Questões de Concurso Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português

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Q2298231 Português
     O crescimento desordenado das cidades vem sendo tema de grandes discussões na elaboração de políticas públicas de planejamento urbano. Esse crescimento vem causando uma série de prejuízos à saúde humana, como aparecimento de doenças infectocontagiosas, violência urbana, falta de saneamento básico, desigualdade social, desastres naturais, entre outros. A aglomeração de muitas pessoas em pequenos locais é um dos fatores de risco para vários agravos, tais como problemas respiratórios, cardiovasculares, entre outros.
     Associado ao processo de urbanização desenfreada, está também o crescimento populacional não acompanhado de planejamento, que vem gerando “inchaço’’ de pessoas em cidades não preparadas, fazendo surgir favelas em áreas insalubres e sujeitas a condições de risco, e o pior, o surgimento de doenças e epidemias causadas pela falta de higiene e de serviços sanitários básicos.
     No Brasil, um dos mais recorrentes impactos negativos em virtude dessa falta de planejamento são as inundações, que, em maiores precipitações pluviométricas, assolam as populações, favorecendo o aumento e a migração de vetores de epidemias e doenças, e, assim, expondo, dessa forma, comunidades inteiras a sérios riscos de saúde.
    A urbanização é um processo de transformação de uma população rural em população urbana decorrente da migração, levando-se em conta o crescimento vegetativo. A partir disso, as pessoas saíram do campo para as cidades em busca de trabalho nas fábricas e em busca de melhores condições de vida.
     O grande problema foi a falta de planejamento urbano encontrado nessas cidades que ocasionou um inchaço populacional, contribuindo para o surgimento de favelas sem infraestrutura e amontoado de habitações em condições insalubres.
     De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por volta de meados do século XIX a população urbana brasileira que residia em áreas com alguma infraestrutura de habitação, saneamento, transporte, emprego, renda, assistência à saúde, entre outras, representava 1,7% da população total do planeta, atingindo, em 1960 (um século depois), 25% e, em 1980, 41,1%. Em 1995, a população urbana mundial atingiu 46% do total, o equivalente a 2,7 milhões de pessoas.
      O processo de adensamento urbano brasileiro, de forma desenfreada nos grandes centros, está associado à desigualdade social, promovida pela grande concentração de renda nas mãos de poucas pessoas. Essa desigualdade pode contribuir para a concentração acentuada de população em estado de pobreza, habitando as áreas periféricas aos centros urbanos, de forma desordenada, se aglomerando irregularmente em locais carentes de infraestrutura e de serviços básicos. 
      Diante dessa situação, a precariedade de saneamento, a ausência de água tratada, a violência acentuada, a marginalização social e o déficit de moradias adequadas contribuem para a proliferação de doenças infectocontagiosas e degradação socioambiental, favorecendo a incidência de doenças ocasionadas pelo estresse social, estimuladas pelo uso de drogas, potencializando o aumento da violência urbana e afetando a qualidade de vida da população.

(Fonte: Secad Artmed — adaptado.)
Com relação às principais ideias defendidas pelo texto, assinalar a alternativa INCORRETA:
Alternativas
Q2298230 Português
     O crescimento desordenado das cidades vem sendo tema de grandes discussões na elaboração de políticas públicas de planejamento urbano. Esse crescimento vem causando uma série de prejuízos à saúde humana, como aparecimento de doenças infectocontagiosas, violência urbana, falta de saneamento básico, desigualdade social, desastres naturais, entre outros. A aglomeração de muitas pessoas em pequenos locais é um dos fatores de risco para vários agravos, tais como problemas respiratórios, cardiovasculares, entre outros.
     Associado ao processo de urbanização desenfreada, está também o crescimento populacional não acompanhado de planejamento, que vem gerando “inchaço’’ de pessoas em cidades não preparadas, fazendo surgir favelas em áreas insalubres e sujeitas a condições de risco, e o pior, o surgimento de doenças e epidemias causadas pela falta de higiene e de serviços sanitários básicos.
     No Brasil, um dos mais recorrentes impactos negativos em virtude dessa falta de planejamento são as inundações, que, em maiores precipitações pluviométricas, assolam as populações, favorecendo o aumento e a migração de vetores de epidemias e doenças, e, assim, expondo, dessa forma, comunidades inteiras a sérios riscos de saúde.
    A urbanização é um processo de transformação de uma população rural em população urbana decorrente da migração, levando-se em conta o crescimento vegetativo. A partir disso, as pessoas saíram do campo para as cidades em busca de trabalho nas fábricas e em busca de melhores condições de vida.
     O grande problema foi a falta de planejamento urbano encontrado nessas cidades que ocasionou um inchaço populacional, contribuindo para o surgimento de favelas sem infraestrutura e amontoado de habitações em condições insalubres.
     De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por volta de meados do século XIX a população urbana brasileira que residia em áreas com alguma infraestrutura de habitação, saneamento, transporte, emprego, renda, assistência à saúde, entre outras, representava 1,7% da população total do planeta, atingindo, em 1960 (um século depois), 25% e, em 1980, 41,1%. Em 1995, a população urbana mundial atingiu 46% do total, o equivalente a 2,7 milhões de pessoas.
      O processo de adensamento urbano brasileiro, de forma desenfreada nos grandes centros, está associado à desigualdade social, promovida pela grande concentração de renda nas mãos de poucas pessoas. Essa desigualdade pode contribuir para a concentração acentuada de população em estado de pobreza, habitando as áreas periféricas aos centros urbanos, de forma desordenada, se aglomerando irregularmente em locais carentes de infraestrutura e de serviços básicos. 
      Diante dessa situação, a precariedade de saneamento, a ausência de água tratada, a violência acentuada, a marginalização social e o déficit de moradias adequadas contribuem para a proliferação de doenças infectocontagiosas e degradação socioambiental, favorecendo a incidência de doenças ocasionadas pelo estresse social, estimuladas pelo uso de drogas, potencializando o aumento da violência urbana e afetando a qualidade de vida da população.

(Fonte: Secad Artmed — adaptado.)
 Segundo o texto, o crescimento desordenado das cidades: 
Alternativas
Q2298147 Português
Informação é poder


     Thomas Hobbes já dizia, em 1668, que “conhecimento é poder”, e não poderia estar mais correto. O conhecimento vem através da informação e, atualmente, a Internet é a maior fonte de informação disponível, podendo ser consultada a qualquer momento e por qualquer um. Enquanto aproveitamos a conexão com a rede para ler textos como este e assistir a vídeos no YouTube, enormes quantidades de informações são coletadas e circulam pela Internet a cada segundo.
     Essas informações coletadas são chamadas de dados e são tão importantes — sobretudo quando armazenados e tratados em massa (o que é conhecido como Big Data, ou megadados) — que, em 2012, foram considerados como o “novo petróleo” durante o Fórum Econômico Mundial (WEF — Davos), por serem uma grande fonte de valor econômico.
      No entanto, o próprio WEF veio retificar que chamar os dados de “novo petróleo” é errado, porque o petróleo é um recurso natural que algum dia vai acabar.
     Os dados, porém, são infinitos e são produzidos mais e mais a cada minuto! Os dados são divididos em duas categorias: os pessoais e os não pessoais. De acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD, Lei nº 13.709/2018), os dados pessoais são aqueles que possibilitam a identificação de uma pessoa. Essa identificação pode ser direta — como o nome completo, RG, CPF —, ou seja, informações que levam diretamente ao indivíduo; ou indireta — como endereço, profissão, gênero —, ou seja, informações que sozinhas não dizem nada, mas que se combinadas podem identificar alguém.
      Já os dados não pessoais são aqueles que não identificam nenhum indivíduo vivente, por exemplo o número de acessos a tal página na web, ou quantas viagens de Uber foram feitas em determinado mês, ou até mesmo quantos casos de COVID-19 foram registrados em determinada cidade. Os dados não pessoais também são produzidos por empresas, como dados relativos à indústria, aos serviços financeiros ou ao agronegócio, por exemplo.
     Atualmente, a Inteligência Artificial (IA) e a Internet das Coisas (IoT) são consideradas grandes fontes geradoras de dados não pessoais, muito utilizadas em processos automatizados de produção industrial. A partir da coleta e da análise dos dados, é possível, por exemplo, avaliar o público de determinada empresa e criar estratégias de marketing personalizadas ou reduzir custos ao melhorar o gerenciamento de estoque e de compras para, dessa forma, aumentar o lucro. 
      Por isso, os dados pessoais e não pessoais são, atualmente, uma das maiores “commodities” da economia mundial, tamanha a sua importância. Como já dizia Thomas Hobbes, "conhecimento é poder", e isso nunca foi tão verdadeiro como hoje em dia. Com a internet trazendo um oceano de informações ao alcance de todos, e com as leis de proteção de dados pessoais como a LGPD definindo as regras, os dados se tornaram um recurso incrivelmente valioso, impulsionando negócios, automação industrial e muito mais.

(Fonte: Instituto Observatório do Direito Autoral — adaptado.)
Sobre os aspectos gerais do texto, analisar os itens abaixo:

I. A internet é considerada o “novo petróleo”. II. Os dados pessoais podem ser utilizados de maneira direta ou indireta. III. Os dados não pessoais não têm uso amplo na atualidade.

Está(ão) CORRETO(S):
Alternativas
Q2298145 Português
Informação é poder


     Thomas Hobbes já dizia, em 1668, que “conhecimento é poder”, e não poderia estar mais correto. O conhecimento vem através da informação e, atualmente, a Internet é a maior fonte de informação disponível, podendo ser consultada a qualquer momento e por qualquer um. Enquanto aproveitamos a conexão com a rede para ler textos como este e assistir a vídeos no YouTube, enormes quantidades de informações são coletadas e circulam pela Internet a cada segundo.
     Essas informações coletadas são chamadas de dados e são tão importantes — sobretudo quando armazenados e tratados em massa (o que é conhecido como Big Data, ou megadados) — que, em 2012, foram considerados como o “novo petróleo” durante o Fórum Econômico Mundial (WEF — Davos), por serem uma grande fonte de valor econômico.
      No entanto, o próprio WEF veio retificar que chamar os dados de “novo petróleo” é errado, porque o petróleo é um recurso natural que algum dia vai acabar.
     Os dados, porém, são infinitos e são produzidos mais e mais a cada minuto! Os dados são divididos em duas categorias: os pessoais e os não pessoais. De acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD, Lei nº 13.709/2018), os dados pessoais são aqueles que possibilitam a identificação de uma pessoa. Essa identificação pode ser direta — como o nome completo, RG, CPF —, ou seja, informações que levam diretamente ao indivíduo; ou indireta — como endereço, profissão, gênero —, ou seja, informações que sozinhas não dizem nada, mas que se combinadas podem identificar alguém.
      Já os dados não pessoais são aqueles que não identificam nenhum indivíduo vivente, por exemplo o número de acessos a tal página na web, ou quantas viagens de Uber foram feitas em determinado mês, ou até mesmo quantos casos de COVID-19 foram registrados em determinada cidade. Os dados não pessoais também são produzidos por empresas, como dados relativos à indústria, aos serviços financeiros ou ao agronegócio, por exemplo.
     Atualmente, a Inteligência Artificial (IA) e a Internet das Coisas (IoT) são consideradas grandes fontes geradoras de dados não pessoais, muito utilizadas em processos automatizados de produção industrial. A partir da coleta e da análise dos dados, é possível, por exemplo, avaliar o público de determinada empresa e criar estratégias de marketing personalizadas ou reduzir custos ao melhorar o gerenciamento de estoque e de compras para, dessa forma, aumentar o lucro. 
      Por isso, os dados pessoais e não pessoais são, atualmente, uma das maiores “commodities” da economia mundial, tamanha a sua importância. Como já dizia Thomas Hobbes, "conhecimento é poder", e isso nunca foi tão verdadeiro como hoje em dia. Com a internet trazendo um oceano de informações ao alcance de todos, e com as leis de proteção de dados pessoais como a LGPD definindo as regras, os dados se tornaram um recurso incrivelmente valioso, impulsionando negócios, automação industrial e muito mais.

(Fonte: Instituto Observatório do Direito Autoral — adaptado.)
Sobre o título do texto, assinalar a alternativa CORRETA:
Alternativas
Q2297877 Português

Saneamento e Saúde 


    A noção da relação entre a água, os dejetos e a saúde data de milênios e se originou quando a humanidade mudou sua relação com o ambiente, e a vida se tornou crescentemente sedentária, associada à necessidade de práticas agrícolas.

    A introdução desse modo de vida promoveu uma transformação na maneira de o homem se relacionar socialmente, ao surgirem as primeiras aglomerações humanas. 

    Junto com a transformação das relações sociais, o advento da agricultura mudou a forma de o homem se relacionar com a natureza, o que repercutiu no aparecimento de diversas doenças. 

    A derrubada das florestas e o convívio próximo com animais promoveram mudanças no ciclo de vetores e um maior contato do homem com patógenos causadores de doenças nos animais, agora domesticados. 

    Junto a isso, a concentração humana em um mesmo território aumentou a poluição e a produção de resíduos, favorecendo a proliferação de vetores. 

    Por sua vez, a eliminação de dejetos em fontes de água resultou na intensificação das infecções por parasitas intestinais e favoreceu a transmissão de doenças bacterianas e virais. 

    Assim, as alterações ambientais decorrentes da mudança de hábitos e do modo de vida, associadas à falta de saneamento, levaram ao aparecimento de doenças que ainda hoje afetam milhões de pessoas.


(Fonte: Fundação Oswaldo Cruz— Adaptado.)

De acordo com as informações do texto, o que motivou as mudanças sociais humanas foi: 
Alternativas
Q2297876 Português

Saneamento e Saúde 


    A noção da relação entre a água, os dejetos e a saúde data de milênios e se originou quando a humanidade mudou sua relação com o ambiente, e a vida se tornou crescentemente sedentária, associada à necessidade de práticas agrícolas.

    A introdução desse modo de vida promoveu uma transformação na maneira de o homem se relacionar socialmente, ao surgirem as primeiras aglomerações humanas. 

    Junto com a transformação das relações sociais, o advento da agricultura mudou a forma de o homem se relacionar com a natureza, o que repercutiu no aparecimento de diversas doenças. 

    A derrubada das florestas e o convívio próximo com animais promoveram mudanças no ciclo de vetores e um maior contato do homem com patógenos causadores de doenças nos animais, agora domesticados. 

    Junto a isso, a concentração humana em um mesmo território aumentou a poluição e a produção de resíduos, favorecendo a proliferação de vetores. 

    Por sua vez, a eliminação de dejetos em fontes de água resultou na intensificação das infecções por parasitas intestinais e favoreceu a transmissão de doenças bacterianas e virais. 

    Assim, as alterações ambientais decorrentes da mudança de hábitos e do modo de vida, associadas à falta de saneamento, levaram ao aparecimento de doenças que ainda hoje afetam milhões de pessoas.


(Fonte: Fundação Oswaldo Cruz— Adaptado.)

Com base na leitura global do texto, assinalar uma informação que NÃO pode ser deduzida por meio dele:  
Alternativas
Q2297807 Português

A triste realidade do trabalho infantil 


Número cresce e, por causa da pandemia, tende a piorar ainda mais no próximo ano. Criança tem o direito de brincar e ir para a escola. 


     A afirmação não poderia estar mais correta, mas, infelizmente, não é a realidade para cerca de 160 milhões de jovens em todo o mundo. 

     Segundo o UNICEF, esse é o número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil. O índice voltou a crescer após uma tendência de queda registrada entre 2000 e 2016. E o que já está ruim pode ficar ainda pior: a entidade alerta que outros 8,9 milhões correm o risco de ingressar nessa condição até 2022, como resultado da crise causada pela pandemia da Covid-19. 

     A pobreza extrema é a principal razão que leva as crianças ao trabalho. 

     Nas grandes metrópoles, por exemplo, é comum vermos crianças nos faróis, vendendo balas ou até fazendo malabarismo. Apesar de as cenas cortarem o coração e termos vontade de ajudar, especialistas dizem que dar dinheiro não é o correto a fazer, pois isso incentiva os jovens a permanecerem nas ruas. E, assim, as chances de não estarem na escola ou largarem os estudos muito cedo aumentam. Uma alternativa é ajudar instituições que oferecem apoio psicológico e social aos seus familiares. 

     Além do problema básico de não estarem na escola, o trabalho infantil traz outras diversas consequências para as crianças. Atuar na agricultura, com o plantio de cana de açúcar, por exemplo, que é muito comum no Brasil, pode resultar em doenças musculares e ósseas; na pesca, em exposição excessiva ao sol e em problemas com o sono; e, na mineração, em doenças respiratórias. Em todos os casos, há grandes chances de os jovens terem problemas psicológicos e serem privados de sua infância, seu potencial e sua dignidade. Ou seja, trabalhar é prejudicial ao seu desenvolvimento físico e mental em diversos aspectos.

(Fonte: Moderna — adaptado.)

De acordo com as ideias do texto, é INCORRETO afirmar que: 
Alternativas
Q2297787 Português

Imagem associada para resolução da questão

(Disponível em: https://pt-br.facebook.com/linguaportuguesa07/posts/mais-tirinhas-wwwlinguaportuguesablogbrtirinhas-relacionadas-as-letras/2736670563013564/)


É possível inferir, com base na leitura realizada, que o papel do professor é:

Alternativas
Q2297780 Português

Como contribuir com a formação de leitores nos Anos Finais do Fundamental?


É importante ouvir os interesses dos alunos, abrir espaço para debates e reflexões e colocar as obras em diálogo com a realidade dos estudantes


[...] 


Michelli, atualmente com 36 anos, se formou em Letras e se especializou em Gestão de Bibliotecas Escolares pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Hoje, atua como docente de Língua Portuguesa dos Anos Finais do Ensino Fundamental na EBM Paulina Wagner, em Blumenau, e na EEF Clara Donner, em Timbó, ambas no interior de Santa Catarina. Em 2020, ela foi uma das 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 com o projeto O podcast na sala de aula: oralidade, escrita e tecnologia.


        Mas, mesmo apreciando muito os livros e suas histórias, Michelli tinha dificuldade de inserir o trabalho com a leitura literária nas suas aulas. “Eu incentivava [a leitura] e conversava com os alunos, mas era difícil trabalhar um livro inteiro, especialmente por serem textos mais longos e pela questão do acesso às obras. Por mais que a gente tivesse biblioteca, não contávamos ainda com o PNLD [Programa Nacional do Livro Didático] Literário, que garantiria obras a todos os alunos. Isso era um entrave”, diz.


Contextualização, discussões e reflexões


Essa realidade começou a mudar em 2019, quando ela fazia mestrado em Letras na UFSC e teve a ideia de desenvolver um projeto literário a partir do livro O menino do dedo verde, clássico infanto-juvenil do escritor francês Maurice Druon. “Em uma das disciplinas do mestrado, nós estudamos alguns critérios de qualidade de uma obra infantojuvenil. Achei esse livro uma ótima escolha por ter também capítulos curtos e algumas ilustrações, adequado para turmas de 6º ano, com as quais trabalhei”, explica. Com isso, a professora partiu para a prática em sala de aula: primeiro, fez a apresentação do autor, contextualizando a época em que a obra foi escrita. Depois, para motivar a leitura, relacionou o livro com outros textos que dialogam com a história. Como o enredo aborda a temática da guerra, Michelli decidiu mostrar o trailer do filme O menino do pijama listrado — inspirado no livro homônimo, de John Boyne — a fim de ampliar o olhar dos alunos para um dos assuntos tratados. Os primeiros capítulos foram lidos em sala, e depois a professora combinou prazos para que os estudantes lessem e pudessem discutir alguns temas em grupo.

 

Para ela, a prática de sempre contextualizar algum assunto que aparecia na história e recorrer a materiais complementares foi essencial para engajar a turma, que se envolveu com a trama. Em um trecho da obra, o garoto visita uma cadeia, e esse foi o gancho para falar com os alunos sobre o sistema prisional brasileiro. Com o auxílio de um infográfico, a conversa rendeu um bom debate sobre direitos humanos. Em outra parte da história, o menino conhece uma favela e usa o poder de seu dedo para florir o lugar. Com isso, Michelli propôs uma discussão que partiu de uma reportagem sobre artistas plásticos que fizeram diversas pinturas nas casas de uma comunidade no México, ação que colaborou para melhorar a segurança das pessoas.


“São discussões que acontecem a partir da história, e não cobranças com questionários e fichas de leitura. A proposta é sempre ter conversas sobre algo que surgiu na narrativa, mas que vai mais a fundo em questões que nos fazem refletir, que é uma das coisas que a literatura provoca na gente”, comenta. Para encerrar o trabalho com O menino do dedo verde, as crianças plantaram mudinhas de flores em um vaso e o entregaram para alguém que estava precisando de um gesto de gentileza. Depois, escreveram um depoimento sobre esse momento.

[...]

(Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/21390/ como-contribuir-com-a-formacao-de-leitores-nos-anos-finaisdo-fundamental)

 

Leia o fragmento retirado do Texto II: 


“Depois, para motivar a leitura, relacionou o livro com outros textos que dialogam com a história. Como o enredo aborda a temática da guerra, Michelli decidiu mostrar o trailer do filme O menino do pijama listrado — inspirado no livro homônimo, de John Boyne — a fim de ampliar o olhar dos alunos para um dos assuntos tratados.” 


Agora, leia um trecho retirado dos Parâmetros Curriculares Nacionais sobre a especificidade do gênero literário: 


“Como representação um modo particular de dar forma às experiências humanas, o texto literário não está limitado a critérios de observação fatual (ao que ocorre e ao que se testemunha), nem às categorias e relações que constituem os padrões dos modos de ver a realidade e, menos ainda, às famílias de noções/conceitos com que se pretende descrever e explicar diferentes planos da realidade (o discurso científico). Ele os ultrapassa e transgride para constituir outra mediação de sentidos entre o sujeito e o mundo, entre a imagem e o objeto, mediação que autoriza a ficção e a reinterpretação do mundo atual e dos mundos possíveis.”


Considerando a análise dos fragmentos supracitados, é CORRETO afirmar que: 

Alternativas
Q2297777 Português

Como contribuir com a formação de leitores nos Anos Finais do Fundamental?


É importante ouvir os interesses dos alunos, abrir espaço para debates e reflexões e colocar as obras em diálogo com a realidade dos estudantes


[...] 


Michelli, atualmente com 36 anos, se formou em Letras e se especializou em Gestão de Bibliotecas Escolares pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Hoje, atua como docente de Língua Portuguesa dos Anos Finais do Ensino Fundamental na EBM Paulina Wagner, em Blumenau, e na EEF Clara Donner, em Timbó, ambas no interior de Santa Catarina. Em 2020, ela foi uma das 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 com o projeto O podcast na sala de aula: oralidade, escrita e tecnologia.


        Mas, mesmo apreciando muito os livros e suas histórias, Michelli tinha dificuldade de inserir o trabalho com a leitura literária nas suas aulas. “Eu incentivava [a leitura] e conversava com os alunos, mas era difícil trabalhar um livro inteiro, especialmente por serem textos mais longos e pela questão do acesso às obras. Por mais que a gente tivesse biblioteca, não contávamos ainda com o PNLD [Programa Nacional do Livro Didático] Literário, que garantiria obras a todos os alunos. Isso era um entrave”, diz.


Contextualização, discussões e reflexões


Essa realidade começou a mudar em 2019, quando ela fazia mestrado em Letras na UFSC e teve a ideia de desenvolver um projeto literário a partir do livro O menino do dedo verde, clássico infanto-juvenil do escritor francês Maurice Druon. “Em uma das disciplinas do mestrado, nós estudamos alguns critérios de qualidade de uma obra infantojuvenil. Achei esse livro uma ótima escolha por ter também capítulos curtos e algumas ilustrações, adequado para turmas de 6º ano, com as quais trabalhei”, explica. Com isso, a professora partiu para a prática em sala de aula: primeiro, fez a apresentação do autor, contextualizando a época em que a obra foi escrita. Depois, para motivar a leitura, relacionou o livro com outros textos que dialogam com a história. Como o enredo aborda a temática da guerra, Michelli decidiu mostrar o trailer do filme O menino do pijama listrado — inspirado no livro homônimo, de John Boyne — a fim de ampliar o olhar dos alunos para um dos assuntos tratados. Os primeiros capítulos foram lidos em sala, e depois a professora combinou prazos para que os estudantes lessem e pudessem discutir alguns temas em grupo.

 

Para ela, a prática de sempre contextualizar algum assunto que aparecia na história e recorrer a materiais complementares foi essencial para engajar a turma, que se envolveu com a trama. Em um trecho da obra, o garoto visita uma cadeia, e esse foi o gancho para falar com os alunos sobre o sistema prisional brasileiro. Com o auxílio de um infográfico, a conversa rendeu um bom debate sobre direitos humanos. Em outra parte da história, o menino conhece uma favela e usa o poder de seu dedo para florir o lugar. Com isso, Michelli propôs uma discussão que partiu de uma reportagem sobre artistas plásticos que fizeram diversas pinturas nas casas de uma comunidade no México, ação que colaborou para melhorar a segurança das pessoas.


“São discussões que acontecem a partir da história, e não cobranças com questionários e fichas de leitura. A proposta é sempre ter conversas sobre algo que surgiu na narrativa, mas que vai mais a fundo em questões que nos fazem refletir, que é uma das coisas que a literatura provoca na gente”, comenta. Para encerrar o trabalho com O menino do dedo verde, as crianças plantaram mudinhas de flores em um vaso e o entregaram para alguém que estava precisando de um gesto de gentileza. Depois, escreveram um depoimento sobre esse momento.

[...]

(Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/21390/ como-contribuir-com-a-formacao-de-leitores-nos-anos-finaisdo-fundamental)

 

Sobre o texto lido, é possível inferir que 
Alternativas
Q2297776 Português

Como contribuir com a formação de leitores nos Anos Finais do Fundamental?


É importante ouvir os interesses dos alunos, abrir espaço para debates e reflexões e colocar as obras em diálogo com a realidade dos estudantes


[...] 


Michelli, atualmente com 36 anos, se formou em Letras e se especializou em Gestão de Bibliotecas Escolares pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Hoje, atua como docente de Língua Portuguesa dos Anos Finais do Ensino Fundamental na EBM Paulina Wagner, em Blumenau, e na EEF Clara Donner, em Timbó, ambas no interior de Santa Catarina. Em 2020, ela foi uma das 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 com o projeto O podcast na sala de aula: oralidade, escrita e tecnologia.


        Mas, mesmo apreciando muito os livros e suas histórias, Michelli tinha dificuldade de inserir o trabalho com a leitura literária nas suas aulas. “Eu incentivava [a leitura] e conversava com os alunos, mas era difícil trabalhar um livro inteiro, especialmente por serem textos mais longos e pela questão do acesso às obras. Por mais que a gente tivesse biblioteca, não contávamos ainda com o PNLD [Programa Nacional do Livro Didático] Literário, que garantiria obras a todos os alunos. Isso era um entrave”, diz.


Contextualização, discussões e reflexões


Essa realidade começou a mudar em 2019, quando ela fazia mestrado em Letras na UFSC e teve a ideia de desenvolver um projeto literário a partir do livro O menino do dedo verde, clássico infanto-juvenil do escritor francês Maurice Druon. “Em uma das disciplinas do mestrado, nós estudamos alguns critérios de qualidade de uma obra infantojuvenil. Achei esse livro uma ótima escolha por ter também capítulos curtos e algumas ilustrações, adequado para turmas de 6º ano, com as quais trabalhei”, explica. Com isso, a professora partiu para a prática em sala de aula: primeiro, fez a apresentação do autor, contextualizando a época em que a obra foi escrita. Depois, para motivar a leitura, relacionou o livro com outros textos que dialogam com a história. Como o enredo aborda a temática da guerra, Michelli decidiu mostrar o trailer do filme O menino do pijama listrado — inspirado no livro homônimo, de John Boyne — a fim de ampliar o olhar dos alunos para um dos assuntos tratados. Os primeiros capítulos foram lidos em sala, e depois a professora combinou prazos para que os estudantes lessem e pudessem discutir alguns temas em grupo.

 

Para ela, a prática de sempre contextualizar algum assunto que aparecia na história e recorrer a materiais complementares foi essencial para engajar a turma, que se envolveu com a trama. Em um trecho da obra, o garoto visita uma cadeia, e esse foi o gancho para falar com os alunos sobre o sistema prisional brasileiro. Com o auxílio de um infográfico, a conversa rendeu um bom debate sobre direitos humanos. Em outra parte da história, o menino conhece uma favela e usa o poder de seu dedo para florir o lugar. Com isso, Michelli propôs uma discussão que partiu de uma reportagem sobre artistas plásticos que fizeram diversas pinturas nas casas de uma comunidade no México, ação que colaborou para melhorar a segurança das pessoas.


“São discussões que acontecem a partir da história, e não cobranças com questionários e fichas de leitura. A proposta é sempre ter conversas sobre algo que surgiu na narrativa, mas que vai mais a fundo em questões que nos fazem refletir, que é uma das coisas que a literatura provoca na gente”, comenta. Para encerrar o trabalho com O menino do dedo verde, as crianças plantaram mudinhas de flores em um vaso e o entregaram para alguém que estava precisando de um gesto de gentileza. Depois, escreveram um depoimento sobre esse momento.

[...]

(Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/21390/ como-contribuir-com-a-formacao-de-leitores-nos-anos-finaisdo-fundamental)

 

Com base na leitura realizada, é possível considerar como propósito comunicativo do Texto II o livre comentário a seguir: 
Alternativas
Q2297769 Português
    Ao estudar uma nova linguagem de sinais desenvolvida por crianças surdas da Nicarágua, linguistas afirmam ter confirmado a existência de mecanismos universais que facilitam a aquisição de uma língua, seja ela falada ou não. Os resultados somam-se a várias outras evidências de que crianças possuem habilidades inatas capazes de dar à linguagem sua estrutura fundamental. O artigo foi publicado na revista Science em 17 de setembro de 2004.

    Como falariam crianças naufragadas em uma ilha deserta que cresceram sem pais que lhes pudessem ensinar uma língua? Considerando-se a linguagem como uma invenção cultural passada de geração em geração, a resposta seria que essas crianças infortunadas não falariam língua alguma. As tábulas rasas de suas mentes não poderiam ser preenchidas com uma língua. Talvez, conseguissem comunicar-se com berros e grunhidos, mas nunca chegariam a utilizar algo tão sofisticado como uma língua natural, correto? Resposta: não. E vejamos por quê.

    Primeiramente, vale perguntar: como saberíamos que nossas crianças não se degradariam ao nível de babuínos? Mesmo não podendo, por óbvias razões éticas, fazer um experimento desse gênero em alguma ilha do Pacífico, temos bastante certeza de que elas estariam aptas a inventar uma língua tão expressiva como qualquer outra existente hoje. Uma forte evidência nesse sentido vem de uma comunidade que, em circunstâncias semelhantes, sem ouvir palavras, elaborou uma língua natural própria, começando do nada.

    Surgiu na Nicarágua uma língua completa, o Idioma Nicaraguense de Sinais – ou ISN, do espanhol, Idioma de Signos Nicaraguense –, inventado por crianças surdas daquele país. Essa invenção foi descrita por Ann Senghas, da Universidade Colúmbia (Estados Unidos), Sotaro Kita, da Universidade de Bristol (Reino Unido), e Asli Özyürek, da Universidade de Nijmegen (Holanda). Esse grupo de linguistas estudou essa comunidade nicaraguense e observou como os surdos exprimiam informações sobre objetos em movimento

    Crianças surdas da Nicarágua mostraram uma habilidade inata quando inventaram uma língua de sinais rica e complexa.

    O ISN é uma língua que apareceu no início da década de 1980, quando surdos nicaraguenses – após longos anos de tentativas fracassadas de ensinar a eles o espanhol utilizando para isso instrutores sem deficiência auditiva – foram finalmente juntados com outros surdos. Uma vez reunidos em grupos, eles começaram a utilizar algo que, no início, se parecia com um sistema pantomímico imperfeito que usamos quando queremos nos comunicar sem palavras. Mas esse sistema cru logo se transformou em uma verdadeira língua: as crianças surdas que chegavam àquelas comunidades aprendiam o sistema e acabavam aperfeiçoando-o com regras linguísticas.

    É preciso enfatizar aqui que é falsa – apesar de disseminada – a noção de que línguas de sinais sejam sistemas primitivos, inferiores às línguas faladas. Os sinais não são meros gestos mímicos que podem ser decifrados por observadores não familiarizados com essas línguas. Embora a versão inicial do ISN utilizasse gestos gráficos que simplesmente imitavam a forma de objetos ou movimentos, as crianças expostas a esse sistema mudaram-no, decompondo os gestos em elementos menores que já não tinham esse valor imitativo. Esses sinais, bem como as regras que os combinam em longas frases, são exatamente tão obscuros para não iniciados como seria, por exemplo, o finlandês para quem nunca o tenha aprendido.

    No estudo de Senghas e colegas, os participantes viam um filme animado cujo enredo eles tinham depois que contar com o uso de sinais. O filme mostrava um gato que engole uma bola de boliche e cai tombando por uma ruela íngreme. Os surdos que utilizavam a primeira versão do sistema mostravam a queda do gato com a mão literalmente traçando um percurso espiral para baixo. Já as crianças que usavam a versão aperfeiçoada do ISN exprimiam a mensagem com dois sinais separados, um com o sentido ‘para baixo’ e outro que significava ‘rolando’.

    Os autores do estudo sugerem que essa divisão da mensagem em modo e direção pode ser uma das características universais da linguagem humana. A maioria das línguas aproveita essa divisão e exprime esses dois fragmentos de mensagem com duas palavras separadas (‘O gato desce rolando’). O interessante é que as crianças, ao aprenderem o ISN, não foram ‘ensinadas’ sobre esse fato. Foram elas mesmas que desenvolveram essa e outras características para o ISN, enriquecendo, assim, o sistema que receberam e que ainda não era uma língua completa.

    Linguistas acreditam que a divisão-direção modo é um dos elementos que compõem o conhecimento inato que facilita a aquisição de uma língua, seja ela falada, seja de sinais. Há quem sugira que, sem esse conhecimento, nem mesmo seria possível adquirir qualquer língua. Segundo o linguista norte-americano Noam Chomsky, essa capacidade inata para a aprendizagem de uma língua reside no chamado dispositivo de aquisição de linguagem, parte do cérebro que se atrofia com a idade. Não podendo contar com o apoio desse dispositivo, pessoas adultas que aprendem línguas estrangeiras têm dificuldades em assimilar os detalhes da gramática. Assim, aprendizes estrangeiros com pouca competência na gramática portuguesa podem não ver muita diferença entre as frases ‘O bispo voltou a se divertir’ e ‘O bispo voltou sem se divertir’.

    Analogamente, os pais que aprendem ISN para poder conversar com seus filhos surdos nunca chegam ao nível de falante materno e, aos olhos dos surdos, cometem erros semelhantes àqueles que estrangeiros costumam cometer ao tentar falar, por exemplo, o português.

    O excelente trabalho de Senghas e colegas não só mostra algo que pode ser um ingrediente básico de nossa linguagem, mas também capta um momento no qual ele é acrescentado à sopa primordial no nascimento espontâneo de uma língua humana. 

SZCZESNIAK, K. Nascimento de uma língua. In: Revista Ciência Hoje [CH 210]. Último acesso: 09 de junho de 2023. Disponível em: <https://cienciahoje.org.br/artigo/nascimento-deuma-lingua//> (Adaptado).

No fragmento “As tábulas rasas de suas mentes não poderiam ser preenchidas com uma língua”, a expressão “tábula rasa” faz oposição ao conceito de: 
Alternativas
Q2297767 Português
    Ao estudar uma nova linguagem de sinais desenvolvida por crianças surdas da Nicarágua, linguistas afirmam ter confirmado a existência de mecanismos universais que facilitam a aquisição de uma língua, seja ela falada ou não. Os resultados somam-se a várias outras evidências de que crianças possuem habilidades inatas capazes de dar à linguagem sua estrutura fundamental. O artigo foi publicado na revista Science em 17 de setembro de 2004.

    Como falariam crianças naufragadas em uma ilha deserta que cresceram sem pais que lhes pudessem ensinar uma língua? Considerando-se a linguagem como uma invenção cultural passada de geração em geração, a resposta seria que essas crianças infortunadas não falariam língua alguma. As tábulas rasas de suas mentes não poderiam ser preenchidas com uma língua. Talvez, conseguissem comunicar-se com berros e grunhidos, mas nunca chegariam a utilizar algo tão sofisticado como uma língua natural, correto? Resposta: não. E vejamos por quê.

    Primeiramente, vale perguntar: como saberíamos que nossas crianças não se degradariam ao nível de babuínos? Mesmo não podendo, por óbvias razões éticas, fazer um experimento desse gênero em alguma ilha do Pacífico, temos bastante certeza de que elas estariam aptas a inventar uma língua tão expressiva como qualquer outra existente hoje. Uma forte evidência nesse sentido vem de uma comunidade que, em circunstâncias semelhantes, sem ouvir palavras, elaborou uma língua natural própria, começando do nada.

    Surgiu na Nicarágua uma língua completa, o Idioma Nicaraguense de Sinais – ou ISN, do espanhol, Idioma de Signos Nicaraguense –, inventado por crianças surdas daquele país. Essa invenção foi descrita por Ann Senghas, da Universidade Colúmbia (Estados Unidos), Sotaro Kita, da Universidade de Bristol (Reino Unido), e Asli Özyürek, da Universidade de Nijmegen (Holanda). Esse grupo de linguistas estudou essa comunidade nicaraguense e observou como os surdos exprimiam informações sobre objetos em movimento

    Crianças surdas da Nicarágua mostraram uma habilidade inata quando inventaram uma língua de sinais rica e complexa.

    O ISN é uma língua que apareceu no início da década de 1980, quando surdos nicaraguenses – após longos anos de tentativas fracassadas de ensinar a eles o espanhol utilizando para isso instrutores sem deficiência auditiva – foram finalmente juntados com outros surdos. Uma vez reunidos em grupos, eles começaram a utilizar algo que, no início, se parecia com um sistema pantomímico imperfeito que usamos quando queremos nos comunicar sem palavras. Mas esse sistema cru logo se transformou em uma verdadeira língua: as crianças surdas que chegavam àquelas comunidades aprendiam o sistema e acabavam aperfeiçoando-o com regras linguísticas.

    É preciso enfatizar aqui que é falsa – apesar de disseminada – a noção de que línguas de sinais sejam sistemas primitivos, inferiores às línguas faladas. Os sinais não são meros gestos mímicos que podem ser decifrados por observadores não familiarizados com essas línguas. Embora a versão inicial do ISN utilizasse gestos gráficos que simplesmente imitavam a forma de objetos ou movimentos, as crianças expostas a esse sistema mudaram-no, decompondo os gestos em elementos menores que já não tinham esse valor imitativo. Esses sinais, bem como as regras que os combinam em longas frases, são exatamente tão obscuros para não iniciados como seria, por exemplo, o finlandês para quem nunca o tenha aprendido.

    No estudo de Senghas e colegas, os participantes viam um filme animado cujo enredo eles tinham depois que contar com o uso de sinais. O filme mostrava um gato que engole uma bola de boliche e cai tombando por uma ruela íngreme. Os surdos que utilizavam a primeira versão do sistema mostravam a queda do gato com a mão literalmente traçando um percurso espiral para baixo. Já as crianças que usavam a versão aperfeiçoada do ISN exprimiam a mensagem com dois sinais separados, um com o sentido ‘para baixo’ e outro que significava ‘rolando’.

    Os autores do estudo sugerem que essa divisão da mensagem em modo e direção pode ser uma das características universais da linguagem humana. A maioria das línguas aproveita essa divisão e exprime esses dois fragmentos de mensagem com duas palavras separadas (‘O gato desce rolando’). O interessante é que as crianças, ao aprenderem o ISN, não foram ‘ensinadas’ sobre esse fato. Foram elas mesmas que desenvolveram essa e outras características para o ISN, enriquecendo, assim, o sistema que receberam e que ainda não era uma língua completa.

    Linguistas acreditam que a divisão-direção modo é um dos elementos que compõem o conhecimento inato que facilita a aquisição de uma língua, seja ela falada, seja de sinais. Há quem sugira que, sem esse conhecimento, nem mesmo seria possível adquirir qualquer língua. Segundo o linguista norte-americano Noam Chomsky, essa capacidade inata para a aprendizagem de uma língua reside no chamado dispositivo de aquisição de linguagem, parte do cérebro que se atrofia com a idade. Não podendo contar com o apoio desse dispositivo, pessoas adultas que aprendem línguas estrangeiras têm dificuldades em assimilar os detalhes da gramática. Assim, aprendizes estrangeiros com pouca competência na gramática portuguesa podem não ver muita diferença entre as frases ‘O bispo voltou a se divertir’ e ‘O bispo voltou sem se divertir’.

    Analogamente, os pais que aprendem ISN para poder conversar com seus filhos surdos nunca chegam ao nível de falante materno e, aos olhos dos surdos, cometem erros semelhantes àqueles que estrangeiros costumam cometer ao tentar falar, por exemplo, o português.

    O excelente trabalho de Senghas e colegas não só mostra algo que pode ser um ingrediente básico de nossa linguagem, mas também capta um momento no qual ele é acrescentado à sopa primordial no nascimento espontâneo de uma língua humana. 

SZCZESNIAK, K. Nascimento de uma língua. In: Revista Ciência Hoje [CH 210]. Último acesso: 09 de junho de 2023. Disponível em: <https://cienciahoje.org.br/artigo/nascimento-deuma-lingua//> (Adaptado).

Assinale a alternativa que apresenta um fragmento em que se verifica a relação de comparação.
Alternativas
Q2297756 Português
    Ao estudar uma nova linguagem de sinais desenvolvida por crianças surdas da Nicarágua, linguistas afirmam ter confirmado a existência de mecanismos universais que facilitam a aquisição de uma língua, seja ela falada ou não. Os resultados somam-se a várias outras evidências de que crianças possuem habilidades inatas capazes de dar à linguagem sua estrutura fundamental. O artigo foi publicado na revista Science em 17 de setembro de 2004.

    Como falariam crianças naufragadas em uma ilha deserta que cresceram sem pais que lhes pudessem ensinar uma língua? Considerando-se a linguagem como uma invenção cultural passada de geração em geração, a resposta seria que essas crianças infortunadas não falariam língua alguma. As tábulas rasas de suas mentes não poderiam ser preenchidas com uma língua. Talvez, conseguissem comunicar-se com berros e grunhidos, mas nunca chegariam a utilizar algo tão sofisticado como uma língua natural, correto? Resposta: não. E vejamos por quê.

    Primeiramente, vale perguntar: como saberíamos que nossas crianças não se degradariam ao nível de babuínos? Mesmo não podendo, por óbvias razões éticas, fazer um experimento desse gênero em alguma ilha do Pacífico, temos bastante certeza de que elas estariam aptas a inventar uma língua tão expressiva como qualquer outra existente hoje. Uma forte evidência nesse sentido vem de uma comunidade que, em circunstâncias semelhantes, sem ouvir palavras, elaborou uma língua natural própria, começando do nada.

    Surgiu na Nicarágua uma língua completa, o Idioma Nicaraguense de Sinais – ou ISN, do espanhol, Idioma de Signos Nicaraguense –, inventado por crianças surdas daquele país. Essa invenção foi descrita por Ann Senghas, da Universidade Colúmbia (Estados Unidos), Sotaro Kita, da Universidade de Bristol (Reino Unido), e Asli Özyürek, da Universidade de Nijmegen (Holanda). Esse grupo de linguistas estudou essa comunidade nicaraguense e observou como os surdos exprimiam informações sobre objetos em movimento

    Crianças surdas da Nicarágua mostraram uma habilidade inata quando inventaram uma língua de sinais rica e complexa.

    O ISN é uma língua que apareceu no início da década de 1980, quando surdos nicaraguenses – após longos anos de tentativas fracassadas de ensinar a eles o espanhol utilizando para isso instrutores sem deficiência auditiva – foram finalmente juntados com outros surdos. Uma vez reunidos em grupos, eles começaram a utilizar algo que, no início, se parecia com um sistema pantomímico imperfeito que usamos quando queremos nos comunicar sem palavras. Mas esse sistema cru logo se transformou em uma verdadeira língua: as crianças surdas que chegavam àquelas comunidades aprendiam o sistema e acabavam aperfeiçoando-o com regras linguísticas.

    É preciso enfatizar aqui que é falsa – apesar de disseminada – a noção de que línguas de sinais sejam sistemas primitivos, inferiores às línguas faladas. Os sinais não são meros gestos mímicos que podem ser decifrados por observadores não familiarizados com essas línguas. Embora a versão inicial do ISN utilizasse gestos gráficos que simplesmente imitavam a forma de objetos ou movimentos, as crianças expostas a esse sistema mudaram-no, decompondo os gestos em elementos menores que já não tinham esse valor imitativo. Esses sinais, bem como as regras que os combinam em longas frases, são exatamente tão obscuros para não iniciados como seria, por exemplo, o finlandês para quem nunca o tenha aprendido.

    No estudo de Senghas e colegas, os participantes viam um filme animado cujo enredo eles tinham depois que contar com o uso de sinais. O filme mostrava um gato que engole uma bola de boliche e cai tombando por uma ruela íngreme. Os surdos que utilizavam a primeira versão do sistema mostravam a queda do gato com a mão literalmente traçando um percurso espiral para baixo. Já as crianças que usavam a versão aperfeiçoada do ISN exprimiam a mensagem com dois sinais separados, um com o sentido ‘para baixo’ e outro que significava ‘rolando’.

    Os autores do estudo sugerem que essa divisão da mensagem em modo e direção pode ser uma das características universais da linguagem humana. A maioria das línguas aproveita essa divisão e exprime esses dois fragmentos de mensagem com duas palavras separadas (‘O gato desce rolando’). O interessante é que as crianças, ao aprenderem o ISN, não foram ‘ensinadas’ sobre esse fato. Foram elas mesmas que desenvolveram essa e outras características para o ISN, enriquecendo, assim, o sistema que receberam e que ainda não era uma língua completa.

    Linguistas acreditam que a divisão-direção modo é um dos elementos que compõem o conhecimento inato que facilita a aquisição de uma língua, seja ela falada, seja de sinais. Há quem sugira que, sem esse conhecimento, nem mesmo seria possível adquirir qualquer língua. Segundo o linguista norte-americano Noam Chomsky, essa capacidade inata para a aprendizagem de uma língua reside no chamado dispositivo de aquisição de linguagem, parte do cérebro que se atrofia com a idade. Não podendo contar com o apoio desse dispositivo, pessoas adultas que aprendem línguas estrangeiras têm dificuldades em assimilar os detalhes da gramática. Assim, aprendizes estrangeiros com pouca competência na gramática portuguesa podem não ver muita diferença entre as frases ‘O bispo voltou a se divertir’ e ‘O bispo voltou sem se divertir’.

    Analogamente, os pais que aprendem ISN para poder conversar com seus filhos surdos nunca chegam ao nível de falante materno e, aos olhos dos surdos, cometem erros semelhantes àqueles que estrangeiros costumam cometer ao tentar falar, por exemplo, o português.

    O excelente trabalho de Senghas e colegas não só mostra algo que pode ser um ingrediente básico de nossa linguagem, mas também capta um momento no qual ele é acrescentado à sopa primordial no nascimento espontâneo de uma língua humana. 

SZCZESNIAK, K. Nascimento de uma língua. In: Revista Ciência Hoje [CH 210]. Último acesso: 09 de junho de 2023. Disponível em: <https://cienciahoje.org.br/artigo/nascimento-deuma-lingua//> (Adaptado).

De acordo com o texto, é CORRETO afirmar que: 
Alternativas
Q2297742 Português
            Leitora voraz desde a infância, Renata Pacheco Ventura sempre soube que seria escritora. Nascida no Rio de Janeiro, em 1985, morou por quatro anos nos Estados Unidos, onde começou a cursar comunicação social na Universidade de Houston. Formando-se em jornalismo pela PUC-Rio, escreveu a dissertação 100% Off – O Manual do colonizado, onde analisou a colonização cultural do brasileiro, tema que volta a abordar em A arma escarlate. 
        Trabalhou por três anos fazendo pesquisa e roteiro para cinema-documentário antes de decidir se dedicar exclusivamente ao seu primeiro livro. Nesse meio tempo, implementou uma forma de interação com seus leitores, em que eles podem conversar virtualmente com alguns dos personagens do livro através de redes sociais; fazendo-lhes perguntas, batendo um papo descompromissado ou até mesmo tentando descobrir segredos da trama. Seu objetivo como escritora é contar histórias que divirtam e, ao mesmo tempo, façam o leitor refletir sobre si mesmo e sobre o mundo a sua volta. “Eu não poderia criar uma escola de bruxaria britânica no Rio de Janeiro. A não ser que ela houvesse sido construída e fosse dirigida, até os dias de hoje, por britânicos”.
            Boa Leitura!

Olá, Renata Ventura, é um prazer tê-la conosco no projeto Divulga Escritor. Você é um verdadeiro fenômeno: são poucos os escritores que fazem sucesso tendo apenas um livro publicado. Antes de tudo, parabéns. Conte-nos: quando e como surgiu o seu gosto pela escrita? 
Renata Ventura: Eu sempre quis escrever. Na verdade, sempre gostei de criar histórias; eu pensava em muitas cenas e personagens, que ficavam todos na minha cabeça, mas que eu queria colocar no papel! Nunca gostei de escrever redação para a escola. A ideia de escrever um texto com um tema pré-escolhido pela professora, com um número determinado de páginas, em poucos minutos, nunca me agradou. Eu queria escrever livros gigantes! Com histórias superelaboradas! Haha. Sempre adorei ler e sempre adorei ver filmes. Para mim, os dois são muito parecidos, porque o que mais importa, para mim, é a história a ser contada. O veículo em que ela chega, às vezes, não é importante. Como, no entanto, fazer cinema é mil vezes mais complicado, ainda mais no Brasil, eu preferi a literatura, onde a gente sempre pode colocar mais detalhes e mais reflexões do que em três horas de filme.


Que temas você aborda em seu livro A arma escarlate
Renata Ventura: Nossa! São muitos. Desigualdade social, abandono, analfabetismo, violência, bullying, impulsividade, arrogância, corrupção policial e política, mitologia e história brasileira, drogas, amizade, proteção dos animais, cidadania... é muita coisa.

Em quem você se inspirou para criar Hugo?
Renata Ventura: Ele é muito um produto do meio. Eu fui descobrindo Hugo à medida que ele ia reagindo às ameaçadas que o cercavam, com sua impulsividade, seu egoísmo, sua arrogância, sua raiva. Eu fui vendo que, sem essas características, Hugo provavelmente não teria sobrevivido até os 13 anos de idade. 

Por que você quis criar a Korkovado tão diferente de Hogwarts? Acha mesmo que uma escola de bruxaria no Brasil seria tão diferente assim de uma na Grã-Bretanha? 
Renata Ventura: Sim, sim. Tão diferente quanto as nossas escolas são das escolas britânicas. Com certeza. Nossos bruxos até tentam copiar o modo britânico de ser, porque a gente gosta de tudo que vem de fora, mas o brasileiro (inclusive o bruxo brasileiro) faz tudo meio nas coxas, não se importa muito com a qualidade, acha que vai dar certo apenas com um jeitinho, uma gambiarra, e aí fica uma coisa meio... desorganizada, sem muito planejamento. Eu não poderia criar uma escola de bruxaria britânica no Rio de Janeiro. A não ser que ela houvesse sido construída e fosse dirigida, até os dias de hoje, por britânicos. 

Renata, onde podemos comprar o seu livro?
Renata Ventura: Ele está à venda nas melhores livrarias, mas pode ser comprado também pelo site da Saraiva, da Submarino... (na Submarino, eles se esqueceram de mudar a foto da capa do livro, mas é a capa nova que estão vendendo!) Também é possível comprar comigo autografado! Eu envio o livro pelo correio sem problemas! É só me enviar um e-mail: [email protected], que eu passo as instruções.

De que forma você, hoje, divulga o seu trabalho?
Renata Ventura: Sempre pelas redes sociais (nossa salvação, hehe): Skoob, Facebook etc. E vou muito em eventos. Eventos literários, eventos de RPG, de anime.... São sempre muito divertidos! Adoro conhecer todo mundo. 

Quais seus próximos projetos literários? Ficamos sabendo que vem nova publicação, dá para nos adiantar sobre seu novo livro?
Renata Ventura: Sim, sim, é a continuação de A arma escarlate. Irá se chamar A comissão chapeleira e vai ser mais político do que o primeiro. O vilão principal da série aparece nesse e eu sou apaixonada por ele. 

A série do Hugo Escarlate será composta de quantos livros?
Renata Ventura: Serão 5 livros, com um sexto a respeito do vilão principal.

Quais os principais objetivos do projeto Potter em Orfanatos? Como fazer para conhecer melhor o projeto e participar?
Renata Ventura: O principal objetivo é incentivar o gosto pela leitura nas crianças carentes em orfanatos e casas de acolhimento. Mostrar como a leitura pode ser algo muito divertido e pode levá-las a mundos extraordinários. Para participar, é só procurar pelo projeto Potter em Orfanatos no Facebook e encontrar o grupo de seu estado! 

Quais as melhorias que você citaria para o mercado literário no Brasil?
Renata Ventura: Os leitores brasileiros estão aceitando melhor autores nacionais. Ainda há preconceito, especialmente porque as livrarias e as próprias editoras preferem comprar livros estrangeiros traduzidos do que apostar em novos talentos brasileiros, mas o cenário está mudando! Cada vez surgem mais jovens autores nacionais que lançam livros de fantasia, terror, romance, policial, tudo! E aquela velha noção de que “livro brasileiro” é sinônimo de “Machado de Assis” está, aos poucos, caducando. Não que Machado de Assis seja ruim, muito pelo contrário! É ótimo! Mas precisamos ver que a literatura brasileira não parou no dia em que esses autores clássicos morreram! Mesmo que a maioria das escolas insistam em dizer que sim.

Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista, agradecemos sua participação no projeto Divulga Escritor, muito bom conhecer melhor a escritora Renata Ventura, que mensagem você deixa para nossos leitores?
Renata Ventura: Leiam cada vez mais! E leiam de tudo!!!!

(Adaptado de: https://www.divulgaescritor.com/products/renataventura-entrevista/. Acesso em: 14/07/2023).

Os leitores brasileiros estão aceitando melhor autores nacionais. 


O enunciado acima contém um pressuposto cuja formalização está presente no enunciado da alternativa: 

Alternativas
Q2297739 Português
            Leitora voraz desde a infância, Renata Pacheco Ventura sempre soube que seria escritora. Nascida no Rio de Janeiro, em 1985, morou por quatro anos nos Estados Unidos, onde começou a cursar comunicação social na Universidade de Houston. Formando-se em jornalismo pela PUC-Rio, escreveu a dissertação 100% Off – O Manual do colonizado, onde analisou a colonização cultural do brasileiro, tema que volta a abordar em A arma escarlate. 
        Trabalhou por três anos fazendo pesquisa e roteiro para cinema-documentário antes de decidir se dedicar exclusivamente ao seu primeiro livro. Nesse meio tempo, implementou uma forma de interação com seus leitores, em que eles podem conversar virtualmente com alguns dos personagens do livro através de redes sociais; fazendo-lhes perguntas, batendo um papo descompromissado ou até mesmo tentando descobrir segredos da trama. Seu objetivo como escritora é contar histórias que divirtam e, ao mesmo tempo, façam o leitor refletir sobre si mesmo e sobre o mundo a sua volta. “Eu não poderia criar uma escola de bruxaria britânica no Rio de Janeiro. A não ser que ela houvesse sido construída e fosse dirigida, até os dias de hoje, por britânicos”.
            Boa Leitura!

Olá, Renata Ventura, é um prazer tê-la conosco no projeto Divulga Escritor. Você é um verdadeiro fenômeno: são poucos os escritores que fazem sucesso tendo apenas um livro publicado. Antes de tudo, parabéns. Conte-nos: quando e como surgiu o seu gosto pela escrita? 
Renata Ventura: Eu sempre quis escrever. Na verdade, sempre gostei de criar histórias; eu pensava em muitas cenas e personagens, que ficavam todos na minha cabeça, mas que eu queria colocar no papel! Nunca gostei de escrever redação para a escola. A ideia de escrever um texto com um tema pré-escolhido pela professora, com um número determinado de páginas, em poucos minutos, nunca me agradou. Eu queria escrever livros gigantes! Com histórias superelaboradas! Haha. Sempre adorei ler e sempre adorei ver filmes. Para mim, os dois são muito parecidos, porque o que mais importa, para mim, é a história a ser contada. O veículo em que ela chega, às vezes, não é importante. Como, no entanto, fazer cinema é mil vezes mais complicado, ainda mais no Brasil, eu preferi a literatura, onde a gente sempre pode colocar mais detalhes e mais reflexões do que em três horas de filme.


Que temas você aborda em seu livro A arma escarlate
Renata Ventura: Nossa! São muitos. Desigualdade social, abandono, analfabetismo, violência, bullying, impulsividade, arrogância, corrupção policial e política, mitologia e história brasileira, drogas, amizade, proteção dos animais, cidadania... é muita coisa.

Em quem você se inspirou para criar Hugo?
Renata Ventura: Ele é muito um produto do meio. Eu fui descobrindo Hugo à medida que ele ia reagindo às ameaçadas que o cercavam, com sua impulsividade, seu egoísmo, sua arrogância, sua raiva. Eu fui vendo que, sem essas características, Hugo provavelmente não teria sobrevivido até os 13 anos de idade. 

Por que você quis criar a Korkovado tão diferente de Hogwarts? Acha mesmo que uma escola de bruxaria no Brasil seria tão diferente assim de uma na Grã-Bretanha? 
Renata Ventura: Sim, sim. Tão diferente quanto as nossas escolas são das escolas britânicas. Com certeza. Nossos bruxos até tentam copiar o modo britânico de ser, porque a gente gosta de tudo que vem de fora, mas o brasileiro (inclusive o bruxo brasileiro) faz tudo meio nas coxas, não se importa muito com a qualidade, acha que vai dar certo apenas com um jeitinho, uma gambiarra, e aí fica uma coisa meio... desorganizada, sem muito planejamento. Eu não poderia criar uma escola de bruxaria britânica no Rio de Janeiro. A não ser que ela houvesse sido construída e fosse dirigida, até os dias de hoje, por britânicos. 

Renata, onde podemos comprar o seu livro?
Renata Ventura: Ele está à venda nas melhores livrarias, mas pode ser comprado também pelo site da Saraiva, da Submarino... (na Submarino, eles se esqueceram de mudar a foto da capa do livro, mas é a capa nova que estão vendendo!) Também é possível comprar comigo autografado! Eu envio o livro pelo correio sem problemas! É só me enviar um e-mail: [email protected], que eu passo as instruções.

De que forma você, hoje, divulga o seu trabalho?
Renata Ventura: Sempre pelas redes sociais (nossa salvação, hehe): Skoob, Facebook etc. E vou muito em eventos. Eventos literários, eventos de RPG, de anime.... São sempre muito divertidos! Adoro conhecer todo mundo. 

Quais seus próximos projetos literários? Ficamos sabendo que vem nova publicação, dá para nos adiantar sobre seu novo livro?
Renata Ventura: Sim, sim, é a continuação de A arma escarlate. Irá se chamar A comissão chapeleira e vai ser mais político do que o primeiro. O vilão principal da série aparece nesse e eu sou apaixonada por ele. 

A série do Hugo Escarlate será composta de quantos livros?
Renata Ventura: Serão 5 livros, com um sexto a respeito do vilão principal.

Quais os principais objetivos do projeto Potter em Orfanatos? Como fazer para conhecer melhor o projeto e participar?
Renata Ventura: O principal objetivo é incentivar o gosto pela leitura nas crianças carentes em orfanatos e casas de acolhimento. Mostrar como a leitura pode ser algo muito divertido e pode levá-las a mundos extraordinários. Para participar, é só procurar pelo projeto Potter em Orfanatos no Facebook e encontrar o grupo de seu estado! 

Quais as melhorias que você citaria para o mercado literário no Brasil?
Renata Ventura: Os leitores brasileiros estão aceitando melhor autores nacionais. Ainda há preconceito, especialmente porque as livrarias e as próprias editoras preferem comprar livros estrangeiros traduzidos do que apostar em novos talentos brasileiros, mas o cenário está mudando! Cada vez surgem mais jovens autores nacionais que lançam livros de fantasia, terror, romance, policial, tudo! E aquela velha noção de que “livro brasileiro” é sinônimo de “Machado de Assis” está, aos poucos, caducando. Não que Machado de Assis seja ruim, muito pelo contrário! É ótimo! Mas precisamos ver que a literatura brasileira não parou no dia em que esses autores clássicos morreram! Mesmo que a maioria das escolas insistam em dizer que sim.

Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista, agradecemos sua participação no projeto Divulga Escritor, muito bom conhecer melhor a escritora Renata Ventura, que mensagem você deixa para nossos leitores?
Renata Ventura: Leiam cada vez mais! E leiam de tudo!!!!

(Adaptado de: https://www.divulgaescritor.com/products/renataventura-entrevista/. Acesso em: 14/07/2023).
Denomina-se suporte textual o local físico ou imaterial que serve de base para a materialização de textos. Considerando essa afirmação, assinale a alternativa cujas expressões não designam, ambas, locais que tipicamente servem como suporte para textos como o texto acima.
Alternativas
Q2297540 Português
Informação é poder


    Thomas Hobbes já dizia, em 1668, que “conhecimento é poder”, e não poderia estar mais correto. O conhecimento vem através da informação e, atualmente, a Internet é a maior fonte de informação disponível, podendo ser consultada a qualquer momento e por qualquer um. Enquanto aproveitamos a conexão com a rede para ler textos como este e assistir a vídeos no YouTube, enormes quantidades de informações são coletadas e circulam pela Internet a cada segundo.
    Essas informações coletadas são chamadas de dados e são tão importantes — sobretudo quando armazenados e tratados em massa (o que é conhecido como Big Data, ou megadados) — que, em 2012, foram considerados como o “novo petróleo” durante o Fórum Econômico Mundial (WEF — Davos), por serem uma grande fonte de valor econômico.
     No entanto, o próprio WEF veio retificar que chamar os dados de “novo petróleo” é errado, porque o petróleo é um recurso natural que algum dia vai acabar. Os dados, porém, são infinitos e são produzidos mais e mais a cada minuto!
    Os dados são divididos em duas categorias: os pessoais e os não pessoais. De acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD, Lei nº 13.709/2018), os dados pessoais são aqueles que possibilitam a identificação de uma pessoa. Essa identificação pode ser direta — como o nome completo, RG, CPF —, ou seja, informações que levam diretamente ao indivíduo; ou indireta — como endereço, profissão, gênero —, ou seja, informações que sozinhas não dizem nada, mas que se combinadas podem identificar alguém.
     Já os dados não pessoais são aqueles que não identificam nenhum indivíduo vivente, por exemplo o número de acessos a tal página na web, ou quantas viagens de Uber foram feitas em determinado mês, ou até mesmo quantos casos de COVID-19 foram registrados em determinada cidade. Os dados não pessoais também são produzidos por empresas, como dados relativos à indústria, aos serviços financeiros ou ao agronegócio, por exemplo.
     Atualmente, a Inteligência Artificial (IA) e a Internet das Coisas (IoT) são consideradas grandes fontes geradoras de dados não pessoais, muito utilizadas em processos automatizados de produção industrial. A partir da coleta e da análise dos dados, é possível, por exemplo, avaliar o público de determinada empresa e criar estratégias de marketing personalizadas ou reduzir custos ao melhorar o gerenciamento de estoque e de compras para, dessa forma, aumentar o lucro.  
      Por isso, os dados pessoais e não pessoais são, atualmente, uma das maiores “commodities” da economia mundial, tamanha a sua importância. Como já dizia Thomas Hobbes, "conhecimento é poder", e isso nunca foi tão verdadeiro como hoje em dia. Com a internet trazendo um oceano de informações ao alcance de todos, e com as leis de proteção de dados pessoais como a LGPD definindo as regras, os dados se tornaram um recurso incrivelmente valioso, impulsionando negócios, automação industrial e muito mais.

(Fonte: Instituto Observatório do Direito Autoral — adaptado.)
O artigo de opinião, como um texto argumentativo, tem seus parágrafos interligados por tópicos frasais, isto é, subtemáticas que dão sequência e agregam novos conteúdos à exposição. Nesse sentido, assinalar a alternativa em que a relação parágrafo/temática foi identificada de forma INCORRETA:
Alternativas
Q2297475 Português
Texto I
A falsa promessa do ChatGPT
Versão mais proeminente de Inteligência Artificial codifica uma
concepção errônea de linguagem e conhecimento


Noam Chomsky
Ian Roberts
Jeffrey Watumull*

     Hoje, nossos avanços supostamente revolucionários em inteligência artificial são, de fato, motivo de preocupação e otimismo. Otimismo porque a inteligência é o meio pelo qual resolvemos problemas. Preocupação porque tememos que o tipo mais popular e moderno de IA – o aprendizado de máquina – degrade nossa ciência e rebaixe nossa ética ao incorporar, em nossa tecnologia, uma concepção fundamentalmente falha de linguagem e conhecimento.

    O ChatGPT da OpenAI, o Barddo Google e o Sydney da Microsoft são maravilhas do aprendizado de máquina. De modo geral, eles coletam uma grande quantidade de dados, procuram padrões neles e tornam-se cada vez mais eficientes em gerar respostas estatisticamente prováveis – como linguagem e raciocínio parecidos com os de seres humanos. Esses programas foram saudados como os primeiros lampejos no horizonte da inteligência artificial geral – aquele momento há muito profetizado em que as mentes mecânicas ultrapassarão os cérebros humanos não apenas quantitativamente, em termos de velocidade de processamento e tamanho da memória, mas também qualitativamente, em termos de percepção intelectual, criatividade artística e todas as outras faculdades distintamente humanas.

     Esse dia pode chegar, mas ainda não amanheceu, ao contrário do que se lê em manchetes hiperbólicas e é recebido com investimentos imprudentes. [...]

   A mente humana não é, como o ChatGPT e seus semelhantes, uma pesada máquina estatística para encontrar padrões semelhantes, devorando centenas de terabytes de dados e extrapolando a resposta mais provável numa conversa ou a resposta mais plausível para uma pergunta científica. Pelo contrário, a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que opera com pequenas quantidades de informação; procura não inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas criar explicações. [...]

    De fato, tais programas estão presos numa fase pré-humana ou não humana da evolução cognitiva. Sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não somente o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isso é descrição e previsão –, mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Esses são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência.

     Aqui está um exemplo. Suponha que você esteja segurando uma maçã. Então você deixa a maçã cair. Você observa o resultado e diz: “A maçã cai”. Isso é uma descrição. Uma previsão poderia ter sido a afirmação “A maçã cairá se eu abrir minha mão”. Ambos são valiosos e ambos podem estar corretos. Mas uma explicação é algo mais: inclui não apenas descrições e previsões, mas também conjecturas contrafactuais como “Qualquer objeto parecido cairia”, além da cláusula adicional “por causa da força da gravidade” ou “por causa da curvatura do espaço-tempo”, ou coisa parecida. Essa é uma explicação causal. “A maçã não teria caído se não fosse pela força da gravidade”. Isso é raciocínio.

     O ponto crucial do aprendizado de máquina é a descrição e a previsão; ele não sugere quaisquer mecanismos causais ou leis físicas. Claro, qualquer explicação em estilo humano não é necessariamente correta; somos falíveis. Mas isso faz parte do que significa pensar: para estar certo, deve ser possível estar errado. A inteligência consiste não apenas em conjecturas criativas, mas também em críticas criativas. O pensamento no estilo humano se baseia em possíveis explicações e correção de erros, processo que gradualmente limita as possibilidades que podem ser consideradas racionalmente. [...]

     Mas o ChatGPT e programas semelhantes são, por desígnio, ilimitados no que podem “aprender” (ou seja, memorizar); são incapazes de distinguir o possível do impossível. Ao contrário dos humanos, por exemplo, que são dotados de uma gramática universal que limita as línguas que podemos aprender àquelas com um certo tipo de elegância quase matemática, esses programas aprendem línguas humanamente possíveis e humanamente impossíveis com a mesma facilidade. Enquanto os humanos são limitados nos tipos de explicações que podemos conjeturar racionalmente, os sistemas de aprendizado de máquina podem aprender tanto que a Terra é plana quanto que é redonda. Eles apenas lidam com probabilidades que mudam ao longo do tempo.

     Por esse motivo, as previsões dos sistemas de aprendizado de máquina sempre serão superficiais e duvidosas. [...]

    A verdadeira inteligência também é capaz de pensamento moral. Isso significa restringir a criatividade ilimitada de nossas mentes com um conjunto de princípios éticos que determinam o que deve e o que não deve ser (e, é claro, submeter esses próprios princípios à crítica criativa). Para ser útil, o ChatGPT deve ter o poder de gerar resultados inovadores; para ser aceitável para a maioria de seus usuários, ele deve evitar conteúdo moralmente censurável. Mas os programadores do ChatGPT e de outras maravilhas do aprendizado de máquina têm dificuldade – e continuarão tendo – para atingir esse tipo de equilíbrio. [...]

     Resumindo, o ChatGPT e seus irmãos são constitucionalmente incapazes de equilibrar criatividade com restrição. Eles supergeram (ao mesmo tempo produzindo verdades e falsidades, endossando decisões éticas e antiéticas) ou subgeram (demonstrando falta de compromisso com quaisquer decisões e indiferença com as consequências). Dada a amoralidade, a falsa ciência e a incompetência linguística desses sistemas, podemos apenas rir ou chorar de sua popularidade.



CHOMSKY, N.; ROBERTS, I. e WATUMULL, J. A falsa promessa do CHAT GPT. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/tec/2023/03/a-falsa-promessa-do-chatgpt.shtml. Acesso em 14. ago. 2023. (Adaptado).





Texto II

Inteligência artificial


    Em um nível mais profundo, o pensamento é um processo decididamente analógico. Antes de compreender o mundo em conceitos, ele é comovido pelo mundo, afetado mesmo por ele. O afetivo é essencial para o pensamento humano. A primeira imagem mental é o arrepio da pele. A inteligência artificial não pode pensar, porque não se arrepia. Falta-lhe a dimensão afetivo-analógica, a comoção, que não pode ser captada por dados e informações.

     O pensamento parte de uma totalidade que se antepõe a conceitos, representações e informações. Ele já se move em um campo de experiência, antes de se voltar especificamente para os objetos e fatos que ocorrem nele. [...]
 
    De acordo com Heidegger, a história da filosofia é uma história da tonalidade afetiva fundamental. [...] O páthos é o começo do pensamento. A inteligência artificial é apática, quer dizer, sem páthos, sem paixão. Ela calcula. [...]

  Os big data sugerem um conhecimento absoluto. As coisas revelam suas correlações secretas. Tudo se torna calculável, previsível e controlável. [...] Na realidade, estamos lidando com uma forma bastante primitiva de saber. A mineração de dados expõe correlações. [...] A inteligência mecânica não atinge aquela profundidade escura de um enigma. As informações e os dados não têm profundidade. O pensamento humano é mais do que cálculo e solução de problemas. Ele clareia e ilumina o mundo. Ele produz um mundo completamente outro. Acima de tudo, a inteligência da máquina representa o perigo de que o pensar humano se iguale a ele e se torne a própria máquina. 


HAN, Byung-Chul. Inteligência artificial. InNão coisas: Reviravoltas do mundo da vida. Tradução de Rafael Rodrigues Garcia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022, p. 71-83 (Adaptado).
A partir da relação entre os textos I e II, é correto afirmar que ambos apresentam
Alternativas
Q2297474 Português
Texto I
A falsa promessa do ChatGPT
Versão mais proeminente de Inteligência Artificial codifica uma
concepção errônea de linguagem e conhecimento


Noam Chomsky
Ian Roberts
Jeffrey Watumull*

     Hoje, nossos avanços supostamente revolucionários em inteligência artificial são, de fato, motivo de preocupação e otimismo. Otimismo porque a inteligência é o meio pelo qual resolvemos problemas. Preocupação porque tememos que o tipo mais popular e moderno de IA – o aprendizado de máquina – degrade nossa ciência e rebaixe nossa ética ao incorporar, em nossa tecnologia, uma concepção fundamentalmente falha de linguagem e conhecimento.

    O ChatGPT da OpenAI, o Barddo Google e o Sydney da Microsoft são maravilhas do aprendizado de máquina. De modo geral, eles coletam uma grande quantidade de dados, procuram padrões neles e tornam-se cada vez mais eficientes em gerar respostas estatisticamente prováveis – como linguagem e raciocínio parecidos com os de seres humanos. Esses programas foram saudados como os primeiros lampejos no horizonte da inteligência artificial geral – aquele momento há muito profetizado em que as mentes mecânicas ultrapassarão os cérebros humanos não apenas quantitativamente, em termos de velocidade de processamento e tamanho da memória, mas também qualitativamente, em termos de percepção intelectual, criatividade artística e todas as outras faculdades distintamente humanas.

     Esse dia pode chegar, mas ainda não amanheceu, ao contrário do que se lê em manchetes hiperbólicas e é recebido com investimentos imprudentes. [...]

   A mente humana não é, como o ChatGPT e seus semelhantes, uma pesada máquina estatística para encontrar padrões semelhantes, devorando centenas de terabytes de dados e extrapolando a resposta mais provável numa conversa ou a resposta mais plausível para uma pergunta científica. Pelo contrário, a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que opera com pequenas quantidades de informação; procura não inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas criar explicações. [...]

    De fato, tais programas estão presos numa fase pré-humana ou não humana da evolução cognitiva. Sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não somente o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isso é descrição e previsão –, mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Esses são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência.

     Aqui está um exemplo. Suponha que você esteja segurando uma maçã. Então você deixa a maçã cair. Você observa o resultado e diz: “A maçã cai”. Isso é uma descrição. Uma previsão poderia ter sido a afirmação “A maçã cairá se eu abrir minha mão”. Ambos são valiosos e ambos podem estar corretos. Mas uma explicação é algo mais: inclui não apenas descrições e previsões, mas também conjecturas contrafactuais como “Qualquer objeto parecido cairia”, além da cláusula adicional “por causa da força da gravidade” ou “por causa da curvatura do espaço-tempo”, ou coisa parecida. Essa é uma explicação causal. “A maçã não teria caído se não fosse pela força da gravidade”. Isso é raciocínio.

     O ponto crucial do aprendizado de máquina é a descrição e a previsão; ele não sugere quaisquer mecanismos causais ou leis físicas. Claro, qualquer explicação em estilo humano não é necessariamente correta; somos falíveis. Mas isso faz parte do que significa pensar: para estar certo, deve ser possível estar errado. A inteligência consiste não apenas em conjecturas criativas, mas também em críticas criativas. O pensamento no estilo humano se baseia em possíveis explicações e correção de erros, processo que gradualmente limita as possibilidades que podem ser consideradas racionalmente. [...]

     Mas o ChatGPT e programas semelhantes são, por desígnio, ilimitados no que podem “aprender” (ou seja, memorizar); são incapazes de distinguir o possível do impossível. Ao contrário dos humanos, por exemplo, que são dotados de uma gramática universal que limita as línguas que podemos aprender àquelas com um certo tipo de elegância quase matemática, esses programas aprendem línguas humanamente possíveis e humanamente impossíveis com a mesma facilidade. Enquanto os humanos são limitados nos tipos de explicações que podemos conjeturar racionalmente, os sistemas de aprendizado de máquina podem aprender tanto que a Terra é plana quanto que é redonda. Eles apenas lidam com probabilidades que mudam ao longo do tempo.

     Por esse motivo, as previsões dos sistemas de aprendizado de máquina sempre serão superficiais e duvidosas. [...]

    A verdadeira inteligência também é capaz de pensamento moral. Isso significa restringir a criatividade ilimitada de nossas mentes com um conjunto de princípios éticos que determinam o que deve e o que não deve ser (e, é claro, submeter esses próprios princípios à crítica criativa). Para ser útil, o ChatGPT deve ter o poder de gerar resultados inovadores; para ser aceitável para a maioria de seus usuários, ele deve evitar conteúdo moralmente censurável. Mas os programadores do ChatGPT e de outras maravilhas do aprendizado de máquina têm dificuldade – e continuarão tendo – para atingir esse tipo de equilíbrio. [...]

     Resumindo, o ChatGPT e seus irmãos são constitucionalmente incapazes de equilibrar criatividade com restrição. Eles supergeram (ao mesmo tempo produzindo verdades e falsidades, endossando decisões éticas e antiéticas) ou subgeram (demonstrando falta de compromisso com quaisquer decisões e indiferença com as consequências). Dada a amoralidade, a falsa ciência e a incompetência linguística desses sistemas, podemos apenas rir ou chorar de sua popularidade.



CHOMSKY, N.; ROBERTS, I. e WATUMULL, J. A falsa promessa do CHAT GPT. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/tec/2023/03/a-falsa-promessa-do-chatgpt.shtml. Acesso em 14. ago. 2023. (Adaptado).





Texto II

Inteligência artificial


    Em um nível mais profundo, o pensamento é um processo decididamente analógico. Antes de compreender o mundo em conceitos, ele é comovido pelo mundo, afetado mesmo por ele. O afetivo é essencial para o pensamento humano. A primeira imagem mental é o arrepio da pele. A inteligência artificial não pode pensar, porque não se arrepia. Falta-lhe a dimensão afetivo-analógica, a comoção, que não pode ser captada por dados e informações.

     O pensamento parte de uma totalidade que se antepõe a conceitos, representações e informações. Ele já se move em um campo de experiência, antes de se voltar especificamente para os objetos e fatos que ocorrem nele. [...]
 
    De acordo com Heidegger, a história da filosofia é uma história da tonalidade afetiva fundamental. [...] O páthos é o começo do pensamento. A inteligência artificial é apática, quer dizer, sem páthos, sem paixão. Ela calcula. [...]

  Os big data sugerem um conhecimento absoluto. As coisas revelam suas correlações secretas. Tudo se torna calculável, previsível e controlável. [...] Na realidade, estamos lidando com uma forma bastante primitiva de saber. A mineração de dados expõe correlações. [...] A inteligência mecânica não atinge aquela profundidade escura de um enigma. As informações e os dados não têm profundidade. O pensamento humano é mais do que cálculo e solução de problemas. Ele clareia e ilumina o mundo. Ele produz um mundo completamente outro. Acima de tudo, a inteligência da máquina representa o perigo de que o pensar humano se iguale a ele e se torne a própria máquina. 


HAN, Byung-Chul. Inteligência artificial. InNão coisas: Reviravoltas do mundo da vida. Tradução de Rafael Rodrigues Garcia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022, p. 71-83 (Adaptado).
Leia este parágrafo do texto I.

“Aqui está um exemplo. Suponha que você esteja segurando uma maçã. Então você deixa a maçã cair. Você observa o resultado e diz: “A maçã cai”. Isso é uma descrição. Uma previsão poderia ter sido a afirmação “A maçã cairá se eu abrir minha mão”. Ambos são valiosos e ambos podem estar corretos. Mas uma explicação é algo mais: inclui não apenas descrições e previsões, mas também conjecturas contrafactuais como “Qualquer objeto parecido cairia”, além da cláusula adicional “por causa da força da gravidade” ou “por causa da curvatura do espaço-tempo”, ou coisa parecida. Essa é uma explicação causal. “A maçã não teria caído se não fosse pela força da gravidade”. Isso é raciocínio.”

Dentre as sentenças do texto II, destacadas a seguir, a que ilustra o conceito de “explicação”, presente nesse trecho do texto I, é:
Alternativas
Q2297473 Português
Texto I
A falsa promessa do ChatGPT
Versão mais proeminente de Inteligência Artificial codifica uma
concepção errônea de linguagem e conhecimento


Noam Chomsky
Ian Roberts
Jeffrey Watumull*

     Hoje, nossos avanços supostamente revolucionários em inteligência artificial são, de fato, motivo de preocupação e otimismo. Otimismo porque a inteligência é o meio pelo qual resolvemos problemas. Preocupação porque tememos que o tipo mais popular e moderno de IA – o aprendizado de máquina – degrade nossa ciência e rebaixe nossa ética ao incorporar, em nossa tecnologia, uma concepção fundamentalmente falha de linguagem e conhecimento.

    O ChatGPT da OpenAI, o Barddo Google e o Sydney da Microsoft são maravilhas do aprendizado de máquina. De modo geral, eles coletam uma grande quantidade de dados, procuram padrões neles e tornam-se cada vez mais eficientes em gerar respostas estatisticamente prováveis – como linguagem e raciocínio parecidos com os de seres humanos. Esses programas foram saudados como os primeiros lampejos no horizonte da inteligência artificial geral – aquele momento há muito profetizado em que as mentes mecânicas ultrapassarão os cérebros humanos não apenas quantitativamente, em termos de velocidade de processamento e tamanho da memória, mas também qualitativamente, em termos de percepção intelectual, criatividade artística e todas as outras faculdades distintamente humanas.

     Esse dia pode chegar, mas ainda não amanheceu, ao contrário do que se lê em manchetes hiperbólicas e é recebido com investimentos imprudentes. [...]

   A mente humana não é, como o ChatGPT e seus semelhantes, uma pesada máquina estatística para encontrar padrões semelhantes, devorando centenas de terabytes de dados e extrapolando a resposta mais provável numa conversa ou a resposta mais plausível para uma pergunta científica. Pelo contrário, a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que opera com pequenas quantidades de informação; procura não inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas criar explicações. [...]

    De fato, tais programas estão presos numa fase pré-humana ou não humana da evolução cognitiva. Sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não somente o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isso é descrição e previsão –, mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Esses são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência.

     Aqui está um exemplo. Suponha que você esteja segurando uma maçã. Então você deixa a maçã cair. Você observa o resultado e diz: “A maçã cai”. Isso é uma descrição. Uma previsão poderia ter sido a afirmação “A maçã cairá se eu abrir minha mão”. Ambos são valiosos e ambos podem estar corretos. Mas uma explicação é algo mais: inclui não apenas descrições e previsões, mas também conjecturas contrafactuais como “Qualquer objeto parecido cairia”, além da cláusula adicional “por causa da força da gravidade” ou “por causa da curvatura do espaço-tempo”, ou coisa parecida. Essa é uma explicação causal. “A maçã não teria caído se não fosse pela força da gravidade”. Isso é raciocínio.

     O ponto crucial do aprendizado de máquina é a descrição e a previsão; ele não sugere quaisquer mecanismos causais ou leis físicas. Claro, qualquer explicação em estilo humano não é necessariamente correta; somos falíveis. Mas isso faz parte do que significa pensar: para estar certo, deve ser possível estar errado. A inteligência consiste não apenas em conjecturas criativas, mas também em críticas criativas. O pensamento no estilo humano se baseia em possíveis explicações e correção de erros, processo que gradualmente limita as possibilidades que podem ser consideradas racionalmente. [...]

     Mas o ChatGPT e programas semelhantes são, por desígnio, ilimitados no que podem “aprender” (ou seja, memorizar); são incapazes de distinguir o possível do impossível. Ao contrário dos humanos, por exemplo, que são dotados de uma gramática universal que limita as línguas que podemos aprender àquelas com um certo tipo de elegância quase matemática, esses programas aprendem línguas humanamente possíveis e humanamente impossíveis com a mesma facilidade. Enquanto os humanos são limitados nos tipos de explicações que podemos conjeturar racionalmente, os sistemas de aprendizado de máquina podem aprender tanto que a Terra é plana quanto que é redonda. Eles apenas lidam com probabilidades que mudam ao longo do tempo.

     Por esse motivo, as previsões dos sistemas de aprendizado de máquina sempre serão superficiais e duvidosas. [...]

    A verdadeira inteligência também é capaz de pensamento moral. Isso significa restringir a criatividade ilimitada de nossas mentes com um conjunto de princípios éticos que determinam o que deve e o que não deve ser (e, é claro, submeter esses próprios princípios à crítica criativa). Para ser útil, o ChatGPT deve ter o poder de gerar resultados inovadores; para ser aceitável para a maioria de seus usuários, ele deve evitar conteúdo moralmente censurável. Mas os programadores do ChatGPT e de outras maravilhas do aprendizado de máquina têm dificuldade – e continuarão tendo – para atingir esse tipo de equilíbrio. [...]

     Resumindo, o ChatGPT e seus irmãos são constitucionalmente incapazes de equilibrar criatividade com restrição. Eles supergeram (ao mesmo tempo produzindo verdades e falsidades, endossando decisões éticas e antiéticas) ou subgeram (demonstrando falta de compromisso com quaisquer decisões e indiferença com as consequências). Dada a amoralidade, a falsa ciência e a incompetência linguística desses sistemas, podemos apenas rir ou chorar de sua popularidade.



CHOMSKY, N.; ROBERTS, I. e WATUMULL, J. A falsa promessa do CHAT GPT. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/tec/2023/03/a-falsa-promessa-do-chatgpt.shtml. Acesso em 14. ago. 2023. (Adaptado).





Texto II

Inteligência artificial


    Em um nível mais profundo, o pensamento é um processo decididamente analógico. Antes de compreender o mundo em conceitos, ele é comovido pelo mundo, afetado mesmo por ele. O afetivo é essencial para o pensamento humano. A primeira imagem mental é o arrepio da pele. A inteligência artificial não pode pensar, porque não se arrepia. Falta-lhe a dimensão afetivo-analógica, a comoção, que não pode ser captada por dados e informações.

     O pensamento parte de uma totalidade que se antepõe a conceitos, representações e informações. Ele já se move em um campo de experiência, antes de se voltar especificamente para os objetos e fatos que ocorrem nele. [...]
 
    De acordo com Heidegger, a história da filosofia é uma história da tonalidade afetiva fundamental. [...] O páthos é o começo do pensamento. A inteligência artificial é apática, quer dizer, sem páthos, sem paixão. Ela calcula. [...]

  Os big data sugerem um conhecimento absoluto. As coisas revelam suas correlações secretas. Tudo se torna calculável, previsível e controlável. [...] Na realidade, estamos lidando com uma forma bastante primitiva de saber. A mineração de dados expõe correlações. [...] A inteligência mecânica não atinge aquela profundidade escura de um enigma. As informações e os dados não têm profundidade. O pensamento humano é mais do que cálculo e solução de problemas. Ele clareia e ilumina o mundo. Ele produz um mundo completamente outro. Acima de tudo, a inteligência da máquina representa o perigo de que o pensar humano se iguale a ele e se torne a própria máquina. 


HAN, Byung-Chul. Inteligência artificial. InNão coisas: Reviravoltas do mundo da vida. Tradução de Rafael Rodrigues Garcia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022, p. 71-83 (Adaptado).
Considerando-se o ponto de vista defendido no texto II, avalie as seguintes assertivas e a relação proposta entre elas.

I. A inteligência artificial não pode pensar

PORQUE

II. Falta-lhe a dimensão afetivo-analógica, a comoção, que não pode ser captada por dados e informações.

A respeito dessas assertivas, é correto afirma que 
Alternativas
Respostas
9281: C
9282: B
9283: B
9284: D
9285: B
9286: B
9287: D
9288: B
9289: B
9290: C
9291: B
9292: C
9293: B
9294: A
9295: A
9296: B
9297: C
9298: C
9299: D
9300: A