Questões de Concurso Comentadas sobre interpretação de textos em português

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Q3866483 Português
Leia o texto a seguir.

O jornal Folha de S. Paulo introduziu com o seguinte comentário uma entrevista com o professor Paulo Freire: “A gente cheguemos’ não será uma construção errada na gestão do Partido dos Trabalhadores em São Paulo.”
Os trechos da entrevista nos quais a Folha de S. Paulo se baseou foram os seguintes:
A criança terá uma escola na qual a sua linguagem seja respeitada (...) Uma escola em que a criança aprenda a sintaxe dominante, mas sem desprezo pela sua (...) Esses oito milhões de meninos vêm da periferia do Brasil (...) Precisamos respeitar a (sua) sintaxe mostrando que sua linguagem é bonita e gostosa, às vezes é mais bonita que a minha. E, mostrando tudo isso, dizer a ele: “Mas para a tua própria vida tu precisas dizer ‘a gente chegou’, em vez de ‘a gente cheguemos’. Isso é diferente, ‘a abordagem’ é diferente”. É assim que queremos trabalhar, com a abertura, mas dizendo a verdade.
FOLHA DE S. PAULO. Entrevista com Paulo Freire. São Paulo, 18 out. 1990. Caderno Educação. [Adaptado].

No trecho, a posição de Paulo Freire sobre a linguagem evidencia que o ensino da língua deve 
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Q3866480 Português
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AS PALAVRAS QUE NINGUÉM DIZ

— Sabe o que é diadelfo? Não sabe? É isso aí: ninguém aprende mais nada na escola, não há professor que ensine o que é diadelfo. Entretanto, basta você sair por aí, na Gávea, e dá de cara com pencas de diadelfos. Tão fácil distingui-los. Pelo visto, sou capaz de jurar que você também nunca experimentou a emoção do ilapso. Ou por outra: pode ter experimentado, mas sem identificá-lo pelo nome. Não alcançou a maravilhosa consciência de haver merecido o ilapso. Conheci um nordestino que na mocidade exercera a profissão de ultor, e que ignorava o que é ultor; como é que pode ser tão mau profissional?
ANDRADE, Carlos Drummond de. Os dias lindos. Rio de Janeiro: Record, 1998.

No fragmento, Drummond ironiza o uso de palavras incomuns e mostra que seu desconhecimento não impede a comunicação. Para o ensino de Língua Portuguesa, esse texto evidencia que o desenvolvimento do vocabulário ocorre sobretudo quando o aluno
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Q3866479 Português
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PALAVREADO

Gosto da palavra “fornida”. É uma palavra que diz tudo o que quer dizer. Se você lê que uma mulher é “bem fornida”, sabe exatamente como ela é. Não gorda mas cheia, roliça, carnuda. E quente. Talvez seja a semelhança com “forno”. Talvez seja apenas o tipo de mente que eu tenho. Não posso ver a palavra “lascívia” sem pensar numa mulher, não fornida mas magra e comprida. Lascívia, imperatriz de Cântaro, filha de Pundonor. Imagino-a atraindo todos os jovens do reino para a cama real, decapitando os incapazes pelo fracasso e os capazes pela ousadia.
Um dia chega a Cântaro um jovem trovador, Lipídio de Albornoz. Ele cruza a Ponte de Safena e entra na cidade montado no seu cavalo Escarcéu. Avista uma mulher vestindo uma bandalheira
preta e lhe lança um olhar cheio de betume e cabriolé. Seguea através dos becos de Cântaro até um sumário – uma espécie de jardim enclausurado – onde ela deixa cair a bandalheira. É Lascívia. Ela sobe por um escrutínio, pequena escada estreita, e desaparece por uma porciúncula.
VERISSIMO, Luis Fernando. O analista de Bagé. Porto Alegre: L&PM, 2002.


A compreensão do texto permanece possível, mesmo que as palavras estejam deslocadas de seus sentidos originais, porque
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Q3866478 Português
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Os seres humanos têm a capacidade de representar o pensamento por meio de sinais codificados que permitem a comunicação e a interação entre eles. Essa capacidade chamase linguagem. As várias formas de linguagem criadas pelo ser humano podem ser identificadas em dois grupos: o da linguagem verbal, como a língua, que tem a palavra por sinal, e o das linguagens não verbais, como a música, que tem o som por sinal; a dança, que tem o movimento por sinal; a mímica, que tem o gesto por sinal; e a pintura, a fotografia e a escultura, que têm a imagem por sinal.
FIORIN, José Luiz. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo: Contexto, 2014. Adaptado.

Com base no texto, entende-se que a linguagem
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Q3866477 Português
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— Minha filha, você me deu sua palavra que a sua festa ia acabar às duas horas. — E acabou, papai. — Sim, mas às duas da tarde! Nós estávamos almoçando, hoje, e ainda estava chegando gente pra festa de ontem! — É que a turma se excedeu um pouco, papai, qualé? — Outra coisa, você jurou que seus amigos iam ficar na sala e não invadiriam os outros aposentos. — E, então? — Então que eu fui acordado no meio da noite por um cabeludo me perguntando se não tinha vodca em casa. — Ele se perdeu, só isso. — Tudo bem. Mas ele precisava me chamar de “ó do pijama”? — Papai...

VERISSIMO, Luis Fernando. Pais e filhos. Porto Alegre: LP&M, 1999.

O modo como os jovens dialogam – com expressões como “qualé?” e “ó do pijama” – revela que a variação linguística presente no texto está associada
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Q3866476 Português

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Imagem associada para resolução da questão



A construção do humor na tirinha depende da compreensão de que a linguagem

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Q3866424 Português

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O bêbado e a equilibrista


E nuvens lá no mata-borrão do céu

Chupavam manchas torturadas

Que sufoco!

Louco!

O bêbado com chapéu-coco

Fazia irreverências mil

Pra noite do Brasil

Meu Brasil!

Que sonha com a volta do irmão do Henfil

Com tanta gente que partiu

Num rabo de foguete

Chora

A nossa Pátria mãe gentil

Choram Marias e Clarisses

No solo do Brasil


(Aldir Blanc e João Bosco, 1975)


Disponível em: https://www.todamateria.com.br/musicas-da-ditadura-militar/. Acesso em: 15 nov. 2025.




A canção citada foi eternizada por Elis Regina e tornou-se um hino de esperança durante a ditadura militar brasileira. Seu significado central é simbólico e político. O bêbado representa o povo sofrido, mas que ainda sonha e resiste. A equilibrista representa a 


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Q3866423 Português
Leia o texto a seguir.

Segundo meu avô – gosto sempre de repetir – o único tempo que temos é o tempo presente. Ele até perguntava com certa frequência: por que o presente se chama presente? Dava um pouco de tempo e depois respondia: é porque é um presente que ganhamos do Criador. Quem ganha um objeto de presente tem que abrir na mesma hora para poder dar alegria a quem o deu. A vida é o presente que o Grande Espírito nos dá todos os dias, e viver esse presente alegra o coração do nosso Pai Primeiro. Meu avô era como um sábio que possuía todo o conhecimento de nossa gente. Qualquer coisa que a gente queria saber era só recorrer a ele que logo tinha uma história para contar. Foi ele que me ensinou que era preciso, de vez em quando, mudar. Disse isso pensando no rio. Fez-me olhar o rio que corria.
MUNDURUKU, Daniel. Antologia de contos indígenas de ensinamento: tempo de histórias. São Paulo: Moderna, 2005, p.19.

O trecho citado foi extraído de uma obra que compõe um conjunto de narrativas, textos, poemas, cantos, mitos, histórias orais, performances e produções escritas elaboradas por autores e autoras pertencentes aos diversos povos indígenas. Ela se caracteriza por expressar cosmovisões próprias, valores, memórias coletivas, modos de viver, relações com a natureza, com o território e com o sagrado, além de refletir questões políticas, históricas e identitárias desses povos. Trata-se da literatura
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Q3866134 Português
Leia o texto a seguir.

Deslocamentos caracterizam os ímpetos da concepção urbana de Anápolis, com os tropeiros que ali passavam, instalavam-se nessas localidades e, consequentemente, geravam trocas de mercadorias favoráveis ao comércio. Outro fator relevante foi a construção da Capela em honra a Sant’Ana, por Gomes de Sousa Ramos, em 1871. Isso potencializa o adensamento populacional na região de Anápolis, já que em 1871 existiam apenas sete casas, no ano seguinte esse número foi para 20 moradias, com uma população estimada em 120 pessoas só no povoado.
Amaral, L. F.; Lopes Filho, J. J. Estranhar e reconhecer: um processo de descontinuidades na paisagem urbana de Anápolis-GO (1870-2022). Paranoá, v. 17, e45325, 2024, p. 6. [Adaptado].

O crescimento populacional se associa com qual característica da população mencionada?
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Q3866122 Português
Texto 2

O futuro sustentável sonhado pelo arquiteto chinês que morreu no Pantanal

Eliane Trindade


Três meses antes de ser vítima de acidente aéreo no Brasil, Kongjian Yu concedeu entrevista para documentário brasileiro "Smart Cities – as Cidades do Futuro”. Acompanharam a entrevista conduzida por mim, como roteirista do documentário, o diretor Fábio Berringer, o produtor local Filipe Porto e o cinegrafista chinês Zhang QinZheng. Em conversa inédita, Kongjian Yu fala das perspectivas de construir um planetaesponja e uma nova civilização ecológica, amiga da água. Discorreu por mais de uma hora sobre como tornar as cidades e o planeta mais resilientes às intempéries climáticas. Ao final do encontro, passeou com a equipe pelos corredores da Turenscape, enfeitados por fotos de alguns dos projetos urbanísticos e paisagísticos entre os mil que levam sua assinatura.

Como o senhor resume o conceito de cidade-esponja?

É uma solução baseada na natureza para resolver problemas de inundações e secas urbanas, ao criar cidades resilientes. É uma solução holística, que usa a paisagem natural para retenção da água, desacelerando seu fluxo. A chave de uma cidade-esponja é a oposição à infraestrutura cinza convencional, construída sobre um sistema de tubulações de concreto e de drenagem. Uma cidade-esponja retém a água, que não é inimiga.

Como nasceu o conceito?

Vem da cultura das monções. A ideia de cidade-esponja foi inspirada por esse fenômeno atmosférico típico do Sul e Sudeste asiático. Nasci em uma pequena vila na província de Zhejiang, onde há tempestades durante a estação das monções. Então, desde muito jovem aprendi como reter a água no período de inundações para reutilização na estação seca. É um conhecimento ancestral sobre como lidar com a alternância de inundações e secas, de forma a manter o equilíbrio hidrológico.

Então, o futuro também é ancestral?

Sim. Temos que olhar para o passado, para a experiência acumulada ao longo dos séculos. Estamos falando de milhares de anos de cooperação com a natureza, que nos mostram como criar uma paisagem resiliente. É por isso que esses conhecimentos ancestrais podem ser inspiração para tornar o nosso planeta mais resiliente diante das mudanças climática.


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/redesocial/2025/11/ofuturo-sustentavel-sonhado-pelo-arquiteto-chines-que-morreu-nopantanal.shtml. Acesso em: 17 nov. 2025. [Texto reduzido e adaptado].
A interrogação “Então, o futuro também é ancestral?” apresenta de forma implícita, considerando-se o fluxo da interação discursiva, o pressuposto de que
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Q3866121 Português
Texto 2

O futuro sustentável sonhado pelo arquiteto chinês que morreu no Pantanal

Eliane Trindade


Três meses antes de ser vítima de acidente aéreo no Brasil, Kongjian Yu concedeu entrevista para documentário brasileiro "Smart Cities – as Cidades do Futuro”. Acompanharam a entrevista conduzida por mim, como roteirista do documentário, o diretor Fábio Berringer, o produtor local Filipe Porto e o cinegrafista chinês Zhang QinZheng. Em conversa inédita, Kongjian Yu fala das perspectivas de construir um planetaesponja e uma nova civilização ecológica, amiga da água. Discorreu por mais de uma hora sobre como tornar as cidades e o planeta mais resilientes às intempéries climáticas. Ao final do encontro, passeou com a equipe pelos corredores da Turenscape, enfeitados por fotos de alguns dos projetos urbanísticos e paisagísticos entre os mil que levam sua assinatura.

Como o senhor resume o conceito de cidade-esponja?

É uma solução baseada na natureza para resolver problemas de inundações e secas urbanas, ao criar cidades resilientes. É uma solução holística, que usa a paisagem natural para retenção da água, desacelerando seu fluxo. A chave de uma cidade-esponja é a oposição à infraestrutura cinza convencional, construída sobre um sistema de tubulações de concreto e de drenagem. Uma cidade-esponja retém a água, que não é inimiga.

Como nasceu o conceito?

Vem da cultura das monções. A ideia de cidade-esponja foi inspirada por esse fenômeno atmosférico típico do Sul e Sudeste asiático. Nasci em uma pequena vila na província de Zhejiang, onde há tempestades durante a estação das monções. Então, desde muito jovem aprendi como reter a água no período de inundações para reutilização na estação seca. É um conhecimento ancestral sobre como lidar com a alternância de inundações e secas, de forma a manter o equilíbrio hidrológico.

Então, o futuro também é ancestral?

Sim. Temos que olhar para o passado, para a experiência acumulada ao longo dos séculos. Estamos falando de milhares de anos de cooperação com a natureza, que nos mostram como criar uma paisagem resiliente. É por isso que esses conhecimentos ancestrais podem ser inspiração para tornar o nosso planeta mais resiliente diante das mudanças climática.


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/redesocial/2025/11/ofuturo-sustentavel-sonhado-pelo-arquiteto-chines-que-morreu-nopantanal.shtml. Acesso em: 17 nov. 2025. [Texto reduzido e adaptado].
O sentido de “cidade-esponja” é construído a partir de um procedimento de linguagem figurativa que toma como base uma
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Q3866120 Português
Texto 2

O futuro sustentável sonhado pelo arquiteto chinês que morreu no Pantanal

Eliane Trindade


Três meses antes de ser vítima de acidente aéreo no Brasil, Kongjian Yu concedeu entrevista para documentário brasileiro "Smart Cities – as Cidades do Futuro”. Acompanharam a entrevista conduzida por mim, como roteirista do documentário, o diretor Fábio Berringer, o produtor local Filipe Porto e o cinegrafista chinês Zhang QinZheng. Em conversa inédita, Kongjian Yu fala das perspectivas de construir um planetaesponja e uma nova civilização ecológica, amiga da água. Discorreu por mais de uma hora sobre como tornar as cidades e o planeta mais resilientes às intempéries climáticas. Ao final do encontro, passeou com a equipe pelos corredores da Turenscape, enfeitados por fotos de alguns dos projetos urbanísticos e paisagísticos entre os mil que levam sua assinatura.

Como o senhor resume o conceito de cidade-esponja?

É uma solução baseada na natureza para resolver problemas de inundações e secas urbanas, ao criar cidades resilientes. É uma solução holística, que usa a paisagem natural para retenção da água, desacelerando seu fluxo. A chave de uma cidade-esponja é a oposição à infraestrutura cinza convencional, construída sobre um sistema de tubulações de concreto e de drenagem. Uma cidade-esponja retém a água, que não é inimiga.

Como nasceu o conceito?

Vem da cultura das monções. A ideia de cidade-esponja foi inspirada por esse fenômeno atmosférico típico do Sul e Sudeste asiático. Nasci em uma pequena vila na província de Zhejiang, onde há tempestades durante a estação das monções. Então, desde muito jovem aprendi como reter a água no período de inundações para reutilização na estação seca. É um conhecimento ancestral sobre como lidar com a alternância de inundações e secas, de forma a manter o equilíbrio hidrológico.

Então, o futuro também é ancestral?

Sim. Temos que olhar para o passado, para a experiência acumulada ao longo dos séculos. Estamos falando de milhares de anos de cooperação com a natureza, que nos mostram como criar uma paisagem resiliente. É por isso que esses conhecimentos ancestrais podem ser inspiração para tornar o nosso planeta mais resiliente diante das mudanças climática.


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/redesocial/2025/11/ofuturo-sustentavel-sonhado-pelo-arquiteto-chines-que-morreu-nopantanal.shtml. Acesso em: 17 nov. 2025. [Texto reduzido e adaptado].
Considerando-se o modo de estruturação e funcionamento do gênero entrevista, verifica-se que o parágrafo de abertura do Texto 2 constitui uma unidade paratextual. Esse tipo de unidade, a exemplo do que ocorre no Texto 2, tem como função
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Q3866118 Português
Texto 1

O livro, o plástico e as 700 toneladas no lixo


    O leitor entra na livraria, escolhe um título, paga, leva para casa e rasga a película transparente que o envolve. Em segundos, o plástico vai para o lixo. O gesto é banal, mas o impacto é monumental.

    Essa fina camada de filme termoencolhível – que protege o livro de poeira e umidade – se tornou um dos maiores símbolos de incoerência do mercado editorial brasileiro: um setor que vive de ideias, mas ainda insiste num hábito materialmente insustentável.

    Segundo dados disponibilizados pela Câmara Brasileira do Livro, o país imprimiu 366 milhões de exemplares no último ano. Supondo que cerca de 70% desses livros foram embalados individualmente, isso significa que 256 milhões de unidades receberam plástico antes de chegar às prateleiras. Cada invólucro pesa entre 1,4 g e 2,7 g, o que equivale a algo em torno de 360 a 700 toneladas de lixo plástico por ano – um resíduo de baixo valor comercial, raramente reciclado.

    O argumento das editoras é pragmático: o plástico protege os exemplares durante o transporte e a armazenagem. Há, porém, uma causa mais profunda para a continuidade dessa prática. Plataformas de e-commerce, que dominam o mercado de venda ao consumidor, exigem que as editoras entreguem os livros embalados individualmente em plástico. Caso contrário, recusam o recebimento do material. E, para atender a essa exigência, muitas editoras solicitam às gráficas que enviem parte ou toda a tiragem já com o plástico. Cria-se, assim, um círculo vicioso: as gráficas embalam para atender as editoras; estas embalam para atender as plataformas; e estas últimas embalam novamente para o envio ao consumidor.

    O cenário precisa mudar e já temos exemplos para seguir. Livrarias independentes já substituem o filme plástico por faixas de papel reciclado, invólucros biodegradáveis, ou simplesmente aboliram a embalagem. O debate sobre sustentabilidade no livro não pode se limitar à origem do papel: deve incluir também o material que o envolve. O livro é, por natureza, um instrumento de consciência. E não há consciência possível quando o conhecimento continua coberto por uma camada de poluição invisível.


BORGES, Afonso. O livro, o plástico e as 700 toneladas no lixo. Folha de S. Paulo, 16 nov. 2025, p. A6. [Adaptado].
O procedimento argumentativo usado no terceiro parágrafo do Texto 1 é baseado na
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Q3866117 Português
Texto 1

O livro, o plástico e as 700 toneladas no lixo


    O leitor entra na livraria, escolhe um título, paga, leva para casa e rasga a película transparente que o envolve. Em segundos, o plástico vai para o lixo. O gesto é banal, mas o impacto é monumental.

    Essa fina camada de filme termoencolhível – que protege o livro de poeira e umidade – se tornou um dos maiores símbolos de incoerência do mercado editorial brasileiro: um setor que vive de ideias, mas ainda insiste num hábito materialmente insustentável.

    Segundo dados disponibilizados pela Câmara Brasileira do Livro, o país imprimiu 366 milhões de exemplares no último ano. Supondo que cerca de 70% desses livros foram embalados individualmente, isso significa que 256 milhões de unidades receberam plástico antes de chegar às prateleiras. Cada invólucro pesa entre 1,4 g e 2,7 g, o que equivale a algo em torno de 360 a 700 toneladas de lixo plástico por ano – um resíduo de baixo valor comercial, raramente reciclado.

    O argumento das editoras é pragmático: o plástico protege os exemplares durante o transporte e a armazenagem. Há, porém, uma causa mais profunda para a continuidade dessa prática. Plataformas de e-commerce, que dominam o mercado de venda ao consumidor, exigem que as editoras entreguem os livros embalados individualmente em plástico. Caso contrário, recusam o recebimento do material. E, para atender a essa exigência, muitas editoras solicitam às gráficas que enviem parte ou toda a tiragem já com o plástico. Cria-se, assim, um círculo vicioso: as gráficas embalam para atender as editoras; estas embalam para atender as plataformas; e estas últimas embalam novamente para o envio ao consumidor.

    O cenário precisa mudar e já temos exemplos para seguir. Livrarias independentes já substituem o filme plástico por faixas de papel reciclado, invólucros biodegradáveis, ou simplesmente aboliram a embalagem. O debate sobre sustentabilidade no livro não pode se limitar à origem do papel: deve incluir também o material que o envolve. O livro é, por natureza, um instrumento de consciência. E não há consciência possível quando o conhecimento continua coberto por uma camada de poluição invisível.


BORGES, Afonso. O livro, o plástico e as 700 toneladas no lixo. Folha de S. Paulo, 16 nov. 2025, p. A6. [Adaptado].
Considerando-se suas características internas (estruturação léxico-gramatical e textual) e externas (funcionamento social e a mídia de circulação), classifica-se o Texto 1 como um exemplar do gênero
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Q3866116 Português
Texto 1

O livro, o plástico e as 700 toneladas no lixo


    O leitor entra na livraria, escolhe um título, paga, leva para casa e rasga a película transparente que o envolve. Em segundos, o plástico vai para o lixo. O gesto é banal, mas o impacto é monumental.

    Essa fina camada de filme termoencolhível – que protege o livro de poeira e umidade – se tornou um dos maiores símbolos de incoerência do mercado editorial brasileiro: um setor que vive de ideias, mas ainda insiste num hábito materialmente insustentável.

    Segundo dados disponibilizados pela Câmara Brasileira do Livro, o país imprimiu 366 milhões de exemplares no último ano. Supondo que cerca de 70% desses livros foram embalados individualmente, isso significa que 256 milhões de unidades receberam plástico antes de chegar às prateleiras. Cada invólucro pesa entre 1,4 g e 2,7 g, o que equivale a algo em torno de 360 a 700 toneladas de lixo plástico por ano – um resíduo de baixo valor comercial, raramente reciclado.

    O argumento das editoras é pragmático: o plástico protege os exemplares durante o transporte e a armazenagem. Há, porém, uma causa mais profunda para a continuidade dessa prática. Plataformas de e-commerce, que dominam o mercado de venda ao consumidor, exigem que as editoras entreguem os livros embalados individualmente em plástico. Caso contrário, recusam o recebimento do material. E, para atender a essa exigência, muitas editoras solicitam às gráficas que enviem parte ou toda a tiragem já com o plástico. Cria-se, assim, um círculo vicioso: as gráficas embalam para atender as editoras; estas embalam para atender as plataformas; e estas últimas embalam novamente para o envio ao consumidor.

    O cenário precisa mudar e já temos exemplos para seguir. Livrarias independentes já substituem o filme plástico por faixas de papel reciclado, invólucros biodegradáveis, ou simplesmente aboliram a embalagem. O debate sobre sustentabilidade no livro não pode se limitar à origem do papel: deve incluir também o material que o envolve. O livro é, por natureza, um instrumento de consciência. E não há consciência possível quando o conhecimento continua coberto por uma camada de poluição invisível.


BORGES, Afonso. O livro, o plástico e as 700 toneladas no lixo. Folha de S. Paulo, 16 nov. 2025, p. A6. [Adaptado].
Usa-se, no Texto 1, a seguinte estratégia de introdução:
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Q3866029 Português

Q9.png (325×312)


BECK, Alexandre. Tiras de Armandinho. Disponível em .<https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/27431-tirasde-armandinho>. 



As expressões “dente de alho”, “pé de alface” e “cabeça de repolho”, empregadas na tirinha acima, remetem à seguinte figura de linguagem: 

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Q3866022 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.


(In)diferença 


    Aprendi há pouco que não devo ignorar completamente o que dizem sobre minha pessoa. Seja agradável ou não o que ouço, é recomendável dispor de pelo menos alguns minutinhos para reflexão. E resolvi me observar por uns dias para saber em que e em quais situações posso ser indiferente. As conclusões são mesmo conclusivas, se me permite o pleonasmo. Até porque se trata de posicionamento relativo diante de circunstâncias que podem se apresentar de formas diversas. 

    Não sou indiferente a preconceitos, por exemplo. Odeio todos, de todos os tipos, inclusive os que ainda se agarram a mim e dos quais ainda – disse ainda, de novo – não consegui me libertar. Posso ser indiferente a racistas, pois não merecem minha atenção, a menos que necessitem de um passa-fora, tipo peteleco que se dá em inseto incômodo, em casos menos significativos – piadinhas sem graça –, ou uma denúncia em alto e bom som quando a ofensa é gravíssima. 

    Sou permanentemente intolerante com a intolerância. 

    Não sou indiferente à falta de educação. Seja no trânsito, em restaurantes, supermercados, filas. Tenho horror a quem joga lixo no chão e fala exageradamente alto em qualquer lugar.

    Não sou indiferente à crueldade cometida diariamente contra animais indefesos, vítimas de crimes cometidos pelos próprios guardiões. Não sou indiferente ao sofrimento imposto aos touros em rodeios. Não sou indiferente aos cães abandonados por seus donos por motivos vários. (...) 

    Não sou indiferente à mentira, à omissão, à injustiça.

    Não sou indiferente à ignorância imposta por uma educação capenga. 

    Prefiro ser indiferente aos arrogantes e prepotentes. Sou impaciente com a deselegância dos que pensam ser os donos do mundo, da situação ou da verdade. Aos que se autodenominam sábios e não têm ideia do que dizem, pois os sábios não se dizem sábios. A esses, viro as costas solenemente, com toda a indiferença que consigo reunir. (...)


DAMACENO, Giovana. (In)diferença. Revista Benfazeja. Disponível em .  <https://www.avl.org.br/uploads/b889aa7f77e52e3a
5e8c0e9f930aa329indiferenca_gd.pdf>. 
Assinale a alternativa que apresenta uma passagem do texto “(In)diferença” que se enquadra num paradoxo, figura de linguagem em que duas ideias aparentemente contraditórias são utilizadas num mesmo contexto. 
Alternativas
Q3866021 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.


(In)diferença 


    Aprendi há pouco que não devo ignorar completamente o que dizem sobre minha pessoa. Seja agradável ou não o que ouço, é recomendável dispor de pelo menos alguns minutinhos para reflexão. E resolvi me observar por uns dias para saber em que e em quais situações posso ser indiferente. As conclusões são mesmo conclusivas, se me permite o pleonasmo. Até porque se trata de posicionamento relativo diante de circunstâncias que podem se apresentar de formas diversas. 

    Não sou indiferente a preconceitos, por exemplo. Odeio todos, de todos os tipos, inclusive os que ainda se agarram a mim e dos quais ainda – disse ainda, de novo – não consegui me libertar. Posso ser indiferente a racistas, pois não merecem minha atenção, a menos que necessitem de um passa-fora, tipo peteleco que se dá em inseto incômodo, em casos menos significativos – piadinhas sem graça –, ou uma denúncia em alto e bom som quando a ofensa é gravíssima. 

    Sou permanentemente intolerante com a intolerância. 

    Não sou indiferente à falta de educação. Seja no trânsito, em restaurantes, supermercados, filas. Tenho horror a quem joga lixo no chão e fala exageradamente alto em qualquer lugar.

    Não sou indiferente à crueldade cometida diariamente contra animais indefesos, vítimas de crimes cometidos pelos próprios guardiões. Não sou indiferente ao sofrimento imposto aos touros em rodeios. Não sou indiferente aos cães abandonados por seus donos por motivos vários. (...) 

    Não sou indiferente à mentira, à omissão, à injustiça.

    Não sou indiferente à ignorância imposta por uma educação capenga. 

    Prefiro ser indiferente aos arrogantes e prepotentes. Sou impaciente com a deselegância dos que pensam ser os donos do mundo, da situação ou da verdade. Aos que se autodenominam sábios e não têm ideia do que dizem, pois os sábios não se dizem sábios. A esses, viro as costas solenemente, com toda a indiferença que consigo reunir. (...)


DAMACENO, Giovana. (In)diferença. Revista Benfazeja. Disponível em .  <https://www.avl.org.br/uploads/b889aa7f77e52e3a
5e8c0e9f930aa329indiferenca_gd.pdf>. 
Em relação ao texto “(In)diferença”, é correto afirmar que ele se estrutura: 
Alternativas
Q3865915 Português
INSTRUÇÃO: Leia o texto a seguir para responder à questão.


Da arte de falar mal


    Durante anos, mantive no Correio da Manhã, num canto da capa do segundo caderno, um espaço assim intitulado: "Da arte de falar mal". Até hoje me perguntam a razão de uma rubrica que, entre outras coisas, me levou para a prisão seis vezes por delito de opinião. Num dos interrogatórios a que fui submetido, o coronel que presidia o IPM (Inquérito Policial Militar) quis saber por que eu falava tão mal do regime militar que então se instalava. Eu respondi que não podia mudar o título da minha coluna, falando bem de qualquer coisa.

    Mas a ideia do título não foi minha. Devo-a a Maura Cançado Lopes, colega no suplemento dominical do Jornal do Brasil, um caderno dedicado às artes, que, depois de algum tempo, já em sua fase terminal, saía pontualmente aos sábados. Ela escrevia contos maravilhosos, chamou a atenção das editoras, teve dois livros publicados, que receberam crítica consagradora. Hospício É Deus foi colocado à altura de Clarice Lispector, que aliás a admirava. Escreveu também O Sofredor do Ver – um dos melhores que já li em minha vida.

    Maura namorava Luiz Reis, o Cabeleira, parceiro de Haroldo Barbosa em "Cara de Palhaço" e "Momentos São", dois sucessos absolutos daquela época, gravados por Elizeth Cardoso. Um dia, quis sair comigo. Eu tinha uma Hudson conversível, ela me perguntou se eu era rico, se eu podia comprar um navio. Respondi que sim – e ela colocou essa cena em seu romance, com meu nome e tudo.

    Mas foi nessa mesma tarde que ela me fez parar na Urca, diante da baía que entardecia, e me explicou: "Chamei você para falarmos mal de todo mundo. Falar mal é uma arte".

    Nem lembro mais de quem falamos mal. Creio que não tenha escapado ninguém, a começar pelo pessoal do JB: Décio Pignatari, Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar, Oliveira Bastos, Walmir Ayala, Mário Pedrosa, Carlinhos de Oliveira, os irmãos Campos, José Lino Grünewald, Assis Brasil, José Louzeiro, não abrimos exceção nem para o doce Mário Faustino, que havia morrido dias antes. Todos nossos amigos, amigos queridos por sinal.

    Mais ou menos na mesma época, recebi recado de um vizinho do Posto 6 que estava gripado, ardendo em febre, mas queria me ver. Ele não tinha carro e eu guardava o meu na vaga de sua garagem; nunca me cobrou aluguel nem carona, pois adorava andar de ônibus.

    Fui. Encontrei-o na cama, lendo um troço complicado que depois vim a saber que era a gramática de um dialeto do Vietnã. Embaixador aposentado, escritor de sucesso, ele gostava de aprender coisas inúteis e com elas escrevia obras-primas. –

    Estou aqui – disse. – Algum recado?

    – Não. Há dias que não falo mal de ninguém. Chamei-o para isso.

    Três horas depois, já sem febre, ele me levou até a porta de seu apartamento. Com os olhos de gato acesos, olhou-me severamente e, com o orgulho que lhe era próprio (referia-se a si mesmo sempre na terceira pessoa), admitiu:

    – Puxa! Como falamos mal de todo mundo!

    Morreria em breve, poucas horas depois de um discurso que levou mais de três anos para ter coragem de fazer e no qual só falou bem dos outros. Acho que o sacrifício lhe custou a vida.

    Foi ele que me ensinou a regra fundamental da arte de falar mal: "Só fale mal dos ausentes, nunca dos presentes". Pode parecer uma obviedade. Mas o meu amigo e vizinho era também acusado de obviedades geniais em sua obra literária. Uma de suas frases mais famosas ainda é citada: "Viver é muito perigoso".

    Pulando no tempo que pulou sobre todos. Morreu o jornal em que trabalhava, morreu a Maura, morreu o meu amigo ex-embaixador, morreu até o doce Mário Faustino num desastre de avião. Ninguém é imortal, com exceção de uma amiga famosa, romancista histórica, que me quis tornar imortal como ela.

    Hoje, não mais se fazem aquelas constrangedoras visitas aos imortais, antes que eles morram. Pelo contrário, a afobação de um candidato à imortalidade é letal. Adoentada, sem poder sair de casa, ela me pediu pela sobrinha e secretária que fosse à sua casa buscar o seu voto. É evidente que fui, pois muito queria vê-la.

    Ela me recebeu nordestinamente afável. Sentada em sua cadeira de palhinha, com ares de senhora-deengenho, esticou-me o envelope branco: 

    – Toma. Aqui estão os meus votos. Agora não falemos mais em literatura. Vamos falar mal de todo mundo! Também saí tarde de sua casa. Não deixamos pedra sobre pedra e, seguindo o conselho do exembaixador, só falamos mal dos ausentes, que era o restante da humanidade, pois em sua sala só havia a visitada e o visitante.

    Por essas e outras, sempre admirei o Antônio Callado, que definia os personagens do nosso tempo em duas categorias: os que tinham boa presença e os que tinham péssima ausência. Boa presença era quando todos falavam bem de um sujeito presente. Péssima ausência era quando, ausente, o sujeito monopolizava a conversa, cada qual juntando um graveto para queimar na alegre pira da maledicência.

    E, com aquele jeito de único inglês da vida real, Callado completava a sua frase: "O mais gostoso de tudo isso é que o bom presente e o mau ausente são sempre a mesma pessoa".

CONY, Carlos Heitor. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. As cem melhores crônicas brasileiras (org. e int.). Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 332-334.
No que se refere às estratégias narrativas e ao posicionamento do narrador em “Da arte de falar mal”, assinale a alternativa CORRETA: 
Alternativas
Q3865914 Português
INSTRUÇÃO: Leia o texto a seguir para responder à questão.


Da arte de falar mal


    Durante anos, mantive no Correio da Manhã, num canto da capa do segundo caderno, um espaço assim intitulado: "Da arte de falar mal". Até hoje me perguntam a razão de uma rubrica que, entre outras coisas, me levou para a prisão seis vezes por delito de opinião. Num dos interrogatórios a que fui submetido, o coronel que presidia o IPM (Inquérito Policial Militar) quis saber por que eu falava tão mal do regime militar que então se instalava. Eu respondi que não podia mudar o título da minha coluna, falando bem de qualquer coisa.

    Mas a ideia do título não foi minha. Devo-a a Maura Cançado Lopes, colega no suplemento dominical do Jornal do Brasil, um caderno dedicado às artes, que, depois de algum tempo, já em sua fase terminal, saía pontualmente aos sábados. Ela escrevia contos maravilhosos, chamou a atenção das editoras, teve dois livros publicados, que receberam crítica consagradora. Hospício É Deus foi colocado à altura de Clarice Lispector, que aliás a admirava. Escreveu também O Sofredor do Ver – um dos melhores que já li em minha vida.

    Maura namorava Luiz Reis, o Cabeleira, parceiro de Haroldo Barbosa em "Cara de Palhaço" e "Momentos São", dois sucessos absolutos daquela época, gravados por Elizeth Cardoso. Um dia, quis sair comigo. Eu tinha uma Hudson conversível, ela me perguntou se eu era rico, se eu podia comprar um navio. Respondi que sim – e ela colocou essa cena em seu romance, com meu nome e tudo.

    Mas foi nessa mesma tarde que ela me fez parar na Urca, diante da baía que entardecia, e me explicou: "Chamei você para falarmos mal de todo mundo. Falar mal é uma arte".

    Nem lembro mais de quem falamos mal. Creio que não tenha escapado ninguém, a começar pelo pessoal do JB: Décio Pignatari, Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar, Oliveira Bastos, Walmir Ayala, Mário Pedrosa, Carlinhos de Oliveira, os irmãos Campos, José Lino Grünewald, Assis Brasil, José Louzeiro, não abrimos exceção nem para o doce Mário Faustino, que havia morrido dias antes. Todos nossos amigos, amigos queridos por sinal.

    Mais ou menos na mesma época, recebi recado de um vizinho do Posto 6 que estava gripado, ardendo em febre, mas queria me ver. Ele não tinha carro e eu guardava o meu na vaga de sua garagem; nunca me cobrou aluguel nem carona, pois adorava andar de ônibus.

    Fui. Encontrei-o na cama, lendo um troço complicado que depois vim a saber que era a gramática de um dialeto do Vietnã. Embaixador aposentado, escritor de sucesso, ele gostava de aprender coisas inúteis e com elas escrevia obras-primas. –

    Estou aqui – disse. – Algum recado?

    – Não. Há dias que não falo mal de ninguém. Chamei-o para isso.

    Três horas depois, já sem febre, ele me levou até a porta de seu apartamento. Com os olhos de gato acesos, olhou-me severamente e, com o orgulho que lhe era próprio (referia-se a si mesmo sempre na terceira pessoa), admitiu:

    – Puxa! Como falamos mal de todo mundo!

    Morreria em breve, poucas horas depois de um discurso que levou mais de três anos para ter coragem de fazer e no qual só falou bem dos outros. Acho que o sacrifício lhe custou a vida.

    Foi ele que me ensinou a regra fundamental da arte de falar mal: "Só fale mal dos ausentes, nunca dos presentes". Pode parecer uma obviedade. Mas o meu amigo e vizinho era também acusado de obviedades geniais em sua obra literária. Uma de suas frases mais famosas ainda é citada: "Viver é muito perigoso".

    Pulando no tempo que pulou sobre todos. Morreu o jornal em que trabalhava, morreu a Maura, morreu o meu amigo ex-embaixador, morreu até o doce Mário Faustino num desastre de avião. Ninguém é imortal, com exceção de uma amiga famosa, romancista histórica, que me quis tornar imortal como ela.

    Hoje, não mais se fazem aquelas constrangedoras visitas aos imortais, antes que eles morram. Pelo contrário, a afobação de um candidato à imortalidade é letal. Adoentada, sem poder sair de casa, ela me pediu pela sobrinha e secretária que fosse à sua casa buscar o seu voto. É evidente que fui, pois muito queria vê-la.

    Ela me recebeu nordestinamente afável. Sentada em sua cadeira de palhinha, com ares de senhora-deengenho, esticou-me o envelope branco: 

    – Toma. Aqui estão os meus votos. Agora não falemos mais em literatura. Vamos falar mal de todo mundo! Também saí tarde de sua casa. Não deixamos pedra sobre pedra e, seguindo o conselho do exembaixador, só falamos mal dos ausentes, que era o restante da humanidade, pois em sua sala só havia a visitada e o visitante.

    Por essas e outras, sempre admirei o Antônio Callado, que definia os personagens do nosso tempo em duas categorias: os que tinham boa presença e os que tinham péssima ausência. Boa presença era quando todos falavam bem de um sujeito presente. Péssima ausência era quando, ausente, o sujeito monopolizava a conversa, cada qual juntando um graveto para queimar na alegre pira da maledicência.

    E, com aquele jeito de único inglês da vida real, Callado completava a sua frase: "O mais gostoso de tudo isso é que o bom presente e o mau ausente são sempre a mesma pessoa".

CONY, Carlos Heitor. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. As cem melhores crônicas brasileiras (org. e int.). Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 332-334.
Considere as afirmativas a seguir, a respeito da construção de sentido no texto:
I. A recorrência da morte de personagens e instituições reforça a ideia de transitoriedade da vida e da memória cultural.
II. A noção de “imortalidade” é tratada de modo irônico, especialmente no contexto das academias e do desejo de consagração literária.
III. O narrador assume postura distanciada e impessoal, evitando envolver-se emocionalmente com os episódios narrados.
IV. A crônica sugere que falar mal pode funcionar como mecanismo de sociabilidade e de afirmação de laços afetivos.
Assinale a alternativa que indica a(s) afirmativa(s) CORRETA(S):
Alternativas
Respostas
4861: B
4862: B
4863: D
4864: B
4865: A
4866: C
4867: A
4868: C
4869: A
4870: D
4871: A
4872: B
4873: A
4874: D
4875: B
4876: B
4877: A
4878: D
4879: B
4880: B