Questões de Concurso
Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português
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TEXTO I.
- Comida é pasto
Mostrando que com comida não se brinca, o jornalista norte-americano Michael Pollan vem à Flip* defender que voltar à cozinha é um ato político.
“A geladeira de Michael Pollan não tem Coca-Cola, margarina nem leite de amêndoas, nova mania das dietas americanas. Tem saquinhos de plástico com verduras e frutas, potes com feijão e restos do jantar anterior, além de iogurte e leite de caixinha.
Algumas coisas vêm da própria horta, montada na frente de sua casa em Berkeley, na Califórnia. No centro da pequena plantação, rodeada por pés de tomate, abóbora e manjericão, há uma grelha onde ele costuma preparar um porco inteiro uma vez por ano.
[...]
Michael Pollan é um jornalista americano de 59 anos que virou guru da vida saudável ao passar os últimos 15 anos escrevendo reportagens e livros sobre os exageros da indústria alimentícia e alertando sobre nossos excessos à mesa. “ Coma comida, não muita, sobretudo vegetais”, diz seu mantra, explicado no livro “Em Defesa da Comida” (2008), que critica as dietas ocidentais focadas em nutrientes e não em alimentos de verdade.
Ele também lançou o manual “Regras da Comida” (2009), com 64 dicas bem práticas e cheias de bom senso como: “Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida” ou “Compre pratos e copos menores”.
No livro mais recente, “Cozinhar - Uma História Natural da Transformação” (ed. Intrínseca), lançado em 2013 nos EUA e agora no Brasil, ele vai além e pede um comprometimento maior em nome da saúde. Diz que devemos todos voltar à cozinha. Para quem cresceu longe do fogão, parece ser seu conselho mais difícil.,
“Cozinhar sua própria comida é um ato político muito importante”, diz Michael, um homem alto e charmoso, de fala mansa e risada fácil. “Tem a ver com independência e autonomia. Abrimos mão de muito poder ao deixar as grandes corporações cozinharem para nós porque elas decidem quais fazendas vão apoiar e, normalmente, são bem aquelas que fazem um tipo de agricultura que certamente você desaprovaria”, diz, fazendo referência a práticas como confinamento cruel de animais e monoculturas gigantescas.
TEXTO II
Ovos, um bom começo
Digo a ele que eu não cozinho, nem minha mãe, e ele quer saber como fui alimentada. Empregadas domésticas que também fazem comida são comuns no Brasil, afirmo. “Pelo menos, era um humano cozinhando para você, isso é bom. Pena que nem todos têm esse privilégio”, diz. “Ovos são um bom começo”, ele elogia, quando conto que sei fazer omelete.
Um dos problemas de cozinhar, acredita o jornalista, é a lembrança dos velhos arranjos sexistas de poder dentro de casa. Para ele, foi justamente quando homem e mulher começavam a pensar em negociar a divisão de tarefas domésticas que a indústria do fast-food apareceu para resolver o embate. A “liberação feminina” virou tema de propaganda de frango frito nos EUA.
“Se vamos reviver a cultura da cozinha, não podemos voltar ao passado. Precisa ser uma cultura diferente, algo a ser compartilhado por homens, mulheres e crianças”, diz o autor de “O Dilema do Onívoro” (2006), seu primeiro livro sobre a indústria alimentícia, que o lançou como um novo pensador dos hábitos alimentares.
O livro veio depois de uma série de artigos sobre agricultura, como um publicado pelo “New York Times”, no final dos anos 1990, sobre sua visita a uma plantação de batatas geneticamente modificadas. Tudo era controlado por computador porque um dos elementos químicos usados para combater manchas escuras era tão tóxico que o fazendeiro precisava ficar longe do campo por três dias.
As manchas só apareciam nas batatas daquela variedade, a única que a rede McDonald's aceitava comprar, já que as batatas fritas da rede precisam ser iguais no mundo todo. “É fácil culpar o fazendeiro, mas nós demandamos um certo tipo de produto. Somos cúmplices.”
[...]
Quando nos encontramos, ele estava animado com sua primeira viagem ao Brasil. Pretendia passar alguns dias em Salvador antes de ir ao Rio e a Paraty para a Flip. Estava feliz com o encontro que tinha marcado com o médico brasileiro Carlos Augusto Monteiro, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP que desenvolve pesquisas comparando comidas pelo seu grau de processamento e não apenas pelos nutrientes.
Está curioso para conhecer as churrascarias: “O gado ainda pasta ao ar livre?”, indaga. Michael é daqueles que, antes de pedir, quer saber a origem da carne. “Comer é complicado.”
*Flip — Feira Literária Internacional de Paraty Revista Serafina / Folha de São Paulo, agosto/2014. Comida é pasto, por Fernanda Ezabella. (fragmentos).
Disponível em <http://folha. uol.com. br/fsp/ilustrada>
TEXTO I.
- Comida é pasto
Mostrando que com comida não se brinca, o jornalista norte-americano Michael Pollan vem à Flip* defender que voltar à cozinha é um ato político.
“A geladeira de Michael Pollan não tem Coca-Cola, margarina nem leite de amêndoas, nova mania das dietas americanas. Tem saquinhos de plástico com verduras e frutas, potes com feijão e restos do jantar anterior, além de iogurte e leite de caixinha.
Algumas coisas vêm da própria horta, montada na frente de sua casa em Berkeley, na Califórnia. No centro da pequena plantação, rodeada por pés de tomate, abóbora e manjericão, há uma grelha onde ele costuma preparar um porco inteiro uma vez por ano.
[...]
Michael Pollan é um jornalista americano de 59 anos que virou guru da vida saudável ao passar os últimos 15 anos escrevendo reportagens e livros sobre os exageros da indústria alimentícia e alertando sobre nossos excessos à mesa. “ Coma comida, não muita, sobretudo vegetais”, diz seu mantra, explicado no livro “Em Defesa da Comida” (2008), que critica as dietas ocidentais focadas em nutrientes e não em alimentos de verdade.
Ele também lançou o manual “Regras da Comida” (2009), com 64 dicas bem práticas e cheias de bom senso como: “Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida” ou “Compre pratos e copos menores”.
No livro mais recente, “Cozinhar - Uma História Natural da Transformação” (ed. Intrínseca), lançado em 2013 nos EUA e agora no Brasil, ele vai além e pede um comprometimento maior em nome da saúde. Diz que devemos todos voltar à cozinha. Para quem cresceu longe do fogão, parece ser seu conselho mais difícil.,
“Cozinhar sua própria comida é um ato político muito importante”, diz Michael, um homem alto e charmoso, de fala mansa e risada fácil. “Tem a ver com independência e autonomia. Abrimos mão de muito poder ao deixar as grandes corporações cozinharem para nós porque elas decidem quais fazendas vão apoiar e, normalmente, são bem aquelas que fazem um tipo de agricultura que certamente você desaprovaria”, diz, fazendo referência a práticas como confinamento cruel de animais e monoculturas gigantescas.
TEXTO II
Ovos, um bom começo
Digo a ele que eu não cozinho, nem minha mãe, e ele quer saber como fui alimentada. Empregadas domésticas que também fazem comida são comuns no Brasil, afirmo. “Pelo menos, era um humano cozinhando para você, isso é bom. Pena que nem todos têm esse privilégio”, diz. “Ovos são um bom começo”, ele elogia, quando conto que sei fazer omelete.
Um dos problemas de cozinhar, acredita o jornalista, é a lembrança dos velhos arranjos sexistas de poder dentro de casa. Para ele, foi justamente quando homem e mulher começavam a pensar em negociar a divisão de tarefas domésticas que a indústria do fast-food apareceu para resolver o embate. A “liberação feminina” virou tema de propaganda de frango frito nos EUA.
“Se vamos reviver a cultura da cozinha, não podemos voltar ao passado. Precisa ser uma cultura diferente, algo a ser compartilhado por homens, mulheres e crianças”, diz o autor de “O Dilema do Onívoro” (2006), seu primeiro livro sobre a indústria alimentícia, que o lançou como um novo pensador dos hábitos alimentares.
O livro veio depois de uma série de artigos sobre agricultura, como um publicado pelo “New York Times”, no final dos anos 1990, sobre sua visita a uma plantação de batatas geneticamente modificadas. Tudo era controlado por computador porque um dos elementos químicos usados para combater manchas escuras era tão tóxico que o fazendeiro precisava ficar longe do campo por três dias.
As manchas só apareciam nas batatas daquela variedade, a única que a rede McDonald's aceitava comprar, já que as batatas fritas da rede precisam ser iguais no mundo todo. “É fácil culpar o fazendeiro, mas nós demandamos um certo tipo de produto. Somos cúmplices.”
[...]
Quando nos encontramos, ele estava animado com sua primeira viagem ao Brasil. Pretendia passar alguns dias em Salvador antes de ir ao Rio e a Paraty para a Flip. Estava feliz com o encontro que tinha marcado com o médico brasileiro Carlos Augusto Monteiro, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP que desenvolve pesquisas comparando comidas pelo seu grau de processamento e não apenas pelos nutrientes.
Está curioso para conhecer as churrascarias: “O gado ainda pasta ao ar livre?”, indaga. Michael é daqueles que, antes de pedir, quer saber a origem da carne. “Comer é complicado.”
*Flip — Feira Literária Internacional de Paraty Revista Serafina / Folha de São Paulo, agosto/2014. Comida é pasto, por Fernanda Ezabella. (fragmentos).
Disponível em <http://folha. uol.com. br/fsp/ilustrada>
TEXTO I.
- Comida é pasto
Mostrando que com comida não se brinca, o jornalista norte-americano Michael Pollan vem à Flip* defender que voltar à cozinha é um ato político.
“A geladeira de Michael Pollan não tem Coca-Cola, margarina nem leite de amêndoas, nova mania das dietas americanas. Tem saquinhos de plástico com verduras e frutas, potes com feijão e restos do jantar anterior, além de iogurte e leite de caixinha.
Algumas coisas vêm da própria horta, montada na frente de sua casa em Berkeley, na Califórnia. No centro da pequena plantação, rodeada por pés de tomate, abóbora e manjericão, há uma grelha onde ele costuma preparar um porco inteiro uma vez por ano.
[...]
Michael Pollan é um jornalista americano de 59 anos que virou guru da vida saudável ao passar os últimos 15 anos escrevendo reportagens e livros sobre os exageros da indústria alimentícia e alertando sobre nossos excessos à mesa. “ Coma comida, não muita, sobretudo vegetais”, diz seu mantra, explicado no livro “Em Defesa da Comida” (2008), que critica as dietas ocidentais focadas em nutrientes e não em alimentos de verdade.
Ele também lançou o manual “Regras da Comida” (2009), com 64 dicas bem práticas e cheias de bom senso como: “Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida” ou “Compre pratos e copos menores”.
No livro mais recente, “Cozinhar - Uma História Natural da Transformação” (ed. Intrínseca), lançado em 2013 nos EUA e agora no Brasil, ele vai além e pede um comprometimento maior em nome da saúde. Diz que devemos todos voltar à cozinha. Para quem cresceu longe do fogão, parece ser seu conselho mais difícil.,
“Cozinhar sua própria comida é um ato político muito importante”, diz Michael, um homem alto e charmoso, de fala mansa e risada fácil. “Tem a ver com independência e autonomia. Abrimos mão de muito poder ao deixar as grandes corporações cozinharem para nós porque elas decidem quais fazendas vão apoiar e, normalmente, são bem aquelas que fazem um tipo de agricultura que certamente você desaprovaria”, diz, fazendo referência a práticas como confinamento cruel de animais e monoculturas gigantescas.
TEXTO II
Ovos, um bom começo
Digo a ele que eu não cozinho, nem minha mãe, e ele quer saber como fui alimentada. Empregadas domésticas que também fazem comida são comuns no Brasil, afirmo. “Pelo menos, era um humano cozinhando para você, isso é bom. Pena que nem todos têm esse privilégio”, diz. “Ovos são um bom começo”, ele elogia, quando conto que sei fazer omelete.
Um dos problemas de cozinhar, acredita o jornalista, é a lembrança dos velhos arranjos sexistas de poder dentro de casa. Para ele, foi justamente quando homem e mulher começavam a pensar em negociar a divisão de tarefas domésticas que a indústria do fast-food apareceu para resolver o embate. A “liberação feminina” virou tema de propaganda de frango frito nos EUA.
“Se vamos reviver a cultura da cozinha, não podemos voltar ao passado. Precisa ser uma cultura diferente, algo a ser compartilhado por homens, mulheres e crianças”, diz o autor de “O Dilema do Onívoro” (2006), seu primeiro livro sobre a indústria alimentícia, que o lançou como um novo pensador dos hábitos alimentares.
O livro veio depois de uma série de artigos sobre agricultura, como um publicado pelo “New York Times”, no final dos anos 1990, sobre sua visita a uma plantação de batatas geneticamente modificadas. Tudo era controlado por computador porque um dos elementos químicos usados para combater manchas escuras era tão tóxico que o fazendeiro precisava ficar longe do campo por três dias.
As manchas só apareciam nas batatas daquela variedade, a única que a rede McDonald's aceitava comprar, já que as batatas fritas da rede precisam ser iguais no mundo todo. “É fácil culpar o fazendeiro, mas nós demandamos um certo tipo de produto. Somos cúmplices.”
[...]
Quando nos encontramos, ele estava animado com sua primeira viagem ao Brasil. Pretendia passar alguns dias em Salvador antes de ir ao Rio e a Paraty para a Flip. Estava feliz com o encontro que tinha marcado com o médico brasileiro Carlos Augusto Monteiro, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP que desenvolve pesquisas comparando comidas pelo seu grau de processamento e não apenas pelos nutrientes.
Está curioso para conhecer as churrascarias: “O gado ainda pasta ao ar livre?”, indaga. Michael é daqueles que, antes de pedir, quer saber a origem da carne. “Comer é complicado.”
*Flip — Feira Literária Internacional de Paraty Revista Serafina / Folha de São Paulo, agosto/2014. Comida é pasto, por Fernanda Ezabella. (fragmentos).
Disponível em <http://folha. uol.com. br/fsp/ilustrada>
TEXTO I
Das vantagens de ser bobo
— O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.
— O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
— Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
— O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.
— Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.
— O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver
— O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoiévisk .
— Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
— Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
— O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.
— Aviso: não confundir bobos com burros.
— Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. E uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?"
— Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
— Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
_ Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
— O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos
— Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é dificilão, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.
— Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.
— Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
— Piá lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
— Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
— E quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. E que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo. (Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.)
TEXTO I
Das vantagens de ser bobo
— O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.
— O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."
— Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
— O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.
— Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.
— O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver
— O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes o bobo é um Dostoiévisk .
— Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.
— Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
— O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.
— Aviso: não confundir bobos com burros.
— Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. E uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a frase célebre: “Até tu, Brutus?"
— Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
— Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
_ Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
— O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos
— Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é dificilão, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.
— Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.
— Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
— Piá lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita o ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
— Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
— E quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. E que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo. (Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.)
"- O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.”
Esse parágrafo do texto leva o leitor a
inferir que o bobo é
TEXTO I.
Amor é um fogo que arde sem se ver, E ferida que dói, e não se sente; E um contentamento descontente, E dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; E nunca contentar-se de contente; E um cuidar que ganha em se perder E querer estar preso por vontade; É servir a quem vence o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor? (Luís de Camões. Sonetos de Camões. São Paulo: Ateliê, 2001)
TEXTO II.
Definição do Amor
(fragmento)
O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um
rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa,
é besta.
(Gregário de Matos. In: Obra poética . Rio de Janeiro: Record, 1992.)
Texto I
Aquilo por que vivi
Três paixões, simples, mas irresistivelmente fortes, governaram-me a vida: o anseio de amor, a busca do conhecimento e a dolorosa piedade pelo sofrimento da humanidade. Tais paixões, como grandes vendavais, impeliram-me para aqui e acolá, em curso instável, por sobre profundo oceano de angústia, chegando às raias do desespero.
Busquei, primeiro, o amor, porque ele produz êxtase - um êxtase tão grande que, não raro, eu sacrificava todo o resto da minha vida por umas poucas horas dessa alegria. Ambicionava-o, ainda, porque o amor nos liberta da solidão - essa solidão terrível através da qual a nossa trêmula percepção observa, além dos limites do mundo, esse abismo frio e exânime. Busquei-o, finalmente, porque vi na união do amor, numa miniatura mística, algo que prefigurava a visão que os santos e os poetas imaginavam. Eis o que busquei e, embora isso possa parecer demasiado bom para vida humana, foi isso que - afinal - encontrei.
Com paixão igual, busquei o conhecimento. Eu queria compreender o coração dos homens. Gostaria de saber por que cintilam as estrelas. E procurei apreender a força pitagórica pela qual o número permanece acima do fluxo dos acontecimentos. Um pouco disto, mas não muito, eu o consegui.
Amor e conhecimento, até o ponto em que são possíveis, conduzem para o alto, rumo ao céu. Mas a piedade sempre me trazia de volta à terra. Ecos de gritos de dor ecoavam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desvalidos a constituir um fardo para seus filhos, e todo o mundo de solidão, pobreza e sofrimentos, convertem numa irrisão o que deveria de ser a vida humana. Anseio por aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.
Eis o que tem sido a minha vida. Tenho-a considerado digna de ser vivida e, de bom grado, tornaria a vivê-la, se me fosse dada tal oportunidade.
(Bertrand Russel. Autobiografia. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1967.)
Pergunta fatídica
A fatídica pergunta “O que você quer ser quando crescer?”, feita para crianças já no final da infância ou até antes, é clássica e não muda. Algumas vezes, ela expressa apenas uma brincadeira, para que os pais se orgulhem da resposta que o filho dará e que os pais já sabiam que ele daria. Outras vezes, representa o anseio deles para oferecer ao filho um objetivo maior para a sua vida. E algumas vezes não passa de uma lição moralista a uma criança que resiste aos estudos.
“O que você quer ser quando crescer, menino? Se não for bom aluno, vai ficar desempregado ou ganhar muito pouco!”, já ouvi uma mãe dizer ao filho, desesperada com as notas escolares do garoto.
Mas, se a pergunta não muda, as respostas mudam, e muito. Já houve um tempo em que muitas crianças – garotas principalmente – queriam ser professoras. Meninos e meninas pensavam em ser engenheiros, médicos, advogados, cientistas. Hoje, é difícil ouvir essas respostas.
Quais são as profissões mais atraentes para eles atualmente? Antes de olhar para tal questão, é bom lembrar que as crianças sabem pouco sobre profissões; o que elas dizem querer é apenas um reflexo da percepção que têm a respeito do que o mundo lhes apresenta como importante e de grande reconhecimento ou remuneração.
Ser famoso e cultuado pelas mídias, se destacar na televisão ou internet e receber muito dinheiro parecem ser, hoje, os anseios de muitas delas. Cada vez mais crianças e adolescentes afirmam que, quando crescerem, querem ser blogueiros, modelos, artistas, chefes de cozinha, jogadores de futebol, “vlogueiros” etc. Como você pode perceber, caro leitor, são sempre atividades com grande projeção, mas que pouquíssimas pessoas conseguem alcançar. Só que isso as crianças não têm condição de entender.
Algumas delas acham que já são grandes e têm, na internet, blogs e canais de vídeos, um bom público, composto tanto de outras crianças quanto de adultos. É fácil entender os motivos que levam os mais jovens a serem frequentadores assíduos desses canais: estão isolados, sem espaços públicos para encontrar outras crianças e para brincar. A internet tornou-se, portanto, esse espaço para eles. Mas e quanto aos adultos? Será que estão ali por mera curiosidade? Ainda não sabemos.
O que sabemos é que muitas dessas crianças são tratadas como celebridades, estão bastante expostas e chegam a ganhar presentes de marcas e até dinheiro – algumas vezes, muito dinheiro – com o que chamam de “empresa”. E sempre com o apoio dos pais, é claro, porque precisam de uma grande infraestrutura para fazer o que fazem.
Será que isso é bom para elas? Depende do ponto de vista. Para quem acredita que sucesso, popularidade e ganhos financeiros fazem bem à criança, pode ser positivo. Mas não sabemos até quando. O sucesso e a fama são ondas que vêm e vão. Quando acabarem – e acabam! –, o que será desses meninos e meninas? Estão eles preparados para cair e se levantar? Na minha opinião, não. Se isso já é difícil para os adultos, imagine, caro leitor, para uma criança.
Para quem preza a infância dos filhos e prioriza o aprendizado da convivência deles com outras crianças, nada disso é bom, mesmo que eles digam que querem muito participar e que vários colegas fazem. Qual é o seu ponto de vista?
(Rosely Saião. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/2016/03/1754998-pergunta-fatidica.shtml.)
Pergunta fatídica
A fatídica pergunta “O que você quer ser quando crescer?”, feita para crianças já no final da infância ou até antes, é clássica e não muda. Algumas vezes, ela expressa apenas uma brincadeira, para que os pais se orgulhem da resposta que o filho dará e que os pais já sabiam que ele daria. Outras vezes, representa o anseio deles para oferecer ao filho um objetivo maior para a sua vida. E algumas vezes não passa de uma lição moralista a uma criança que resiste aos estudos.
“O que você quer ser quando crescer, menino? Se não for bom aluno, vai ficar desempregado ou ganhar muito pouco!”, já ouvi uma mãe dizer ao filho, desesperada com as notas escolares do garoto.
Mas, se a pergunta não muda, as respostas mudam, e muito. Já houve um tempo em que muitas crianças – garotas principalmente – queriam ser professoras. Meninos e meninas pensavam em ser engenheiros, médicos, advogados, cientistas. Hoje, é difícil ouvir essas respostas.
Quais são as profissões mais atraentes para eles atualmente? Antes de olhar para tal questão, é bom lembrar que as crianças sabem pouco sobre profissões; o que elas dizem querer é apenas um reflexo da percepção que têm a respeito do que o mundo lhes apresenta como importante e de grande reconhecimento ou remuneração.
Ser famoso e cultuado pelas mídias, se destacar na televisão ou internet e receber muito dinheiro parecem ser, hoje, os anseios de muitas delas. Cada vez mais crianças e adolescentes afirmam que, quando crescerem, querem ser blogueiros, modelos, artistas, chefes de cozinha, jogadores de futebol, “vlogueiros” etc. Como você pode perceber, caro leitor, são sempre atividades com grande projeção, mas que pouquíssimas pessoas conseguem alcançar. Só que isso as crianças não têm condição de entender.
Algumas delas acham que já são grandes e têm, na internet, blogs e canais de vídeos, um bom público, composto tanto de outras crianças quanto de adultos. É fácil entender os motivos que levam os mais jovens a serem frequentadores assíduos desses canais: estão isolados, sem espaços públicos para encontrar outras crianças e para brincar. A internet tornou-se, portanto, esse espaço para eles. Mas e quanto aos adultos? Será que estão ali por mera curiosidade? Ainda não sabemos.
O que sabemos é que muitas dessas crianças são tratadas como celebridades, estão bastante expostas e chegam a ganhar presentes de marcas e até dinheiro – algumas vezes, muito dinheiro – com o que chamam de “empresa”. E sempre com o apoio dos pais, é claro, porque precisam de uma grande infraestrutura para fazer o que fazem.
Será que isso é bom para elas? Depende do ponto de vista. Para quem acredita que sucesso, popularidade e ganhos financeiros fazem bem à criança, pode ser positivo. Mas não sabemos até quando. O sucesso e a fama são ondas que vêm e vão. Quando acabarem – e acabam! –, o que será desses meninos e meninas? Estão eles preparados para cair e se levantar? Na minha opinião, não. Se isso já é difícil para os adultos, imagine, caro leitor, para uma criança.
Para quem preza a infância dos filhos e prioriza o aprendizado da convivência deles com outras crianças, nada disso é bom, mesmo que eles digam que querem muito participar e que vários colegas fazem. Qual é o seu ponto de vista?
(Rosely Saião. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/roselysayao/2016/03/1754998-pergunta-fatidica.shtml.)
A vida na aldeia: uma lição dos índios
O que mais chama a atenção na forma de vida dos índios é a existência de uma igualdade entre eles muito maior do que em nossa sociedade. Numa comunidade indígena, todos podem usar a terra em função da relação de parentesco entre eles. Ninguém passa fome por não ter onde plantar, caçar, pescar; Não há patrões e empregados: nem ricos, nem pobres.
A terra pertence à comunidade. Isso não quer dizer que a propriedade seja coletiva ou que todos trabalhem juntos. Embora a terra seja da comunidade, o que cada indivíduo ou cada grupo de parentes possui é bem definido. Cada índio ou grupo de parentes tem a própria roça e não deve roubar a plantação dos outros. Há muita troca de trabalho; é comum que um homem ajude um parente na roça durante alguns dias, para mais adiante receber a retribuição. Existe também a obrigação de trocar presentes.
Enfim, não existe a preocupação em acumular, como em nossa sociedade. Tudo o que os índios produzem serve para usarem, darem, para poderem ser generosos uns com os outros: para eles, isso significa ser rico, generoso.
Fernando Portela e Betty Minolin.
A questão do Índio. São Paulo, Ática, 1989.
De acordo com o texto acima, responda a questão:
A vida na aldeia: uma lição dos índios
O que mais chama a atenção na forma de vida dos índios é a existência de uma igualdade entre eles muito maior do que em nossa sociedade. Numa comunidade indígena, todos podem usar a terra em função da relação de parentesco entre eles. Ninguém passa fome por não ter onde plantar, caçar, pescar; Não há patrões e empregados: nem ricos, nem pobres.
A terra pertence à comunidade. Isso não quer dizer que a propriedade seja coletiva ou que todos trabalhem juntos. Embora a terra seja da comunidade, o que cada indivíduo ou cada grupo de parentes possui é bem definido. Cada índio ou grupo de parentes tem a própria roça e não deve roubar a plantação dos outros. Há muita troca de trabalho; é comum que um homem ajude um parente na roça durante alguns dias, para mais adiante receber a retribuição. Existe também a obrigação de trocar presentes.
Enfim, não existe a preocupação em acumular, como em nossa sociedade. Tudo o que os índios produzem serve para usarem, darem, para poderem ser generosos uns com os outros: para eles, isso significa ser rico, generoso.
Fernando Portela e Betty Minolin.
A questão do Índio. São Paulo, Ática, 1989.
De acordo com o texto acima, responda a questão:
A vida na aldeia: uma lição dos índios
O que mais chama a atenção na forma de vida dos índios é a existência de uma igualdade entre eles muito maior do que em nossa sociedade. Numa comunidade indígena, todos podem usar a terra em função da relação de parentesco entre eles. Ninguém passa fome por não ter onde plantar, caçar, pescar; Não há patrões e empregados: nem ricos, nem pobres.
A terra pertence à comunidade. Isso não quer dizer que a propriedade seja coletiva ou que todos trabalhem juntos. Embora a terra seja da comunidade, o que cada indivíduo ou cada grupo de parentes possui é bem definido. Cada índio ou grupo de parentes tem a própria roça e não deve roubar a plantação dos outros. Há muita troca de trabalho; é comum que um homem ajude um parente na roça durante alguns dias, para mais adiante receber a retribuição. Existe também a obrigação de trocar presentes.
Enfim, não existe a preocupação em acumular, como em nossa sociedade. Tudo o que os índios produzem serve para usarem, darem, para poderem ser generosos uns com os outros: para eles, isso significa ser rico, generoso.
Fernando Portela e Betty Minolin.
A questão do Índio. São Paulo, Ática, 1989.
De acordo com o texto acima, responda a questão:
A vida na aldeia: uma lição dos índios
O que mais chama a atenção na forma de vida dos índios é a existência de uma igualdade entre eles muito maior do que em nossa sociedade. Numa comunidade indígena, todos podem usar a terra em função da relação de parentesco entre eles. Ninguém passa fome por não ter onde plantar, caçar, pescar; Não há patrões e empregados: nem ricos, nem pobres.
A terra pertence à comunidade. Isso não quer dizer que a propriedade seja coletiva ou que todos trabalhem juntos. Embora a terra seja da comunidade, o que cada indivíduo ou cada grupo de parentes possui é bem definido. Cada índio ou grupo de parentes tem a própria roça e não deve roubar a plantação dos outros. Há muita troca de trabalho; é comum que um homem ajude um parente na roça durante alguns dias, para mais adiante receber a retribuição. Existe também a obrigação de trocar presentes.
Enfim, não existe a preocupação em acumular, como em nossa sociedade. Tudo o que os índios produzem serve para usarem, darem, para poderem ser generosos uns com os outros: para eles, isso significa ser rico, generoso.
Fernando Portela e Betty Minolin.
A questão do Índio. São Paulo, Ática, 1989.
De acordo com o texto acima, responda a questão:
A vida na aldeia: uma lição dos índios
O que mais chama a atenção na forma de vida dos índios é a existência de uma igualdade entre eles muito maior do que em nossa sociedade. Numa comunidade indígena, todos podem usar a terra em função da relação de parentesco entre eles. Ninguém passa fome por não ter onde plantar, caçar, pescar; Não há patrões e empregados: nem ricos, nem pobres.
A terra pertence à comunidade. Isso não quer dizer que a propriedade seja coletiva ou que todos trabalhem juntos. Embora a terra seja da comunidade, o que cada indivíduo ou cada grupo de parentes possui é bem definido. Cada índio ou grupo de parentes tem a própria roça e não deve roubar a plantação dos outros. Há muita troca de trabalho; é comum que um homem ajude um parente na roça durante alguns dias, para mais adiante receber a retribuição. Existe também a obrigação de trocar presentes.
Enfim, não existe a preocupação em acumular, como em nossa sociedade. Tudo o que os índios produzem serve para usarem, darem, para poderem ser generosos uns com os outros: para eles, isso significa ser rico, generoso.
Fernando Portela e Betty Minolin.
A questão do Índio. São Paulo, Ática, 1989.
De acordo com o texto acima, responda a questão: