As máquinas, cada vez mais, se tornam autônomas, ou seja, nosso controle sobre elas é parcial. As tecnologias digitais nos convidam a esquecer de nós mesmos e das nossas responsabilidades. Ninguém mais quer ser responsável por nada. Caminhamos para um estado de zumbificação no qual estamos abdicando da consciência e do pouco livre-arbítrio que nos resta. É o paraíso dos zumbis, daqueles que querem viver a vida como sonâmbulos despreocupados.
     As discussões atuais sobre tecnologia se limitam a tentar adivinhar como será o futuro nos próximos 10 ou 20 anos, sobretudo com o desenvolvimento das inteligências artificiais. Mas, ao ler os futurólogos, verifica-se facilmente que nenhum deles faz qualquer referência ao papel que podem ter as escolhas humanas na construção desse futuro. Como zumbis, não nos importamos com os efeitos que essas tecnologias terão sobre nós, e, por isso, oferecemos pouca ou nenhuma resistência ao seu avanço na organização de nossas vidas. Temos uma visão passiva e fatalista do futuro tecnológico que está chegando. A tecnologia nos controla e determinará o futuro da espécie humana. Escolhemos nos tornar dependentes da tecnologia e abdicar de tomar nossas próprias decisões. Optamos por sermos todos zumbis.
     A imparcialidade da tecnologia é o resultado de uma percepção habitual, segundo a qual ela é uma ferramenta, algo neutro que direcionamos de acordo com os nossos objetivos e valores. Mas essa é uma percepção equivocada. Claro que o uso das máquinas tem um papel fundamental. Mas a peculiaridade das tecnologias digitais é o fato de elas incorporarem, intrinsecamente, um histórico de hábitos, preferências e tendências que frequentemente passam despercebidos, gerando a ilusão da imparcialidade. Somos nós que estabelecemos os parâmetros para as pesquisas que usam Big Data. São essas pesquisas, com esses parâmetros, que alimentam softwares como o Apache.
     Esquecemos que a tecnologia é o nosso espelho e que, por isso, ela incorpora, implicitamente, nossos preconceitos, impulsos e valores. Eles estão exteriorizados em máquinas, sobretudo naquelas que são utilizadas para aperfeiçoar as burocracias. A tecnologia é uma expressão do que somos. Temos de aprender a lidar com essa expressão quando a encontramos nas sociedades. A tecnologia segue uma marcha inexorável na história. Mas nossas atitudes em relação a ela não precisam ser tão ingênuas a ponto de não percebermos como seus fabricantes embutem seus valores nas máquinas e inibem as discussões sobre o modo como elas são utilizadas.
     Vivemos em sociedades que valorizam mais as máquinas do que os seres humanos. A organização das sociedades complexas se sobrepôs ao bem-estar de seus habitantes. Passamos a acreditar que o bem-estar depende dessa organização e, por isso, precisamos cuidar da tecnologia muito mais do que de nós mesmos. A tecnologia se tornou mais importante do que os motivos pelos quais ela foi inventada, transformando-se em uma prioridade para si mesma.
     A discussão sobre a tecnologia tem sido relegada a um segundo plano em nosso país. A grande mídia dirige, quase obsessivamente, as preocupações da maioria da população para o debate político, enquanto a revolução tecnológica progride de forma sorrateira e implacável. É uma manobra ideológica sutil, mas que não poderá durar muito tempo. 

TEIXEIRA, João de Fernandes. Filosofia, Ciência e Vida. São Paulo: Editora Escala, Ed. 142, fev. 2019. p. 58-60. [Adaptado].
O título atribuído ao texto
Alternativas
Q2053994 Português
Nós, zumbis
João de Fernandes Teixeira

     Recentemente estive lendo sobre um software chamado Apache que é utilizado para gerenciar a disponibilidade de leitos nas UTls dos hospitais. Esse software desliga automaticamente os aparelhos dos pacientes em coma com base em informação estatística sobre a sobrevida média de milhares de pacientes internados com patologias semelhantes. O Apache é alimentado e atualizado constantemente por meio de técnicas de Big Data. Esse tipo de tecnologia parece se confrontar com nossas intuições morais mais primitivas. Será aceitável delegar a uma máquina a decisão de interromper uma vida humana?
     Conversei com várias pessoas sobre esse assunto e obtive diferentes pontos d e vista. Muitas delas consideram o Apache desumano. Outras argumentaram que ele diminui o sofrimento das famílias de pacientes em coma, quase sempre gerado pelas falsas esperanças de sobrevida de seus entes queridos. Apesar das diferenças, todos concordaram que uma das qualidades indiscutíveis do Apache é a imparcialidade das decisões. Não há favorecimentos. Todos são tratados de maneira equânime.
     Penso que o Apache ilustra uma das características mais estranhas da época em que vivemos. Temos mais confiança em máquinas do que em seres humanos. Criaturas humanas têm fraquezas, são influenciáveis e subornáveis. Muitas pessoas acreditam que, se uma máquina desempenhasse as funções de um juiz de direito, teria a vantagem de ser incorruptível. Uma máquina não seria tendenciosa com relação a raça, cor e gênero dos réus. A automatização dos serviços públicos é bem-aceita como uma forma de banir a corrupção. A imparcialidade e a incorruptibilidade das decisões tomadas por máquinas são invocadas como um grande benefício para eliminar privilégios indevidos e tornar as sociedades mais justas e democráticas.
     O caso do Apache mostra claramente para onde caminha nossa relação com a tecnologia. As máquinas, cada vez mais, se tornam autônomas, ou seja, nosso controle sobre elas é parcial. As tecnologias digitais nos convidam a esquecer de nós mesmos e das nossas responsabilidades. Ninguém mais quer ser responsável por nada. Caminhamos para um estado de zumbificação no qual estamos abdicando da consciência e do pouco livre-arbítrio que nos resta. É o paraíso dos zumbis, daqueles que querem viver a vida como sonâmbulos despreocupados.
     As discussões atuais sobre tecnologia se limitam a tentar adivinhar como será o futuro nos próximos 10 ou 20 anos, sobretudo com o desenvolvimento das inteligências artificiais. Mas, ao ler os futurólogos, verifica-se facilmente que nenhum deles faz qualquer referência ao papel que podem ter as escolhas humanas na construção desse futuro. Como zumbis, não nos importamos com os efeitos que essas tecnologias terão sobre nós, e, por isso, oferecemos pouca ou nenhuma resistência ao seu avanço na organização de nossas vidas. Temos uma visão passiva e fatalista do futuro tecnológico que está chegando. A tecnologia nos controla e determinará o futuro da espécie humana. Escolhemos nos tornar dependentes da tecnologia e abdicar de tomar nossas próprias decisões. Optamos por sermos todos zumbis.
     A imparcialidade da tecnologia é o resultado de uma percepção habitual, segundo a qual ela é uma ferramenta, algo neutro que direcionamos de acordo com os nossos objetivos e valores. Mas essa é uma percepção equivocada. Claro que o uso das máquinas tem um papel fundamental. Mas a peculiaridade das tecnologias digitais é o fato de elas incorporarem, intrinsecamente, um histórico de hábitos, preferências e tendências que frequentemente passam despercebidos, gerando a ilusão da imparcialidade. Somos nós que estabelecemos os parâmetros para as pesquisas que usam Big Data. São essas pesquisas, com esses parâmetros, que alimentam softwares como o Apache.
     Esquecemos que a tecnologia é o nosso espelho e que, por isso, ela incorpora, implicitamente, nossos preconceitos, impulsos e valores. Eles estão exteriorizados em máquinas, sobretudo naquelas que são utilizadas para aperfeiçoar as burocracias. A tecnologia é uma expressão do que somos. Temos de aprender a lidar com essa expressão quando a encontramos nas sociedades. A tecnologia segue uma marcha inexorável na história. Mas nossas atitudes em relação a ela não precisam ser tão ingênuas a ponto de não percebermos como seus fabricantes embutem seus valores nas máquinas e inibem as discussões sobre o modo como elas são utilizadas.
     Vivemos em sociedades que valorizam mais as máquinas do que os seres humanos. A organização das sociedades complexas se sobrepôs ao bem-estar de seus habitantes. Passamos a acreditar que o bem-estar depende dessa organização e, por isso, precisamos cuidar da tecnologia muito mais do que de nós mesmos. A tecnologia se tornou mais importante do que os motivos pelos quais ela foi inventada, transformando-se em uma prioridade para si mesma.
     A discussão sobre a tecnologia tem sido relegada a um segundo plano em nosso país. A grande mídia dirige, quase obsessivamente, as preocupações da maioria da população para o debate político, enquanto a revolução tecnológica progride de forma sorrateira e implacável. É uma manobra ideológica sutil, mas que não poderá durar muito tempo. 

TEIXEIRA, João de Fernandes. Filosofia, Ciência e Vida. São Paulo: Editora Escala, Ed. 142, fev. 2019. p. 58-60. [Adaptado].
O texto promove, prioritariamente,
Alternativas
Q2052943 Português
Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim. 

Rubem Braga

    Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural de Cairo? 
       O leitor que responder "não sei" a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Aliás, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão. 
      Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português , que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha pra mim, que vivo de escrever, não conhecer meu instrumento de trabalho, que é a língua. 
        Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma "página de bom vernáculo, exemplar". Tive vontade de responder: "Mera coincidência" - mas não o fiz para não entristecer o homem. 
      Espero que uma velhice tranquila - no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios - me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado ocontra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eupoderia me queixar se o meu marido me descesse a mão?). 
        Alguém já me escreveu também - que eu sou um escoteiro ao contrário. "Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação - contra a língua". Mas acho que isso é exagero. 
        Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinquenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo - e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive uma intenção. 
        Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a vbondade de não me cumprimentar. 
         Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? POr que fazer do estudo da língua portuguesa uma série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para "pegar" as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri - e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da "Última Hora" ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de "O Globo?"
     No fundo, o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, mas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros. 
          Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo de póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente - de Cachoeiro de Itapemirim! 

Texto extraído do livro "Ai de Ti, Copacabana", 
Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 197. 
Uma crítica ao serviço público da época está presente em: 
Alternativas
Q2052942 Português
Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim. 

Rubem Braga

    Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural de Cairo? 
       O leitor que responder "não sei" a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Aliás, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão. 
      Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português , que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha pra mim, que vivo de escrever, não conhecer meu instrumento de trabalho, que é a língua. 
        Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma "página de bom vernáculo, exemplar". Tive vontade de responder: "Mera coincidência" - mas não o fiz para não entristecer o homem. 
      Espero que uma velhice tranquila - no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios - me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado ocontra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eupoderia me queixar se o meu marido me descesse a mão?). 
        Alguém já me escreveu também - que eu sou um escoteiro ao contrário. "Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação - contra a língua". Mas acho que isso é exagero. 
        Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinquenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo - e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive uma intenção. 
        Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a vbondade de não me cumprimentar. 
         Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? POr que fazer do estudo da língua portuguesa uma série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para "pegar" as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri - e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da "Última Hora" ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de "O Globo?"
     No fundo, o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, mas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros. 
          Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo de póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente - de Cachoeiro de Itapemirim! 

Texto extraído do livro "Ai de Ti, Copacabana", 
Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 197. 
O texto, indo além dos fatos e considerando o tempo limitado da crônica publicada em 1960, mostra uma visão do cronista sobre:  
Alternativas
Q2052941 Português
Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim. 

Rubem Braga

    Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural de Cairo? 
       O leitor que responder "não sei" a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Aliás, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão. 
      Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português , que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha pra mim, que vivo de escrever, não conhecer meu instrumento de trabalho, que é a língua. 
        Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma "página de bom vernáculo, exemplar". Tive vontade de responder: "Mera coincidência" - mas não o fiz para não entristecer o homem. 
      Espero que uma velhice tranquila - no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios - me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado ocontra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eupoderia me queixar se o meu marido me descesse a mão?). 
        Alguém já me escreveu também - que eu sou um escoteiro ao contrário. "Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação - contra a língua". Mas acho que isso é exagero. 
        Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinquenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo - e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive uma intenção. 
        Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a vbondade de não me cumprimentar. 
         Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? POr que fazer do estudo da língua portuguesa uma série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para "pegar" as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri - e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da "Última Hora" ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de "O Globo?"
     No fundo, o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, mas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros. 
          Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo de póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente - de Cachoeiro de Itapemirim! 

Texto extraído do livro "Ai de Ti, Copacabana", 
Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 197. 

O texto lido é uma crônica, um gênero de texto que discorre sobre situações cotidianas e utiliza linguagem coloquial, humor ou ironia com a intenção de se aproximar do leitor. 

Um trecho em que o autor provoca diretamente o leitor encontra-se em: 

Alternativas
Q2052128 Português

Texto 2


    Sabe-se que o sertanejo costumava realizar suas necessidades fisiológicas no próprio quintal de sua casa, entre as folhagens de um cajueiro ou qualquer outra árvore baixa e frondosa. Nas Concentrações, o flagelado era obrigado a mudar o seu comportamento. Deveria sentir-se envergonhado por não usar o banheiro para as necessidades fisiológicas. Na perspectiva da civilização baseada no saber médico, o homem deveria ficar distante de seus excrementos. Com efeito, o concentrado deveria incorporar novos parâmetros para definir o nojo. Para o sertanejo, o lugar dos dejetos fecais era os arredores de sua casa. Não havia necessidade de banheiro.

     Esse contraste entre noções diferenciadas da construção do nojo era uma das grandes tensões cotidianas dos Campos de Concentração. Enquanto os “inspetores de higiene” procuravam, a todo custo, mostrar a insubstituível função das “sentinas”, os sertanejos mostravam-se pouco motivados para abandonar seus hábitos tradicionais. Muitos concentrados usavam o aparelho sanitário, enquanto outros decidiam continuar com seus hábitos, criando toda sorte de conflitos.

     Ao ser entrevistado por jornalistas do Correio do Ceará, em março de 1932, o inspetor de higiene do Campo de Concentração do Urubu falou com detalhes e entusiasmo sobre a existência e a organização dos banheiros: “São todos muito bem fechados e foram construídos com madeira serrada, cobertos de zinco novos e muito bem feitos. Aqueles dois que ainda não foram totalmente cobertos não estão funcionando”. Ao passarem pela frente dos banheiros, os jornalistas receberam do Inspector a seguinte informação: “este é o banheiro ‘Major Manoel Tibúrcio’, este chama-se ‘Senhoras da Caridade’, este é o ‘Interventor Federal Roberto Carneiro de Mendonça’...” (Correio do Ceará, 06/05/1932). A homenagem a grupos ou pessoas importantes era figurada nos banheiros. Nesse sentido, é possível imaginar que esses lugares da higiene pessoal constituíam-se como templos do sanitarismo nesses Campos de Concentração.

     O momento do banho ganhava, respeitando as especificidades, ares de sacralidade em todos os Campos de Concentração. Na Concentração do Tauape, localizada em Fortaleza, mulheres e crianças banhavam-se vestidas numa Lagoa que ficava junto ao Campo. Entretanto, os higienistas afirmavam que neste momento – precisamente às cinco horas da manhã – formava-se um cordão de vigilantes para impedir qualquer tipo de indecoro ou de molestamento àquelas mulheres. No meio rural, homens, mulheres e crianças banhavam-se vestidos e juntos. Ao que parece, esse momento tinha mais o sentido do lazer do que do asseio pessoal. Nos Campos de Concentração, tentava-se inculcar uma nova maneira de pensar sobre o momento do asseio pessoal a partir da noção de vergonha. O banho, fosse realizado em banheiros ou açudes, deveria caracterizar-se como um momento de foro íntimo dominado pela ideia civilizada de moral, pudor e rapidez.

  Os jornalistas d’O Povo, numa tentativa de romantizar a cena, acrescentavam que as mulheres sentiam muita satisfação naquele momento, pois o encontro com a água traria de volta a lembrança do “sertão querido”. A descrição chega a imagens cinematográficas: “A lagoa, com as suas águas frescas e azuladas parecia atenuar a tristeza daquela gente... Dava gosto ver as sertanejas lembrando-se dos bons invernos e nadando a largas braçadas na superfície da Lagoa”. Mesmo ocupando-se largamente com a satisfação do banho, os jornalistas acabaram registrando o incômodo que causava nessas senhoras a constante vigilância do banho e da lavagem de roupa. Com um tom irônico, que procurava produzir o riso a partir de informações sobre “a vida do povo”, os jornalistas chegam a reproduzir o “falar do sertanejo pobre”: “Num sei pru qui é qui os diabo desses guarda num larga da gente”

(O Povo, 16/04/32).

(RIOS, K. S. Isolamento e poder: Fortaleza e os campos de concentração na seca de 1932. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2014. p. 119-121).

Em ambos os textos a “fala do sertanejo” é reproduzida com o propósito de: 
Alternativas
Q2052127 Português

Texto 2


    Sabe-se que o sertanejo costumava realizar suas necessidades fisiológicas no próprio quintal de sua casa, entre as folhagens de um cajueiro ou qualquer outra árvore baixa e frondosa. Nas Concentrações, o flagelado era obrigado a mudar o seu comportamento. Deveria sentir-se envergonhado por não usar o banheiro para as necessidades fisiológicas. Na perspectiva da civilização baseada no saber médico, o homem deveria ficar distante de seus excrementos. Com efeito, o concentrado deveria incorporar novos parâmetros para definir o nojo. Para o sertanejo, o lugar dos dejetos fecais era os arredores de sua casa. Não havia necessidade de banheiro.

     Esse contraste entre noções diferenciadas da construção do nojo era uma das grandes tensões cotidianas dos Campos de Concentração. Enquanto os “inspetores de higiene” procuravam, a todo custo, mostrar a insubstituível função das “sentinas”, os sertanejos mostravam-se pouco motivados para abandonar seus hábitos tradicionais. Muitos concentrados usavam o aparelho sanitário, enquanto outros decidiam continuar com seus hábitos, criando toda sorte de conflitos.

     Ao ser entrevistado por jornalistas do Correio do Ceará, em março de 1932, o inspetor de higiene do Campo de Concentração do Urubu falou com detalhes e entusiasmo sobre a existência e a organização dos banheiros: “São todos muito bem fechados e foram construídos com madeira serrada, cobertos de zinco novos e muito bem feitos. Aqueles dois que ainda não foram totalmente cobertos não estão funcionando”. Ao passarem pela frente dos banheiros, os jornalistas receberam do Inspector a seguinte informação: “este é o banheiro ‘Major Manoel Tibúrcio’, este chama-se ‘Senhoras da Caridade’, este é o ‘Interventor Federal Roberto Carneiro de Mendonça’...” (Correio do Ceará, 06/05/1932). A homenagem a grupos ou pessoas importantes era figurada nos banheiros. Nesse sentido, é possível imaginar que esses lugares da higiene pessoal constituíam-se como templos do sanitarismo nesses Campos de Concentração.

     O momento do banho ganhava, respeitando as especificidades, ares de sacralidade em todos os Campos de Concentração. Na Concentração do Tauape, localizada em Fortaleza, mulheres e crianças banhavam-se vestidas numa Lagoa que ficava junto ao Campo. Entretanto, os higienistas afirmavam que neste momento – precisamente às cinco horas da manhã – formava-se um cordão de vigilantes para impedir qualquer tipo de indecoro ou de molestamento àquelas mulheres. No meio rural, homens, mulheres e crianças banhavam-se vestidos e juntos. Ao que parece, esse momento tinha mais o sentido do lazer do que do asseio pessoal. Nos Campos de Concentração, tentava-se inculcar uma nova maneira de pensar sobre o momento do asseio pessoal a partir da noção de vergonha. O banho, fosse realizado em banheiros ou açudes, deveria caracterizar-se como um momento de foro íntimo dominado pela ideia civilizada de moral, pudor e rapidez.

  Os jornalistas d’O Povo, numa tentativa de romantizar a cena, acrescentavam que as mulheres sentiam muita satisfação naquele momento, pois o encontro com a água traria de volta a lembrança do “sertão querido”. A descrição chega a imagens cinematográficas: “A lagoa, com as suas águas frescas e azuladas parecia atenuar a tristeza daquela gente... Dava gosto ver as sertanejas lembrando-se dos bons invernos e nadando a largas braçadas na superfície da Lagoa”. Mesmo ocupando-se largamente com a satisfação do banho, os jornalistas acabaram registrando o incômodo que causava nessas senhoras a constante vigilância do banho e da lavagem de roupa. Com um tom irônico, que procurava produzir o riso a partir de informações sobre “a vida do povo”, os jornalistas chegam a reproduzir o “falar do sertanejo pobre”: “Num sei pru qui é qui os diabo desses guarda num larga da gente”

(O Povo, 16/04/32).

(RIOS, K. S. Isolamento e poder: Fortaleza e os campos de concentração na seca de 1932. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2014. p. 119-121).

TEXTO I 


Catavento e girassol

(Guinga - Aldir Blanc)


Meu catavento tem dentro

O que há do lado de fora do teu girassol.

Entre o escancaro e o contido,

E eu te pedi sustenido

E você riu bemol.

Você só pensa no espaço,

Eu exigi duração...

Eu sou um gato de subúrbio,

Você é litorânea.


Quando eu respeito os sinais,

Vejo você de patins vindo na contramão

Mas quando ataco de macho,

Você se faz de capacho

E não quer confusão.

Nenhum dos dois se entrega.

Nós não ouvimos conselho:

E eu sou você que se vai

No sumidouro do espelho. 


Eu sou o Engenho de Dentro

E você vive no vento do Arpoador.

Eu tenho um jeito arredio

E você é expansiva - o inseto e a flor.

Um torce para Mia Farrow

E o outro é Woody Allen...

Quando assovio uma seresta

Você dança havaiana.


Eu vou de tênis e jeans,

Encontro você demais:

Scarpin, soirée.

Quando o pau quebra na esquina,

Você ataca de fina

e me oferece em inglês:

É fuck you, bate-bronha...

E ninguém mete o bedelho,

Você sou eu que me vou

No sumidouro do espelho.


A paz é feita num motel

De alma lavada e passada

Pra descobrir logo depois

Que não serviu pra nada.

Nos dias de carnaval

Aumentam os desenganos:

Você vai pra Parati

E eu pro Cacique de Ramos...


Meu catavento tem dentro

O vento escancarado do Arpoador,

Teu girassol tem de fora

O escondido do Engenho de Dentro da flor.

Eu sinto muita saudade,

Você é contemporânea,

Eu penso em tudo quanto faço,

Você é tão espontânea.

Sei que um depende do outro

Só pra ser diferente,

Pra se completar.

Sei que um se afasta do outro,

No sufoco, somente pra se aproximar.

Cê tem um jeito verde de ser

E eu sou meio vermelho

Mas os dois juntos se vão

No sumidouro do espelho.


http://www.guinga.com/index.php/2015-08-27-03-

18-48/2015-08-27-03-29-50/151-delirio-carioca1993 Acesso em: 05/01/2019.







A propósito das estruturas linguísticas e discursivas dos dois textos em análise, é correto afirmar somente que eles:
Alternativas
Q2052118 Português

Texto 2


    Sabe-se que o sertanejo costumava realizar suas necessidades fisiológicas no próprio quintal de sua casa, entre as folhagens de um cajueiro ou qualquer outra árvore baixa e frondosa. Nas Concentrações, o flagelado era obrigado a mudar o seu comportamento. Deveria sentir-se envergonhado por não usar o banheiro para as necessidades fisiológicas. Na perspectiva da civilização baseada no saber médico, o homem deveria ficar distante de seus excrementos. Com efeito, o concentrado deveria incorporar novos parâmetros para definir o nojo. Para o sertanejo, o lugar dos dejetos fecais era os arredores de sua casa. Não havia necessidade de banheiro.

     Esse contraste entre noções diferenciadas da construção do nojo era uma das grandes tensões cotidianas dos Campos de Concentração. Enquanto os “inspetores de higiene” procuravam, a todo custo, mostrar a insubstituível função das “sentinas”, os sertanejos mostravam-se pouco motivados para abandonar seus hábitos tradicionais. Muitos concentrados usavam o aparelho sanitário, enquanto outros decidiam continuar com seus hábitos, criando toda sorte de conflitos.

     Ao ser entrevistado por jornalistas do Correio do Ceará, em março de 1932, o inspetor de higiene do Campo de Concentração do Urubu falou com detalhes e entusiasmo sobre a existência e a organização dos banheiros: “São todos muito bem fechados e foram construídos com madeira serrada, cobertos de zinco novos e muito bem feitos. Aqueles dois que ainda não foram totalmente cobertos não estão funcionando”. Ao passarem pela frente dos banheiros, os jornalistas receberam do Inspector a seguinte informação: “este é o banheiro ‘Major Manoel Tibúrcio’, este chama-se ‘Senhoras da Caridade’, este é o ‘Interventor Federal Roberto Carneiro de Mendonça’...” (Correio do Ceará, 06/05/1932). A homenagem a grupos ou pessoas importantes era figurada nos banheiros. Nesse sentido, é possível imaginar que esses lugares da higiene pessoal constituíam-se como templos do sanitarismo nesses Campos de Concentração.

     O momento do banho ganhava, respeitando as especificidades, ares de sacralidade em todos os Campos de Concentração. Na Concentração do Tauape, localizada em Fortaleza, mulheres e crianças banhavam-se vestidas numa Lagoa que ficava junto ao Campo. Entretanto, os higienistas afirmavam que neste momento – precisamente às cinco horas da manhã – formava-se um cordão de vigilantes para impedir qualquer tipo de indecoro ou de molestamento àquelas mulheres. No meio rural, homens, mulheres e crianças banhavam-se vestidos e juntos. Ao que parece, esse momento tinha mais o sentido do lazer do que do asseio pessoal. Nos Campos de Concentração, tentava-se inculcar uma nova maneira de pensar sobre o momento do asseio pessoal a partir da noção de vergonha. O banho, fosse realizado em banheiros ou açudes, deveria caracterizar-se como um momento de foro íntimo dominado pela ideia civilizada de moral, pudor e rapidez.

  Os jornalistas d’O Povo, numa tentativa de romantizar a cena, acrescentavam que as mulheres sentiam muita satisfação naquele momento, pois o encontro com a água traria de volta a lembrança do “sertão querido”. A descrição chega a imagens cinematográficas: “A lagoa, com as suas águas frescas e azuladas parecia atenuar a tristeza daquela gente... Dava gosto ver as sertanejas lembrando-se dos bons invernos e nadando a largas braçadas na superfície da Lagoa”. Mesmo ocupando-se largamente com a satisfação do banho, os jornalistas acabaram registrando o incômodo que causava nessas senhoras a constante vigilância do banho e da lavagem de roupa. Com um tom irônico, que procurava produzir o riso a partir de informações sobre “a vida do povo”, os jornalistas chegam a reproduzir o “falar do sertanejo pobre”: “Num sei pru qui é qui os diabo desses guarda num larga da gente”

(O Povo, 16/04/32).

(RIOS, K. S. Isolamento e poder: Fortaleza e os campos de concentração na seca de 1932. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2014. p. 119-121).

Acerca de seus objetivos gerais ou específicos, é coreto afirmar somente que o texto 2:
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Q2052116 Português

Texto 1

   Conceição atravessava muito depressa o Campo de Concentração.

   Às vezes uma voz atalhava:

   — Dona, uma esmolinha...

   Ela tirava um níquel da bolsa e passava adiante, em passo ligeiro, fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento.

    Que custo, atravessar aquele atravancamento de gente imunda, de latas velhas, e trapos sujos!

    Mas uma voz a fez parar.

    – Doninha, dona Conceição, não me conhece?

   Era uma mulata de saia preta e cabeção encardido, que, ao ver a moça, parara de abanar o fogo numa trempe, e a olhava rindo.

    Conceição forçou a memória.

    – Sim... Ah! É a Chiquinha Boa! Por aqui? Mas você não era moradora de seu Vicente? Saiu de lá?

    A mulher inclinou a cabeça para o ombro, coçou a nuca:

    – A gente viúva... Sem homem que me sustentasse... Diziam que aqui o governo andava dando comida aos pobres... Vim experimentar...

    Já Conceição, esquecendo a pressa, sentarase num tronco de cajueiro, interessada por aquela criatura que chegava do sertão:

      – E tudo por lá? Bem?

     – Vai, sim senhora. Seu Major, dona Idalina e as moças foram pro Quixadá. Só ficou o seu Vicente...

     Conceição espantou-se:

    – E eu não sabia! Também faz dias que a Lourdinha não me escreve! Então o Vicente está sozinho? Por quê, coitado?

    – Ora, as moças pegaram a falar que não aguentavam mais... Seu Vicente também achava ali muito ruim para a família... Sem banho, mandando buscar água a mais de légua de distância... Ele mesmo só ficou porque carecia dele lá, mode o gado. Mas toda semana vai no Quixadá...

     A moça comoveu-se com esse isolamento:

    — Imagino como a vida do pobre não é triste!

     A mulher riu-se.

    – Qual nada! Seu Vicente é pessoa muito divertida... É naquela labuta, mas sempre tirando prosa com um, com outro... É um moço muito sem bondade... Dizedor de prosa como ele só!...

     Conceição deixava-a falar, e a Chiquinha continuou, num riso malicioso:

    – E até aquela filha do Zé Bernardo, só porque sempre ele passa lá e diz alguma palavrinha a ela, anda toda ancha, se fazendo de boa...

     Conceição estranhou a história e não pôde se conter:

     – E ele tem alguma coisa com ela?

      A mulata encolheu os ombros:

      – O povo ignora muito... se tiver, pior pra ela... Que moço branco não é pra bico de cabra que nem nós...  

    A conversa principiou a incomodar Conceição; o mau cheiro do campo parecia mais intenso; e levantou-se, dando uma prata à mulher:

    – Amanhã eu volto e vejo como vocês vão... Todos os dias venho aqui, ajudar na entrega dos socorros... Se você tiver muita precisão de alguma coisa, me peça, que eu faço o que puder...

     Quando transpôs o portão do Campo, e se encostou a um poste, respirou mais aliviada. Mas, mesmo de fora, que mau cheiro se sentia! 

    Através da cerca de arame, apareciam-lhe os ranchos disseminados ao acaso. Até a miséria tem fantasia e criara ali os gêneros de habitação mais bizarros

     Uns, debaixo dum cajueiro, estirados no chão, quase nus, conversavam.

   Outros absolutamente ao tempo, apenas com a vaga proteção de uma parede de latas velhas, rodeavam um tocador de viola, um cego, que cantava numa melopeia cansada e triste:

        Ninguém sabe o que padece

       Quem sua vista não tem!...

       Não poder nunca enxergar

       Os olhos de quem quer bem!...

       E junto deles, uma cabocla nova atiçava um fogo. 

     Uma velha, mais longe, sentada nuns tijolos, fazia com que uma caboclinha muito magra e esmolambada lhe catasse os cabelos encerados de sujeira.

     E, além, uma família de Cariri velava um defunto, duro e seco, apenas recoberto por farrapos de cor indecisa.

      Conceição sabia quem ele era. Tinha morrido ao meio-dia, e a sua gente teimava em não o misturar com os outros mortos.

      O bonde chegou.

     Ainda sob a impressão da conversa com a Chiquinha Boa, a moça pensava em Vicente. E novamente sofreu o sentimento de desilusão e despeito que a magoara quando a mulher falava.

     “Sim, senhor! Vivia de prosear com as caboclas e até falavam muito dele com a Zefa do Zé Bernardo!”

     E ela, que o supunha indiferente e distante, e imaginava que, aos olhos dele, todo o resto das mulheres deste mundo se esbatia numa massa confusa e indesejada...

     Que julgara ter sido ela quem lhe acordara o interesse arisco e desdenhoso do coração!...

      “Uma cabra, uma cunhã à toa, de cabelo pixaim e dente podre!...”


(QUEIROZ. R. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012)

A propósito da relação entre o narrador, os personagens e os eventos narrados no texto 1, é CORRETO afirmar somente que:
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Q2052115 Português

Texto 1

   Conceição atravessava muito depressa o Campo de Concentração.

   Às vezes uma voz atalhava:

   — Dona, uma esmolinha...

   Ela tirava um níquel da bolsa e passava adiante, em passo ligeiro, fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento.

    Que custo, atravessar aquele atravancamento de gente imunda, de latas velhas, e trapos sujos!

    Mas uma voz a fez parar.

    – Doninha, dona Conceição, não me conhece?

   Era uma mulata de saia preta e cabeção encardido, que, ao ver a moça, parara de abanar o fogo numa trempe, e a olhava rindo.

    Conceição forçou a memória.

    – Sim... Ah! É a Chiquinha Boa! Por aqui? Mas você não era moradora de seu Vicente? Saiu de lá?

    A mulher inclinou a cabeça para o ombro, coçou a nuca:

    – A gente viúva... Sem homem que me sustentasse... Diziam que aqui o governo andava dando comida aos pobres... Vim experimentar...

    Já Conceição, esquecendo a pressa, sentarase num tronco de cajueiro, interessada por aquela criatura que chegava do sertão:

      – E tudo por lá? Bem?

     – Vai, sim senhora. Seu Major, dona Idalina e as moças foram pro Quixadá. Só ficou o seu Vicente...

     Conceição espantou-se:

    – E eu não sabia! Também faz dias que a Lourdinha não me escreve! Então o Vicente está sozinho? Por quê, coitado?

    – Ora, as moças pegaram a falar que não aguentavam mais... Seu Vicente também achava ali muito ruim para a família... Sem banho, mandando buscar água a mais de légua de distância... Ele mesmo só ficou porque carecia dele lá, mode o gado. Mas toda semana vai no Quixadá...

     A moça comoveu-se com esse isolamento:

    — Imagino como a vida do pobre não é triste!

     A mulher riu-se.

    – Qual nada! Seu Vicente é pessoa muito divertida... É naquela labuta, mas sempre tirando prosa com um, com outro... É um moço muito sem bondade... Dizedor de prosa como ele só!...

     Conceição deixava-a falar, e a Chiquinha continuou, num riso malicioso:

    – E até aquela filha do Zé Bernardo, só porque sempre ele passa lá e diz alguma palavrinha a ela, anda toda ancha, se fazendo de boa...

     Conceição estranhou a história e não pôde se conter:

     – E ele tem alguma coisa com ela?

      A mulata encolheu os ombros:

      – O povo ignora muito... se tiver, pior pra ela... Que moço branco não é pra bico de cabra que nem nós...  

    A conversa principiou a incomodar Conceição; o mau cheiro do campo parecia mais intenso; e levantou-se, dando uma prata à mulher:

    – Amanhã eu volto e vejo como vocês vão... Todos os dias venho aqui, ajudar na entrega dos socorros... Se você tiver muita precisão de alguma coisa, me peça, que eu faço o que puder...

     Quando transpôs o portão do Campo, e se encostou a um poste, respirou mais aliviada. Mas, mesmo de fora, que mau cheiro se sentia! 

    Através da cerca de arame, apareciam-lhe os ranchos disseminados ao acaso. Até a miséria tem fantasia e criara ali os gêneros de habitação mais bizarros

     Uns, debaixo dum cajueiro, estirados no chão, quase nus, conversavam.

   Outros absolutamente ao tempo, apenas com a vaga proteção de uma parede de latas velhas, rodeavam um tocador de viola, um cego, que cantava numa melopeia cansada e triste:

        Ninguém sabe o que padece

       Quem sua vista não tem!...

       Não poder nunca enxergar

       Os olhos de quem quer bem!...

       E junto deles, uma cabocla nova atiçava um fogo. 

     Uma velha, mais longe, sentada nuns tijolos, fazia com que uma caboclinha muito magra e esmolambada lhe catasse os cabelos encerados de sujeira.

     E, além, uma família de Cariri velava um defunto, duro e seco, apenas recoberto por farrapos de cor indecisa.

      Conceição sabia quem ele era. Tinha morrido ao meio-dia, e a sua gente teimava em não o misturar com os outros mortos.

      O bonde chegou.

     Ainda sob a impressão da conversa com a Chiquinha Boa, a moça pensava em Vicente. E novamente sofreu o sentimento de desilusão e despeito que a magoara quando a mulher falava.

     “Sim, senhor! Vivia de prosear com as caboclas e até falavam muito dele com a Zefa do Zé Bernardo!”

     E ela, que o supunha indiferente e distante, e imaginava que, aos olhos dele, todo o resto das mulheres deste mundo se esbatia numa massa confusa e indesejada...

     Que julgara ter sido ela quem lhe acordara o interesse arisco e desdenhoso do coração!...

      “Uma cabra, uma cunhã à toa, de cabelo pixaim e dente podre!...”


(QUEIROZ. R. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012)

Acerca da última sentença do texto 1, é CORRETO afirmar somente que: 
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Q2052114 Português

Texto 1

   Conceição atravessava muito depressa o Campo de Concentração.

   Às vezes uma voz atalhava:

   — Dona, uma esmolinha...

   Ela tirava um níquel da bolsa e passava adiante, em passo ligeiro, fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento.

    Que custo, atravessar aquele atravancamento de gente imunda, de latas velhas, e trapos sujos!

    Mas uma voz a fez parar.

    – Doninha, dona Conceição, não me conhece?

   Era uma mulata de saia preta e cabeção encardido, que, ao ver a moça, parara de abanar o fogo numa trempe, e a olhava rindo.

    Conceição forçou a memória.

    – Sim... Ah! É a Chiquinha Boa! Por aqui? Mas você não era moradora de seu Vicente? Saiu de lá?

    A mulher inclinou a cabeça para o ombro, coçou a nuca:

    – A gente viúva... Sem homem que me sustentasse... Diziam que aqui o governo andava dando comida aos pobres... Vim experimentar...

    Já Conceição, esquecendo a pressa, sentarase num tronco de cajueiro, interessada por aquela criatura que chegava do sertão:

      – E tudo por lá? Bem?

     – Vai, sim senhora. Seu Major, dona Idalina e as moças foram pro Quixadá. Só ficou o seu Vicente...

     Conceição espantou-se:

    – E eu não sabia! Também faz dias que a Lourdinha não me escreve! Então o Vicente está sozinho? Por quê, coitado?

    – Ora, as moças pegaram a falar que não aguentavam mais... Seu Vicente também achava ali muito ruim para a família... Sem banho, mandando buscar água a mais de légua de distância... Ele mesmo só ficou porque carecia dele lá, mode o gado. Mas toda semana vai no Quixadá...

     A moça comoveu-se com esse isolamento:

    — Imagino como a vida do pobre não é triste!

     A mulher riu-se.

    – Qual nada! Seu Vicente é pessoa muito divertida... É naquela labuta, mas sempre tirando prosa com um, com outro... É um moço muito sem bondade... Dizedor de prosa como ele só!...

     Conceição deixava-a falar, e a Chiquinha continuou, num riso malicioso:

    – E até aquela filha do Zé Bernardo, só porque sempre ele passa lá e diz alguma palavrinha a ela, anda toda ancha, se fazendo de boa...

     Conceição estranhou a história e não pôde se conter:

     – E ele tem alguma coisa com ela?

      A mulata encolheu os ombros:

      – O povo ignora muito... se tiver, pior pra ela... Que moço branco não é pra bico de cabra que nem nós...  

    A conversa principiou a incomodar Conceição; o mau cheiro do campo parecia mais intenso; e levantou-se, dando uma prata à mulher:

    – Amanhã eu volto e vejo como vocês vão... Todos os dias venho aqui, ajudar na entrega dos socorros... Se você tiver muita precisão de alguma coisa, me peça, que eu faço o que puder...

     Quando transpôs o portão do Campo, e se encostou a um poste, respirou mais aliviada. Mas, mesmo de fora, que mau cheiro se sentia! 

    Através da cerca de arame, apareciam-lhe os ranchos disseminados ao acaso. Até a miséria tem fantasia e criara ali os gêneros de habitação mais bizarros

     Uns, debaixo dum cajueiro, estirados no chão, quase nus, conversavam.

   Outros absolutamente ao tempo, apenas com a vaga proteção de uma parede de latas velhas, rodeavam um tocador de viola, um cego, que cantava numa melopeia cansada e triste:

        Ninguém sabe o que padece

       Quem sua vista não tem!...

       Não poder nunca enxergar

       Os olhos de quem quer bem!...

       E junto deles, uma cabocla nova atiçava um fogo. 

     Uma velha, mais longe, sentada nuns tijolos, fazia com que uma caboclinha muito magra e esmolambada lhe catasse os cabelos encerados de sujeira.

     E, além, uma família de Cariri velava um defunto, duro e seco, apenas recoberto por farrapos de cor indecisa.

      Conceição sabia quem ele era. Tinha morrido ao meio-dia, e a sua gente teimava em não o misturar com os outros mortos.

      O bonde chegou.

     Ainda sob a impressão da conversa com a Chiquinha Boa, a moça pensava em Vicente. E novamente sofreu o sentimento de desilusão e despeito que a magoara quando a mulher falava.

     “Sim, senhor! Vivia de prosear com as caboclas e até falavam muito dele com a Zefa do Zé Bernardo!”

     E ela, que o supunha indiferente e distante, e imaginava que, aos olhos dele, todo o resto das mulheres deste mundo se esbatia numa massa confusa e indesejada...

     Que julgara ter sido ela quem lhe acordara o interesse arisco e desdenhoso do coração!...

      “Uma cabra, uma cunhã à toa, de cabelo pixaim e dente podre!...”


(QUEIROZ. R. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012)

O texto 1 compõe a obra O Quinze da escritora cearense Raquel de Queiroz. Uma característica estilística que pode ser atribuída à obra dessa escritora está no item:
Alternativas
Q2052112 Português

Texto 1

   Conceição atravessava muito depressa o Campo de Concentração.

   Às vezes uma voz atalhava:

   — Dona, uma esmolinha...

   Ela tirava um níquel da bolsa e passava adiante, em passo ligeiro, fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento.

    Que custo, atravessar aquele atravancamento de gente imunda, de latas velhas, e trapos sujos!

    Mas uma voz a fez parar.

    – Doninha, dona Conceição, não me conhece?

   Era uma mulata de saia preta e cabeção encardido, que, ao ver a moça, parara de abanar o fogo numa trempe, e a olhava rindo.

    Conceição forçou a memória.

    – Sim... Ah! É a Chiquinha Boa! Por aqui? Mas você não era moradora de seu Vicente? Saiu de lá?

    A mulher inclinou a cabeça para o ombro, coçou a nuca:

    – A gente viúva... Sem homem que me sustentasse... Diziam que aqui o governo andava dando comida aos pobres... Vim experimentar...

    Já Conceição, esquecendo a pressa, sentarase num tronco de cajueiro, interessada por aquela criatura que chegava do sertão:

      – E tudo por lá? Bem?

     – Vai, sim senhora. Seu Major, dona Idalina e as moças foram pro Quixadá. Só ficou o seu Vicente...

     Conceição espantou-se:

    – E eu não sabia! Também faz dias que a Lourdinha não me escreve! Então o Vicente está sozinho? Por quê, coitado?

    – Ora, as moças pegaram a falar que não aguentavam mais... Seu Vicente também achava ali muito ruim para a família... Sem banho, mandando buscar água a mais de légua de distância... Ele mesmo só ficou porque carecia dele lá, mode o gado. Mas toda semana vai no Quixadá...

     A moça comoveu-se com esse isolamento:

    — Imagino como a vida do pobre não é triste!

     A mulher riu-se.

    – Qual nada! Seu Vicente é pessoa muito divertida... É naquela labuta, mas sempre tirando prosa com um, com outro... É um moço muito sem bondade... Dizedor de prosa como ele só!...

     Conceição deixava-a falar, e a Chiquinha continuou, num riso malicioso:

    – E até aquela filha do Zé Bernardo, só porque sempre ele passa lá e diz alguma palavrinha a ela, anda toda ancha, se fazendo de boa...

     Conceição estranhou a história e não pôde se conter:

     – E ele tem alguma coisa com ela?

      A mulata encolheu os ombros:

      – O povo ignora muito... se tiver, pior pra ela... Que moço branco não é pra bico de cabra que nem nós...  

    A conversa principiou a incomodar Conceição; o mau cheiro do campo parecia mais intenso; e levantou-se, dando uma prata à mulher:

    – Amanhã eu volto e vejo como vocês vão... Todos os dias venho aqui, ajudar na entrega dos socorros... Se você tiver muita precisão de alguma coisa, me peça, que eu faço o que puder...

     Quando transpôs o portão do Campo, e se encostou a um poste, respirou mais aliviada. Mas, mesmo de fora, que mau cheiro se sentia! 

    Através da cerca de arame, apareciam-lhe os ranchos disseminados ao acaso. Até a miséria tem fantasia e criara ali os gêneros de habitação mais bizarros

     Uns, debaixo dum cajueiro, estirados no chão, quase nus, conversavam.

   Outros absolutamente ao tempo, apenas com a vaga proteção de uma parede de latas velhas, rodeavam um tocador de viola, um cego, que cantava numa melopeia cansada e triste:

        Ninguém sabe o que padece

       Quem sua vista não tem!...

       Não poder nunca enxergar

       Os olhos de quem quer bem!...

       E junto deles, uma cabocla nova atiçava um fogo. 

     Uma velha, mais longe, sentada nuns tijolos, fazia com que uma caboclinha muito magra e esmolambada lhe catasse os cabelos encerados de sujeira.

     E, além, uma família de Cariri velava um defunto, duro e seco, apenas recoberto por farrapos de cor indecisa.

      Conceição sabia quem ele era. Tinha morrido ao meio-dia, e a sua gente teimava em não o misturar com os outros mortos.

      O bonde chegou.

     Ainda sob a impressão da conversa com a Chiquinha Boa, a moça pensava em Vicente. E novamente sofreu o sentimento de desilusão e despeito que a magoara quando a mulher falava.

     “Sim, senhor! Vivia de prosear com as caboclas e até falavam muito dele com a Zefa do Zé Bernardo!”

     E ela, que o supunha indiferente e distante, e imaginava que, aos olhos dele, todo o resto das mulheres deste mundo se esbatia numa massa confusa e indesejada...

     Que julgara ter sido ela quem lhe acordara o interesse arisco e desdenhoso do coração!...

      “Uma cabra, uma cunhã à toa, de cabelo pixaim e dente podre!...”


(QUEIROZ. R. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012)

Assinale a alternativa em que a forma verbal destacada traduz um aspecto de pontualidade.
Alternativas
Q2052111 Português

Texto 1

   Conceição atravessava muito depressa o Campo de Concentração.

   Às vezes uma voz atalhava:

   — Dona, uma esmolinha...

   Ela tirava um níquel da bolsa e passava adiante, em passo ligeiro, fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento.

    Que custo, atravessar aquele atravancamento de gente imunda, de latas velhas, e trapos sujos!

    Mas uma voz a fez parar.

    – Doninha, dona Conceição, não me conhece?

   Era uma mulata de saia preta e cabeção encardido, que, ao ver a moça, parara de abanar o fogo numa trempe, e a olhava rindo.

    Conceição forçou a memória.

    – Sim... Ah! É a Chiquinha Boa! Por aqui? Mas você não era moradora de seu Vicente? Saiu de lá?

    A mulher inclinou a cabeça para o ombro, coçou a nuca:

    – A gente viúva... Sem homem que me sustentasse... Diziam que aqui o governo andava dando comida aos pobres... Vim experimentar...

    Já Conceição, esquecendo a pressa, sentarase num tronco de cajueiro, interessada por aquela criatura que chegava do sertão:

      – E tudo por lá? Bem?

     – Vai, sim senhora. Seu Major, dona Idalina e as moças foram pro Quixadá. Só ficou o seu Vicente...

     Conceição espantou-se:

    – E eu não sabia! Também faz dias que a Lourdinha não me escreve! Então o Vicente está sozinho? Por quê, coitado?

    – Ora, as moças pegaram a falar que não aguentavam mais... Seu Vicente também achava ali muito ruim para a família... Sem banho, mandando buscar água a mais de légua de distância... Ele mesmo só ficou porque carecia dele lá, mode o gado. Mas toda semana vai no Quixadá...

     A moça comoveu-se com esse isolamento:

    — Imagino como a vida do pobre não é triste!

     A mulher riu-se.

    – Qual nada! Seu Vicente é pessoa muito divertida... É naquela labuta, mas sempre tirando prosa com um, com outro... É um moço muito sem bondade... Dizedor de prosa como ele só!...

     Conceição deixava-a falar, e a Chiquinha continuou, num riso malicioso:

    – E até aquela filha do Zé Bernardo, só porque sempre ele passa lá e diz alguma palavrinha a ela, anda toda ancha, se fazendo de boa...

     Conceição estranhou a história e não pôde se conter:

     – E ele tem alguma coisa com ela?

      A mulata encolheu os ombros:

      – O povo ignora muito... se tiver, pior pra ela... Que moço branco não é pra bico de cabra que nem nós...  

    A conversa principiou a incomodar Conceição; o mau cheiro do campo parecia mais intenso; e levantou-se, dando uma prata à mulher:

    – Amanhã eu volto e vejo como vocês vão... Todos os dias venho aqui, ajudar na entrega dos socorros... Se você tiver muita precisão de alguma coisa, me peça, que eu faço o que puder...

     Quando transpôs o portão do Campo, e se encostou a um poste, respirou mais aliviada. Mas, mesmo de fora, que mau cheiro se sentia! 

    Através da cerca de arame, apareciam-lhe os ranchos disseminados ao acaso. Até a miséria tem fantasia e criara ali os gêneros de habitação mais bizarros

     Uns, debaixo dum cajueiro, estirados no chão, quase nus, conversavam.

   Outros absolutamente ao tempo, apenas com a vaga proteção de uma parede de latas velhas, rodeavam um tocador de viola, um cego, que cantava numa melopeia cansada e triste:

        Ninguém sabe o que padece

       Quem sua vista não tem!...

       Não poder nunca enxergar

       Os olhos de quem quer bem!...

       E junto deles, uma cabocla nova atiçava um fogo. 

     Uma velha, mais longe, sentada nuns tijolos, fazia com que uma caboclinha muito magra e esmolambada lhe catasse os cabelos encerados de sujeira.

     E, além, uma família de Cariri velava um defunto, duro e seco, apenas recoberto por farrapos de cor indecisa.

      Conceição sabia quem ele era. Tinha morrido ao meio-dia, e a sua gente teimava em não o misturar com os outros mortos.

      O bonde chegou.

     Ainda sob a impressão da conversa com a Chiquinha Boa, a moça pensava em Vicente. E novamente sofreu o sentimento de desilusão e despeito que a magoara quando a mulher falava.

     “Sim, senhor! Vivia de prosear com as caboclas e até falavam muito dele com a Zefa do Zé Bernardo!”

     E ela, que o supunha indiferente e distante, e imaginava que, aos olhos dele, todo o resto das mulheres deste mundo se esbatia numa massa confusa e indesejada...

     Que julgara ter sido ela quem lhe acordara o interesse arisco e desdenhoso do coração!...

      “Uma cabra, uma cunhã à toa, de cabelo pixaim e dente podre!...”


(QUEIROZ. R. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012)

A relação semântica indicada entre parênteses está presente no trecho retirado do texto somente no item: 
Alternativas
Q2052100 Português

Observe a charge a seguir.

10.png (381×393) 

- Deus, você tá perdendo fiéis a cada dia! É importante a gente se atualizar.

- Você, ao menos, possui wi-fi no céu?

-Wi... o quê?

-Cara, você tá muito ferrado com as próximas gerações.


https://www.umsabadoqualquer.com/1669-o-novo-e-o-velho2/attachment/2859/ Acesso em 06/01/2019.
A charge é produzida com alusão: 
Alternativas
Q2052091 Português

TEXTO I 


Catavento e girassol

(Guinga - Aldir Blanc)


Meu catavento tem dentro

O que há do lado de fora do teu girassol.

Entre o escancaro e o contido,

E eu te pedi sustenido

E você riu bemol.

Você só pensa no espaço,

Eu exigi duração...

Eu sou um gato de subúrbio,

Você é litorânea.


Quando eu respeito os sinais,

Vejo você de patins vindo na contramão

Mas quando ataco de macho,

Você se faz de capacho

E não quer confusão.

Nenhum dos dois se entrega.

Nós não ouvimos conselho:

E eu sou você que se vai

No sumidouro do espelho. 


Eu sou o Engenho de Dentro

E você vive no vento do Arpoador.

Eu tenho um jeito arredio

E você é expansiva - o inseto e a flor.

Um torce para Mia Farrow

E o outro é Woody Allen...

Quando assovio uma seresta

Você dança havaiana.


Eu vou de tênis e jeans,

Encontro você demais:

Scarpin, soirée.

Quando o pau quebra na esquina,

Você ataca de fina

e me oferece em inglês:

É fuck you, bate-bronha...

E ninguém mete o bedelho,

Você sou eu que me vou

No sumidouro do espelho.


A paz é feita num motel

De alma lavada e passada

Pra descobrir logo depois

Que não serviu pra nada.

Nos dias de carnaval

Aumentam os desenganos:

Você vai pra Parati

E eu pro Cacique de Ramos...


Meu catavento tem dentro

O vento escancarado do Arpoador,

Teu girassol tem de fora

O escondido do Engenho de Dentro da flor.

Eu sinto muita saudade,

Você é contemporânea,

Eu penso em tudo quanto faço,

Você é tão espontânea.

Sei que um depende do outro

Só pra ser diferente,

Pra se completar.

Sei que um se afasta do outro,

No sufoco, somente pra se aproximar.

Cê tem um jeito verde de ser

E eu sou meio vermelho

Mas os dois juntos se vão

No sumidouro do espelho.


http://www.guinga.com/index.php/2015-08-27-03-

18-48/2015-08-27-03-29-50/151-delirio-carioca1993 Acesso em: 05/01/2019.



A letra da música revela:
Alternativas
Respostas
19641: B
19642: C
19643: A
19644: C
19645: A
19646: C
19647: D
19648: A
19649: C
19650: B
19651: D
19652: C
19653: B
19654: D
19655: A
19656: C
19657: A
19658: A
19659: B
19660: B