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    1 questão encontrada
    Ano: 2010
    Banca: EXATUS
    Órgão: CEFET-RJ
    Prova: Administrador
    MÚSICA NO TÁXI
                                     Carlos Drummond de Andrade

    01  Prazeres do cotidiano. Quando menos se espera... Você pega o táxi, manda tocar para o seu destino
    02  (manda, não, pede por favor) e resigna-se a escutar durante 20 minutos, no volume mais possante, o rádio
    03  despejando assaltos e homicídios do dia. Os tiros, os gemidos, os desabamentos o acompanharão por todo o
    04  percurso. É a fatalidade da vida, quando se tem pressa.
    05  Mas eis que o motorista pega de um imprevisto cassete, coloca-o no lugar devido, liga, e os acordes
    06  melódicos dos Contos dos Bosques de Viena irrompem do fusca amarrotado, mas digno.
    07  Bem, não é a Nona Sinfonia nem um título menor da grande música, mas não estamos na Sala Cecília
    08  Meireles, e isso vale como homenagem especial a um passageiro distinto, que pede por favor. Cumpre agradecer
    09  a fineza:
    10  – Obrigado. O senhor mostra que tem satisfação em agradar ____ passageiros, oferecendo-lhes música e
    11  não barulho e crimes.
    12  – Não tem de quê. O senhor também aprecia? 13 – O quê? 14 – Strauss. É um dos meus prediletos.
    15  – Sim, ele é agradável. O senhor está sendo gentil comigo.
    16  – Ora, não é tanto assim. Pus o cassete porque gosto de música. Não sabia se o senhor também gostava
    17  ou não. Se não gostasse, eu desligava. Portanto, não tem que agradecer.
    18  – E já lhe aconteceu desligar?
    19  – Ih, tantas vezes. Fico observando ____ fisionomia do passageiro. Uns, mais acanhados, disfarçam, não
    20  dizem nada, mas tem outros que reclamam, não querem ouvir esse troço. O senhor já pensou: chamar
    21  Tchaikovski de “esse troço”? Pois ouvi isso de um cidadão de gravata e pasta de executivo. Disse que precisava
    22  se concentrar, por causa de um negócio importante, e Tchaikovski perturbava a concentração.
    23  – Ele talvez quisesse dizer que ficava tão empolgado pela música que esquecia o negócio.
    24  – Pois sim! Nesse caso, não falaria “esse troço”, que é o cúmulo da falta de respeito.
    25  – Estou adivinhando que o senhor toca um instrumento.
    26  Olhou-me admirado:
    27  – Como é que o senhor viu?
    28  – Porque uma pessoa que gosta tanto de música, em geral toca. Seu instrumento qual é?
    29  Virou-se com tristeza na voz?
    30  – Atualmente nenhum. O senhor sabe, essa crise geral, a gasolina pela hora da morte, e não é só a
    31  gasolina: a comida, o sapato, o resto. Tive de vender pra tapar uns buracos. Mas se as coisas melhorarem este
    32  ano...
    33  – Melhoram. As coisas __________ melhorar – achei do meu dever confortá-lo.
    34  – Porque clarinetista sem clarinete, o senhor sabe, é um negócio sem sentido. Clarinete tem esta
    35  vantagem: dá o recado sem precisar de orquestra. Um solo bem executado, não precisa mais pra encantar a
    36  alma. Mas clarinetista, sozinho, fica até ridículo.
    37  – Não diga isso. E não desanime. O dia em que arranjar outro clarinete – quem sabe?, talvez até seja o
    38  mesmo que lhe pertenceu – será uma festa.
    39  – Mas se demorar muito eu já estarei tão desacostumado que nem sei se volto a tocar razoavelmente.
    40  Porque, o senhor compreende, eu não sou um artista, minha vida não dá folga pra estudar nem meia hora por
    41  dia.
    42  – O importante é gostar de música, tem amor e devoção por música, e está-se vendo que o senhor tem de 43sobra.
    44   – Lá isso ta certo.
    45  – Não importa que o senhor não seja solista de uma grande orquestra, e mesmo de uma orquestra
    46  comum. Ninguém precisa ser grande em nada, desde que cultive alguma coisa bonita na vida. 47 Seu rosto iluminou-se.
    48  – Que bom ouvir uma coisa dessas. Agora vou lhe confessar que isso de não ser músico dos tais que
    49  arrebatam o auditório sempre me doeu um pouco. Não era por vaidade não, quem sou pra ter vaidade? Mas
    50  um sonho __________. Sei lá. Ficava me imaginando num palco iluminado, tocando... Bobagem, o senhor
    51  desculpe. Agora a sua palavra _______ tudo claro. Basta eu gostar de música. Não é _________ que gostem de
    52  mim, que ela goste de mim. Obrigado ao senhor
    53  Olhei o taxímetro, tirei a carteira.
    54 – Eu nem devia cobrar do senhor. Fico até encabulado!

    (Boca de Luar, 6ª ed., págs. 69-71, Editora Record, Rio, 1987)
    Em “Quando se tem pressa”. (L 4) O termo sublinhado estabelece relação de:

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