Questões de Concurso
Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português
Foram encontradas 36.875 questões
“A polícia acha que essas mortes teriam sido provocadas por um engano, devido à semelhança entre um dos médicos e um famoso chefe da milícia local. Houve outra opinião que indicaria a hipótese de crime político, hoje descartada. Os médicos foram mortos num quiosque da praia da Barra e os prováveis assassinos foram encontrados mortos um dia depois do crime”.
Apesar de ser um texto informativo, há marcas de imprecisão na notícia; assinale a frase abaixo que não traz qualquer marca de imprecisão.
“Os multiletramentos consistem em diversos tipos de letramento presentes na sociedade, levando em conta as diversas formas de produção de texto, a pluralidade semiótica e a diversidade de culturas. Trata-se de um processo que viabiliza mais abrangência nas comunicações, visto que os textos são apresentados em uma diversidade de línguas, sentidos e mídias. O advento de novas tecnologias digitais levou a comunicação a transformações, também impôs desafios para os educadores, que consistem, primordialmente, em fazer do aluno um gerador de conhecimentos específicos. Áudios, vídeos e fotos que relatam notícias revelam culturas e mostram acontecimentos importantes. A sociedade atual está imbuída em diversas linguagens, algumas novas, outras não tão recentes. Os textos não são mais a única forma de transmitir informação, e agora temos à disposição muitas outras maneiras de nos comunicar, como tabelas, reportagens visuais, ensaios fotográficos, gráficos, infográficos, etc. [....] A função da escola, nessa conjuntura, é proporcionar meios para que os estudantes experimentem as muitas práticas de letramento, tanto no consumo e na apreciação das informações como na sua produção; eles também devem fazer uma reflexão crítica sobre tais informações”.
Depreende-se da leitura desse texto, que
Uma carta de um candidato a concurso público para um amigo trazia o seguinte trecho: “As pessoas fica gozando a minha cara e dizem que eu não vou passar nunca, melhor deixar de preguiça e pegar no pesado!”
Entre as marcas de oralidade presentes nessa carta, só não está presente
“Considere qualquer pessoa a vastidão da diferença entre a vida dos homens em algumas das nações mais civilizadas da Europa e na região mais bárbara e selvagem da Nova Índia. Ela concluirá que diferem a tal ponto que se pode justificadamente afirmar que “o homem é um Deus para o homem”, não apenas devido à assistência e ao benefício, mas também no contraste de suas condições. E isso se deve não ao solo ou ao clima ou às qualidades corporais, mas ao engenho”.
Nesse texto a conclusão a que chega “qualquer pessoa”
“Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes não só à sexualidade humana, mas à sua agressividade, podemos entender melhor por que é tão difícil para o homem ser feliz na civilização. De fato, o homem primitivo estava em situação vantajosa por não conhecer restrições ao instinto. Em contrapartida, sua perspectiva de usufruir desta felicidade por qualquer intervalo maior de tempo era diminuta. O homem civilizado trocou uma parcela das suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança.”
O texto argumentativo acima defende a tese de que
“Se os primeiros colonos da América Inglesa vinham movidos pelo afã de construir, vencendo o rigor do deserto e selva, uma comunidade abençoada, isenta das opressões religiosas e civis por eles padecidas em sua terra de origem, e onde enfim se realizaria o puro ideal evangélico, os da América Latina se deixaram atrair pela esperança de achar em suas conquistas um paraíso feito de riqueza mundanal e beatitude celeste, que a eles se ofereceria sem reclamar labor maior, mas sim como dom gratuito. Não há, neste último caso, contradição necessária entre o gosto da pecúnia e a devoção cristã. Um e outra, em verdade, se irmanam e se confundem.”
Assinale a afirmativa que estabelece uma ligação de coesão inadequada, tendo em vista o texto acima.
“Aconteceu aos verdadeiros sábios o que se verifica com as espigas de trigo, que se erguem orgulhosamente enquanto vazias e, quando se enchem a amadurece o grão, se inclinam e dobram humildemente. Assim esses homens, depois de tudo terem experimentado, sondado e nada haverem encontrado nesse amontoado considerável de coisas tão diversas, renunciaram à presunção e reconheceram a sua insignificância”.
Infere-se desse segmento que o conhecimento
“O padrinho não sabia o que comprar para a afilhada que já estava bem grandinha para receber brinquedos de presente. Ao passar diante da agência bancária, veio-lhe a ideia de abrir para ela uma caderneta de poupança, que seria ao mesmo tempo, um exemplo do que fazer com o dinheiro.”
Sobre a estruturação desse fragmento, assinale a afirmativa correta.
“O menino, hoje homem feito, entrou no quarto dos avós já falecidos. Observou os móveis, os retratos de sua infância na fazenda; um deles trouxe-lhe a memória a grande emoção que sentiu quando montou num cavalo pela primeira vez, acompanhado de um tio. Viu também a velha caneta usada pelo avô na contabilidade da fazenda...”.
Nesse fragmento textual, a narrativa é interrompida pela
A leitura do Texto III é necessária para a resolução da questão:
TEXTO III
Bola-de-gude-azul
Clarissa Moura
Rita me fitava com aqueles olhos azuis estrábicos e esbugalhados. Assim que entrou aqui em casa, foi a primeira coisa que vi, olhos-bola-de-gude, criança feia, careca. Todos os bebês são feios, acho que eu nasci feia também. Essa menina vem atrapalhando minha vida, desde que ainda estava dentro da minha mãe.
Na verdade, tudo muda quando uma criatura vai pra dentro de uma fêmea. Percebi isso quando Nina, nossa cadela, pegou um bucho do cachorro vira-lata que minha mãe odeia. Ela achou ruim, reclamou. Brigava dia e noite com Nina, a cachorra fujona que saiu e voltou prenha de cinco cachorrinhos. Morreram todos. Coitada de Nina, ela ficou cansada, lenta, dorminhoca. Não fazia mais nada, só dormia. Minha mãe reclamou tanto, tanto, mais tanto, que pegou um bucho também.
Mamãe colocou o nome da minha irmã de Rita de Cássia, a santa dela. Acho engraçado isso de dizer que a santa é sua. Pra mim, as coisas só são nossas quando a gente compra ou ganha. Do nada, a santa vira boneca que protege gente. Enquanto a barriga crescia, ela todo dia acendia uma vela, se alisava e rezava. Amenina, lá dentro, não sentia nada, não sabia de nada. Ganhou o nome da santinha que fica no quartinho ao lado da sala.
Depois que minha mãe disse que eu ia ter uma irmãzinha, que ela ia ser minha melhor amiga e companheira, tudo mudou. Mamãe só vivia vomitando, com sono, não queria brincar comigo, triste e deitada. O médico disse que ela tinha que passar a gravidez toda acamada pra menina vingar. Toda noite que minha mãe rezava, eu rezava junto, pedindo pra aquela menina não nascer. Queria minha mãe só pra mim. Mas não adiantou.
Meu pai, que quase não tinha tempo pra brincar comigo, passou a trabalhar mais. Eu só via ele nos fins de semana, e sempre cansado porque tinha mais uma boca pra alimentar. Minha filha, papai tem que trabalhar pra dar o melhor pra você e sua irmãzinha. Mas o melhor pra mim era ter meu pai e minha mãe somente pra mim. E, mesmo antes de nascer, a bola-de-gude-azul roubou meus pais.
Eu queria ser filha única, como meu pai e minha mãe. Não tenho tios, e nem sinto falta. Família boa é família que tem tempo pra ficar junto e brincar feliz. Agora eu fico sozinha o tempo todo. Desde que Nina teve os cachorrinhos mortos, também não quer brincar comigo. Os bichinhos pareciam uns ratinhos, pretinhos, tamanhico de nada. Mamãe falou que eles não tinham como ficar vivos e que quase matou nossa cadela. Que ela teve sorte. Sorte mesmo seria se ela nunca tivesse pegado um bucho.
Faz cinco dias que eu não consigo dormir, Rita está dormindo no quarto da minha mãe. Só vive pendurada nos peitos dela, mamando, mamando. Minha mãe chama ela de minha bezerrinha. Vai ser a bezerrinha mais forte de todas. Será que ela me acha fraca só porque eu não tô pendurada sugando o leite dela? Eu prefiro comer bolacha desmanchada no leite. Era tão bom quando minha mãe colocava minha comidinha, e a gente ficava vendo televisão e conversando. Ela sempre sentava em uma cadeira e ficava me vendo comer. É tão lindo te ver comendo Maria, você é a gulosa de mamãe. Eu ria, e ela alisava meus cachinhos.
Hoje tive que apresentar um trabalho na escola. Segurei a cartolina e não consegui lembrar de nada. Comecei a gaguejar e a chorar. Todo mundo riu de mim. Burra, burra, chorona, chorona. Aprofessora mandou todo mundo se calar. Eu empurrei o Carlinhos, o imbecil que puxou o coro, e chorei mais ainda. Fui levada pra diretoria, fizeram um bilhete pra meus pais, e amanhã eu só posso assistir aula se eles vierem me deixar. Me ferrei.
Sinto medo da pisa que vou levar, do castigo que não vai acabar nunca. Eu não vou poder sair pra brincar com as meninas na rua, vou ter que ficar trancada dentro de casa fazendo o dever que não tem fim. A pirralha começa a berrar de novo, muito alto. Essa menina só chora. Se não fosse por ela, eu teria dormido bem e lembraria do nome de todos os répteis da cartolina. Ódio.
Vou pro quarto, minha mãe tá dormindo pesado, roncando. Parece a Bela Adormecida que não vai acordar nunca mais. Rita chora, chora, chora, eu choro. Corro na cozinha, pego a faca de cortar pão, volto pro quarto, seguro a fralda na boca dela até abafar o choro, enfio a faca nos olhos-azuis-bola-de-gude dela e arranco. Pego as bolinhas agora vermelhas, se desmanchando na minha mão, e coloco na minha sacola de bolas-de-gude.
Será que amanhã eu ainda vou estar de castigo?
Clarissa Moura (1987, João Pessoa/Paraíba) é advogada, escritora, membro do Clube do Conto da Paraíba. Publica seus textos – crônicas e contos – no Medium https://clarissagmoura.medium.com/ e outras redes sociais. É coorganizadora do ebook Antologia Poética – Poemas dos Dez Melhores Poetas do Extremo Oriental das Américas, publicada pela Rubaiyat Edições em 2022. É uma das autoras da Antologia Prosas de Oficina vol. II, publicação da Editora Escaleras em 2022.
Fonte: https://revistaacrobata.com.br/