Questões de Concurso
Comentadas sobre acentuação gráfica: proparoxítonas, paroxítonas, oxítonas e hiatos em português
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As palavras "só", "está" e "médico" aparecem acentuadas
no segundo balão da charge. Sobre elas, assinale a
alternativa correta.
Pizzas estão poluindo São Paulo
Um novo estudo alerta sobre os efeitos de
pizzarias e churrascarias na qualidade do ar da
capital paulistana
As 8 mil pizzarias de São Paulo produzem um milhão de redondas diariamente. A terra da garoa é tão aficionada pela iguaria que homenageia o prato todo domingo e instituiu dia 10 de julho como dia oficial da pizza. E tudo isso sem ketchup, para tristeza dos imigrantes que desembarcam na Pauliceia.
Crocante com gostinho de brasa - todos os dias, 800 pizzas entram nos fornos à lenha tradicionais de São Paulo. Que essa é forma mais saborosa de assá-las, não restam dúvidas. Mas o método está colocando a comunidade científica em polvorosa - literalmente.
Um estudo colaborativo feito por sete universidades, tocado majoritariamente pela Universidade inglesa de Surrey e a Universidade de São Paulo (USP), sobre poluição atmosférica acendeu um alerta sobre os fornos e churrasqueiras da capital paulistana. A pesquisa acaba de ser publicada no jornal Atmospheric Environment.
São Paulo foi escolhida para o estudo sobre qualidade do ar, porque é a megacidade que mais usa biocombustível em veículos no mundo - 75% gasolina e 25% etanol. Os pesquisadores perceberam que o nível de poluentes vindos do trânsito não é tão alto quanto o de outras cidades do mesmo porte. Mesmo com oito milhões de veículos de circulação, ficou claro que uma parcela das emissões vem de outras fontes.
Os outros possíveis vilões para São Paulo não fazer bem aos nossos pulmões podem estar bem debaixo do nosso nariz, mais especificamente no nosso prato. Mais de 7,5 hectares de Eucalipto são queimados todos os meses em prol de um bom pedaço de pizza e de um espeto suculento de picanha. Por mês, a adoração paulistana pela massa redonda representa 307,000 toneladas de madeira queimada.
Os pesquisadores alertam para a necessidade de continuar os estudos sobre combustão desses materiais, de lixo doméstico e a sazonal queima de cana de açúcar para, além de identificar os problemas, criar soluções criativas para melhorar a qualidade do ar. Que não acabe em pizza.
Disponível em: <http://super.abril.com.br/cotidiano/pizzas-estao-
poluindo-sao-paulo>. Acesso em : 17 jun de 2016.
Na frase: “[...] para tristeza dos imigrantes que
desembarcam na Pauliceia.”
Sobre a palavra em destaque, é CORRETO
afirmar:
Viver ou juntar dinheiro?
Recebi uma mensagem muito interessante de um ouvinte da CBN e peço licença para lê-la na íntegra, porque ela nem precisa dos meus comentários. Lá vai:
“Prezado Max, meu nome é Sérgio. Tenho 61 anos e pertenço a uma geração azarada. Quando eu era jovem, as pessoas me diziam pra eu escutar os mais velhos que eram mais sábios; agora eles dizem pra eu escutar os mais jovens porque eles são mais inteligentes.
Na semana passada, li em uma revista um artigo no qual jovens executivos davam receitas simples e práticas para qualquer um ficar rico. E eu aprendi muitas coisas. Aprendi, por exemplo, que se tivesse simplesmente deixado de tomar um cafezinho por dia, durante os últimos quarenta anos, teria economizado 30 mil reais. Se eu tivesse deixado de comer uma pizza por mês, 12 mil reais. E assim por diante.
Impressionado, peguei um papel e comecei a fazer contas.
E descobri pra minha surpresa que hoje poderia estar milionário. Bastava não ter tomado as caipirinhas que tomei, não ter feito muitas das viagens que fiz, não ter comprado algumas das roupas caras que comprei e, principalmente, não ter desperdiçado meu dinheiro em itens supérfluos e descartáveis.
Ao concluir os cálculos, percebi que hoje poderia ter quase 1 milhão de reais na conta bancária. É claro que eu não tenho esse dinheiro! Mas, se tivesse, sabe o que esse dinheiro me permitiria fazer? Viajar, comprar roupas caras, me esbaldar com itens supérfluos e descartáveis, comer todas as pizzas que eu quisesse e tomar cafezinhos à vontade.
Por isso, acho que me sinto feliz em ser pobre. Gastei meu dinheiro com prazer e por prazer. E recomendo aos jovens e brilhantes executivos que façam a mesma coisa que fiz. Caso contrário, chegarão aos 61 anos com um monte de dinheiro, mas sem ter vivido a vida.”
(transcrição de uma coluna de Max Gehringer, na rádio CBN.
Disponível em http.<www.recantodasletras.com.br>.
Observe o trecho destacado de uma notícia publicada em um jornal eletrônico da capital sul-mato-grossense:
Estudantes secundaristas que ocuparam três escolas em Mato Grosso do Sul, pretendem novas ações a fim de sensibilizar a sociedade a respeito do movimento contra a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 241, que propõe congelar as despesas do Governo Federal, por até 20 anos, e a Medida Provisória, 746/2016, que reforma o Ensino Médio.
Fonte: Jornal Midiamax, 31/10/2016: http://www.midiamax.com.br/cotidiano/escolas-desocupadas-alunos-pretendem-novas-acoes-estado-320622
Assinale a alternativa que exemplifica o uso inadequado de elementos gramaticais que compõem a
estrutura do trecho citado.
Leia o fragmento abaixo e assinale a alternativa FALSA quanto às regras de ortografia vigentes:
Assembleia participa da Campanha Setembro Amarelo reunindo servidores para lembrar o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
Viver vale a pena, suicídio nunca! Esse é o intuito da Campanha Setembro Amarelo, promovida pela Assembleia Legislativa de Goiás em parceria com a Divisão de Saúde e Promoção Social, Mesa Diretora, Diretoria-Geral e Secretaria de Recursos Humanos da Casa. Desde 2013, a data é lembrada todo dia 10 de setembro como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, com objetivo de alertar a população sobre o tema.
http://site.al.go.leg.br/noticias/ver/id/144926/setembro+amarelo
Portos do Paraná avançam nas ações de meio ambiente
Na data em que é comemorado o Dia Mundial do Meio Ambiente – 05 de junho – a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa) registra o avanço das ações voltadas à preservação ambiental da região litorânea. “Desde que o Porto de Paranaguá obteve a sua Licença Ambiental de Operação, em 2013, o porto saltou da 26ª para o 3º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Ambiental (IDA), da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq)”, conta o secretário estadual de Infraestrutura e Logística, José Richa Filho. Ao todo, cerca de 30 licenças ambientais foram emitidas para o Porto entre os anos de 2011 e 2015. Os licenciamentos mais importantes são a licença de operação do Porto de Paranaguá, licença de dragagem do canal da galheta e licença de remodelação do cais do porto de Paranaguá. “Criamos uma diretoria de meio ambiente e implementamos cerca de 30 programas voltados à conservação dos recursos naturais, melhorando a conservação da cidade, a qualidade de vida das pessoas e o meio ambiente no Litoral do Paraná”, afirmou o diretor-presidente da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina, Luiz Henrique Dividino. Para fortalecer ainda mais estas ações, a Appa lançou o programa Porto Sustentável, iniciativa para estimular uma nova cultura de sustentabilidade baseada em cinco pilares: água, energia, resíduos, emissão atmosférica e responsabilidade socioambiental. Confira os principais projetos ambientais do Porto: ÁGUA - O porto realiza o monitoramento da qualidade das águas, dos sedimentos, da fauna aquática e atividade pesqueira. Atualmente, a coleta e análise da água é feita em 30 pontos da baía de Paranaguá. Um dos bioindicadores monitorados, por exemplo, é a população de botos na região. No período de um ano, já foram registrados mais de 500 animais na baía. O cuidado se estende ao consumo da água. Ao longo dos últimos 18 meses, o consumo nas dependências do porto caiu 60%. O uso mensal caiu de 18,5 mil metros cúbicos no início de 2014 para 7 mil metros cúbicos em 2015. A meta, no entanto, é diminuir ainda mais e chegar à marca de 80% de economia na conta da água. Para isso, uma campanha de conscientização dos funcionários está em curso, além da troca da rede hidráulica. Um sistema de captação de água da chuva é outra novidade que integra o novo projeto hidráulico do Porto de Paranaguá. O primeiro local a receber o sistema será o Silo Público. Toda a água da chuva captada será reutilizada em lavagem de equipamentos, das ruas e das áreas externas do cais do Porto. A APPA está contribuindo ainda para o monitoramento ambiental da baía de Paranaguá. Apenas no ano de 2015, mais de 350 navios receberam equipes técnicas da Administração dos Portos para avaliar a salinidade e procedência da água de lastro da embarcação. Até o momento, não houve nenhum registro de navios em desconformidade com a legislação. Desde 2013, quando o Porto conquistou junto ao Ibama sua Licença de Operação, a Appa realiza o Programa de Verificação do Gerenciamento da Água de Lastro dos Navios, medida que atende Norma da Autoridade Marítima – (Normam 20). A medida tem como objetivo evitar a contaminação do ecossistema marinho natural com espécies exóticas - trazidas juntamente com a água de lastro das embarcações vindas de outros países. A legislação que deve ser cumprida por todos os navios que navegam em águas brasileiras integra o Plano de Controle Ambiental do Porto de Paranaguá. A água de lastro é utilizada para dar estabilidade ao navio, por meio do preenchimento de reservatórios específicos com água do ambiente em que se encontra. ENERGIA - A eficiência energética é outro pilar da campanha. Cerca de R$ 21 milhões foram investidos para a troca da iluminação tradicional por lâmpadas de LED, substituindo luminárias de 400 watts para 150 watts. Como é uma tecnologia de ponta, o consumo por poste diminui sem perder a qualidade de iluminação. No Pátio de Triagem, onde a troca já foi concluída, a luminosidade à noite foi intensificada e, mesmo assim, já foi registrada uma economia de 16%. A troca na avenida portuária também já foi concluída e agora as lâmpadas da faixa portuária estão sendo trocadas. RESÍDUOS - Desde 2013, o porto conta com um Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos, que inclui a distribuição de caçambas para a separação correta dos resíduos e a varrição diária das vias de acesso, ruas e avenidas no entorno da área portuária, no cais do Porto e nos terminais portuários. As varrições das vias para coleta de material que cai dos caminhões acontecem das 7h às 11h e das 13h às 17h. Em média, são varridos 361 toneladas de resíduos orgânicos por mês. Somente em 2014, foram coletados mais de 9 mil toneladas de resíduos. Além da varrição e destinação correta dos resíduos orgânicos, o Porto de Paranaguá possui 60 pontos de coleta seletiva para materiais recicláveis espalhados por toda a área portuária. Ao todo, foram instaladas mais de 100 caçambas. Estes pontos são monitorados por setor, desde o cais, avenida portuária, pátio de triagem até os prédios administrativos. Com menos resíduos orgânicos espalhados pelas ruas, a população de pombos também caiu drasticamente. EMISSÕES ATMOSFÉRICAS - Já foram realizadas dez campanhas para coleta de dados atmosféricos em doze pontos da cidade de Paranaguá para avaliar a qualidade do ar. São cerca de 5,6 mil caminhões que tem suas emissões de gases de combustão monitorados. Com isso, é possível verificar as condições de regulagem dos motores da frota que circula na região do porto.
RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL - A melhor convivência da relação porto-cidade é outro pilar central do programa da Appa. Com o objetivo de conscientizar e orientar a população local, já foram realizadas mais de cem ações educativas, como palestras e oficinas em Paranaguá, Antonina e Pontal do Paraná. Somente entre os funcionários da Appa, mais de 170 colaboradores foram formados no Curso Introdutório de Educação Ambiental e outros quinhentos trabalhadores portuários foram envolvidos em ações de segurança, meio ambiente e saúde. O porto também promoveu seis ações de mutirão de limpeza nas praias do entorno da baía de Paranaguá para a remoção de resíduos nas faixas de areia, restinga e manguezais. No que diz respeito ao público externo, algumas ações centrais são desenvolvidas. Onze comunidades das ilhas da baía e do entorno do porto são abrangidas nas ações do Programa de Educação Ambiental, assim como 2,5 mil caminhoneiros foram orientados anualmente sobre a correta destinação de resíduos produzidos no transporte de grãos e limpeza dos caminhões. Porto Escola - O Projeto Porto Escola - Educação para a Sustentabilidade, é inovador na área portuária. Implementado por meio de convênio de cooperação mútua estabelecido entre a APPA e a Prefeitura do município de Paranaguá, o projeto tem como público-alvo professores e alunos do 5° ano do ensino fundamental das escolas públicas do Município. Em seu primeiro ano de execução em 2015, atingiu a marca de 2 mil participantes. O Porto Escola apresenta de forma lúdica, por meio de palestra interativa e visita ao cais, a importância da atividade portuária para a economia local e nacional, noções de cidadania, ações do porto para conservação do meio ambiente, saúde e segurança do trabalhador. (Disponível em: http://www.portosdoparana.pr.gov.br/modules/noticias)
Analise os enunciados a seguir.
I. “O porto realiza o monitoramento da qualidade das águas, dos sedimentos, da fauna aquática e atividade pesqueira.”
II. “O primeiro local a receber o sistema será o Silo Público.”
III. “O Porto Escola apresenta de forma lúdica, por meio de palestra interativa e visita ao cais, [...] ações do porto para conservação do meio ambiente, saúde e segurança do trabalhador.”
IV. “O porto realiza o monitoramento da qualidade das águas, dos sedimentos, da fauna aquática e atividade pesqueira.”
As palavras destacadas nos enunciados são acentuadas de acordo com a mesma regra de acentuação em:
Observe as sequências de palavras a seguir.
I. Jogo – relâmpago – utensílio – resposta
II. Imagem – órfão – saudade – ferrugem
III. Ideal – mestrado – conflito – viola
Há somente palavras paroxítonas:
Na tira, a ausência de acentuação em ideia e plateia revela

O que é ética hoje?
Sem uma discussão lúcida sobre a ética não é possível agir com ética
Marcia Tiburi
A palavra ética aparece em muitos contextos de nossas vidas. Falamos sobre ética em tom de clamor por salvação. Cheios de esperança, alguns com certa empáfia, exigimos ou reclamamos da falta de ética, mas não sabemos exatamente o que queremos dizer com isso. Há um desejo de ética, mas mesmo em relação a ele não conseguimos avançar com ética. Este é nosso primeiro grande problema.
O que falta na abordagem sobre ética é justamente o que nos levaria a sermos éticos. Falta reflexão, falta pensamento crítico, falta entender “o que é” agir e “como” se deve agir. Com tais perguntas é que a ética inicia. Para que ela inicie é preciso sair da mera indignação moral baseada em emoções passageiras, que tantos acham magnífico expor, e chegar à reflexão ética. Aqueles que expõem suas emoções se mostram como pessoas sensíveis, bondosas, creem-se como antecipadamente éticos porque emotivos. Porém, não basta. As emoções em relação à política, à miséria ou à violência, passam e tudo continua como antes. A passagem das emoções indignadas para a elaboração de uma sensibilidade elaborada que possa sustentar a ação boa e justa - o foco de qualquer ética desde sempre - é o que está em jogo.
Falta, para isso, entendimento. Ou seja, compreensão de um sentido comum na nossa reivindicação pela ética. Falta, para se chegar a isso, que haja diálogo, ou seja, capacidade de expor e de ouvir o que a ética pode ser. Clamamos pela ética, mas não sabemos conversar. E para que haja ética é preciso diálogo. E, por isso, permanecemos num círculo vicioso em que só a inação e a ignorância triunfam.
Na inanição intelectual em voga, esperamos que os cultos, os intelectuais, os professores, os jornalistas, todos os que constroem a opinião pública, tragam respostas. Nem estes podem ajudar muito, pois desconhecem ou evitam a profundidade da questão. Há, neste contexto, quem pense que ser corrupto não exclui a ética. E isso não é opinião de ignorantes que não frequentaram escola alguma, mas de muitos ditos “cultos” e “inteligentes”. Quem hoje se preocupa em entender do que se trata? Quem se preocupa em não cair na contradição entre teoria e prática? Em discutir ética para além dos códigos de ética das profissões pensando-a como princípio que deve reger nossas relações?
Exatamente pela falta de compreensão do seu fundamento, do que significa a ética como elemento estrutural para cada um como pessoa e para a sociedade como um todo, é que perdemos de vista a possibilidade de uma realização da ética. A ética não entra em nossas vidas porque nem bem sabemos o que deveria entrar. Nem sabemos como. Mas quando perguntamos pela ética, em geral, é pelo “como fazemos para sermos éticos” que tudo começa. Aí começa também o erro em relação à ética. Pois ético é o que ultrapassa o mero uso que podemos fazer da própria ética quando se trata de sobreviver. Ética é o que diz respeito ao modo de nos comportamos e decidirmos nosso convívio e o modo como partilhamos valores e a própria liberdade. Ela é o sentido da convivência, mais do que o já tão importante respeito do limite próprio e alheio. Portanto, desde que ela diz respeito à relação entre um “eu” e um “tu”, ela envolve pensar o outro, o seu lugar, sua vida, sua potencialidade, seus direitos, como eu o vejo e como posso defendê-lo.
A Ética permanece, porém, sendo uma palavra vã, que usamos a esmo, sem pensar no conteúdo que ela carrega. Ninguém é ético só porque quer parecer ético. Ninguém é ético porque discorda do que se faz contra a ética. Só é ético aquele que enfrenta o limite da própria ação, da racionalidade que a sustenta e luta pela construção de uma sensibilidade que possa dar sentido à felicidade. Mas esta é mais do que satisfação na vida privada. A felicidade de que se trata é a “felicidade política”, ou seja, a vida justa e boa no universo público. A ética quando surgiu na antiguidade tinha este ideal. A felicidade na vida privada – que hoje também se tornou debate em torno do qual cresce a ignorância - depende disso.
Por isso, antes de mais nada, a urgência que se tornou essencial hoje – e que por isso mesmo, por ser essencial, muitos não percebem – é tratar a ética como um trabalho da lucidez quanto ao que estamos fazendo com nosso presente, mas sobretudo, com o que nele se planta e define o rumo futuro. Para isso é preciso renovar nossa capacidade de diálogo e propor um novo projeto de sociedade no qual o bem de todos esteja realmente em vista.
(http://www.marciatiburi.com.br/textos/somoslivre.htm)
Questões:
Leia a crônica a seguir para responder a questão.
Certas palavras têm significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra.
Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
- Os hermeneutas estão chegando!
- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter sentido oculto.
- Alô...
- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser o barulho que um corpo faz ao cair na água.
Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais.
Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais?
“Nestes termos, pede defenestração...”. Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-lo usado uma ou outra vez, como em:
- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata.
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. “Defenestração” vem do francês “defenestration”. Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela!
Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
[...]
- Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: “Interdit de defenestrer”. Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
- É esta estranha vontade de atirar alguém ou algo pela janela, doutor...
- Hmm. O impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar – diz o analista, afastando-se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.
[...]
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:
- Fui defenestrado...
Alguém comenta:
- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela!
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.
VERÍSSIMO, Luís Fernando. Para gostar de ler – v.14. 3 Ed. São
Paulo: Ática, 1995, p.82
Gols de cocuruto
O melhor momento de futebol para um tático é o minuto de silêncio. É quando os times ficam perfilados, cada jogador com as mãos nas costas e mais ou menos no lugar que lhes foi designado no esquema – e parados. Então o tático pode olhar o campo como se fosse um quadro negro e pensar no futebol como alguma coisa lógica e diagramável. Mas aí começa o jogo e tudo desanda. Os jogadores se movimentam e o futebol passa a ser regido pelo imponderável, esse inimigo mortal de qualquer estrategista. O futebol brasileiro já teve grandes estrategistas cruelmente traídos pela dinâmica do jogo. O Tim, por exemplo. Tático exemplar, planejava todo o jogo numa mesa de botão. Da entrada em campo até a troca de camisetas, incluindo o minuto de silêncio. Foi um técnico de sucesso, mas nunca conseguiu uma reputação no campo à altura de sua reputação de vestiário. Falava um jogo e o time jogava outro. O problema de Tim, diziam todos, era que seus botões eram mais inteligentes do que seus jogadores.
Luís Fernando Veríssimo