Questões de Concurso Comentadas sobre interpretação de textos em português

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Q3288553 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

Os deuses da cidade

      Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão. Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.
      A comparação da cidade com uma máquina é, ao mesmo tempo, pertinente e desviante. Pertinente porque uma cidade vive na medida em que funciona, isso é, em que serve para se viver nela e para fazer viver. Desviante porque, diferentemente das máquinas, que são criadas com vistas a uma determinada função, as cidades são todas ou quase todas o resultado de adaptações sucessivas a funções diferentes, não previstas por sua fundação anterior (penso nas cidades italianas com sua história de séculos ou de milênios).
      Mais do que com a máquina, é a comparação com o organismo vivo na evolução da espécie que pode nos dizer alguma coisa importante sobre a cidade: como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades. E não podemos esquecer que na história da evolução toda espécie carrega consigo características que parecem de outras eras, na medida em que já não correspondem a necessidades vitais, mas que talvez um dia, em condições ambientais transformadas, serão as que salvarão a espécie da extinção. Assim a força da continuidade de uma cidade pode consistir em características e elementos que hoje parecem prescindíveis, porque esquecidos ou contraditos por seu funcionamento atual,
      Os antigos representavam o espírito de uma cidade com aquele tanto de vago e aquele tanto de preciso que essa operação implica, evocando os nomes dos deuses que presidiram sua fundação: nomes que equivalem a personificações de posturas vitais do comportamento humano e que tinham de garantir a vocação profunda da cidade. Lima cidade pode passar por catástrofes e anacronismos, ver estirpes diferentes sucedendo-se em suas casas, ver suas casas mudarem cada pedra, mas deve, no momento certo, sob formas diferentes, reencontrar os próprios deuses.

(Adaptado de CALVINO, Ítalo. Assunto encerrado. Trad. Roberta Bami. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 3332-336, passim) 
Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento do texto em: 
Alternativas
Q3288552 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

Os deuses da cidade

      Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão. Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.
      A comparação da cidade com uma máquina é, ao mesmo tempo, pertinente e desviante. Pertinente porque uma cidade vive na medida em que funciona, isso é, em que serve para se viver nela e para fazer viver. Desviante porque, diferentemente das máquinas, que são criadas com vistas a uma determinada função, as cidades são todas ou quase todas o resultado de adaptações sucessivas a funções diferentes, não previstas por sua fundação anterior (penso nas cidades italianas com sua história de séculos ou de milênios).
      Mais do que com a máquina, é a comparação com o organismo vivo na evolução da espécie que pode nos dizer alguma coisa importante sobre a cidade: como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades. E não podemos esquecer que na história da evolução toda espécie carrega consigo características que parecem de outras eras, na medida em que já não correspondem a necessidades vitais, mas que talvez um dia, em condições ambientais transformadas, serão as que salvarão a espécie da extinção. Assim a força da continuidade de uma cidade pode consistir em características e elementos que hoje parecem prescindíveis, porque esquecidos ou contraditos por seu funcionamento atual,
      Os antigos representavam o espírito de uma cidade com aquele tanto de vago e aquele tanto de preciso que essa operação implica, evocando os nomes dos deuses que presidiram sua fundação: nomes que equivalem a personificações de posturas vitais do comportamento humano e que tinham de garantir a vocação profunda da cidade. Lima cidade pode passar por catástrofes e anacronismos, ver estirpes diferentes sucedendo-se em suas casas, ver suas casas mudarem cada pedra, mas deve, no momento certo, sob formas diferentes, reencontrar os próprios deuses.

(Adaptado de CALVINO, Ítalo. Assunto encerrado. Trad. Roberta Bami. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 3332-336, passim) 
A expressão deuses da cidade, presente no título, deve-se à informação histórica manifesta neste segmento: 
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Q3288490 Português
PROFETA DO BEM E DO MAL
VILMA GRYZINSKI
Alexander Soljenítsin enfrentou a URSS e detestou o Ocidente

        Dentro da grande tradição russa, Alexander Soljenítsin foi um fabuloso escritor, mas também um profeta, uma combinação de mente e espírito capazes de captar os círculos da água eterna que se projetam para o que achamos ser o futuro. “Na percepção do meu coração, não existe espaço para um conflito Rússia-Ucrânia e se, Deus nos livre, a questão chegar a isso, posso afirmar com certeza: jamais, em nenhuma circunstância, tomarei parte num confronto russo-ucraniano ou permitirei que meus filhos o façam - não importa o quanto os imprudentes destemperados tentem nos arrastar para isso.” Ele escreveu isso em 1981. Tinha convivido com prisioneiros ucranianos no Gulag e aprendido com seu sofrimento sob Stálin.

        Era também impossível. Expulso pela União Soviética em 1974, ele deveria ter se extasiado com o Ocidente, chorado diante da fartura das prateleiras de um supermercado americano - aconteceu com outros exilados do comunismo - e louvado o papel dos Estados Unidos na defesa das liberdades. Fez exatamente o contrário. Sua crítica ao modelo de democracia liberal é uma das mais radicais que existem. No famoso discurso de abertura do ano letivo em Harvard, em 1978, ele fez considerações que merecem ser lembradas cada vez que procuramos um olhar complexo e diversificado sobre o mundo. Numa crítica premonitória, anotou que, em reação ao passado de colonialismo, “as relações com o antigo mundo colonial viraram para o extremo oposto e o mundo ocidental agora frequentemente exibe um excesso de obsequiosidade” com os ex-colonizados - alguém já viu a nova onda “descolonizadora” nos círculos intelectuais das esquerdas hoje em dia? Enfiando a faca mais fundo, o escritor anotou que “um declínio da coragem pode ser a característica mais marcante que um observador de fora nota no Ocidente hoje”. Mencionou a coragem cívica. Imaginem a cara da fina flor de Harvard ao ouvir que “esse declínio na coragem é particularmente perceptível entre as elites governantes e intelectuais”. Teve mais: “A defesa dos direitos individuais atingiu tais extremos que tornam a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos”. Na sua visão, havia um excesso de condescendência com o crime - alguém já ouviu falar em tratar criminosos como vítimas da sociedade?

        Teria o grande Soljenítsin deixado de perceber as nuances do pensamento ocidental, as fraquezas que fazem sua força e sua criatividade, a capacidade de regeneração mesmo de sociedades altamente consumistas ou excessivamente indulgentes? “A inclinação da liberdade na direção do mal aconteceu gradualmente, mas evidentemente deriva de um conceito humanista segundo o qual o homem - o mestre desse mundo - não carrega nenhum mal dentro de si e todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais equivocados que, portanto, precisam ser corrigidos.”

        Qual intelectual hoje ousaria falar em mal ou bem? Soljenítsin falava. Escreveu ele em Arquipélago Gulag: “Gradualmente me foi revelado que a linha separando o bem do mal passa, não entre estados, não entre classes, nem entre partidos políticos - mas diretamente através de cada coração humano. Dentro de nós, oscila com o passar dos anos. E mesmo nos corações tomados pelo mal, uma pequena cabeça de ponte do bem permanece. E mesmo no melhor dos corações, permanece um canto intacto do mal”. Não é de arrepiar?

Revista Veja – 27/09/2024 
No segundo parágrafo do texto, a autora cita a seguinte frase de Alexander: “as relações com o antigo mundo colonial viraram para o extremo oposto e o mundo ocidental agora frequentemente exibe um excesso de obsequiosidade”. Assinale a única alternativa que a reescreve mantendo seu sentido original.
Alternativas
Q3288489 Português
PROFETA DO BEM E DO MAL
VILMA GRYZINSKI
Alexander Soljenítsin enfrentou a URSS e detestou o Ocidente

        Dentro da grande tradição russa, Alexander Soljenítsin foi um fabuloso escritor, mas também um profeta, uma combinação de mente e espírito capazes de captar os círculos da água eterna que se projetam para o que achamos ser o futuro. “Na percepção do meu coração, não existe espaço para um conflito Rússia-Ucrânia e se, Deus nos livre, a questão chegar a isso, posso afirmar com certeza: jamais, em nenhuma circunstância, tomarei parte num confronto russo-ucraniano ou permitirei que meus filhos o façam - não importa o quanto os imprudentes destemperados tentem nos arrastar para isso.” Ele escreveu isso em 1981. Tinha convivido com prisioneiros ucranianos no Gulag e aprendido com seu sofrimento sob Stálin.

        Era também impossível. Expulso pela União Soviética em 1974, ele deveria ter se extasiado com o Ocidente, chorado diante da fartura das prateleiras de um supermercado americano - aconteceu com outros exilados do comunismo - e louvado o papel dos Estados Unidos na defesa das liberdades. Fez exatamente o contrário. Sua crítica ao modelo de democracia liberal é uma das mais radicais que existem. No famoso discurso de abertura do ano letivo em Harvard, em 1978, ele fez considerações que merecem ser lembradas cada vez que procuramos um olhar complexo e diversificado sobre o mundo. Numa crítica premonitória, anotou que, em reação ao passado de colonialismo, “as relações com o antigo mundo colonial viraram para o extremo oposto e o mundo ocidental agora frequentemente exibe um excesso de obsequiosidade” com os ex-colonizados - alguém já viu a nova onda “descolonizadora” nos círculos intelectuais das esquerdas hoje em dia? Enfiando a faca mais fundo, o escritor anotou que “um declínio da coragem pode ser a característica mais marcante que um observador de fora nota no Ocidente hoje”. Mencionou a coragem cívica. Imaginem a cara da fina flor de Harvard ao ouvir que “esse declínio na coragem é particularmente perceptível entre as elites governantes e intelectuais”. Teve mais: “A defesa dos direitos individuais atingiu tais extremos que tornam a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos”. Na sua visão, havia um excesso de condescendência com o crime - alguém já ouviu falar em tratar criminosos como vítimas da sociedade?

        Teria o grande Soljenítsin deixado de perceber as nuances do pensamento ocidental, as fraquezas que fazem sua força e sua criatividade, a capacidade de regeneração mesmo de sociedades altamente consumistas ou excessivamente indulgentes? “A inclinação da liberdade na direção do mal aconteceu gradualmente, mas evidentemente deriva de um conceito humanista segundo o qual o homem - o mestre desse mundo - não carrega nenhum mal dentro de si e todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais equivocados que, portanto, precisam ser corrigidos.”

        Qual intelectual hoje ousaria falar em mal ou bem? Soljenítsin falava. Escreveu ele em Arquipélago Gulag: “Gradualmente me foi revelado que a linha separando o bem do mal passa, não entre estados, não entre classes, nem entre partidos políticos - mas diretamente através de cada coração humano. Dentro de nós, oscila com o passar dos anos. E mesmo nos corações tomados pelo mal, uma pequena cabeça de ponte do bem permanece. E mesmo no melhor dos corações, permanece um canto intacto do mal”. Não é de arrepiar?

Revista Veja – 27/09/2024 
        Os textos em geral se organizam em tipos textuais predominantes. No texto em análise, por exemplo, predomina o tipo dissertativo-argumentativo. Apesar disso, há ao longo do texto períodos e/ou parágrafos que se organizam em outras tipologias textuais. Sabendo disso, identifique a alternativa que contém o tipo textual predominante no trecho abaixo fornecido.
“Dentro da grande tradição russa, Alexander Soljenítsin foi um fabuloso escritor, mas também um profeta, uma combinação de mente e espírito capazes de captar os círculos da água eterna que se projetam para o que achamos ser o futuro.” 
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Q3288488 Português
PROFETA DO BEM E DO MAL
VILMA GRYZINSKI
Alexander Soljenítsin enfrentou a URSS e detestou o Ocidente

        Dentro da grande tradição russa, Alexander Soljenítsin foi um fabuloso escritor, mas também um profeta, uma combinação de mente e espírito capazes de captar os círculos da água eterna que se projetam para o que achamos ser o futuro. “Na percepção do meu coração, não existe espaço para um conflito Rússia-Ucrânia e se, Deus nos livre, a questão chegar a isso, posso afirmar com certeza: jamais, em nenhuma circunstância, tomarei parte num confronto russo-ucraniano ou permitirei que meus filhos o façam - não importa o quanto os imprudentes destemperados tentem nos arrastar para isso.” Ele escreveu isso em 1981. Tinha convivido com prisioneiros ucranianos no Gulag e aprendido com seu sofrimento sob Stálin.

        Era também impossível. Expulso pela União Soviética em 1974, ele deveria ter se extasiado com o Ocidente, chorado diante da fartura das prateleiras de um supermercado americano - aconteceu com outros exilados do comunismo - e louvado o papel dos Estados Unidos na defesa das liberdades. Fez exatamente o contrário. Sua crítica ao modelo de democracia liberal é uma das mais radicais que existem. No famoso discurso de abertura do ano letivo em Harvard, em 1978, ele fez considerações que merecem ser lembradas cada vez que procuramos um olhar complexo e diversificado sobre o mundo. Numa crítica premonitória, anotou que, em reação ao passado de colonialismo, “as relações com o antigo mundo colonial viraram para o extremo oposto e o mundo ocidental agora frequentemente exibe um excesso de obsequiosidade” com os ex-colonizados - alguém já viu a nova onda “descolonizadora” nos círculos intelectuais das esquerdas hoje em dia? Enfiando a faca mais fundo, o escritor anotou que “um declínio da coragem pode ser a característica mais marcante que um observador de fora nota no Ocidente hoje”. Mencionou a coragem cívica. Imaginem a cara da fina flor de Harvard ao ouvir que “esse declínio na coragem é particularmente perceptível entre as elites governantes e intelectuais”. Teve mais: “A defesa dos direitos individuais atingiu tais extremos que tornam a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos”. Na sua visão, havia um excesso de condescendência com o crime - alguém já ouviu falar em tratar criminosos como vítimas da sociedade?

        Teria o grande Soljenítsin deixado de perceber as nuances do pensamento ocidental, as fraquezas que fazem sua força e sua criatividade, a capacidade de regeneração mesmo de sociedades altamente consumistas ou excessivamente indulgentes? “A inclinação da liberdade na direção do mal aconteceu gradualmente, mas evidentemente deriva de um conceito humanista segundo o qual o homem - o mestre desse mundo - não carrega nenhum mal dentro de si e todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais equivocados que, portanto, precisam ser corrigidos.”

        Qual intelectual hoje ousaria falar em mal ou bem? Soljenítsin falava. Escreveu ele em Arquipélago Gulag: “Gradualmente me foi revelado que a linha separando o bem do mal passa, não entre estados, não entre classes, nem entre partidos políticos - mas diretamente através de cada coração humano. Dentro de nós, oscila com o passar dos anos. E mesmo nos corações tomados pelo mal, uma pequena cabeça de ponte do bem permanece. E mesmo no melhor dos corações, permanece um canto intacto do mal”. Não é de arrepiar?

Revista Veja – 27/09/2024 
Nosso texto faz várias citações diretas de frases de Alexander. Em uma delas, ele diz que “A defesa dos direitos individuais atingiu tais extremos que tornam a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos”. Caso queiramos substituir a citação direta por uma citação indireta, manteríamos o mesmo sentido que a frase tem no texto na opção:
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Q3288486 Português
PROFETA DO BEM E DO MAL
VILMA GRYZINSKI
Alexander Soljenítsin enfrentou a URSS e detestou o Ocidente

        Dentro da grande tradição russa, Alexander Soljenítsin foi um fabuloso escritor, mas também um profeta, uma combinação de mente e espírito capazes de captar os círculos da água eterna que se projetam para o que achamos ser o futuro. “Na percepção do meu coração, não existe espaço para um conflito Rússia-Ucrânia e se, Deus nos livre, a questão chegar a isso, posso afirmar com certeza: jamais, em nenhuma circunstância, tomarei parte num confronto russo-ucraniano ou permitirei que meus filhos o façam - não importa o quanto os imprudentes destemperados tentem nos arrastar para isso.” Ele escreveu isso em 1981. Tinha convivido com prisioneiros ucranianos no Gulag e aprendido com seu sofrimento sob Stálin.

        Era também impossível. Expulso pela União Soviética em 1974, ele deveria ter se extasiado com o Ocidente, chorado diante da fartura das prateleiras de um supermercado americano - aconteceu com outros exilados do comunismo - e louvado o papel dos Estados Unidos na defesa das liberdades. Fez exatamente o contrário. Sua crítica ao modelo de democracia liberal é uma das mais radicais que existem. No famoso discurso de abertura do ano letivo em Harvard, em 1978, ele fez considerações que merecem ser lembradas cada vez que procuramos um olhar complexo e diversificado sobre o mundo. Numa crítica premonitória, anotou que, em reação ao passado de colonialismo, “as relações com o antigo mundo colonial viraram para o extremo oposto e o mundo ocidental agora frequentemente exibe um excesso de obsequiosidade” com os ex-colonizados - alguém já viu a nova onda “descolonizadora” nos círculos intelectuais das esquerdas hoje em dia? Enfiando a faca mais fundo, o escritor anotou que “um declínio da coragem pode ser a característica mais marcante que um observador de fora nota no Ocidente hoje”. Mencionou a coragem cívica. Imaginem a cara da fina flor de Harvard ao ouvir que “esse declínio na coragem é particularmente perceptível entre as elites governantes e intelectuais”. Teve mais: “A defesa dos direitos individuais atingiu tais extremos que tornam a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos”. Na sua visão, havia um excesso de condescendência com o crime - alguém já ouviu falar em tratar criminosos como vítimas da sociedade?

        Teria o grande Soljenítsin deixado de perceber as nuances do pensamento ocidental, as fraquezas que fazem sua força e sua criatividade, a capacidade de regeneração mesmo de sociedades altamente consumistas ou excessivamente indulgentes? “A inclinação da liberdade na direção do mal aconteceu gradualmente, mas evidentemente deriva de um conceito humanista segundo o qual o homem - o mestre desse mundo - não carrega nenhum mal dentro de si e todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais equivocados que, portanto, precisam ser corrigidos.”

        Qual intelectual hoje ousaria falar em mal ou bem? Soljenítsin falava. Escreveu ele em Arquipélago Gulag: “Gradualmente me foi revelado que a linha separando o bem do mal passa, não entre estados, não entre classes, nem entre partidos políticos - mas diretamente através de cada coração humano. Dentro de nós, oscila com o passar dos anos. E mesmo nos corações tomados pelo mal, uma pequena cabeça de ponte do bem permanece. E mesmo no melhor dos corações, permanece um canto intacto do mal”. Não é de arrepiar?

Revista Veja – 27/09/2024 
Ao final do primeiro parágrafo, no trecho “não importa o quanto os imprudentes destemperados tentem nos arrastar para isso.”, o pronome em destaque se refere a
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Q3288484 Português
PROFETA DO BEM E DO MAL
VILMA GRYZINSKI
Alexander Soljenítsin enfrentou a URSS e detestou o Ocidente

        Dentro da grande tradição russa, Alexander Soljenítsin foi um fabuloso escritor, mas também um profeta, uma combinação de mente e espírito capazes de captar os círculos da água eterna que se projetam para o que achamos ser o futuro. “Na percepção do meu coração, não existe espaço para um conflito Rússia-Ucrânia e se, Deus nos livre, a questão chegar a isso, posso afirmar com certeza: jamais, em nenhuma circunstância, tomarei parte num confronto russo-ucraniano ou permitirei que meus filhos o façam - não importa o quanto os imprudentes destemperados tentem nos arrastar para isso.” Ele escreveu isso em 1981. Tinha convivido com prisioneiros ucranianos no Gulag e aprendido com seu sofrimento sob Stálin.

        Era também impossível. Expulso pela União Soviética em 1974, ele deveria ter se extasiado com o Ocidente, chorado diante da fartura das prateleiras de um supermercado americano - aconteceu com outros exilados do comunismo - e louvado o papel dos Estados Unidos na defesa das liberdades. Fez exatamente o contrário. Sua crítica ao modelo de democracia liberal é uma das mais radicais que existem. No famoso discurso de abertura do ano letivo em Harvard, em 1978, ele fez considerações que merecem ser lembradas cada vez que procuramos um olhar complexo e diversificado sobre o mundo. Numa crítica premonitória, anotou que, em reação ao passado de colonialismo, “as relações com o antigo mundo colonial viraram para o extremo oposto e o mundo ocidental agora frequentemente exibe um excesso de obsequiosidade” com os ex-colonizados - alguém já viu a nova onda “descolonizadora” nos círculos intelectuais das esquerdas hoje em dia? Enfiando a faca mais fundo, o escritor anotou que “um declínio da coragem pode ser a característica mais marcante que um observador de fora nota no Ocidente hoje”. Mencionou a coragem cívica. Imaginem a cara da fina flor de Harvard ao ouvir que “esse declínio na coragem é particularmente perceptível entre as elites governantes e intelectuais”. Teve mais: “A defesa dos direitos individuais atingiu tais extremos que tornam a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos”. Na sua visão, havia um excesso de condescendência com o crime - alguém já ouviu falar em tratar criminosos como vítimas da sociedade?

        Teria o grande Soljenítsin deixado de perceber as nuances do pensamento ocidental, as fraquezas que fazem sua força e sua criatividade, a capacidade de regeneração mesmo de sociedades altamente consumistas ou excessivamente indulgentes? “A inclinação da liberdade na direção do mal aconteceu gradualmente, mas evidentemente deriva de um conceito humanista segundo o qual o homem - o mestre desse mundo - não carrega nenhum mal dentro de si e todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais equivocados que, portanto, precisam ser corrigidos.”

        Qual intelectual hoje ousaria falar em mal ou bem? Soljenítsin falava. Escreveu ele em Arquipélago Gulag: “Gradualmente me foi revelado que a linha separando o bem do mal passa, não entre estados, não entre classes, nem entre partidos políticos - mas diretamente através de cada coração humano. Dentro de nós, oscila com o passar dos anos. E mesmo nos corações tomados pelo mal, uma pequena cabeça de ponte do bem permanece. E mesmo no melhor dos corações, permanece um canto intacto do mal”. Não é de arrepiar?

Revista Veja – 27/09/2024 
Uma das características do gênero textual a que pertence o texto é a de tratar de temas da atualidade. Sabendo disso, podemos identificar que o tema da atualidade apresentado no texto é
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Q3288483 Português
PROFETA DO BEM E DO MAL
VILMA GRYZINSKI
Alexander Soljenítsin enfrentou a URSS e detestou o Ocidente

        Dentro da grande tradição russa, Alexander Soljenítsin foi um fabuloso escritor, mas também um profeta, uma combinação de mente e espírito capazes de captar os círculos da água eterna que se projetam para o que achamos ser o futuro. “Na percepção do meu coração, não existe espaço para um conflito Rússia-Ucrânia e se, Deus nos livre, a questão chegar a isso, posso afirmar com certeza: jamais, em nenhuma circunstância, tomarei parte num confronto russo-ucraniano ou permitirei que meus filhos o façam - não importa o quanto os imprudentes destemperados tentem nos arrastar para isso.” Ele escreveu isso em 1981. Tinha convivido com prisioneiros ucranianos no Gulag e aprendido com seu sofrimento sob Stálin.

        Era também impossível. Expulso pela União Soviética em 1974, ele deveria ter se extasiado com o Ocidente, chorado diante da fartura das prateleiras de um supermercado americano - aconteceu com outros exilados do comunismo - e louvado o papel dos Estados Unidos na defesa das liberdades. Fez exatamente o contrário. Sua crítica ao modelo de democracia liberal é uma das mais radicais que existem. No famoso discurso de abertura do ano letivo em Harvard, em 1978, ele fez considerações que merecem ser lembradas cada vez que procuramos um olhar complexo e diversificado sobre o mundo. Numa crítica premonitória, anotou que, em reação ao passado de colonialismo, “as relações com o antigo mundo colonial viraram para o extremo oposto e o mundo ocidental agora frequentemente exibe um excesso de obsequiosidade” com os ex-colonizados - alguém já viu a nova onda “descolonizadora” nos círculos intelectuais das esquerdas hoje em dia? Enfiando a faca mais fundo, o escritor anotou que “um declínio da coragem pode ser a característica mais marcante que um observador de fora nota no Ocidente hoje”. Mencionou a coragem cívica. Imaginem a cara da fina flor de Harvard ao ouvir que “esse declínio na coragem é particularmente perceptível entre as elites governantes e intelectuais”. Teve mais: “A defesa dos direitos individuais atingiu tais extremos que tornam a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos”. Na sua visão, havia um excesso de condescendência com o crime - alguém já ouviu falar em tratar criminosos como vítimas da sociedade?

        Teria o grande Soljenítsin deixado de perceber as nuances do pensamento ocidental, as fraquezas que fazem sua força e sua criatividade, a capacidade de regeneração mesmo de sociedades altamente consumistas ou excessivamente indulgentes? “A inclinação da liberdade na direção do mal aconteceu gradualmente, mas evidentemente deriva de um conceito humanista segundo o qual o homem - o mestre desse mundo - não carrega nenhum mal dentro de si e todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais equivocados que, portanto, precisam ser corrigidos.”

        Qual intelectual hoje ousaria falar em mal ou bem? Soljenítsin falava. Escreveu ele em Arquipélago Gulag: “Gradualmente me foi revelado que a linha separando o bem do mal passa, não entre estados, não entre classes, nem entre partidos políticos - mas diretamente através de cada coração humano. Dentro de nós, oscila com o passar dos anos. E mesmo nos corações tomados pelo mal, uma pequena cabeça de ponte do bem permanece. E mesmo no melhor dos corações, permanece um canto intacto do mal”. Não é de arrepiar?

Revista Veja – 27/09/2024 
Ao longo do texto, a autora traça um perfil de Alexander Soljenítsin. De acordo com o texto, podemos afirmar que ele
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Q3288482 Português
PROFETA DO BEM E DO MAL
VILMA GRYZINSKI
Alexander Soljenítsin enfrentou a URSS e detestou o Ocidente

        Dentro da grande tradição russa, Alexander Soljenítsin foi um fabuloso escritor, mas também um profeta, uma combinação de mente e espírito capazes de captar os círculos da água eterna que se projetam para o que achamos ser o futuro. “Na percepção do meu coração, não existe espaço para um conflito Rússia-Ucrânia e se, Deus nos livre, a questão chegar a isso, posso afirmar com certeza: jamais, em nenhuma circunstância, tomarei parte num confronto russo-ucraniano ou permitirei que meus filhos o façam - não importa o quanto os imprudentes destemperados tentem nos arrastar para isso.” Ele escreveu isso em 1981. Tinha convivido com prisioneiros ucranianos no Gulag e aprendido com seu sofrimento sob Stálin.

        Era também impossível. Expulso pela União Soviética em 1974, ele deveria ter se extasiado com o Ocidente, chorado diante da fartura das prateleiras de um supermercado americano - aconteceu com outros exilados do comunismo - e louvado o papel dos Estados Unidos na defesa das liberdades. Fez exatamente o contrário. Sua crítica ao modelo de democracia liberal é uma das mais radicais que existem. No famoso discurso de abertura do ano letivo em Harvard, em 1978, ele fez considerações que merecem ser lembradas cada vez que procuramos um olhar complexo e diversificado sobre o mundo. Numa crítica premonitória, anotou que, em reação ao passado de colonialismo, “as relações com o antigo mundo colonial viraram para o extremo oposto e o mundo ocidental agora frequentemente exibe um excesso de obsequiosidade” com os ex-colonizados - alguém já viu a nova onda “descolonizadora” nos círculos intelectuais das esquerdas hoje em dia? Enfiando a faca mais fundo, o escritor anotou que “um declínio da coragem pode ser a característica mais marcante que um observador de fora nota no Ocidente hoje”. Mencionou a coragem cívica. Imaginem a cara da fina flor de Harvard ao ouvir que “esse declínio na coragem é particularmente perceptível entre as elites governantes e intelectuais”. Teve mais: “A defesa dos direitos individuais atingiu tais extremos que tornam a sociedade como um todo indefesa diante de certos indivíduos”. Na sua visão, havia um excesso de condescendência com o crime - alguém já ouviu falar em tratar criminosos como vítimas da sociedade?

        Teria o grande Soljenítsin deixado de perceber as nuances do pensamento ocidental, as fraquezas que fazem sua força e sua criatividade, a capacidade de regeneração mesmo de sociedades altamente consumistas ou excessivamente indulgentes? “A inclinação da liberdade na direção do mal aconteceu gradualmente, mas evidentemente deriva de um conceito humanista segundo o qual o homem - o mestre desse mundo - não carrega nenhum mal dentro de si e todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais equivocados que, portanto, precisam ser corrigidos.”

        Qual intelectual hoje ousaria falar em mal ou bem? Soljenítsin falava. Escreveu ele em Arquipélago Gulag: “Gradualmente me foi revelado que a linha separando o bem do mal passa, não entre estados, não entre classes, nem entre partidos políticos - mas diretamente através de cada coração humano. Dentro de nós, oscila com o passar dos anos. E mesmo nos corações tomados pelo mal, uma pequena cabeça de ponte do bem permanece. E mesmo no melhor dos corações, permanece um canto intacto do mal”. Não é de arrepiar?

Revista Veja – 27/09/2024 
A partir da leitura do texto, e da observação de suas características, podemos afirmar que se trata de um exemplar do gênero textual
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Q3288474 Português
Qual tipo de texto que mais se aproxima ao padrão de escrita do Laudo Pericial? Marque a alternativa correta.
Alternativas
Q3288397 Português
Leia o texto a seguir para responder a questão:


A última crônica (Fernando Sabino)

    A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
    Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
    Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, largao no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
    A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
    São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…”. Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
    Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
(Elenco de cronistas modernos. 21ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.) 
Infere-se do texto que o desejo do autor para sua última crônica é?
Alternativas
Q3288395 Português
Leia o texto a seguir para responder a questão:


A última crônica (Fernando Sabino)

    A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
    Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
    Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, largao no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
    A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
    São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…”. Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
    Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
(Elenco de cronistas modernos. 21ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.) 
Infere-se do texto que o objetivo do autor com suas crônicas é?
Alternativas
Q3288394 Português
Leia o texto a seguir para responder a questão:


A última crônica (Fernando Sabino)

    A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
    Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
    Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, largao no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
    A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
    São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você…”. Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
    Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
(Elenco de cronistas modernos. 21ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.) 
Segundo o texto, qual é o sentimento inicial do autor em relação à escrita?
Alternativas
Q3288324 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.


Palavras em agonia

    No avião, ouço a voz da comissária: “Senhores passageiros, estamos próximos à decolagem.” Oba! Finalmente vou descobrir onde fica a decolagem. Deve ser um lugar, porque, segundo a moça, estamos próximos dela. Já reparei que, ao levantar voo no Santos Dumont para São Paulo, o avião rola de mansinho pela pista, acelera e, quando passa pela Escola Naval, decola. Se a decolagem é um lugar, significa que esse lugar é ali, diante da antiga ilha onde, em 1555, Vilegagnon tentou construir a França Antártica. Isso justificaria a frase “Estamos próximos à decolagem". Mas, e se a decolagem não for um lugar, e sim uma ação? Mais correto, então, seria dizer “Dentro de instantes iremos decolar”. Ou “Estamos perto de decolar”. Isso obrigaria, no entanto, ao uso de uma palavra que está se despedindo da língua, como se seu significado tivesse se exaurido. A palavra é “perto” As pessoas agora dizem “Estou próximo de sair, não “perto de sair, “Estou próximo de conseguir emprego”, não “perto de conseguir emprego”. “Perto” não é a única palavra em agonia entre nós. Há muitas mais, substituídas por outras que se instalaram e ganharam a preferência nacional. Exemplos. Ninguém mais coloca algo em lugar nenhum — “posiciona”. Ninguém termina mais nada — “finaliza”. Ninguém mais tem resistência fisica ou emocional — é resiliente”. Ninguém mais completa ou enriquece um texto — “atualiza”.

(CASTRO, Ruy. Folha de S.Paulo, 26 de dezembro de 2024) 
O pronome “isso”, empregado no trecho isso justificaria a frase “Estamos próximos à decolagem”, refere-se a(as) 
Alternativas
Q3288323 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.


Palavras em agonia

    No avião, ouço a voz da comissária: “Senhores passageiros, estamos próximos à decolagem.” Oba! Finalmente vou descobrir onde fica a decolagem. Deve ser um lugar, porque, segundo a moça, estamos próximos dela. Já reparei que, ao levantar voo no Santos Dumont para São Paulo, o avião rola de mansinho pela pista, acelera e, quando passa pela Escola Naval, decola. Se a decolagem é um lugar, significa que esse lugar é ali, diante da antiga ilha onde, em 1555, Vilegagnon tentou construir a França Antártica. Isso justificaria a frase “Estamos próximos à decolagem". Mas, e se a decolagem não for um lugar, e sim uma ação? Mais correto, então, seria dizer “Dentro de instantes iremos decolar”. Ou “Estamos perto de decolar”. Isso obrigaria, no entanto, ao uso de uma palavra que está se despedindo da língua, como se seu significado tivesse se exaurido. A palavra é “perto” As pessoas agora dizem “Estou próximo de sair, não “perto de sair, “Estou próximo de conseguir emprego”, não “perto de conseguir emprego”. “Perto” não é a única palavra em agonia entre nós. Há muitas mais, substituídas por outras que se instalaram e ganharam a preferência nacional. Exemplos. Ninguém mais coloca algo em lugar nenhum — “posiciona”. Ninguém termina mais nada — “finaliza”. Ninguém mais tem resistência fisica ou emocional — é resiliente”. Ninguém mais completa ou enriquece um texto — “atualiza”.

(CASTRO, Ruy. Folha de S.Paulo, 26 de dezembro de 2024) 
Ao dizer que palavras como “perto” estão “se despedindo da lingua", o autor sugere implicitamente que: 
Alternativas
Q3288322 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.


Palavras em agonia

    No avião, ouço a voz da comissária: “Senhores passageiros, estamos próximos à decolagem.” Oba! Finalmente vou descobrir onde fica a decolagem. Deve ser um lugar, porque, segundo a moça, estamos próximos dela. Já reparei que, ao levantar voo no Santos Dumont para São Paulo, o avião rola de mansinho pela pista, acelera e, quando passa pela Escola Naval, decola. Se a decolagem é um lugar, significa que esse lugar é ali, diante da antiga ilha onde, em 1555, Vilegagnon tentou construir a França Antártica. Isso justificaria a frase “Estamos próximos à decolagem". Mas, e se a decolagem não for um lugar, e sim uma ação? Mais correto, então, seria dizer “Dentro de instantes iremos decolar”. Ou “Estamos perto de decolar”. Isso obrigaria, no entanto, ao uso de uma palavra que está se despedindo da língua, como se seu significado tivesse se exaurido. A palavra é “perto” As pessoas agora dizem “Estou próximo de sair, não “perto de sair, “Estou próximo de conseguir emprego”, não “perto de conseguir emprego”. “Perto” não é a única palavra em agonia entre nós. Há muitas mais, substituídas por outras que se instalaram e ganharam a preferência nacional. Exemplos. Ninguém mais coloca algo em lugar nenhum — “posiciona”. Ninguém termina mais nada — “finaliza”. Ninguém mais tem resistência fisica ou emocional — é resiliente”. Ninguém mais completa ou enriquece um texto — “atualiza”.

(CASTRO, Ruy. Folha de S.Paulo, 26 de dezembro de 2024) 
A crítica central do texto & voltada para 
Alternativas
Q3288321 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.


Palavras em agonia

    No avião, ouço a voz da comissária: “Senhores passageiros, estamos próximos à decolagem.” Oba! Finalmente vou descobrir onde fica a decolagem. Deve ser um lugar, porque, segundo a moça, estamos próximos dela. Já reparei que, ao levantar voo no Santos Dumont para São Paulo, o avião rola de mansinho pela pista, acelera e, quando passa pela Escola Naval, decola. Se a decolagem é um lugar, significa que esse lugar é ali, diante da antiga ilha onde, em 1555, Vilegagnon tentou construir a França Antártica. Isso justificaria a frase “Estamos próximos à decolagem". Mas, e se a decolagem não for um lugar, e sim uma ação? Mais correto, então, seria dizer “Dentro de instantes iremos decolar”. Ou “Estamos perto de decolar”. Isso obrigaria, no entanto, ao uso de uma palavra que está se despedindo da língua, como se seu significado tivesse se exaurido. A palavra é “perto” As pessoas agora dizem “Estou próximo de sair, não “perto de sair, “Estou próximo de conseguir emprego”, não “perto de conseguir emprego”. “Perto” não é a única palavra em agonia entre nós. Há muitas mais, substituídas por outras que se instalaram e ganharam a preferência nacional. Exemplos. Ninguém mais coloca algo em lugar nenhum — “posiciona”. Ninguém termina mais nada — “finaliza”. Ninguém mais tem resistência fisica ou emocional — é resiliente”. Ninguém mais completa ou enriquece um texto — “atualiza”.

(CASTRO, Ruy. Folha de S.Paulo, 26 de dezembro de 2024) 
Ao longo do texto, o autor adota um tom sarcástico para tratar do uso de determinadas palavras. Esse tom é construido principalmente  
Alternativas
Q3288320 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.


Palavras em agonia

    No avião, ouço a voz da comissária: “Senhores passageiros, estamos próximos à decolagem.” Oba! Finalmente vou descobrir onde fica a decolagem. Deve ser um lugar, porque, segundo a moça, estamos próximos dela. Já reparei que, ao levantar voo no Santos Dumont para São Paulo, o avião rola de mansinho pela pista, acelera e, quando passa pela Escola Naval, decola. Se a decolagem é um lugar, significa que esse lugar é ali, diante da antiga ilha onde, em 1555, Vilegagnon tentou construir a França Antártica. Isso justificaria a frase “Estamos próximos à decolagem". Mas, e se a decolagem não for um lugar, e sim uma ação? Mais correto, então, seria dizer “Dentro de instantes iremos decolar”. Ou “Estamos perto de decolar”. Isso obrigaria, no entanto, ao uso de uma palavra que está se despedindo da língua, como se seu significado tivesse se exaurido. A palavra é “perto” As pessoas agora dizem “Estou próximo de sair, não “perto de sair, “Estou próximo de conseguir emprego”, não “perto de conseguir emprego”. “Perto” não é a única palavra em agonia entre nós. Há muitas mais, substituídas por outras que se instalaram e ganharam a preferência nacional. Exemplos. Ninguém mais coloca algo em lugar nenhum — “posiciona”. Ninguém termina mais nada — “finaliza”. Ninguém mais tem resistência fisica ou emocional — é resiliente”. Ninguém mais completa ou enriquece um texto — “atualiza”.

(CASTRO, Ruy. Folha de S.Paulo, 26 de dezembro de 2024) 
A palavra resiliente” no texto exemplifica: 
Alternativas
Q3288319 Português
Atenção: Para responder à questão, basele-se no texto abaixo.


Vale quanto pesa

    Numa era obcecada pela magreza e pelos objetos portáteis, a literatura popular anda na contramão. Basta observar as prateleiras das livrarias, para constatar que os best-sellers — aquelas obras que oferecem diversão em estado puro, sem pretensões intelectuais — andam cada vez mais grossos. Sejam eles romances água-com-açúear, de terror ou ficção cientifica, eles parecem feitos sob medida para entrar nos quadros de Fernando Batero. Tome-se como exemplo dois lançamentos recentes de autoras que fazem muito sucesso no Brasil O Regresso, de Rosamunde Pilcher, tem 1091 páginas e pesa 1,52 quilo. Os Favoritos de Fortuna, de Coleen MeCullough, é ainda maior: 1205 páginas e quase 2 quilos no ponteiro da balança. Não que medidas como essas sejam novidade no terreno das letras - o primeiro romance modemo, Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes, já era um calhamaço considerável. Mas os livros de ficção engordam atualmente por ordem expressa dos editores. Amparados em pesquisas de mercado, eles pedem aos autores histórias mais longas, que resultem em livros mais cheios. Querem pesos pesados — e isso não se refere ao recheio intelectual.

(Adaptado de GRAIEB, Carlos. Revista Veja. 1 de abril, 1998) 
A expressão “água-com-açúcar no texto pode ser interpretada como sinônimo de: 
Alternativas
Q3288318 Português
Atenção: Para responder à questão, basele-se no texto abaixo.


Vale quanto pesa

    Numa era obcecada pela magreza e pelos objetos portáteis, a literatura popular anda na contramão. Basta observar as prateleiras das livrarias, para constatar que os best-sellers — aquelas obras que oferecem diversão em estado puro, sem pretensões intelectuais — andam cada vez mais grossos. Sejam eles romances água-com-açúear, de terror ou ficção cientifica, eles parecem feitos sob medida para entrar nos quadros de Fernando Batero. Tome-se como exemplo dois lançamentos recentes de autoras que fazem muito sucesso no Brasil O Regresso, de Rosamunde Pilcher, tem 1091 páginas e pesa 1,52 quilo. Os Favoritos de Fortuna, de Coleen MeCullough, é ainda maior: 1205 páginas e quase 2 quilos no ponteiro da balança. Não que medidas como essas sejam novidade no terreno das letras - o primeiro romance modemo, Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes, já era um calhamaço considerável. Mas os livros de ficção engordam atualmente por ordem expressa dos editores. Amparados em pesquisas de mercado, eles pedem aos autores histórias mais longas, que resultem em livros mais cheios. Querem pesos pesados — e isso não se refere ao recheio intelectual.

(Adaptado de GRAIEB, Carlos. Revista Veja. 1 de abril, 1998) 
A relação entre o titulo Vale quanto pesa e o conteúdo do texto é entendida como uma  
Alternativas
Respostas
14581: B
14582: A
14583: A
14584: C
14585: B
14586: A
14587: C
14588: D
14589: B
14590: D
14591: C
14592: A
14593: C
14594: B
14595: E
14596: D
14597: D
14598: C
14599: C
14600: D