Questões de Concurso
Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português
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Mais que no âmago de uma crise de proporções planetárias, nos confrontamos hoje com um processo de irreversibilidade. A Terra nunca mais será a mesma. Ela foi transformada em sua base físico-química-ecológica de forma tão profunda que acabou perdendo seu equilíbrio interno. Entrou num processo de caos, vale dizer, perdeu sua sustentabilidade e afetou a continuação do que, por milênios, vinha fazendo: produzindo e reproduzindo vida.
Todo caos possui dois lados: um destrutivo e outro criativo. O destrutivo representa a desmontagem de um tipo de equilíbrio que implica a erosão de parte da biodiversidade e, no limite, a redução da espécie humana. Esta resulta da incapacidade ou de adaptar-se à nova situação ou de mitigar os efeitos letais. Concluído esse processo de purificação, o caos começa a mostrar sua face generativa. Cria novas ordens, equilibra os climas e permite que os seres humanos sobreviventes construam outro tipo de civilização.
Da história da Terra aprendemos que ela passou por cerca de quinze grandes dizimações, como a do cambriano há 480 milhões de anos, que dizimou de 80 a 90% das espécies. Mas, por ser mãe generosa, lentamente, refez a diversidade da vida.
Hoje, a comunidade científica, em sua grande maioria, nos alerta acerca de um eventual colapso do sistema-vida, ameaçando o próprio futuro da espécie humana. Todos podem perceber as mudanças que estão ocorrendo diante de nossos olhos. Grandes efeitos extremos: por um lado estiagens prolongadas associadas à grande escassez de água, afetando os ecossistemas e a sociedade como um todo, como está ocorrendo no Sudeste de nosso país. Em outros lugares do planeta, como nos USA, invernos rigorosos como não se viam há decênios ou até centenas de anos.
O fato é que tocamos nos limites físicos do planeta Terra. Ao forçá-los, como o faz a nossa voracidade produtivista e consumista, a Terra responde com tufões, tsunamis, enchentes devastadoras, terremotos e uma incontida subida do aquecimento global. [...]
E, apesar deste cenário dramático, olho em minha volta e vejo, extasiado, a floresta cheia de quaresmeiras roxas, fedegosos amarelos e no canto de minha casa as belle donne floridas, tucanos que pousam em árvores em frente de minha janela e as araras que fazem ninhos debaixo do telhado.
Então me dou conta de que a Terra é de fato mãe generosa: às nossas agressões ainda nos sorri com flora e fauna. E nos infunde a esperança de que não o apocalipse, mas um novo gênesis* está a caminho. A Terra vai ainda sobreviver. Deus não permitirá que a vida, que penosamente superou o caos, venha a desaparecer.
* Gênesis – termo grego que significa origem, nascimento, é o nome do primeiro livro da bíblia.
Leonardo Boff. Disponível em: https://leonardoboff.wordpress.com/2015/02/22/as-agressoes-humanas-a-terra-responde-com-flores/ - Adaptado.
Mais que no âmago de uma crise de proporções planetárias, nos confrontamos hoje com um processo de irreversibilidade. A Terra nunca mais será a mesma. Ela foi transformada em sua base físico-química-ecológica de forma tão profunda que acabou perdendo seu equilíbrio interno. Entrou num processo de caos, vale dizer, perdeu sua sustentabilidade e afetou a continuação do que, por milênios, vinha fazendo: produzindo e reproduzindo vida.
Todo caos possui dois lados: um destrutivo e outro criativo. O destrutivo representa a desmontagem de um tipo de equilíbrio que implica a erosão de parte da biodiversidade e, no limite, a redução da espécie humana. Esta resulta da incapacidade ou de adaptar-se à nova situação ou de mitigar os efeitos letais. Concluído esse processo de purificação, o caos começa a mostrar sua face generativa. Cria novas ordens, equilibra os climas e permite que os seres humanos sobreviventes construam outro tipo de civilização.
Da história da Terra aprendemos que ela passou por cerca de quinze grandes dizimações, como a do cambriano há 480 milhões de anos, que dizimou de 80 a 90% das espécies. Mas, por ser mãe generosa, lentamente, refez a diversidade da vida.
Hoje, a comunidade científica, em sua grande maioria, nos alerta acerca de um eventual colapso do sistema-vida, ameaçando o próprio futuro da espécie humana. Todos podem perceber as mudanças que estão ocorrendo diante de nossos olhos. Grandes efeitos extremos: por um lado estiagens prolongadas associadas à grande escassez de água, afetando os ecossistemas e a sociedade como um todo, como está ocorrendo no Sudeste de nosso país. Em outros lugares do planeta, como nos USA, invernos rigorosos como não se viam há decênios ou até centenas de anos.
O fato é que tocamos nos limites físicos do planeta Terra. Ao forçá-los, como o faz a nossa voracidade produtivista e consumista, a Terra responde com tufões, tsunamis, enchentes devastadoras, terremotos e uma incontida subida do aquecimento global. [...]
E, apesar deste cenário dramático, olho em minha volta e vejo, extasiado, a floresta cheia de quaresmeiras roxas, fedegosos amarelos e no canto de minha casa as belle donne floridas, tucanos que pousam em árvores em frente de minha janela e as araras que fazem ninhos debaixo do telhado.
Então me dou conta de que a Terra é de fato mãe generosa: às nossas agressões ainda nos sorri com flora e fauna. E nos infunde a esperança de que não o apocalipse, mas um novo gênesis* está a caminho. A Terra vai ainda sobreviver. Deus não permitirá que a vida, que penosamente superou o caos, venha a desaparecer.
* Gênesis – termo grego que significa origem, nascimento, é o nome do primeiro livro da bíblia.
Leonardo Boff. Disponível em: https://leonardoboff.wordpress.com/2015/02/22/as-agressoes-humanas-a-terra-responde-com-flores/ - Adaptado.
Mais que no âmago de uma crise de proporções planetárias, nos confrontamos hoje com um processo de irreversibilidade. A Terra nunca mais será a mesma. Ela foi transformada em sua base físico-química-ecológica de forma tão profunda que acabou perdendo seu equilíbrio interno. Entrou num processo de caos, vale dizer, perdeu sua sustentabilidade e afetou a continuação do que, por milênios, vinha fazendo: produzindo e reproduzindo vida.
Todo caos possui dois lados: um destrutivo e outro criativo. O destrutivo representa a desmontagem de um tipo de equilíbrio que implica a erosão de parte da biodiversidade e, no limite, a redução da espécie humana. Esta resulta da incapacidade ou de adaptar-se à nova situação ou de mitigar os efeitos letais. Concluído esse processo de purificação, o caos começa a mostrar sua face generativa. Cria novas ordens, equilibra os climas e permite que os seres humanos sobreviventes construam outro tipo de civilização.
Da história da Terra aprendemos que ela passou por cerca de quinze grandes dizimações, como a do cambriano há 480 milhões de anos, que dizimou de 80 a 90% das espécies. Mas, por ser mãe generosa, lentamente, refez a diversidade da vida.
Hoje, a comunidade científica, em sua grande maioria, nos alerta acerca de um eventual colapso do sistema-vida, ameaçando o próprio futuro da espécie humana. Todos podem perceber as mudanças que estão ocorrendo diante de nossos olhos. Grandes efeitos extremos: por um lado estiagens prolongadas associadas à grande escassez de água, afetando os ecossistemas e a sociedade como um todo, como está ocorrendo no Sudeste de nosso país. Em outros lugares do planeta, como nos USA, invernos rigorosos como não se viam há decênios ou até centenas de anos.
O fato é que tocamos nos limites físicos do planeta Terra. Ao forçá-los, como o faz a nossa voracidade produtivista e consumista, a Terra responde com tufões, tsunamis, enchentes devastadoras, terremotos e uma incontida subida do aquecimento global. [...]
E, apesar deste cenário dramático, olho em minha volta e vejo, extasiado, a floresta cheia de quaresmeiras roxas, fedegosos amarelos e no canto de minha casa as belle donne floridas, tucanos que pousam em árvores em frente de minha janela e as araras que fazem ninhos debaixo do telhado.
Então me dou conta de que a Terra é de fato mãe generosa: às nossas agressões ainda nos sorri com flora e fauna. E nos infunde a esperança de que não o apocalipse, mas um novo gênesis* está a caminho. A Terra vai ainda sobreviver. Deus não permitirá que a vida, que penosamente superou o caos, venha a desaparecer.
* Gênesis – termo grego que significa origem, nascimento, é o nome do primeiro livro da bíblia.
Leonardo Boff. Disponível em: https://leonardoboff.wordpress.com/2015/02/22/as-agressoes-humanas-a-terra-responde-com-flores/ - Adaptado.
Demonstrações públicas escancaradas de amor pelos filhos, como tatuar seus nomes no braço, não são, é claro, incompatíveis com negligenciá-los e abandoná-los; na verdade, quando eu era médico e via homens com os nomes dos filhos tatuados no braço, eu podia ter quase certeza de que eles estavam separados da mãe ou das mães de seus filhos, e que raramente os viam, se é que os viam. Claro que é perfeitamente possível que haja números enormes de homens com os nomes dos filhos tatuados nos braços que sejam pais extremamente bondosos e solícitos, mas de algum modo duvido muito; parece-me mais provável que tatuar o nome seja uma substituição para a solicitude, e não um indício dela.
(Theodore Dalrymple. Podres de mimados, 2015, p. 73)
Para o autor:
1. é possível um pai ter o nome do filho tatuado no braço e ser negligente com ele.
2. a maioria dos homens com os nomes dos filhos tatuados no braço são extremamente bondosos e solícitos.
3. tatuar o nome do filho no braço é uma forma de o pai tentar compensar sua ausência.
Assinale a alternativa correta.
Em fevereiro de 2016, a especialista em política educacional Paula Louzano falou à revista Veja sobre a proposta de currículo nacional apresentada pelo governo. Relativamente a essa entrevista, numere a coluna da direita, relacionando as respostas com as respectivas perguntas que constam na coluna da esquerda.
1. Na terça-feira, o Ministro da Educação publicou uma revisão da proposta, ampliando, por exemplo, a parte de história mundial e incluindo pontos de gramática. O avanço foi significativo?
2. Como os outros países desenham seus currículos?
3. Por que a progressão é tão relevante para o aprendizado?
4. É preciso perseverar no propósito de criar
um currículo único?
( ) Apegando-se ao conceito de progressão no ensino. Países como Canadá, Finlândia ou Austrália são bons exemplos nessa área.
( ) Todos os países com bons índices de educação têm um currículo nacional.
( ) São mudanças relevantes. Mas não teremos um currículo de padrão internacional se não houver uma mudança estrutural.
( ) Se o professor e o aluno não sabem quais são seus
objetivos no fim do percurso acadêmico, e como cada
“degrau” da escada do conhecimento colabora para que
cheguem a esses objetivos, eles se perdem em meio aos
conteúdos.
Dei uma palestra em janeiro no Festival Literário Galle. Nos últimos dez anos, esse festival tornou-se um dos maiores destaques do circuito cultural do Sri Lanka. Neste ano, o evento criou festivais “de contato com as comunidades” em Kandy, na região montanhosa do país, e Jaffna, no norte.
Foi significativo o fato de o festival ter sido levado a Jaffna, capital da província do Norte. A brutal guerra civil entre os Tigres pela Libertação do Tamil Eelam e o Exército de Sri Lanka acabou há menos de sete anos. Muita coisa no Norte foi reconstruída, mas os fantasmas do conflito ainda assombram Jaffna, desde os edifícios marcados por buracos de balas até os milhares de civis mortos do conflito.
Contra esse pano de fundo, o festival criou um espaço de engajamento com uma larga variedade de ideias, de maneira que não acontece com frequência em um lugar como Jaffna. O evento foi aberto com uma discussão da literatura tâmil, que ajudou a moldar e definir a identidade tâmil.
Reconhecendo as sensibilidades envolvidas, os organizadores do festival promoveram a sessão na língua tâmil. Porém, fato notável, todos os palestrantes e muitos escritores tâmeis presentes na plateia fizeram objeção, insistindo no uso do inglês. “Não queremos falar apenas com nós mesmos”, disse um dos presentes.
É uma opinião que não encontro com frequência. “Falar consigo mesmo”, muitas vezes, infelizmente, parece ser o objetivo das políticas de identidade no Ocidente. Um bom exemplo disso é a moda atual de denunciar a “apropriação cultural”, que denota o uso por pessoas de uma cultura (especialmente pessoas de posição privilegiada) dos símbolos e ideias de outra cultura.
Essa noção já levou a casos bizarros, como grêmios estudantis que proibiram o uso do sombreiro (chapéu mexicano) ou as aulas de ioga. O problema é que a história da cultura é a história da apropriação. Não pode haver cultura sem que os povos emprestem, roubem e se apropriem de elementos uns dos outros.
A discussão sobre identidade que aconteceu em Jaffna foi diferente. Para os tâmeis presentes, a identidade não era uma barreira com a qual se proteger do resto do mundo, mas uma maneira de dialogar com esse mundo.
Chamou minha atenção igualmente a resposta do público em um evento realizado alguns dias antes em Colombo, a capital do Sri Lanka. Eu tinha sido entrevistado sobre o palco, num bate-papo que cobriu desde minha infância até meu senso de identidade, passando por questões de liberdade de expressão e censura.
Critiquei a política de identidade e expressei apoio ao direito de causar ofensa. Especificamente, defendi a revista satírica francesa “Charlie Hebdo” contra acusações de racismo.
Já discursei sobre temas semelhantes para plateias semelhantes na Europa e encarei críticas consideráveis. “O que lhe dá o direito de ofender outros?”, já me perguntaram. “A liberdade de expressão é acompanhada da obrigação de usá-la de modo responsável”, me disseram.
Em um debate no Reino Unido sobre as consequências do caso “Charlie Hebdo”, outro participante lamentou o fato de o debate ter ficado polarizado entre os que estavam a favor ou contra a liberdade de expressão. Não podemos simplesmente ser a favor ou contra a liberdade, ele argumentou: “É mais complicado que isso”.
Teria o palestrante apresentado o mesmo argumento 200 anos atrás, quando se debatia a abolição da escravidão? Será que ele teria dito “não podemos simplesmente ser a favor ou contra a abolição da escravidão. A liberdade é mais complicada que isso”?
Não precisei colocar essa pergunta à minha plateia em Colombo. As pessoas que ali estavam compreendiam implicitamente a importância da liberdade e, em especial, da liberdade de expressão. Mesmo as pessoas da plateia que eram críticas das charges publicadas pelo “Charlie Hebdo” defenderam o direito do semanário de publicá-las. [...]
Na realidade, desde o fim da guerra, o país assiste ao crescimento dos movimentos religiosos sectários. Por exemplo, surgiu uma vertente mais intolerante do budismo que tem como alvo não os tâmeis, mas os muçulmanos.
O islamismo também está mudando em Sri Lanka. Antes, era uma religião relativamente aberta, descontraída. Agora, porém, chamou minha atenção o grande número de mulheres usando a burca, algo que teria sido inimaginável duas décadas atrás. Parece que muitos muçulmanos de Sri Lanka foram ser operários em países do Golfo Pérsico e, quando voltaram, trouxeram na bagagem uma vertente mais intransigente do islamismo. [...]
Ao pedir que se proíbam a “apropriação cultural” e as ofensas, muitos adotam ideias sobre identidade, cultura e livre expressão que reforçam mais os sectários que aqueles que os contestam. Queremos uma sociedade mais aberta ou mais fechada? Esse é o xis da questão, quer seja em Colombo, Jaffna ou Londres.
(Kenan Malik. Jornal Gazeta do Povo, 27 fev. 2016)
Dei uma palestra em janeiro no Festival Literário Galle. Nos últimos dez anos, esse festival tornou-se um dos maiores destaques do circuito cultural do Sri Lanka. Neste ano, o evento criou festivais “de contato com as comunidades” em Kandy, na região montanhosa do país, e Jaffna, no norte.
Foi significativo o fato de o festival ter sido levado a Jaffna, capital da província do Norte. A brutal guerra civil entre os Tigres pela Libertação do Tamil Eelam e o Exército de Sri Lanka acabou há menos de sete anos. Muita coisa no Norte foi reconstruída, mas os fantasmas do conflito ainda assombram Jaffna, desde os edifícios marcados por buracos de balas até os milhares de civis mortos do conflito.
Contra esse pano de fundo, o festival criou um espaço de engajamento com uma larga variedade de ideias, de maneira que não acontece com frequência em um lugar como Jaffna. O evento foi aberto com uma discussão da literatura tâmil, que ajudou a moldar e definir a identidade tâmil.
Reconhecendo as sensibilidades envolvidas, os organizadores do festival promoveram a sessão na língua tâmil. Porém, fato notável, todos os palestrantes e muitos escritores tâmeis presentes na plateia fizeram objeção, insistindo no uso do inglês. “Não queremos falar apenas com nós mesmos”, disse um dos presentes.
É uma opinião que não encontro com frequência. “Falar consigo mesmo”, muitas vezes, infelizmente, parece ser o objetivo das políticas de identidade no Ocidente. Um bom exemplo disso é a moda atual de denunciar a “apropriação cultural”, que denota o uso por pessoas de uma cultura (especialmente pessoas de posição privilegiada) dos símbolos e ideias de outra cultura.
Essa noção já levou a casos bizarros, como grêmios estudantis que proibiram o uso do sombreiro (chapéu mexicano) ou as aulas de ioga. O problema é que a história da cultura é a história da apropriação. Não pode haver cultura sem que os povos emprestem, roubem e se apropriem de elementos uns dos outros.
A discussão sobre identidade que aconteceu em Jaffna foi diferente. Para os tâmeis presentes, a identidade não era uma barreira com a qual se proteger do resto do mundo, mas uma maneira de dialogar com esse mundo.
Chamou minha atenção igualmente a resposta do público em um evento realizado alguns dias antes em Colombo, a capital do Sri Lanka. Eu tinha sido entrevistado sobre o palco, num bate-papo que cobriu desde minha infância até meu senso de identidade, passando por questões de liberdade de expressão e censura.
Critiquei a política de identidade e expressei apoio ao direito de causar ofensa. Especificamente, defendi a revista satírica francesa “Charlie Hebdo” contra acusações de racismo.
Já discursei sobre temas semelhantes para plateias semelhantes na Europa e encarei críticas consideráveis. “O que lhe dá o direito de ofender outros?”, já me perguntaram. “A liberdade de expressão é acompanhada da obrigação de usá-la de modo responsável”, me disseram.
Em um debate no Reino Unido sobre as consequências do caso “Charlie Hebdo”, outro participante lamentou o fato de o debate ter ficado polarizado entre os que estavam a favor ou contra a liberdade de expressão. Não podemos simplesmente ser a favor ou contra a liberdade, ele argumentou: “É mais complicado que isso”.
Teria o palestrante apresentado o mesmo argumento 200 anos atrás, quando se debatia a abolição da escravidão? Será que ele teria dito “não podemos simplesmente ser a favor ou contra a abolição da escravidão. A liberdade é mais complicada que isso”?
Não precisei colocar essa pergunta à minha plateia em Colombo. As pessoas que ali estavam compreendiam implicitamente a importância da liberdade e, em especial, da liberdade de expressão. Mesmo as pessoas da plateia que eram críticas das charges publicadas pelo “Charlie Hebdo” defenderam o direito do semanário de publicá-las. [...]
Na realidade, desde o fim da guerra, o país assiste ao crescimento dos movimentos religiosos sectários. Por exemplo, surgiu uma vertente mais intolerante do budismo que tem como alvo não os tâmeis, mas os muçulmanos.
O islamismo também está mudando em Sri Lanka. Antes, era uma religião relativamente aberta, descontraída. Agora, porém, chamou minha atenção o grande número de mulheres usando a burca, algo que teria sido inimaginável duas décadas atrás. Parece que muitos muçulmanos de Sri Lanka foram ser operários em países do Golfo Pérsico e, quando voltaram, trouxeram na bagagem uma vertente mais intransigente do islamismo. [...]
Ao pedir que se proíbam a “apropriação cultural” e as ofensas, muitos adotam ideias sobre identidade, cultura e livre expressão que reforçam mais os sectários que aqueles que os contestam. Queremos uma sociedade mais aberta ou mais fechada? Esse é o xis da questão, quer seja em Colombo, Jaffna ou Londres.
(Kenan Malik. Jornal Gazeta do Povo, 27 fev. 2016)
Dei uma palestra em janeiro no Festival Literário Galle. Nos últimos dez anos, esse festival tornou-se um dos maiores destaques do circuito cultural do Sri Lanka. Neste ano, o evento criou festivais “de contato com as comunidades” em Kandy, na região montanhosa do país, e Jaffna, no norte.
Foi significativo o fato de o festival ter sido levado a Jaffna, capital da província do Norte. A brutal guerra civil entre os Tigres pela Libertação do Tamil Eelam e o Exército de Sri Lanka acabou há menos de sete anos. Muita coisa no Norte foi reconstruída, mas os fantasmas do conflito ainda assombram Jaffna, desde os edifícios marcados por buracos de balas até os milhares de civis mortos do conflito.
Contra esse pano de fundo, o festival criou um espaço de engajamento com uma larga variedade de ideias, de maneira que não acontece com frequência em um lugar como Jaffna. O evento foi aberto com uma discussão da literatura tâmil, que ajudou a moldar e definir a identidade tâmil.
Reconhecendo as sensibilidades envolvidas, os organizadores do festival promoveram a sessão na língua tâmil. Porém, fato notável, todos os palestrantes e muitos escritores tâmeis presentes na plateia fizeram objeção, insistindo no uso do inglês. “Não queremos falar apenas com nós mesmos”, disse um dos presentes.
É uma opinião que não encontro com frequência. “Falar consigo mesmo”, muitas vezes, infelizmente, parece ser o objetivo das políticas de identidade no Ocidente. Um bom exemplo disso é a moda atual de denunciar a “apropriação cultural”, que denota o uso por pessoas de uma cultura (especialmente pessoas de posição privilegiada) dos símbolos e ideias de outra cultura.
Essa noção já levou a casos bizarros, como grêmios estudantis que proibiram o uso do sombreiro (chapéu mexicano) ou as aulas de ioga. O problema é que a história da cultura é a história da apropriação. Não pode haver cultura sem que os povos emprestem, roubem e se apropriem de elementos uns dos outros.
A discussão sobre identidade que aconteceu em Jaffna foi diferente. Para os tâmeis presentes, a identidade não era uma barreira com a qual se proteger do resto do mundo, mas uma maneira de dialogar com esse mundo.
Chamou minha atenção igualmente a resposta do público em um evento realizado alguns dias antes em Colombo, a capital do Sri Lanka. Eu tinha sido entrevistado sobre o palco, num bate-papo que cobriu desde minha infância até meu senso de identidade, passando por questões de liberdade de expressão e censura.
Critiquei a política de identidade e expressei apoio ao direito de causar ofensa. Especificamente, defendi a revista satírica francesa “Charlie Hebdo” contra acusações de racismo.
Já discursei sobre temas semelhantes para plateias semelhantes na Europa e encarei críticas consideráveis. “O que lhe dá o direito de ofender outros?”, já me perguntaram. “A liberdade de expressão é acompanhada da obrigação de usá-la de modo responsável”, me disseram.
Em um debate no Reino Unido sobre as consequências do caso “Charlie Hebdo”, outro participante lamentou o fato de o debate ter ficado polarizado entre os que estavam a favor ou contra a liberdade de expressão. Não podemos simplesmente ser a favor ou contra a liberdade, ele argumentou: “É mais complicado que isso”.
Teria o palestrante apresentado o mesmo argumento 200 anos atrás, quando se debatia a abolição da escravidão? Será que ele teria dito “não podemos simplesmente ser a favor ou contra a abolição da escravidão. A liberdade é mais complicada que isso”?
Não precisei colocar essa pergunta à minha plateia em Colombo. As pessoas que ali estavam compreendiam implicitamente a importância da liberdade e, em especial, da liberdade de expressão. Mesmo as pessoas da plateia que eram críticas das charges publicadas pelo “Charlie Hebdo” defenderam o direito do semanário de publicá-las. [...]
Na realidade, desde o fim da guerra, o país assiste ao crescimento dos movimentos religiosos sectários. Por exemplo, surgiu uma vertente mais intolerante do budismo que tem como alvo não os tâmeis, mas os muçulmanos.
O islamismo também está mudando em Sri Lanka. Antes, era uma religião relativamente aberta, descontraída. Agora, porém, chamou minha atenção o grande número de mulheres usando a burca, algo que teria sido inimaginável duas décadas atrás. Parece que muitos muçulmanos de Sri Lanka foram ser operários em países do Golfo Pérsico e, quando voltaram, trouxeram na bagagem uma vertente mais intransigente do islamismo. [...]
Ao pedir que se proíbam a “apropriação cultural” e as ofensas, muitos adotam ideias sobre identidade, cultura e livre expressão que reforçam mais os sectários que aqueles que os contestam. Queremos uma sociedade mais aberta ou mais fechada? Esse é o xis da questão, quer seja em Colombo, Jaffna ou Londres.
(Kenan Malik. Jornal Gazeta do Povo, 27 fev. 2016)
Dei uma palestra em janeiro no Festival Literário Galle. Nos últimos dez anos, esse festival tornou-se um dos maiores destaques do circuito cultural do Sri Lanka. Neste ano, o evento criou festivais “de contato com as comunidades” em Kandy, na região montanhosa do país, e Jaffna, no norte.
Foi significativo o fato de o festival ter sido levado a Jaffna, capital da província do Norte. A brutal guerra civil entre os Tigres pela Libertação do Tamil Eelam e o Exército de Sri Lanka acabou há menos de sete anos. Muita coisa no Norte foi reconstruída, mas os fantasmas do conflito ainda assombram Jaffna, desde os edifícios marcados por buracos de balas até os milhares de civis mortos do conflito.
Contra esse pano de fundo, o festival criou um espaço de engajamento com uma larga variedade de ideias, de maneira que não acontece com frequência em um lugar como Jaffna. O evento foi aberto com uma discussão da literatura tâmil, que ajudou a moldar e definir a identidade tâmil.
Reconhecendo as sensibilidades envolvidas, os organizadores do festival promoveram a sessão na língua tâmil. Porém, fato notável, todos os palestrantes e muitos escritores tâmeis presentes na plateia fizeram objeção, insistindo no uso do inglês. “Não queremos falar apenas com nós mesmos”, disse um dos presentes.
É uma opinião que não encontro com frequência. “Falar consigo mesmo”, muitas vezes, infelizmente, parece ser o objetivo das políticas de identidade no Ocidente. Um bom exemplo disso é a moda atual de denunciar a “apropriação cultural”, que denota o uso por pessoas de uma cultura (especialmente pessoas de posição privilegiada) dos símbolos e ideias de outra cultura.
Essa noção já levou a casos bizarros, como grêmios estudantis que proibiram o uso do sombreiro (chapéu mexicano) ou as aulas de ioga. O problema é que a história da cultura é a história da apropriação. Não pode haver cultura sem que os povos emprestem, roubem e se apropriem de elementos uns dos outros.
A discussão sobre identidade que aconteceu em Jaffna foi diferente. Para os tâmeis presentes, a identidade não era uma barreira com a qual se proteger do resto do mundo, mas uma maneira de dialogar com esse mundo.
Chamou minha atenção igualmente a resposta do público em um evento realizado alguns dias antes em Colombo, a capital do Sri Lanka. Eu tinha sido entrevistado sobre o palco, num bate-papo que cobriu desde minha infância até meu senso de identidade, passando por questões de liberdade de expressão e censura.
Critiquei a política de identidade e expressei apoio ao direito de causar ofensa. Especificamente, defendi a revista satírica francesa “Charlie Hebdo” contra acusações de racismo.
Já discursei sobre temas semelhantes para plateias semelhantes na Europa e encarei críticas consideráveis. “O que lhe dá o direito de ofender outros?”, já me perguntaram. “A liberdade de expressão é acompanhada da obrigação de usá-la de modo responsável”, me disseram.
Em um debate no Reino Unido sobre as consequências do caso “Charlie Hebdo”, outro participante lamentou o fato de o debate ter ficado polarizado entre os que estavam a favor ou contra a liberdade de expressão. Não podemos simplesmente ser a favor ou contra a liberdade, ele argumentou: “É mais complicado que isso”.
Teria o palestrante apresentado o mesmo argumento 200 anos atrás, quando se debatia a abolição da escravidão? Será que ele teria dito “não podemos simplesmente ser a favor ou contra a abolição da escravidão. A liberdade é mais complicada que isso”?
Não precisei colocar essa pergunta à minha plateia em Colombo. As pessoas que ali estavam compreendiam implicitamente a importância da liberdade e, em especial, da liberdade de expressão. Mesmo as pessoas da plateia que eram críticas das charges publicadas pelo “Charlie Hebdo” defenderam o direito do semanário de publicá-las. [...]
Na realidade, desde o fim da guerra, o país assiste ao crescimento dos movimentos religiosos sectários. Por exemplo, surgiu uma vertente mais intolerante do budismo que tem como alvo não os tâmeis, mas os muçulmanos.
O islamismo também está mudando em Sri Lanka. Antes, era uma religião relativamente aberta, descontraída. Agora, porém, chamou minha atenção o grande número de mulheres usando a burca, algo que teria sido inimaginável duas décadas atrás. Parece que muitos muçulmanos de Sri Lanka foram ser operários em países do Golfo Pérsico e, quando voltaram, trouxeram na bagagem uma vertente mais intransigente do islamismo. [...]
Ao pedir que se proíbam a “apropriação cultural” e as ofensas, muitos adotam ideias sobre identidade, cultura e livre expressão que reforçam mais os sectários que aqueles que os contestam. Queremos uma sociedade mais aberta ou mais fechada? Esse é o xis da questão, quer seja em Colombo, Jaffna ou Londres.
(Kenan Malik. Jornal Gazeta do Povo, 27 fev. 2016)
Com base no texto, considere as seguintes afirmativas: 1
1. O festival em Jaffna foi um manifesto contra a atuação dos Tigres pela Libertação do Tamil, que causou a morte de milhares de civis.
2. O autor considera que a plateia de suas palestras na Europa é mais receptiva às suas ideias sobre liberdade de expressão.
3. Os eventos em Jaffna e Colombo são mencionados pelo autor como exemplos de abertura cultural.
Assinale a alternativa correta.
Considerando as ideias e os aspectos linguísticos do texto O que é um cronista?, julgue o item a seguir.
O autor defende que a crônica, comparada a outros gêneros
textuais, confere ao escritor menos autonomia.
Considerando as ideias e os aspectos linguísticos do texto O que é um cronista?, julgue o item a seguir.
No período “O cronista é isso: fica pregando lá em cima de sua
coluna no jornal” (L. 12 e 13), o verbo pregar foi empregado
em sentido figurado.
Considerando as ideias e os aspectos linguísticos do texto O que é um cronista?, julgue o item a seguir.
Infere-se do texto que, tanto para o autor como para outros
cronistas, a crônica se caracteriza pela constância com que é
produzida.
Texto II
Relatórios
Relatórios de circulação restrita são dirigidos a leitores de perfil bem específico. Os relatórios de inquérito, por exemplo, são lidos pelas pessoas diretamente envolvidas na investigação de que tratam. Um relatório de inquérito criminal terá como leitores preferenciais delegados, advogados, juízes e promotores.
Autores de relatórios que têm leitores definidos podem pressupor que compartilham com seus leitores um conhecimento geral sobre a questão abordada. Nesse sentido, podem fazer um texto que focalize aspectos específicos sem terem a necessidade de apresentar informações prévias.
Isso não acontece com relatórios de circulação mais ampla. Nesse caso, os autores do relatório devem levar em consideração o fato de terem como interlocutores pessoas que se interessam pelo assunto abordado, mas não têm qualquer conhecimento sobre ele. No momento de elaborar o relatório, será preciso levar esse fato em consideração e introduzir, no texto, todas as informações necessárias para garantir que os leitores possam acompanhar os dados apresentados, a análise feita e a conclusão decorrente dessa análise.
Texto II
Relatórios
Relatórios de circulação restrita são dirigidos a leitores de perfil bem específico. Os relatórios de inquérito, por exemplo, são lidos pelas pessoas diretamente envolvidas na investigação de que tratam. Um relatório de inquérito criminal terá como leitores preferenciais delegados, advogados, juízes e promotores.
Autores de relatórios que têm leitores definidos podem pressupor que compartilham com seus leitores um conhecimento geral sobre a questão abordada. Nesse sentido, podem fazer um texto que focalize aspectos específicos sem terem a necessidade de apresentar informações prévias.
Isso não acontece com relatórios de circulação mais ampla. Nesse caso, os autores do relatório devem levar em consideração o fato de terem como interlocutores pessoas que se interessam pelo assunto abordado, mas não têm qualquer conhecimento sobre ele. No momento de elaborar o relatório, será preciso levar esse fato em consideração e introduzir, no texto, todas as informações necessárias para garantir que os leitores possam acompanhar os dados apresentados, a análise feita e a conclusão decorrente dessa análise.
“Um relatório de inquérito criminal terá como leitores preferenciais delegados, advogados, juízes e promotores”.
Isso significa que
Texto II
Relatórios
Relatórios de circulação restrita são dirigidos a leitores de perfil bem específico. Os relatórios de inquérito, por exemplo, são lidos pelas pessoas diretamente envolvidas na investigação de que tratam. Um relatório de inquérito criminal terá como leitores preferenciais delegados, advogados, juízes e promotores.
Autores de relatórios que têm leitores definidos podem pressupor que compartilham com seus leitores um conhecimento geral sobre a questão abordada. Nesse sentido, podem fazer um texto que focalize aspectos específicos sem terem a necessidade de apresentar informações prévias.
Isso não acontece com relatórios de circulação mais ampla. Nesse caso, os autores do relatório devem levar em consideração o fato de terem como interlocutores pessoas que se interessam pelo assunto abordado, mas não têm qualquer conhecimento sobre ele. No momento de elaborar o relatório, será preciso levar esse fato em consideração e introduzir, no texto, todas as informações necessárias para garantir que os leitores possam acompanhar os dados apresentados, a análise feita e a conclusão decorrente dessa análise.
Texto I
Do relatório à pizza
Nos últimos anos, relatórios produzidos por Comissões Parlamentares de Inquérito têm merecido destaque na mídia nacional por impactos das denúncias que investigam. Algumas das sessões de inquérito são transmitidas por canais de televisão e acompanhadas por milhares de brasileiros interessados no resultado das investigações conduzidas por seus representantes legislativos. Muitos jornais publicam trechos dos relatórios produzidos por essas comissões de inquérito. De modo geral, porém, as expectativas dos eleitores são frustradas quando veem relatórios que apontam responsabilidades por crimes de corrupção e desvio de verbas públicas serem “engavetados” sem que os responsáveis sejam punidos.
(João Montanaro, Folha de São Paulo, 19-05-2012)
Texto I
Do relatório à pizza
Nos últimos anos, relatórios produzidos por Comissões Parlamentares de Inquérito têm merecido destaque na mídia nacional por impactos das denúncias que investigam. Algumas das sessões de inquérito são transmitidas por canais de televisão e acompanhadas por milhares de brasileiros interessados no resultado das investigações conduzidas por seus representantes legislativos. Muitos jornais publicam trechos dos relatórios produzidos por essas comissões de inquérito. De modo geral, porém, as expectativas dos eleitores são frustradas quando veem relatórios que apontam responsabilidades por crimes de corrupção e desvio de verbas públicas serem “engavetados” sem que os responsáveis sejam punidos.
(João Montanaro, Folha de São Paulo, 19-05-2012)
Texto I
Do relatório à pizza
Nos últimos anos, relatórios produzidos por Comissões Parlamentares de Inquérito têm merecido destaque na mídia nacional por impactos das denúncias que investigam. Algumas das sessões de inquérito são transmitidas por canais de televisão e acompanhadas por milhares de brasileiros interessados no resultado das investigações conduzidas por seus representantes legislativos. Muitos jornais publicam trechos dos relatórios produzidos por essas comissões de inquérito. De modo geral, porém, as expectativas dos eleitores são frustradas quando veem relatórios que apontam responsabilidades por crimes de corrupção e desvio de verbas públicas serem “engavetados” sem que os responsáveis sejam punidos.
(João Montanaro, Folha de São Paulo, 19-05-2012)
Texto I
Do relatório à pizza
Nos últimos anos, relatórios produzidos por Comissões Parlamentares de Inquérito têm merecido destaque na mídia nacional por impactos das denúncias que investigam. Algumas das sessões de inquérito são transmitidas por canais de televisão e acompanhadas por milhares de brasileiros interessados no resultado das investigações conduzidas por seus representantes legislativos. Muitos jornais publicam trechos dos relatórios produzidos por essas comissões de inquérito. De modo geral, porém, as expectativas dos eleitores são frustradas quando veem relatórios que apontam responsabilidades por crimes de corrupção e desvio de verbas públicas serem “engavetados” sem que os responsáveis sejam punidos.
(João Montanaro, Folha de São Paulo, 19-05-2012)
