Questões de Concurso
Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português
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Solidão pode matar tanto quanto a obesidada
Levantamento com dados de quase 4 milhões de pessoas aponta que viver
(ou se sentir) sozinho é bem mais prejudicial do que parece
Muito se fala sobre a prevalência e os prejuízos da obesidade. Mas uma análise apresentada na 125ª Convenção Anual da Associação Americana de Psicologia alerta para outro mal pra lá de nocivo: a solidão. De acordo com os condutores do trabalho — cientistas da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos —, uma das principais ameaças nesse sentido seria o aumento do risco de morte prematura.
A pesquisa ocorreu em duas partes. Na primeira, 148 estudos foram avaliados, totalizando 300 mil pessoas. Cruzando as informações dessa turma, os experts americanos concluíram que quem cultiva bons relacionamentos interpessoais tem 50% mais chances de não falecer antes da hora em comparação com os solitários.
Já a segunda etapa considerou os dados de aproximadamente 3,4 milhões de voluntários, divididos em 70 pesquisas. Como era de se esperar, também houve uma clara relação entre a solidão ou o isolamento social e o risco de morrer antes do tempo. Mas o que intrigou os experts foi o fato de esses problemas, segundo o estudo, serem tão deletérios quanto a obesidade ou outras condições sérias de saúde.
O isolamento social é definido como pouco ou nenhum contato com outros indivíduos. A solidão, por sua vez, é marcada pela falta de conexão emocional com os demais. Ou seja, é possível se sentir sozinho, mesmo em meio a um mar de gente.
Durante a convenção em que essa revisão foi apresentada, a professora de psicologia Julianne Holt-Lunstad, uma de suas autoras, destacou a relevância do achado para os que estão na terceira idade, quando a falta de contato social é mais comum. Para ela, tal associação reforça a importância de investirmos em iniciativas que promovam o engajamento e a interação desse público, como centros de recreação e jardins comunitários.
Vand Vieira. Disponível em: https://saude.abril.com.br/mente-saudavel/solidao-pode-matar-tanto-quanto-a-obesidade. Acesso em: 22/01/2019. Adaptado
Leia atentamente a canção Apenas um rapaz latino-americano, de Antonio Carlos Belchior, cantor e compositor brasileiro, para responder à questão..
Apenas um rapaz latino-americano
Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco,
Sem parentes importantes, e vindo do interior
Mas trago, de cabeça, uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia:
"tudo é divino, tudo é maravilhoso"
Tenho ouvido muitos discos,
Conversado com pessoas, caminhado meu caminho
Papo, som dentro da noite,
E não tenho um amigo sequer
Que acredite nisso, não.
Tudo muda e com toda razão!
Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco,
Sem parentes importantes, e vindo do interior
Mas sei que tudo é proibido,
aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido,
até beijar você no escuro do cinema
Quando ninguém nos vê
Não me peça que lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras são navalhas
e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe, meu amigo
com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção,
A vida, a vida realmente é diferente
Quer dizer, ao vivo é muito pior!
E eu sou apenas um rapaz latino-americano,
sem dinheiro no banco
Por favor não saque a arma no "saloon"
eu sou apenas o cantor
Mas se depois de cantar
você ainda quiser me atirar
Mate-me logo, à tarde, às três,
que à noite tenho um compromisso
E não posso faltar, por causa de vocês
Eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes, e vindo do interior
Mas sei que nada é divino,
nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é secreto,
nada, nada é misterioso, não
Na na na na na na na na
Leia atentamente as afirmações a seguir:
I – Para o eu lírico, as canções representam uma realidade diversa da vida real.
II – O eu lírico indica a existência de um “protocolo” de elaboração de músicas, protocolo esse respeitado por ele.
III – O pronome defino “o”, em “eu sou apenas o cantor”, tem um significado: indica que o cantor é o porta-voz de uma mensagem que não representa apenas ele.
É (São) incorreta(s) a(s) afirmação(ões):
Leia atentamente a canção Apenas um rapaz latino-americano, de Antonio Carlos Belchior, cantor e compositor brasileiro, para responder à questão..
Apenas um rapaz latino-americano
Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco,
Sem parentes importantes, e vindo do interior
Mas trago, de cabeça, uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia:
"tudo é divino, tudo é maravilhoso"
Tenho ouvido muitos discos,
Conversado com pessoas, caminhado meu caminho
Papo, som dentro da noite,
E não tenho um amigo sequer
Que acredite nisso, não.
Tudo muda e com toda razão!
Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco,
Sem parentes importantes, e vindo do interior
Mas sei que tudo é proibido,
aliás, eu queria dizer
Que tudo é permitido,
até beijar você no escuro do cinema
Quando ninguém nos vê
Não me peça que lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras são navalhas
e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe, meu amigo
com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção,
A vida, a vida realmente é diferente
Quer dizer, ao vivo é muito pior!
E eu sou apenas um rapaz latino-americano,
sem dinheiro no banco
Por favor não saque a arma no "saloon"
eu sou apenas o cantor
Mas se depois de cantar
você ainda quiser me atirar
Mate-me logo, à tarde, às três,
que à noite tenho um compromisso
E não posso faltar, por causa de vocês
Eu sou apenas um rapaz latino-americano
sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes, e vindo do interior
Mas sei que nada é divino,
nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é secreto,
nada, nada é misterioso, não
Na na na na na na na na
Leia atentamente as afirmações a seguir:
I – A caracterização vaga do eu lírico, na primeira estrofe, permite que a canção represente uma coletividade e não apenas um indivíduo específico.
II – As experiências, vivências e esclarecimentos na cidade grande levaram o eu lírico a concluir que nada é maravilhoso.
III – Há na quinta estrofe um tom de ironia: muito embora o eu lírico afirme que tudo é permitido, existem certas condições para essa permissão.
É (São) correta(s) a(s) afirmação(ões):
Vida além do celular
Era para ser apenas uma conferida no relógio, para saber as horas. De repente, você nota que está rolando telas no celular há horas.
Aconteceu comigo e provavelmente já aconteceu com você. O celular se tornou tão onipresente que esquecemos que um dia, não faz muito tempo, fomos capazes de viver sem ele. Considerando o primeiro smart-phone de fato, o iphone foi lançado a meros 12 anos, em um não muito longínquo 2007. De lá para cá, os celulares se transformaram em tijolinhos de multifunção, capazes de receber mensagens, fornecer mapas e nos distrair com facilidade.
Na mesma facilidade que cresce a adoção do smart-phone- tipo escolhido por metade dos 5 bilhões de proprietários de celular do mundo, aumenta também o tempo que reservamos a esses aparelhinhos, especialmente entre os brasileiros. Pesquisas relatam que em 2012 os usuários no país dedicavam em média, duas horas por dia às telinhas. Apenas quatro anos depois, o tempo investido nos celulares já era mais que o dobro somando quase cinco horas diárias, bem mais que as três horas por dia dos chineses, as duas e meia dos norte-americanos ou a pouco mais de duas dos britânicos e sul-coreanos.
O que fazemos durante esse “meio expediente” digital? Em geral, segundo dados da empresa de consultoria Kantar, trocamos mensagens, navegamos pela web, tiramos fotos e rolamos por feeds de redes sociais.
No entanto, não é só à vontade ou necessidade de nos conectarmos uns aos outros que nos leva a dar tanta atenção aos celulares. Segundo Tristan Harris, ex-filósofo de produtos do Google, os aplicativos são criados de forma a capturar nossos olhares, conquistar a nossa atenção, e nos manter conectados pelo maior tempo possível. Especialista em como a tecnologia ataca as nossas vulnerabilidades psicológicas, Harris, tinha tantas críticas à falta de ética e no design de produtos digitais que decidiu criar a Time Well Spent (Tempo Bem Investido, em tradução livre), iniciativa para ajudar as pessoas a equilibrarem o uso de tecnologia, especialmente de smart-phones.
Para ele, a manipulação e persuasão dos usuários não só tira eles a autonomia de colocar a atenção no que realmente querem ou de se dedicar à vida que gostariam de viver, como também interfere na forma como eles conversam, na democracia e na sua habilidade de ter relacionamentos satisfatórios.
(Revista Galileu, edição fevereiro 2019, página 24.)
Os dois lados da medalha
Muito se engana quem acredita que o doping seja algo novo. Pesquisas apontam que Filóstrato (800 a.C.), filósofo grego, já conhecia os efeitos estimulantes do chá de cogumelos – bem por isso, ele venceu duas vezes a corrida olímpica de longa distância. Do arco e flecha ao nado sincronizado, verdade seja dita, as modalidades olímpicas se multiplicaram ao longo do tempo, o que fomentou a indústria esportiva e abriu as portas para a manipulação de drogas sintéticas e demais suplementos potencializadores. Lentava-se, a propósito, a discussão: até que ponto o doping pode ser fraude atribuída apenas ao esportista?
Um caso emblemático: Lance Edward Armstrong, ex-ciclista americano, ficou famoso por ter vencido o Tour de France por sete vezes consecutivas, de 1999 a 2005. Glamour à parte, em 2012, Armstrong perdeu todos os títulos e foi afastado do ciclismo competitivo pela União Ciclística Internacional. Por quê? Apurou-se que ele usava dopagem bioquímica – um macroesquema que envolveu não só o atleta, mas também médicos e autoridades esportivas.
Fica claro, então, que o lugar mais alto no pódio não é alvo apenas do atleta, nem é a única recompensa desejada pelos envolvidos – atletas, treinadores, técnicos, patrocinadores. Aliás, os últimos são, sem dúvida, o ponto nevrálgico da questão, haja vista o investimento milionário de grandes marcas nesse ou naquele atleta, o que as leva a apostas altas, tocadas, por vezes, a baralho viciado. Ora, dinheiro e corrupção caminham de mãos dadas, o que, fatalmente, vai respingar na arena, na quadra, na piscina.
Como conciliar preparo físico, glória e mercado? Dizer que, acima de tudo, o importante é competir, a essa altura do campeonato, é ingênuo – a não ser que valores éticos fundamentais sejam recuperados: isso é o que espera o torcedor. Sanções disciplinares e multas devem ser aplicadas não só aos atletas dopados, mas também aos demais envolvidos, em especial os patrocinadores, sempre que houver quaisquer violações aos regulamentos prescritos pelo comitê olímpico. É primordial que todos assistamos a competições limpas. Afinal, medalha e marmelada não caem bem!
Por Gislaine Buosi e João Bosco Costa
É correto, sem advérbios.
A lição da menina negra, magérrima, que cantou feito rainha.
Eiza Soares estreou no programa de Ary Barroso na Rádio Tupi. Tinha 16 anos e era mãe. Sua cria estava doente e Elza inscreveu-se no show de Barroso porque os primeiros lugares ganhavam prêmios em dinheiro. Era uma chance de pagar o tratamento do filho. Elza subiu no palco, mulher negra, jovem, magérrima, vestida conforme o lugar que lhe cabia na perversa espiral de privilégios da nossa sociedade. Notavam-se os remendos no vestido. Os alfinetes. Ary Barroso ficou chocado com alguém que, para muitos, não merecia estar sob os holofotes. “O que é que você velo fazer aqui?” Ary recebeu Elza com boa dose da branquitude, classismo e machismo que inebriam a elite brasileira desde sempre.
Elza respondeu: “Eu vim cantar”. Ary seguiu a cantilena do opressor: “E quem disse que você sabe cantar?”. Amenina de 16 anos, cujo filho ardia em febre, respondeu com a coragem das mães: “Eu”. “De onde você veio, menina?" Ary não parecia se cansar de assinalar que Elza era uma estrangeira ali. Nesse momento, a menina respondeu com a audácia disruptiva que mora em cada nota do seu jazz de lata d'água na cabeça: “Eu vim do planeta fome”.
Em 1983, a respeitadíssima acadêmica indiana Gayatri Spivak escreveu Pode o Subalterno Falar? O ensaio, referência para quem deseja compreender a contribuição dos estudos pós-coloniais para as ciências humanas, fala do silenciamento sistemático do subalterno. Categoria nomeada por Gramsci, o subalterno é quem não pertence socialmente e politicamente às estruturas hegemônicas de poder. Os excluídos. Os triturados diariamente pela mecânica da discriminação. As Elzas e seus filhos febris. Spivak teorizou sobre o fato de não parecer natural ou adequado o subalterno falar. O silêncio é o que se espera dele,
Se o subalterno não deve falar, como poderia ousar cantar? Ary e sua plateia, que ria da humilhação de Elza, achavam que não, E hoje? Seria diferente? Mudamos pouco. Somos a mesma plateia rindo de novas humilhações que nos chegam pelas novas mídias, mas somos iguais. Esperamos do subalterno o silêncio. Zombamos do subalterno que ousa quebrar esse nosso contrato social. E não se enganem: a zombaria é o novo açoite. Mudamos pouco. Os ancestrais de Elza foram para o pelourinho. Elza foi ridicularizada ao vivo. Hoje, fingimos ter superado esse passado, mas as revistas lidas pelas madames saúdam a nova onda: uniformes de domésticas assinados por estilistas renomados.
Mudamos quase nada.
Naquele dia, Elza cantou Lama na Rádio Tupi. A subalterna cantou rainha, majestosa. Ary Barroso aplaudiu boquiaberto. A plateia que antes riu levantou-se. Reverenciou a nobreza da negra do planeta fome que ousou adentrar um espaço que lhe era negado e fez dele seu reino. Para quem ainda não entendeu: o politicamente correto é simplesmente isso. O correto. Algumas piadas a menos? Sim. Mas, em troca, hoje temos infinitos talentos antes silenciados embalando nossos sonhos. Só os que não sonham não veem que o resultado é positivo e deve ser comemorado.
(Manoela Miklos. 25 de janelro, 2019, Revista VEJA).
É correto, sem advérbios.
A lição da menina negra, magérrima, que cantou feito rainha.
Eiza Soares estreou no programa de Ary Barroso na Rádio Tupi. Tinha 16 anos e era mãe. Sua cria estava doente e Elza inscreveu-se no show de Barroso porque os primeiros lugares ganhavam prêmios em dinheiro. Era uma chance de pagar o tratamento do filho. Elza subiu no palco, mulher negra, jovem, magérrima, vestida conforme o lugar que lhe cabia na perversa espiral de privilégios da nossa sociedade. Notavam-se os remendos no vestido. Os alfinetes. Ary Barroso ficou chocado com alguém que, para muitos, não merecia estar sob os holofotes. “O que é que você velo fazer aqui?” Ary recebeu Elza com boa dose da branquitude, classismo e machismo que inebriam a elite brasileira desde sempre.
Elza respondeu: “Eu vim cantar”. Ary seguiu a cantilena do opressor: “E quem disse que você sabe cantar?”. Amenina de 16 anos, cujo filho ardia em febre, respondeu com a coragem das mães: “Eu”. “De onde você veio, menina?" Ary não parecia se cansar de assinalar que Elza era uma estrangeira ali. Nesse momento, a menina respondeu com a audácia disruptiva que mora em cada nota do seu jazz de lata d'água na cabeça: “Eu vim do planeta fome”.
Em 1983, a respeitadíssima acadêmica indiana Gayatri Spivak escreveu Pode o Subalterno Falar? O ensaio, referência para quem deseja compreender a contribuição dos estudos pós-coloniais para as ciências humanas, fala do silenciamento sistemático do subalterno. Categoria nomeada por Gramsci, o subalterno é quem não pertence socialmente e politicamente às estruturas hegemônicas de poder. Os excluídos. Os triturados diariamente pela mecânica da discriminação. As Elzas e seus filhos febris. Spivak teorizou sobre o fato de não parecer natural ou adequado o subalterno falar. O silêncio é o que se espera dele,
Se o subalterno não deve falar, como poderia ousar cantar? Ary e sua plateia, que ria da humilhação de Elza, achavam que não, E hoje? Seria diferente? Mudamos pouco. Somos a mesma plateia rindo de novas humilhações que nos chegam pelas novas mídias, mas somos iguais. Esperamos do subalterno o silêncio. Zombamos do subalterno que ousa quebrar esse nosso contrato social. E não se enganem: a zombaria é o novo açoite. Mudamos pouco. Os ancestrais de Elza foram para o pelourinho. Elza foi ridicularizada ao vivo. Hoje, fingimos ter superado esse passado, mas as revistas lidas pelas madames saúdam a nova onda: uniformes de domésticas assinados por estilistas renomados.
Mudamos quase nada.
Naquele dia, Elza cantou Lama na Rádio Tupi. A subalterna cantou rainha, majestosa. Ary Barroso aplaudiu boquiaberto. A plateia que antes riu levantou-se. Reverenciou a nobreza da negra do planeta fome que ousou adentrar um espaço que lhe era negado e fez dele seu reino. Para quem ainda não entendeu: o politicamente correto é simplesmente isso. O correto. Algumas piadas a menos? Sim. Mas, em troca, hoje temos infinitos talentos antes silenciados embalando nossos sonhos. Só os que não sonham não veem que o resultado é positivo e deve ser comemorado.
(Manoela Miklos. 25 de janelro, 2019, Revista VEJA).
Leia o texto a seguir para responder à questão.
“Por sua vez, o processo de democratização da leitura da literatura acontece quando o leitor dá expressão àquilo que se ofereceu à sua compreensão, porque qualquer discurso, como adverte Bakhtin (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1979), requer necessariamente a alteridade para se evidenciar. A alteridade é o texto, o gesto, a imagem, o som ou o movimento que se apresentar à sua inteligência; mas é igualmente o outro sujeito a quem ele manifesta seu entendimento. O dialogismo funda o ato de ler, supondo uma alteridade que se corporifica, de uma parte, no ser colocado à interpretação, de outra, no(s) outro(s) sujeito(s) a que expõe sua fala.
A alteridade tem fundamento social e coletivo, mostrando-se, também ela, dialética e contraditória. A leitura, intermediária entre sujeitos outros, não é apaziguadora, fortalecendo, pelo contrário, as possibilidades de divergência e debate. Logo, não se conforma com o cânone, autoritário e monológico, que circula graças a instituições que, como ele, calcam-se no arbítrio de detentores do poder. Assim, se almejar a adoção de uma posição democrática, popular e bem sucedida na sala de aula, a leitura da literatura, tomada na amplitude do conceito tradicional, ou considerada desde os distintos objetos que se apresentam à decifração do leitor, não pode se ater à transmissão do cânone enquanto um monumento resistente às intervenções dos seres que fazem funcionar a engrenagem da cultura e, por extensão, daquilo que genérica e insuficientemente é chamado de literatura.
Em sala de aula, esse posicionamento é o ponto de partida da atuação do professor, que,
enquanto docente, promoverá o cotejo entre o patrimônio de cada leitor com o patrimônio social,
histórico, político do grupo ou do público com o qual interage, considerando que a obra literária é
igualmente esse outro sujeito em que o jogo entre o individual – a criação e a inovação – e o coletivo,
traduzido pelos códigos estéticos, ideológicos, tradicionais e canônicos, expõe-se a cada momento em
que se dá o contato com ela.” (ZILBERMAN, R. Leitura na escola – entre a democratização e o cânone.
Revista Literatura em Debate, vol. 11, n. 21, 2017.).
Leia o texto a seguir para responder à questão.
“Por sua vez, o processo de democratização da leitura da literatura acontece quando o leitor dá expressão àquilo que se ofereceu à sua compreensão, porque qualquer discurso, como adverte Bakhtin (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1979), requer necessariamente a alteridade para se evidenciar. A alteridade é o texto, o gesto, a imagem, o som ou o movimento que se apresentar à sua inteligência; mas é igualmente o outro sujeito a quem ele manifesta seu entendimento. O dialogismo funda o ato de ler, supondo uma alteridade que se corporifica, de uma parte, no ser colocado à interpretação, de outra, no(s) outro(s) sujeito(s) a que expõe sua fala.
A alteridade tem fundamento social e coletivo, mostrando-se, também ela, dialética e contraditória. A leitura, intermediária entre sujeitos outros, não é apaziguadora, fortalecendo, pelo contrário, as possibilidades de divergência e debate. Logo, não se conforma com o cânone, autoritário e monológico, que circula graças a instituições que, como ele, calcam-se no arbítrio de detentores do poder. Assim, se almejar a adoção de uma posição democrática, popular e bem sucedida na sala de aula, a leitura da literatura, tomada na amplitude do conceito tradicional, ou considerada desde os distintos objetos que se apresentam à decifração do leitor, não pode se ater à transmissão do cânone enquanto um monumento resistente às intervenções dos seres que fazem funcionar a engrenagem da cultura e, por extensão, daquilo que genérica e insuficientemente é chamado de literatura.
Em sala de aula, esse posicionamento é o ponto de partida da atuação do professor, que,
enquanto docente, promoverá o cotejo entre o patrimônio de cada leitor com o patrimônio social,
histórico, político do grupo ou do público com o qual interage, considerando que a obra literária é
igualmente esse outro sujeito em que o jogo entre o individual – a criação e a inovação – e o coletivo,
traduzido pelos códigos estéticos, ideológicos, tradicionais e canônicos, expõe-se a cada momento em
que se dá o contato com ela.” (ZILBERMAN, R. Leitura na escola – entre a democratização e o cânone.
Revista Literatura em Debate, vol. 11, n. 21, 2017.).
Leia o texto a seguir para responder à questão.
“Por sua vez, o processo de democratização da leitura da literatura acontece quando o leitor dá expressão àquilo que se ofereceu à sua compreensão, porque qualquer discurso, como adverte Bakhtin (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1979), requer necessariamente a alteridade para se evidenciar. A alteridade é o texto, o gesto, a imagem, o som ou o movimento que se apresentar à sua inteligência; mas é igualmente o outro sujeito a quem ele manifesta seu entendimento. O dialogismo funda o ato de ler, supondo uma alteridade que se corporifica, de uma parte, no ser colocado à interpretação, de outra, no(s) outro(s) sujeito(s) a que expõe sua fala.
A alteridade tem fundamento social e coletivo, mostrando-se, também ela, dialética e contraditória. A leitura, intermediária entre sujeitos outros, não é apaziguadora, fortalecendo, pelo contrário, as possibilidades de divergência e debate. Logo, não se conforma com o cânone, autoritário e monológico, que circula graças a instituições que, como ele, calcam-se no arbítrio de detentores do poder. Assim, se almejar a adoção de uma posição democrática, popular e bem sucedida na sala de aula, a leitura da literatura, tomada na amplitude do conceito tradicional, ou considerada desde os distintos objetos que se apresentam à decifração do leitor, não pode se ater à transmissão do cânone enquanto um monumento resistente às intervenções dos seres que fazem funcionar a engrenagem da cultura e, por extensão, daquilo que genérica e insuficientemente é chamado de literatura.
Em sala de aula, esse posicionamento é o ponto de partida da atuação do professor, que,
enquanto docente, promoverá o cotejo entre o patrimônio de cada leitor com o patrimônio social,
histórico, político do grupo ou do público com o qual interage, considerando que a obra literária é
igualmente esse outro sujeito em que o jogo entre o individual – a criação e a inovação – e o coletivo,
traduzido pelos códigos estéticos, ideológicos, tradicionais e canônicos, expõe-se a cada momento em
que se dá o contato com ela.” (ZILBERMAN, R. Leitura na escola – entre a democratização e o cânone.
Revista Literatura em Debate, vol. 11, n. 21, 2017.).
“A escola não pode ignorar as diferenças sociolinguísticas. Os professores e, por meio deles, os alunos têm que estar bem conscientes de que existem duas ou mais maneiras de dizer a mesma coisa. E mais, que essas formas alternativas servem a propósitos comunicativos distintos e são recebidas de maneira diferenciada pela sociedade. Algumas conferem prestígio ao falante, aumentando-lhe a credibilidade e o poder de persuasão; outras contribuem para formar-lhe uma imagem negativa, diminuindo-lhe as oportunidades. Há que se ter em conta ainda que essas reações dependem das circunstâncias que cercam a interação. Os alunos que chegam à escola falando „nós cheguemu‟, „abrido‟ e „ele drome‟, por exemplo, têm que ser respeitados e ver valorizadas as suas peculiaridades linguístico-culturais, mas têm o direito inalienável de aprender as variantes do prestígio dessas expressões.” (BORTONI-RICARDO, S. M. Nós cheguemu na escola, e agora?: sociolinguística & educação. São Paulo: Parábola Editorial, 2005).
Ao relacionarmos os dois excertos, é possível afirmar que
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Que é língua?
Esta é uma questão que prefiro discutir partindo das noções de trabalho, de atividade. Assim, ao pensar a questão da linguagem e da língua, vejo a linguagem como uma atividade, como um trabalho. Um trabalho de homens, ou seja, de sujeitos que são histórica, social e culturalmente situados e que, através desse trabalho, dessa atividade, organizam, interpretam e dão forma a suas experiências e à realidade em que vivem. Começo, então, a refletir sobre a questão colocada a partir de uma definição de linguagem construída nesses termos, porque foi na relação com atividades de uma linguagem assim concebida – que se manifesta sempre em situações sociais de interlocução – que, por hipótese, se constituíram as chamadas línguas naturais, cada uma com suas características estruturais próprias, manifestas nos seus vários níveis de organização (fonológico, morfológico, sintático, semântico). Quero com isso dizer que é a linguagem, portanto, o lugar natural para se iniciarem os estudos sobre qualquer aspecto das línguas naturais, ainda que o recorte que se venha a fazer incida apenas sobre algum aspecto estrutural desses sistemas linguísticos. O fato de esses estudos se terem voltado – particularmente no momento em que a linguística, durante o movimento estruturalista, buscava se constituir como ciência – quase que exclusivamente para aquilo que parecia mais estruturado – o sistema linguístico – fez com que se desse ênfase a uma definição de língua como código, o que hoje se passou a questionar, por ser uma definição excessivamente redutora. Vejo a língua, portanto, como um sistema estruturado que, por situar-se no âmbito da linguagem, apresenta constante instabilidade e mutabilidade, características de quaisquer atividades do homem, tomado enquanto sujeito historicamente situado.
(Entrevista de Bernadete Abaurre na obra Conversas com lingüistas: virtudes e controvérsias da
lingüística, organizada por Antonio Carlos Xavier e Suzana Cortez, 2005).
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Que é língua?
Esta é uma questão que prefiro discutir partindo das noções de trabalho, de atividade. Assim, ao pensar a questão da linguagem e da língua, vejo a linguagem como uma atividade, como um trabalho. Um trabalho de homens, ou seja, de sujeitos que são histórica, social e culturalmente situados e que, através desse trabalho, dessa atividade, organizam, interpretam e dão forma a suas experiências e à realidade em que vivem. Começo, então, a refletir sobre a questão colocada a partir de uma definição de linguagem construída nesses termos, porque foi na relação com atividades de uma linguagem assim concebida – que se manifesta sempre em situações sociais de interlocução – que, por hipótese, se constituíram as chamadas línguas naturais, cada uma com suas características estruturais próprias, manifestas nos seus vários níveis de organização (fonológico, morfológico, sintático, semântico). Quero com isso dizer que é a linguagem, portanto, o lugar natural para se iniciarem os estudos sobre qualquer aspecto das línguas naturais, ainda que o recorte que se venha a fazer incida apenas sobre algum aspecto estrutural desses sistemas linguísticos. O fato de esses estudos se terem voltado – particularmente no momento em que a linguística, durante o movimento estruturalista, buscava se constituir como ciência – quase que exclusivamente para aquilo que parecia mais estruturado – o sistema linguístico – fez com que se desse ênfase a uma definição de língua como código, o que hoje se passou a questionar, por ser uma definição excessivamente redutora. Vejo a língua, portanto, como um sistema estruturado que, por situar-se no âmbito da linguagem, apresenta constante instabilidade e mutabilidade, características de quaisquer atividades do homem, tomado enquanto sujeito historicamente situado.
(Entrevista de Bernadete Abaurre na obra Conversas com lingüistas: virtudes e controvérsias da
lingüística, organizada por Antonio Carlos Xavier e Suzana Cortez, 2005).