Questões de Concurso
Comentadas sobre interpretação de textos em português
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Texto 12A1-I
Ao lado estava a caixinha de costura, o novelo de linha, o papel com agulhas — a tesoura enferrujada da avó mal cortava os trapos. Mordia a língua, caprichando, entortava a cabeça, mas acabava rasgando os pedaços de pano. Precisava mandar amolar a tesoura, precisava mandar amolar a tesoura, “está cheia de dente, um serrote”. Há muito tempo pensava em amolar aquele traste.
A boneca Ceci esperava de olhos duros o vestido novo — porque em nova forma — se ajeitando nos retalhos furta-cores roubados da avó, da mãe, e até mesmo de Mundoca, que não queria saber de brincadeira.
— O tempo todo com essa boneca, está doida? “Se ela soubesse como Ceci consola a gente.”
As tardes sempre paradas quando o rio baixava, sentava-se na beira do cais, a água no tornozelo, fria e suave, mais tarde a tocar a ponta dos dedos, até ficar a um palmo ou dois de distância, espumando, correndo.
O rio enchia e secava, e ela nas pedras mornas — o barulho de tudo sem uma identificação precisa. Quantos vestidinhos ganhou Ceci naquelas tardes sem conta? Quando não tinha mais retalhos, virava o último vestido pelo avesso, o sujo sumia, Ceci não tinha mais queixas, “agora você está nova em folha”.
Francisco de Assis Almeida Brasil. Beira rio, beira vida. 15.ª edição, Teresina: Edições do Autor, 2013, p. 19
Em relação ao texto 12A1-I, julgue os itens a seguir.
I No trecho „Se ela soubesse como Ceci consola a gente.‟ (segundo período do terceiro parágrafo), a forma pronominal „a gente‟ inclui a personagem principal do excerto.
II No primeiro período do quarto parágrafo, o sujeito gramatical de terceira pessoa do singular que se identifica em “sentava-se” remete à personagem principal do excerto.
III No penúltimo parágrafo, o segmento “a um palmo ou dois de distância”, que funciona sintaticamente como adjunto adverbial, descreve o caminho percorrido pela personagem.
Assinale a opção correta.
Texto CG1A1
Na esteira da pandemia de covid-19, as lições extraídas das primeiras necropsias desempenharam um papel crucial na redução das incertezas sobre como esse novo vírus estava infligindo tanto sofrimento e morte. Inicialmente, o que parecia ser apenas mais uma endemia desencadeada por um vírus respiratório, com origem na Ásia, revelou-se, em poucos meses, uma enfermidade nova e distinta, com poucas semelhanças com outras causadas pelos membros conhecidos da família dos coronavírus.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) enfrentou críticas por sua demora e hesitação em reconhecer a pandemia. Muitos "especialistas" fizeram previsões e ofereceram orientações categóricas, que acabaram sendo desmentidas pela rápida disseminação da doença.
Cientistas e jornalistas especializados em saúde, que inicialmente advertiram sobre a complexidade e o prolongamento do caminho a ser percorrido, foram inicialmente recebidos com ceticismo. A valorização global do esforço dos profissionais de saúde foi generalizada, porém, entre tantas categorias homenageadas, é crucial destacar o papel dos médicos patologistas, que deram os primeiros passos decisivos e que tiveram sua importância reavaliada nesse contexto.
Graças às informações comparativas das autópsias, foi possível identificar a doença e entender que ela não tinha tantas semelhanças com as que já haviam acometido a sociedade humana. Porém, mais do que isso, foram reforçadas a necessidade de um maior controle sanitário e a importância de uma análise patológica minuciosa para enfrentar desafios de mesma natureza no futuro.
Internet: <https://cursos.escolaeducacao.com.br>
Texto CG1A1
Na esteira da pandemia de covid-19, as lições extraídas das primeiras necropsias desempenharam um papel crucial na redução das incertezas sobre como esse novo vírus estava infligindo tanto sofrimento e morte. Inicialmente, o que parecia ser apenas mais uma endemia desencadeada por um vírus respiratório, com origem na Ásia, revelou-se, em poucos meses, uma enfermidade nova e distinta, com poucas semelhanças com outras causadas pelos membros conhecidos da família dos coronavírus.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) enfrentou críticas por sua demora e hesitação em reconhecer a pandemia. Muitos "especialistas" fizeram previsões e ofereceram orientações categóricas, que acabaram sendo desmentidas pela rápida disseminação da doença.
Cientistas e jornalistas especializados em saúde, que inicialmente advertiram sobre a complexidade e o prolongamento do caminho a ser percorrido, foram inicialmente recebidos com ceticismo. A valorização global do esforço dos profissionais de saúde foi generalizada, porém, entre tantas categorias homenageadas, é crucial destacar o papel dos médicos patologistas, que deram os primeiros passos decisivos e que tiveram sua importância reavaliada nesse contexto.
Graças às informações comparativas das autópsias, foi possível identificar a doença e entender que ela não tinha tantas semelhanças com as que já haviam acometido a sociedade humana. Porém, mais do que isso, foram reforçadas a necessidade de um maior controle sanitário e a importância de uma análise patológica minuciosa para enfrentar desafios de mesma natureza no futuro.
Internet: <https://cursos.escolaeducacao.com.br>
“O gestor que agora trabalha em meu setor é uma pessoa muito discreta e tímida.”
Com base no contexto apresentado, assinale a alternativa que pode substituir a palavra “discreta” sem prejuízo relevante de sentido.
“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”
Referência: REIS, Ricardo. Poesia. Edição Manuela Parreira da Silva. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. p. 130.
A partir da leitura e da interpretação do poema, assinale a alternativa que expressa CORRETAMENTE o sentido global do texto, considerando a relação entre ação, medida e plenitude do ser.
Ao afirmar que o prejuízo tira "a fome" e tira "a vontade de comer", o motorista fez uso de
Leia o texto a seguir para responder à questão:
Uma estatística
As crianças,
Sem um tiro aliás,
E isso é que tornava o caso ainda mais espantoso,
Morriam mais do que índios nos filmes norte-americanos,
E quando a gente acaso perguntava, para se mostrar
[atenciosos:
“Quantos filhos a senhora tem, comadre?”
A comadre respondia, com ternura:
“Eu tenho quatro filhos e nove anjinhos.”
(Mario Quintana, Da preguiça como método de trabalho)
O eufemismo é uma figura de linguagem utilizada para suavizar expressões, palavras ou ideias que podem soar desagradáveis, rudes, ofensivas ou chocantes, substituindo-as por termos mais leves e agradáveis.
Essa figura de linguagem está presente no seguinte verso do poema:
Leia o texto a seguir para responder à questão:
Uma estatística
As crianças,
Sem um tiro aliás,
E isso é que tornava o caso ainda mais espantoso,
Morriam mais do que índios nos filmes norte-americanos,
E quando a gente acaso perguntava, para se mostrar
[atenciosos:
“Quantos filhos a senhora tem, comadre?”
A comadre respondia, com ternura:
“Eu tenho quatro filhos e nove anjinhos.”
(Mario Quintana, Da preguiça como método de trabalho)
Leia o texto a seguir para responder à questão:
Irresponsabilidade que mata crianças
Pela primeira vez no século 21, o número de crianças
que morrem antes de completar 5 anos de idade deve aumentar, em vez de
diminuir. De acordo com um relatório da Fundação Gates, a mortalidade infantil
deve atingir 4,8 milhões de crianças em 2025, 200 mil a mais que em 2024.
Trágica sob qualquer ponto de vista, a morte de
crianças por doenças evitáveis e tratáveis como diarreia, além daquelas que
podem ser erradicadas com vacinas, soa como um atestado de falência da
humanidade.
O principal motivo para que, após anos de quedas
consecutivas, as mortes na primeira infância voltem a aumentar é o corte da
ajuda internacional oferecida por países ricos. Na segunda passagem de Donald
Trump pela Casa Branca, os EUA, historicamente os maiores doadores de ajuda
internacional do mundo, promoveram reduções significativas em programas de
assistência global.
Embora o desmantelamento da Agência dos Estados Unidos
para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) seja muito provavelmente o maior
símbolo desta nova era de cooperação internacional contida, países como Reino
Unido, Alemanha e França também têm fechado as torneiras para assistência aos
países mais necessitados. Segundo o relatório, pelo menos 24 nações de alta
renda reduziram suas doações internacionais.
O quadro ruim pode tornar-se ainda mais sombrio. Num
cenário já contemplado por muitos países, de cortes de cerca de 20% na
assistência global à saúde, 12 milhões de mortes adicionais de crianças podem
ocorrer até 2045. Caso as reduções com ajuda internacional se intensifiquem
para um patamar de 30%, o número de mortes adicionais de crianças pode chegar a
16 milhões até 2045.
Evitáveis, as mortes de milhares de crianças exigem
compromisso firme tanto com o financiamento de ajuda aos mais necessitados
quanto com o combate à desinformação. A humanidade já dispõe de ferramentas
para que crianças não morram aos milhares por causas praticamente banais.
(O Estado de S.Paulo, “Editorial”, 26.12.2025. Disponível em:
https://www. estadao.com.br/opiniao. Adaptado)
Leia o texto a seguir para responder à questão:
Irresponsabilidade que mata crianças
Pela primeira vez no século 21, o número de crianças
que morrem antes de completar 5 anos de idade deve aumentar, em vez de
diminuir. De acordo com um relatório da Fundação Gates, a mortalidade infantil
deve atingir 4,8 milhões de crianças em 2025, 200 mil a mais que em 2024.
Trágica sob qualquer ponto de vista, a morte de
crianças por doenças evitáveis e tratáveis como diarreia, além daquelas que
podem ser erradicadas com vacinas, soa como um atestado de falência da
humanidade.
O principal motivo para que, após anos de quedas
consecutivas, as mortes na primeira infância voltem a aumentar é o corte da
ajuda internacional oferecida por países ricos. Na segunda passagem de Donald
Trump pela Casa Branca, os EUA, historicamente os maiores doadores de ajuda
internacional do mundo, promoveram reduções significativas em programas de
assistência global.
Embora o desmantelamento da Agência dos Estados Unidos
para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) seja muito provavelmente o maior
símbolo desta nova era de cooperação internacional contida, países como Reino
Unido, Alemanha e França também têm fechado as torneiras para assistência aos
países mais necessitados. Segundo o relatório, pelo menos 24 nações de alta
renda reduziram suas doações internacionais.
O quadro ruim pode tornar-se ainda mais sombrio. Num
cenário já contemplado por muitos países, de cortes de cerca de 20% na
assistência global à saúde, 12 milhões de mortes adicionais de crianças podem
ocorrer até 2045. Caso as reduções com ajuda internacional se intensifiquem
para um patamar de 30%, o número de mortes adicionais de crianças pode chegar a
16 milhões até 2045.
Evitáveis, as mortes de milhares de crianças exigem
compromisso firme tanto com o financiamento de ajuda aos mais necessitados
quanto com o combate à desinformação. A humanidade já dispõe de ferramentas
para que crianças não morram aos milhares por causas praticamente banais.
(O Estado de S.Paulo, “Editorial”, 26.12.2025. Disponível em:
https://www. estadao.com.br/opiniao. Adaptado)
O editorial apresenta um dado capaz de dar credibilidade às informações que transmite ao leitor.
Trata-se da menção
Leia o texto a seguir para responder à questão:
Irresponsabilidade que mata crianças
Pela primeira vez no século 21, o número de crianças
que morrem antes de completar 5 anos de idade deve aumentar, em vez de
diminuir. De acordo com um relatório da Fundação Gates, a mortalidade infantil
deve atingir 4,8 milhões de crianças em 2025, 200 mil a mais que em 2024.
Trágica sob qualquer ponto de vista, a morte de
crianças por doenças evitáveis e tratáveis como diarreia, além daquelas que
podem ser erradicadas com vacinas, soa como um atestado de falência da
humanidade.
O principal motivo para que, após anos de quedas
consecutivas, as mortes na primeira infância voltem a aumentar é o corte da
ajuda internacional oferecida por países ricos. Na segunda passagem de Donald
Trump pela Casa Branca, os EUA, historicamente os maiores doadores de ajuda
internacional do mundo, promoveram reduções significativas em programas de
assistência global.
Embora o desmantelamento da Agência dos Estados Unidos
para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) seja muito provavelmente o maior
símbolo desta nova era de cooperação internacional contida, países como Reino
Unido, Alemanha e França também têm fechado as torneiras para assistência aos
países mais necessitados. Segundo o relatório, pelo menos 24 nações de alta
renda reduziram suas doações internacionais.
O quadro ruim pode tornar-se ainda mais sombrio. Num
cenário já contemplado por muitos países, de cortes de cerca de 20% na
assistência global à saúde, 12 milhões de mortes adicionais de crianças podem
ocorrer até 2045. Caso as reduções com ajuda internacional se intensifiquem
para um patamar de 30%, o número de mortes adicionais de crianças pode chegar a
16 milhões até 2045.
Evitáveis, as mortes de milhares de crianças exigem
compromisso firme tanto com o financiamento de ajuda aos mais necessitados
quanto com o combate à desinformação. A humanidade já dispõe de ferramentas
para que crianças não morram aos milhares por causas praticamente banais.
(O Estado de S.Paulo, “Editorial”, 26.12.2025. Disponível em:
https://www. estadao.com.br/opiniao. Adaptado)
Leia o trecho da
crônica de José de Alencar a seguir para responder à questão.
Desculpai-me!
Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um
dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor.
Aposto que nunca vistes escrever sem tinta!
Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como
aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.
Eis o caso.
Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de
um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.
Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante1 de
um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim,
quando...
Talvez não acrediteis.
Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu
toda, coitadinha, e saiu intata2 e pura. Não trazia nem uma
niilidade3 de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde4.
O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério,
quando a pena deu um passo, creio que temperou a garganta, e pediu a palavra.
Estava perdido!
Tinha uma pena oradora, tinha discussões
parlamentares, discurso de cinco e seis horas. Que elementos para não
trabalhar!
Nada; era preciso pôr um termo a semelhante abuso, e
tomar uma resolução pronta e imediata.
Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa
nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.
O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como
sempre.
Entramos em explicações; e no fim de contas soube a
causa dessa dissidência.
A pena se tinha declarado em oposição aberta; o
tinteiro era ministerial de fato. E ambos tão decididos nas suas opiniões, que
não havia meio de fazê-los voltar atrás.
(José de Alencar, Ao correr da pena. Disponível
em: https://www. dominiopublico.gov.br/. Adaptado)
1Desplante:
atrevimento, ousadia.
2Intata:
intacta.
3Niilidade: nada.
4Debalde: inutilmente.
Considere as passagens a seguir:
• “… mas ela estremeceu toda, coitadinha, e saiu intata e pura.” (8º parágrafo)
• “Entramos em explicações; e no fim de contas soube a causa dessa dissidência.” (15º parágrafo)
No contexto em que estão empregados, os termos destacados significam, corretamente e na ordem em que aparecem, o mesmo que
Leia o trecho da
crônica de José de Alencar a seguir para responder à questão.
Desculpai-me!
Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um
dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor.
Aposto que nunca vistes escrever sem tinta!
Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como
aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.
Eis o caso.
Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de
um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.
Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante1 de
um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim,
quando...
Talvez não acrediteis.
Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu
toda, coitadinha, e saiu intata2 e pura. Não trazia nem uma
niilidade3 de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde4.
O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério,
quando a pena deu um passo, creio que temperou a garganta, e pediu a palavra.
Estava perdido!
Tinha uma pena oradora, tinha discussões
parlamentares, discurso de cinco e seis horas. Que elementos para não
trabalhar!
Nada; era preciso pôr um termo a semelhante abuso, e
tomar uma resolução pronta e imediata.
Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa
nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.
O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como
sempre.
Entramos em explicações; e no fim de contas soube a
causa dessa dissidência.
A pena se tinha declarado em oposição aberta; o
tinteiro era ministerial de fato. E ambos tão decididos nas suas opiniões, que
não havia meio de fazê-los voltar atrás.
(José de Alencar, Ao correr da pena. Disponível
em: https://www. dominiopublico.gov.br/. Adaptado)
1Desplante:
atrevimento, ousadia.
2Intata:
intacta.
3Niilidade: nada.
4Debalde: inutilmente.
Leia o trecho da
crônica de José de Alencar a seguir para responder à questão.
Desculpai-me!
Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um
dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor.
Aposto que nunca vistes escrever sem tinta!
Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como
aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.
Eis o caso.
Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de
um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.
Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante1 de
um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim,
quando...
Talvez não acrediteis.
Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu
toda, coitadinha, e saiu intata2 e pura. Não trazia nem uma
niilidade3 de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde4.
O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério,
quando a pena deu um passo, creio que temperou a garganta, e pediu a palavra.
Estava perdido!
Tinha uma pena oradora, tinha discussões
parlamentares, discurso de cinco e seis horas. Que elementos para não
trabalhar!
Nada; era preciso pôr um termo a semelhante abuso, e
tomar uma resolução pronta e imediata.
Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa
nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.
O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como
sempre.
Entramos em explicações; e no fim de contas soube a
causa dessa dissidência.
A pena se tinha declarado em oposição aberta; o
tinteiro era ministerial de fato. E ambos tão decididos nas suas opiniões, que
não havia meio de fazê-los voltar atrás.
(José de Alencar, Ao correr da pena. Disponível
em: https://www. dominiopublico.gov.br/. Adaptado)
1Desplante:
atrevimento, ousadia.
2Intata:
intacta.
3Niilidade: nada.
4Debalde: inutilmente.
O narrador começa a crônica com a forma “Desculpai-me!” e, no 4º parágrafo, emprega a frase “Eis o caso.”.
Tais usos têm como efeito