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    01
    Q482598
    Ano: 2014
    Banca: INAZ do Pará
    Órgão: BANPARÁ
                                                      Vocações

                                                                                                              Luís Fernando Veríssimo

    Todos diziam que a Leninha, quando crescesse, ia ser médica. Passava horas brincando de médico com as bonecas. Só que, ao contrário de outras crianças, quando largou as bonecas não perdeu a mania. A primeira vez que tocou no rosto do namorado foi para ver se estava com febre. Só na segunda é que foi com carinho. Ia porque ia ser médica. Só tinha uma coisa. Não podia ver sangue.

    “Mas, Leninha, como é que..."
    “Deixa que eu me arranjo."
    Não é que ela tivesse nojo de sangue. Desmaiava. Não podia ver carne malpassada. Ou ketchup.
    Um arranhãozinho era o bastante para derrubá-la. Se o arranhão fosse em outra pessoa ela corria para
    socorrê-la - era o instinto médico - , mas botava o curativo com o rosto virado.
    “Acertei? Acertei?"
    “Acertou o joelho. Só que é na outra perna!" Mas fez o vestibular para medicina, passou e preparou-se para começar o curso.
    “E as aulas de Anatomia, Leninha? Os cadáveres?"
    “Deixa que eu me arranjo."
    Fez um trato com a Olga, colega desde o secundário. Quando abrissem um cadáver, fecharia os olhos.
    A Olga descreveria tudo para ela.
    “Agora estão no fígado. Tem uma cor meio..."
    “Por favor. Sem detalhes."
    Conseguiu fazer todo o curso de medicina sem ver uma gota de sangue. Houve momentos em que
    precisou explicar os olhos fechados.
    “É concentração, professor."

    Mas se formou. Hoje é médica, de sucesso. Não na cirurgia, claro. Se bem que chegou a pensar em convidar a Olga para fazerem uma dupla cirúrgica, ela operando com o rosto virado e a Olga dando as coordenadas.

    “Mais para a esquerda... Aí. Agora corta!"
    Está feliz. Inclusive se casou, pois encontrou uma alma gêmea. Foi num aeroporto. No bar onde foi
    tomar um cafezinho enquanto esperava a chamada para o embarque puxou conversa com um homem que parecia muito nervoso.

    “Algum problema?" - perguntou, pronta para medicá-lo.
    “Você tem medo de voar?"
    “Pavor. Sempre tive."
    “Então por que voa?"
    “Na minha profissão é preciso." “Qual é a sua profissão?"
    “Piloto."
    Casaram-se uma semana depois.

    O ponto que liga os dois períodos transcritos a seguir “Só tinha uma coisa. Não podia ver sangue” foi usado pelo autor do texto de forma a causar um efeito. Qual?

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