Questões de Concurso
Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português
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TEXTO I
OAB cria comissão para pressionar reforma do Judiciário.
Davi Vittorazzi
O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) criou uma comissão para promover a reforma do Poder Judiciário. A iniciativa ocorre em meio às discussões de mudanças na estrutura da Justiça, que deve também estar em pauta nas eleições deste ano. Segundo a portaria que instaura o grupo, a finalidade é articular propostas já aprovadas pela OAB sobre o tema. O documento foi publicado em 14 de abril.
A instituição justifica que, nos últimos anos, vem “amadurecendo reflexões institucionais relevantes sobre o aperfeiçoamento da estrutura, do funcionamento e dos mecanismos de controle do Poder Judiciário, em temas que dizem respeito à própria conformação do Estado Democrático de Direito”.
O colegiado será responsável por coordenar a atuação institucional da OAB, mobilizar a advocacia e consolidar contribuições das seccionais para o encaminhamento das medidas. Para o presidente nacional da instituição, Beto Simonetti, a atuação da entidade busca dar sequência às deliberações já consolidadas internamente.
“A OAB já aprovou em plenário seu apoio a itens fundamentais da reforma do Judiciário, como a adoção de mandatos fixos para ministros do STF, limitação das decisões monocráticas e estabelecimento de regras para a atuação de parentes de juízes na advocacia”, afirmou o presidente da entidade. “Uma comissão sobre o tema foi formalmente constituída pelo Conselho Federal da OAB. Qualquer discussão sobre reforma do Judiciário só será legítima, no entanto, se envolver a advocacia.”
A comissão de reforma do Judiciário
A secretária-geral da OAB Nacional, Rose Morais, vai presidir a comissão. Também integram o grupo os conselheiros federais Breno Augusto Pinto de Miranda (MT), Marilena Indira Winter (PR) e Silvia Virginia Silva de Souza (SP), além dos presidentes das seccionais Daniela Borges (BA), Márcio Nogueira (RO) e Rafael Lara Martins (GO).
A portaria também prevê a participação das seccionais e conselhos federais, que terão prazo de 15 dias para encaminhar sugestões ao colegiado, com apoio técnico da assessoria jurídica do Conselho Federal. As seccionais de São Paulo e Rio Grande do Sul já apresentaram contribuições. Os documentos serão analisados em conjunto com as demais propostas.
Fonte: VITTORAZZI, Davi. OAB cria comissão para pressionar reforma do Judiciário. https://revistaoeste.com/politica/oab-cria-comissao-parapressionar-reforma-do-judiciario
Assinale a alternativa correta.
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Educação 2025: pesquisas revelam desafios, tendências e a realidade das salas de aula
Montar um raio-X da educação em 2025 não é tarefa simples, mas ajuda quem não quer navegar no escuro. Uma curadoria baseada em estudos selecionados pelo Porvir busca compreender o que acontece, hoje, dentro das salas de aula brasileiras, oferecendo uma leitura ancorada na realidade cotidiana da escola. O foco não está nos números tradicionais do Censo Escolar nem nas notas do Ideb — Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, indicador da qualidade do ensino no país. A proposta é olhar para dimensões que esses dados nem sempre capturam, como o clima escolar, as angústias, os desafios tecnológicos e a saúde mental de quem vive o dia a dia da educação.
Para quem planeja aulas, organiza o calendário escolar ou pensa políticas públicas, esse conjunto de informações funciona como ponto de partida. Ele traz o chamado chão da escola e evidencia onde estão as maiores tensões, convidando a uma leitura sem julgamentos ou busca por culpados. Encarar a realidade, com todas as suas contradições, é condição para qualquer transformação efetiva da educação.
O panorama apresentado serve para orientar decisões que façam sentido para os estudantes e para a comunidade escolar neste início de 2026.
No cotidiano das escolas, questões ligadas à segurança física e emocional, à convivência e à diversidade aparecem de forma recorrente. Pesquisas indicam que a violência de gênero permanece presente e pouco discutida, revelando a dificuldade das instituições em identificar e enfrentar esse problema. Falta formação adequada e protocolos claros, o que reforça a necessidade de políticas integradas que promovam acolhimento, segurança e uma cultura de equidade. Ao mesmo tempo, cresce um cenário de violência, exclusão, desesperança e solidão, marcado pelo isolamento de estudantes e pelo esgotamento dos educadores. A ausência de mecanismos eficazes de acolhimento fragiliza os vínculos e compromete a escola como espaço de convivência afetiva.
Situação semelhante aparece no avanço das matrículas de estudantes autistas. Embora o número tenha crescido significativamente, a estrutura escolar não acompanhou esse movimento. Faltam profissionais de apoio, formação específica para professores e adaptações curriculares, mostrando que garantir a vaga por lei não é suficiente para assegurar uma inclusão efetiva.
Outros estudos reforçam a importância de enfrentar o racismo desde a infância. A ideia de que o silêncio protegeria crianças brancas é questionada por pesquisas que apontam como essa omissão contribui para a reprodução de preconceitos. A educação antirracista, nesse sentido, deve envolver toda a comunidade, com conversas abertas e referências positivas que ajudem as crianças a compreender a diversidade e seus próprios privilégios desde cedo.
No campo da tecnologia, as pesquisas destacam impactos crescentes das telas, o uso da inteligência artificial e novos desafios da alfabetização em um mundo digital. Relatórios recentes defendem que a IA seja adotada como ferramenta complementar e ética, nunca como substituta pedagógica, com atenção à proteção do desenvolvimento cognitivo e à redução de desigualdades. Isso implica formação docente, revisão curricular e políticas de governança inclusivas.
O uso excessivo de telas continua sendo motivo de preocupação. Pesquisas indicam dificuldade de crianças e adolescentes em se desconectar, cenário associado ao aumento de irritabilidade, distração e conflitos em sala de aula. Soma-se a isso a constatação de que saber ler e escrever não garante autonomia no ambiente digital. Mesmo alfabetizados, muitos brasileiros enfrentam dificuldades para identificar notícias falsas, proteger dados pessoais ou utilizar aplicativos de serviços, o que amplia a noção de alfabetização necessária no século XXI.
A saúde mental e a valorização docente aparecem como temas centrais. A falta de segurança para o exercício da liberdade de cátedra impacta diretamente o bem-estar desses profissionais. Em escala global, o alerta é ainda mais amplo: faltam milhões de professores para cumprir metas educacionais, especialmente nos países mais pobres, onde salas lotadas e carreiras desvalorizadas dificultam a aprendizagem.
Pesquisas recentes também ressaltam que a promoção da saúde mental de crianças e adolescentes precisa ser prioridade. A escola é apontada como espaço estratégico para esse cuidado, mas não pode assumir essa tarefa sozinha. O fortalecimento de vínculos entre educação, saúde e assistência social é essencial para criar ambientes seguros, nos quais os estudantes se sintam ouvidos e amparados.
Por fim, estudos que conectam a escola a desafios sociais mais amplos mostram que temas como mudanças climáticas ainda estão distantes do cotidiano escolar, apesar de seus impactos diretos na vida de crianças e jovens. Quando aparecem, costumam ser tratados de forma pontual e pouco integrada à realidade local. Da mesma forma, pesquisas sobre a transição para o mercado de trabalho revelam um desencontro entre expectativas de jovens e empregadores. Enquanto jovens enfrentam sobrecargas invisíveis ligadas à renda e às condições de vida, empresas esperam uma maturidade pronta, sem oferecer o suporte necessário. O desafio comum a todos esses cenários é transformar a escola — e também o trabalho — em espaços de aprendizado contínuo, acolhimento e construção coletiva.
https://porvir.org/educacao-2025-pesquisas-tendencias/.adaptado.
Assinale a alternativa correta.
Matas ciliares
As matas que recobrem as margens dos rios e suas nascentes recebem o nome de matas ciliares. O nome surgiu da comparação entre a proteção que os cílios oferecem aos olhos e o papel protetor dessas matas em relação aos corpos d’água. Elas desempenham um papel fundamental na manutenção dos mananciais, pois protegem as margens, evitando ________, inundações, desmoronamentos e outros problemas.
As matas ciliares também “filtram” o ambiente ao redor dos corpos d’água, evitando ou diminuindo a presença de sedimentos trazidos pela água das chuvas e a poluição por resíduos.
Elas estão presentes em todos os biomas brasileiros: Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Floresta Amazônica, Pantanal e Pampa.
As matas ciliares funcionam como uma esponja, que absorve e retém a água, liberando-a gradativamente tanto para o lençol freático quanto para os corpos d’água.
Essas matas influenciam a quantidade e também melhoram a qualidade da água em uma microbacia, pois retêm os sedimentos e os nutrientes carregados pela água das chuvas, vindos das partes mais altas do terreno. Há estudos que demonstram que as matas ciliares conseguem reter parte da carga de poluentes químicos, como agrotóxicos, evitando a contaminação de rios, ________ e lagos. Elas também contribuem para que menos resíduos sólidos cheguem aos mares e oceanos.
As raízes da vegetação das matas ciliares formam uma espécie de rede que fixa o solo e mantém as margens estáveis, e isso contribui para evitar os riscos de assoreamento dos corpos d’água e de deslizamento de terra.
Fonte: Semil SP – Educação Ambiental. Adaptado.
Matas ciliares
As matas que recobrem as margens dos rios e suas nascentes recebem o nome de matas ciliares. O nome surgiu da comparação entre a proteção que os cílios oferecem aos olhos e o papel protetor dessas matas em relação aos corpos d’água. Elas desempenham um papel fundamental na manutenção dos mananciais, pois protegem as margens, evitando ________, inundações, desmoronamentos e outros problemas.
As matas ciliares também “filtram” o ambiente ao redor dos corpos d’água, evitando ou diminuindo a presença de sedimentos trazidos pela água das chuvas e a poluição por resíduos.
Elas estão presentes em todos os biomas brasileiros: Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Floresta Amazônica, Pantanal e Pampa.
As matas ciliares funcionam como uma esponja, que absorve e retém a água, liberando-a gradativamente tanto para o lençol freático quanto para os corpos d’água.
Essas matas influenciam a quantidade e também melhoram a qualidade da água em uma microbacia, pois retêm os sedimentos e os nutrientes carregados pela água das chuvas, vindos das partes mais altas do terreno. Há estudos que demonstram que as matas ciliares conseguem reter parte da carga de poluentes químicos, como agrotóxicos, evitando a contaminação de rios, ________ e lagos. Elas também contribuem para que menos resíduos sólidos cheguem aos mares e oceanos.
As raízes da vegetação das matas ciliares formam uma espécie de rede que fixa o solo e mantém as margens estáveis, e isso contribui para evitar os riscos de assoreamento dos corpos d’água e de deslizamento de terra.
Fonte: Semil SP – Educação Ambiental. Adaptado.
Matas ciliares
As matas que recobrem as margens dos rios e suas nascentes recebem o nome de matas ciliares. O nome surgiu da comparação entre a proteção que os cílios oferecem aos olhos e o papel protetor dessas matas em relação aos corpos d’água. Elas desempenham um papel fundamental na manutenção dos mananciais, pois protegem as margens, evitando ________, inundações, desmoronamentos e outros problemas.
As matas ciliares também “filtram” o ambiente ao redor dos corpos d’água, evitando ou diminuindo a presença de sedimentos trazidos pela água das chuvas e a poluição por resíduos.
Elas estão presentes em todos os biomas brasileiros: Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Floresta Amazônica, Pantanal e Pampa.
As matas ciliares funcionam como uma esponja, que absorve e retém a água, liberando-a gradativamente tanto para o lençol freático quanto para os corpos d’água.
Essas matas influenciam a quantidade e também melhoram a qualidade da água em uma microbacia, pois retêm os sedimentos e os nutrientes carregados pela água das chuvas, vindos das partes mais altas do terreno. Há estudos que demonstram que as matas ciliares conseguem reter parte da carga de poluentes químicos, como agrotóxicos, evitando a contaminação de rios, ________ e lagos. Elas também contribuem para que menos resíduos sólidos cheguem aos mares e oceanos.
As raízes da vegetação das matas ciliares formam uma espécie de rede que fixa o solo e mantém as margens estáveis, e isso contribui para evitar os riscos de assoreamento dos corpos d’água e de deslizamento de terra.
Fonte: Semil SP – Educação Ambiental. Adaptado.
A saga do print: quando a conversa vira prova
O primeiro print nasce inocente. Ele aparece como quem diz: "Só vou registrar, por garantia." O segundo print já nasce com intenção. O terceiro é praticamente um documento. E, quando você vê, a conversa virou processo.
Tudo começou com uma mensagem no grupo do setor, num fim de tarde que já cheirava a cansaço:
— Pode enviar hoje?
Três palavras. Nenhum complemento. Pode enviar o quê? Para quem? Hoje, que horas? Mas a mensagem tinha um detalhe perigoso: o ponto de interrogação. Ponto de interrogação, em ambiente de trabalho, não pergunta só. Ele cobra.
Eu respondi:
— Consigo até 18h. Aí veio outra mensagem:
— Ok.
Sem emoji, sem ponto, sem nada. Um "ok" que podia significar concordância, alívio ou julgamento. O "ok" é o camaleão do escritório.
Às 18h02, eu enviei o arquivo e escrevi:
— Enviado.
Cinco minutos depois, uma colega me chamou no privado:
— Você viu o que ele mandou no grupo?
Abri o grupo e vi um print. Um print meu. Um recorte da conversa, com o meu "Consigo até 18h" e o "ok" dele. Só que, no print, não aparecia o envio do arquivo. Nem aparecia a hora. Nem aparecia a pergunta anterior. O print era perfeito do jeito que uma meia-verdade sabe ser: pequeno, limpo e convincente.
A legenda do print dizia: "Mais uma vez prometeu e não entregou."
Eu li e senti meu estômago virar arquivo compactado.
O problema do print é que ele parece prova absoluta. Ele não grita, não xinga, não se contradiz. Ele só mostra. E mostrar, sem contexto, é um tipo de poder.
Eu fiz o que todo assistente administrativo aprende cedo: fui atrás do histórico. Apontei data, hora e sequência. Peguei meu próprio print, agora completo, com a pergunta anterior, o meu compromisso, o envio do arquivo e o "Enviado". Coloquei tudo numa linha do tempo mental, porque o escritório ama linhas do tempo.
Enviei para a colega:
— Olha a sequência completa.
Ela respondeu:
— Entendi. Mas já espalharam.
Espalhar. A palavra que transforma um mal-entendido em reputação.
No dia seguinte, na reunião, o coordenador abriu com aquela frase que tenta parecer neutra:
— Precisamos falar sobre alinhamento de entregas.
Eu ouvi "alinhamento" e soube que alguém tinha promovido meu print a pauta.
Ele projetou o print na tela. O recorte. O pedaço. O meu "Consigo até 18h" preso no aquário do "ok".
— Isso aqui não pode acontecer.
Eu respirei e fiz o que ninguém gosta de fazer em reunião: pedi a palavra com calma.
— Posso mostrar a conversa completa?
Houve um silêncio pequeno. Não era silêncio de permissão. Era silêncio de resistência. Porque contexto dá trabalho. Recorte é mais rápido.
Projetei meu print completo. E a sala viu, pela primeira vez, o que o print recortado escondia: a pergunta anterior e o envio às 18h02.
O coordenador pigarreou e disse a frase mais humana do mundo corporativo:
— Ah. Certo.
O "Ah. Certo." é a forma elegante de pedir desculpa sem pedir desculpa.
A reunião seguiu. O assunto mudou. Mas eu fiquei pensando numa coisa: print não é mentira. Print é seleção. E seleção é poder.
No fim do dia, eu organizei minha pasta de trabalho e criei uma subpasta chamada "Evidências". Não por paranoia.
Por aprendizado. Porque, no escritório, às vezes você não precisa fazer mais. Você precisa registrar melhor. E, principalmente, precisa lembrar que comunicação não é só o que foi dito. É o que ficou fácil de provar.
Fonte: Banca Examinadora
A saga do print: quando a conversa vira prova
O primeiro print nasce inocente. Ele aparece como quem diz: "Só vou registrar, por garantia." O segundo print já nasce com intenção. O terceiro é praticamente um documento. E, quando você vê, a conversa virou processo.
Tudo começou com uma mensagem no grupo do setor, num fim de tarde que já cheirava a cansaço:
— Pode enviar hoje?
Três palavras. Nenhum complemento. Pode enviar o quê? Para quem? Hoje, que horas? Mas a mensagem tinha um detalhe perigoso: o ponto de interrogação. Ponto de interrogação, em ambiente de trabalho, não pergunta só. Ele cobra.
Eu respondi:
— Consigo até 18h. Aí veio outra mensagem:
— Ok.
Sem emoji, sem ponto, sem nada. Um "ok" que podia significar concordância, alívio ou julgamento. O "ok" é o camaleão do escritório.
Às 18h02, eu enviei o arquivo e escrevi:
— Enviado.
Cinco minutos depois, uma colega me chamou no privado:
— Você viu o que ele mandou no grupo?
Abri o grupo e vi um print. Um print meu. Um recorte da conversa, com o meu "Consigo até 18h" e o "ok" dele. Só que, no print, não aparecia o envio do arquivo. Nem aparecia a hora. Nem aparecia a pergunta anterior. O print era perfeito do jeito que uma meia-verdade sabe ser: pequeno, limpo e convincente.
A legenda do print dizia: "Mais uma vez prometeu e não entregou."
Eu li e senti meu estômago virar arquivo compactado.
O problema do print é que ele parece prova absoluta. Ele não grita, não xinga, não se contradiz. Ele só mostra. E mostrar, sem contexto, é um tipo de poder.
Eu fiz o que todo assistente administrativo aprende cedo: fui atrás do histórico. Apontei data, hora e sequência. Peguei meu próprio print, agora completo, com a pergunta anterior, o meu compromisso, o envio do arquivo e o "Enviado". Coloquei tudo numa linha do tempo mental, porque o escritório ama linhas do tempo.
Enviei para a colega:
— Olha a sequência completa.
Ela respondeu:
— Entendi. Mas já espalharam.
Espalhar. A palavra que transforma um mal-entendido em reputação.
No dia seguinte, na reunião, o coordenador abriu com aquela frase que tenta parecer neutra:
— Precisamos falar sobre alinhamento de entregas.
Eu ouvi "alinhamento" e soube que alguém tinha promovido meu print a pauta.
Ele projetou o print na tela. O recorte. O pedaço. O meu "Consigo até 18h" preso no aquário do "ok".
— Isso aqui não pode acontecer.
Eu respirei e fiz o que ninguém gosta de fazer em reunião: pedi a palavra com calma.
— Posso mostrar a conversa completa?
Houve um silêncio pequeno. Não era silêncio de permissão. Era silêncio de resistência. Porque contexto dá trabalho. Recorte é mais rápido.
Projetei meu print completo. E a sala viu, pela primeira vez, o que o print recortado escondia: a pergunta anterior e o envio às 18h02.
O coordenador pigarreou e disse a frase mais humana do mundo corporativo:
— Ah. Certo.
O "Ah. Certo." é a forma elegante de pedir desculpa sem pedir desculpa.
A reunião seguiu. O assunto mudou. Mas eu fiquei pensando numa coisa: print não é mentira. Print é seleção. E seleção é poder.
No fim do dia, eu organizei minha pasta de trabalho e criei uma subpasta chamada "Evidências". Não por paranoia.
Por aprendizado. Porque, no escritório, às vezes você não precisa fazer mais. Você precisa registrar melhor. E, principalmente, precisa lembrar que comunicação não é só o que foi dito. É o que ficou fácil de provar.
Fonte: Banca Examinadora
A devolução impossível: a epopeia do “só mais um procedimento”
Eu entrei na loja com uma sacola e um sonho pequeno: devolver um produto. Nem queria briga, nem queria drama. Queria paz, estorno e vida seguindo. O produto, um fone “premium”, tinha decidido morrer no terceiro dia. Não foi uma morte trágica. Foi uma morte burocrática. Ele simplesmente parou, como quem bate ponto e some.
Na minha cabeça, a lógica era infantil e perfeita: comprei, não funcionou, devolvo. Na vida real, a lógica vem com rodapé.
A atendente sorriu com a energia de quem já recebeu cem “casos simples” antes do almoço.
— Boa tarde. Em que posso ajudar?
— Quero devolver. Está com defeito.
Ela pegou o fone como se fosse uma prova em tribunal e, sem olhar para mim, perguntou:
— Tem nota?
A nota, claro. O documento sagrado. Eu tirei do bolso com a reverência de quem apresenta identidade.
Ela leu, digitou, clicou e disse a frase que inaugura toda epopeia:
— Então... pela nossa política, a troca é com a assistência.
Eu ouvi “nossa política” e senti que havia entrado numa constituição paralela, com artigos invisíveis e sanções emocionais.
— Mas eu quero devolver.
— Devolver é só em até sete dias e desde que esteja sem uso.
— Eu usei três dias. Para descobrir que não funciona. Ela sorriu de novo. O sorriso tinha a delicadeza de um carimbo.
— Entendo. Mas o sistema entende diferente.
Quando alguém diz que o sistema entende, você percebe que está discutindo com uma entidade abstrata. E entidades abstratas não têm culpa, não têm rosto e não erram. No máximo, “apresentam instabilidade”.
Eu tentei ser razoável. Fiz a pergunta que sempre parece inocente até virar armadilha:
— E qual é o procedimento?
Ela apontou para um papel. O papel tinha um QR code e uma promessa: “Rápido e fácil”.
— Você abre um chamado.
— Eu abro agora?
— Você abre pelo site.
— E depois?
— Depois aguarda.
— Aguarda quanto?
Ela respirou como quem consulta uma norma não escrita.
— Até quinze dias úteis.
Quinze dias úteis. Tempo suficiente para o fone ressuscitar por remorso ou para eu me acostumar ao silêncio.
Eu tentei outra rota.
— Não dá para resolver aqui?
— Só com laudo.
Laudo. A palavra “laudo” é mágica: ela transforma um fone em paciente e eu em parte interessada. Em dois segundos, eu não era mais cliente. Eu era “demandante”.
— E se o laudo disser que é defeito?
— Se for defeito, a assistência avalia.
— E se não for defeito?
— Se não for defeito, pode haver cobrança.
Cobrança. Outra palavra mágica. Ela faz o problema parecer culpa sua, mesmo quando o fone morreu sozinho, quietinho, sem plateia.
Eu senti vontade de dizer “isso é um absurdo”. Mas percebi que o absurdo não funciona contra um procedimento. O procedimento sempre ganha por cansaço. Ele não precisa estar certo. Ele só precisa continuar existindo.
A atendente, vendo minha cara, tentou uma gentileza:
— Posso ajudar você a abrir o chamado no seu celular.
Eu abri o site. Ele pediu login. Eu não lembrava. Pediu e-mail. Pediu senha. Pediu confirmar no e-mail. O e-mail demorou. O Wi-Fi da loja era filosófico: existia, mas questionava a própria existência.
Quando finalmente consegui, o formulário perguntou:
“Descreva o defeito em até 200 caracteres.” Eu pensei em escrever: “O defeito é acreditar em slogans.” Mas escrevi algo técnico, porque a vida exige seriedade em momentos ridículos.
Enviei.
A atendente olhou e disse:
— Pronto. Agora é só aguardar.
— E o que eu faço com o fone?
— Você guarda. Não pode usar.
Eu guardei o fone na sacola e tive uma iluminação amarga: a devolução impossível não é um evento. É um método. Uma forma elegante de adiar o óbvio até ele virar desistência.
Saí da loja com um número de protocolo e uma sensação estranha. Eu não tinha resolvido nada, mas tinha participado de um ritual. E, no mundo moderno, às vezes é isso que chamam de atendimento: você não sai com solução. Você sai com processo.
Fonte: Banca Examinadora
A devolução impossível: a epopeia do “só mais um procedimento”
Eu entrei na loja com uma sacola e um sonho pequeno: devolver um produto. Nem queria briga, nem queria drama. Queria paz, estorno e vida seguindo. O produto, um fone “premium”, tinha decidido morrer no terceiro dia. Não foi uma morte trágica. Foi uma morte burocrática. Ele simplesmente parou, como quem bate ponto e some.
Na minha cabeça, a lógica era infantil e perfeita: comprei, não funcionou, devolvo. Na vida real, a lógica vem com rodapé.
A atendente sorriu com a energia de quem já recebeu cem “casos simples” antes do almoço.
— Boa tarde. Em que posso ajudar?
— Quero devolver. Está com defeito.
Ela pegou o fone como se fosse uma prova em tribunal e, sem olhar para mim, perguntou:
— Tem nota?
A nota, claro. O documento sagrado. Eu tirei do bolso com a reverência de quem apresenta identidade.
Ela leu, digitou, clicou e disse a frase que inaugura toda epopeia:
— Então... pela nossa política, a troca é com a assistência.
Eu ouvi “nossa política” e senti que havia entrado numa constituição paralela, com artigos invisíveis e sanções emocionais.
— Mas eu quero devolver.
— Devolver é só em até sete dias e desde que esteja sem uso.
— Eu usei três dias. Para descobrir que não funciona. Ela sorriu de novo. O sorriso tinha a delicadeza de um carimbo.
— Entendo. Mas o sistema entende diferente.
Quando alguém diz que o sistema entende, você percebe que está discutindo com uma entidade abstrata. E entidades abstratas não têm culpa, não têm rosto e não erram. No máximo, “apresentam instabilidade”.
Eu tentei ser razoável. Fiz a pergunta que sempre parece inocente até virar armadilha:
— E qual é o procedimento?
Ela apontou para um papel. O papel tinha um QR code e uma promessa: “Rápido e fácil”.
— Você abre um chamado.
— Eu abro agora?
— Você abre pelo site.
— E depois?
— Depois aguarda.
— Aguarda quanto?
Ela respirou como quem consulta uma norma não escrita.
— Até quinze dias úteis.
Quinze dias úteis. Tempo suficiente para o fone ressuscitar por remorso ou para eu me acostumar ao silêncio.
Eu tentei outra rota.
— Não dá para resolver aqui?
— Só com laudo.
Laudo. A palavra “laudo” é mágica: ela transforma um fone em paciente e eu em parte interessada. Em dois segundos, eu não era mais cliente. Eu era “demandante”.
— E se o laudo disser que é defeito?
— Se for defeito, a assistência avalia.
— E se não for defeito?
— Se não for defeito, pode haver cobrança.
Cobrança. Outra palavra mágica. Ela faz o problema parecer culpa sua, mesmo quando o fone morreu sozinho, quietinho, sem plateia.
Eu senti vontade de dizer “isso é um absurdo”. Mas percebi que o absurdo não funciona contra um procedimento. O procedimento sempre ganha por cansaço. Ele não precisa estar certo. Ele só precisa continuar existindo.
A atendente, vendo minha cara, tentou uma gentileza:
— Posso ajudar você a abrir o chamado no seu celular.
Eu abri o site. Ele pediu login. Eu não lembrava. Pediu e-mail. Pediu senha. Pediu confirmar no e-mail. O e-mail demorou. O Wi-Fi da loja era filosófico: existia, mas questionava a própria existência.
Quando finalmente consegui, o formulário perguntou:
“Descreva o defeito em até 200 caracteres.” Eu pensei em escrever: “O defeito é acreditar em slogans.” Mas escrevi algo técnico, porque a vida exige seriedade em momentos ridículos.
Enviei.
A atendente olhou e disse:
— Pronto. Agora é só aguardar.
— E o que eu faço com o fone?
— Você guarda. Não pode usar.
Eu guardei o fone na sacola e tive uma iluminação amarga: a devolução impossível não é um evento. É um método. Uma forma elegante de adiar o óbvio até ele virar desistência.
Saí da loja com um número de protocolo e uma sensação estranha. Eu não tinha resolvido nada, mas tinha participado de um ritual. E, no mundo moderno, às vezes é isso que chamam de atendimento: você não sai com solução. Você sai com processo.
Fonte: Banca Examinadora
A devolução impossível: a epopeia do “só mais um procedimento”
Eu entrei na loja com uma sacola e um sonho pequeno: devolver um produto. Nem queria briga, nem queria drama. Queria paz, estorno e vida seguindo. O produto, um fone “premium”, tinha decidido morrer no terceiro dia. Não foi uma morte trágica. Foi uma morte burocrática. Ele simplesmente parou, como quem bate ponto e some.
Na minha cabeça, a lógica era infantil e perfeita: comprei, não funcionou, devolvo. Na vida real, a lógica vem com rodapé.
A atendente sorriu com a energia de quem já recebeu cem “casos simples” antes do almoço.
— Boa tarde. Em que posso ajudar?
— Quero devolver. Está com defeito.
Ela pegou o fone como se fosse uma prova em tribunal e, sem olhar para mim, perguntou:
— Tem nota?
A nota, claro. O documento sagrado. Eu tirei do bolso com a reverência de quem apresenta identidade.
Ela leu, digitou, clicou e disse a frase que inaugura toda epopeia:
— Então... pela nossa política, a troca é com a assistência.
Eu ouvi “nossa política” e senti que havia entrado numa constituição paralela, com artigos invisíveis e sanções emocionais.
— Mas eu quero devolver.
— Devolver é só em até sete dias e desde que esteja sem uso.
— Eu usei três dias. Para descobrir que não funciona. Ela sorriu de novo. O sorriso tinha a delicadeza de um carimbo.
— Entendo. Mas o sistema entende diferente.
Quando alguém diz que o sistema entende, você percebe que está discutindo com uma entidade abstrata. E entidades abstratas não têm culpa, não têm rosto e não erram. No máximo, “apresentam instabilidade”.
Eu tentei ser razoável. Fiz a pergunta que sempre parece inocente até virar armadilha:
— E qual é o procedimento?
Ela apontou para um papel. O papel tinha um QR code e uma promessa: “Rápido e fácil”.
— Você abre um chamado.
— Eu abro agora?
— Você abre pelo site.
— E depois?
— Depois aguarda.
— Aguarda quanto?
Ela respirou como quem consulta uma norma não escrita.
— Até quinze dias úteis.
Quinze dias úteis. Tempo suficiente para o fone ressuscitar por remorso ou para eu me acostumar ao silêncio.
Eu tentei outra rota.
— Não dá para resolver aqui?
— Só com laudo.
Laudo. A palavra “laudo” é mágica: ela transforma um fone em paciente e eu em parte interessada. Em dois segundos, eu não era mais cliente. Eu era “demandante”.
— E se o laudo disser que é defeito?
— Se for defeito, a assistência avalia.
— E se não for defeito?
— Se não for defeito, pode haver cobrança.
Cobrança. Outra palavra mágica. Ela faz o problema parecer culpa sua, mesmo quando o fone morreu sozinho, quietinho, sem plateia.
Eu senti vontade de dizer “isso é um absurdo”. Mas percebi que o absurdo não funciona contra um procedimento. O procedimento sempre ganha por cansaço. Ele não precisa estar certo. Ele só precisa continuar existindo.
A atendente, vendo minha cara, tentou uma gentileza:
— Posso ajudar você a abrir o chamado no seu celular.
Eu abri o site. Ele pediu login. Eu não lembrava. Pediu e-mail. Pediu senha. Pediu confirmar no e-mail. O e-mail demorou. O Wi-Fi da loja era filosófico: existia, mas questionava a própria existência.
Quando finalmente consegui, o formulário perguntou:
“Descreva o defeito em até 200 caracteres.” Eu pensei em escrever: “O defeito é acreditar em slogans.” Mas escrevi algo técnico, porque a vida exige seriedade em momentos ridículos.
Enviei.
A atendente olhou e disse:
— Pronto. Agora é só aguardar.
— E o que eu faço com o fone?
— Você guarda. Não pode usar.
Eu guardei o fone na sacola e tive uma iluminação amarga: a devolução impossível não é um evento. É um método. Uma forma elegante de adiar o óbvio até ele virar desistência.
Saí da loja com um número de protocolo e uma sensação estranha. Eu não tinha resolvido nada, mas tinha participado de um ritual. E, no mundo moderno, às vezes é isso que chamam de atendimento: você não sai com solução. Você sai com processo.
Fonte: Banca Examinadora
A devolução impossível: a epopeia do “só mais um procedimento”
Eu entrei na loja com uma sacola e um sonho pequeno: devolver um produto. Nem queria briga, nem queria drama. Queria paz, estorno e vida seguindo. O produto, um fone “premium”, tinha decidido morrer no terceiro dia. Não foi uma morte trágica. Foi uma morte burocrática. Ele simplesmente parou, como quem bate ponto e some.
Na minha cabeça, a lógica era infantil e perfeita: comprei, não funcionou, devolvo. Na vida real, a lógica vem com rodapé.
A atendente sorriu com a energia de quem já recebeu cem “casos simples” antes do almoço.
— Boa tarde. Em que posso ajudar?
— Quero devolver. Está com defeito.
Ela pegou o fone como se fosse uma prova em tribunal e, sem olhar para mim, perguntou:
— Tem nota?
A nota, claro. O documento sagrado. Eu tirei do bolso com a reverência de quem apresenta identidade.
Ela leu, digitou, clicou e disse a frase que inaugura toda epopeia:
— Então... pela nossa política, a troca é com a assistência.
Eu ouvi “nossa política” e senti que havia entrado numa constituição paralela, com artigos invisíveis e sanções emocionais.
— Mas eu quero devolver.
— Devolver é só em até sete dias e desde que esteja sem uso.
— Eu usei três dias. Para descobrir que não funciona. Ela sorriu de novo. O sorriso tinha a delicadeza de um carimbo.
— Entendo. Mas o sistema entende diferente.
Quando alguém diz que o sistema entende, você percebe que está discutindo com uma entidade abstrata. E entidades abstratas não têm culpa, não têm rosto e não erram. No máximo, “apresentam instabilidade”.
Eu tentei ser razoável. Fiz a pergunta que sempre parece inocente até virar armadilha:
— E qual é o procedimento?
Ela apontou para um papel. O papel tinha um QR code e uma promessa: “Rápido e fácil”.
— Você abre um chamado.
— Eu abro agora?
— Você abre pelo site.
— E depois?
— Depois aguarda.
— Aguarda quanto?
Ela respirou como quem consulta uma norma não escrita.
— Até quinze dias úteis.
Quinze dias úteis. Tempo suficiente para o fone ressuscitar por remorso ou para eu me acostumar ao silêncio.
Eu tentei outra rota.
— Não dá para resolver aqui?
— Só com laudo.
Laudo. A palavra “laudo” é mágica: ela transforma um fone em paciente e eu em parte interessada. Em dois segundos, eu não era mais cliente. Eu era “demandante”.
— E se o laudo disser que é defeito?
— Se for defeito, a assistência avalia.
— E se não for defeito?
— Se não for defeito, pode haver cobrança.
Cobrança. Outra palavra mágica. Ela faz o problema parecer culpa sua, mesmo quando o fone morreu sozinho, quietinho, sem plateia.
Eu senti vontade de dizer “isso é um absurdo”. Mas percebi que o absurdo não funciona contra um procedimento. O procedimento sempre ganha por cansaço. Ele não precisa estar certo. Ele só precisa continuar existindo.
A atendente, vendo minha cara, tentou uma gentileza:
— Posso ajudar você a abrir o chamado no seu celular.
Eu abri o site. Ele pediu login. Eu não lembrava. Pediu e-mail. Pediu senha. Pediu confirmar no e-mail. O e-mail demorou. O Wi-Fi da loja era filosófico: existia, mas questionava a própria existência.
Quando finalmente consegui, o formulário perguntou:
“Descreva o defeito em até 200 caracteres.” Eu pensei em escrever: “O defeito é acreditar em slogans.” Mas escrevi algo técnico, porque a vida exige seriedade em momentos ridículos.
Enviei.
A atendente olhou e disse:
— Pronto. Agora é só aguardar.
— E o que eu faço com o fone?
— Você guarda. Não pode usar.
Eu guardei o fone na sacola e tive uma iluminação amarga: a devolução impossível não é um evento. É um método. Uma forma elegante de adiar o óbvio até ele virar desistência.
Saí da loja com um número de protocolo e uma sensação estranha. Eu não tinha resolvido nada, mas tinha participado de um ritual. E, no mundo moderno, às vezes é isso que chamam de atendimento: você não sai com solução. Você sai com processo.
Fonte: Banca Examinadora
A devolução impossível: a epopeia do “só mais um procedimento”
Eu entrei na loja com uma sacola e um sonho pequeno: devolver um produto. Nem queria briga, nem queria drama. Queria paz, estorno e vida seguindo. O produto, um fone “premium”, tinha decidido morrer no terceiro dia. Não foi uma morte trágica. Foi uma morte burocrática. Ele simplesmente parou, como quem bate ponto e some.
Na minha cabeça, a lógica era infantil e perfeita: comprei, não funcionou, devolvo. Na vida real, a lógica vem com rodapé.
A atendente sorriu com a energia de quem já recebeu cem “casos simples” antes do almoço.
— Boa tarde. Em que posso ajudar?
— Quero devolver. Está com defeito.
Ela pegou o fone como se fosse uma prova em tribunal e, sem olhar para mim, perguntou:
— Tem nota?
A nota, claro. O documento sagrado. Eu tirei do bolso com a reverência de quem apresenta identidade.
Ela leu, digitou, clicou e disse a frase que inaugura toda epopeia:
— Então... pela nossa política, a troca é com a assistência.
Eu ouvi “nossa política” e senti que havia entrado numa constituição paralela, com artigos invisíveis e sanções emocionais.
— Mas eu quero devolver.
— Devolver é só em até sete dias e desde que esteja sem uso.
— Eu usei três dias. Para descobrir que não funciona. Ela sorriu de novo. O sorriso tinha a delicadeza de um carimbo.
— Entendo. Mas o sistema entende diferente.
Quando alguém diz que o sistema entende, você percebe que está discutindo com uma entidade abstrata. E entidades abstratas não têm culpa, não têm rosto e não erram. No máximo, “apresentam instabilidade”.
Eu tentei ser razoável. Fiz a pergunta que sempre parece inocente até virar armadilha:
— E qual é o procedimento?
Ela apontou para um papel. O papel tinha um QR code e uma promessa: “Rápido e fácil”.
— Você abre um chamado.
— Eu abro agora?
— Você abre pelo site.
— E depois?
— Depois aguarda.
— Aguarda quanto?
Ela respirou como quem consulta uma norma não escrita.
— Até quinze dias úteis.
Quinze dias úteis. Tempo suficiente para o fone ressuscitar por remorso ou para eu me acostumar ao silêncio.
Eu tentei outra rota.
— Não dá para resolver aqui?
— Só com laudo.
Laudo. A palavra “laudo” é mágica: ela transforma um fone em paciente e eu em parte interessada. Em dois segundos, eu não era mais cliente. Eu era “demandante”.
— E se o laudo disser que é defeito?
— Se for defeito, a assistência avalia.
— E se não for defeito?
— Se não for defeito, pode haver cobrança.
Cobrança. Outra palavra mágica. Ela faz o problema parecer culpa sua, mesmo quando o fone morreu sozinho, quietinho, sem plateia.
Eu senti vontade de dizer “isso é um absurdo”. Mas percebi que o absurdo não funciona contra um procedimento. O procedimento sempre ganha por cansaço. Ele não precisa estar certo. Ele só precisa continuar existindo.
A atendente, vendo minha cara, tentou uma gentileza:
— Posso ajudar você a abrir o chamado no seu celular.
Eu abri o site. Ele pediu login. Eu não lembrava. Pediu e-mail. Pediu senha. Pediu confirmar no e-mail. O e-mail demorou. O Wi-Fi da loja era filosófico: existia, mas questionava a própria existência.
Quando finalmente consegui, o formulário perguntou:
“Descreva o defeito em até 200 caracteres.” Eu pensei em escrever: “O defeito é acreditar em slogans.” Mas escrevi algo técnico, porque a vida exige seriedade em momentos ridículos.
Enviei.
A atendente olhou e disse:
— Pronto. Agora é só aguardar.
— E o que eu faço com o fone?
— Você guarda. Não pode usar.
Eu guardei o fone na sacola e tive uma iluminação amarga: a devolução impossível não é um evento. É um método. Uma forma elegante de adiar o óbvio até ele virar desistência.
Saí da loja com um número de protocolo e uma sensação estranha. Eu não tinha resolvido nada, mas tinha participado de um ritual. E, no mundo moderno, às vezes é isso que chamam de atendimento: você não sai com solução. Você sai com processo.
Fonte: Banca Examinadora
Fanatismo
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…”
Florbela Espanca