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    1 questão encontrada
    01
    Q437529
    Para responder a questão, considere o texto abaixo.

    O Chaplin das crianças

    Não faz muito tempo, passaram o filme Tempos
    modernos
    aqui, outra vez, e a gurizada foi ver e gostou. Achou
    engraçado engraçado, não apenas engraçado curioso. Você e
    eu não temos mais condições de julgar um filme de Charles
    Chaplin. A obra de Chaplin faz parte do nosso patrimônio
    cultural e mental. A gente a reverencia mesmo sem ver. Gosta
    por obrigação. Mas as crianças não tinham nenhum compromis-
    so com Chaplin, mal sabiam de quem se tratava, e gostaram
    porque gostaram. Uma vez, tínhamos visto juntos uma coleção
    de curtas-metragens antigos - inclusive do Chaplin -, e a
    reação geral fora de profunda chateação. Minha também, só
    que eu não podia confessar. E saí da experiência com sombrias
    premonições. Acabara-se a inocência do mundo.

    As pessoas se preocupam com o efeito da violência na
    sensibilidade das crianças, mas minha preocupação é um pou-
    co diferente. Tenho medo de que esta seja uma geração à pro-
    va de deslumbramento. Uma geração dessensibilizada não pela
    desumanidade que a técnica moderna transmite, mas pela pró-
    pria técnica moderna. Certamente, não eram menos violentas
    do que os seriados de TV de hoje as comédias pastelão de
    50 anos atrás, quando pastelão era apenas uma das coisas que
    as pessoas levavam na cara. Mas a novidade do cinema - a pri-
    meira arte elétrica, o primeiro divertimento industrial - prevenia
    contra a banalização da violência. Todos os saltos dados pela
    técnica do entretenimento e da informação desde então nos en-
    contraram dispostos ao deslumbramento. Me lembro que quan-
    do a televisão mostrou as primeiras tomadas da Lua, direta-
    mente da nave que a circundava, ficamos, os adultos, de boca
    aberta, emocionados, na frente da TV até que uma das minhas
    filhas entrou na sala e perguntou quando aquilo ia acabar, que
    ela queria ver um desenho animado.

    Sinto muito que meus filhos não terão mais nada com
    que se emocionar no desenvolvimento da técnica de divertir,
    mas talvez seja melhor assim. A técnica não quer dizer nada
    para quem nasceu na era da televisão. A técnica já chegou a
    Marte e não tinha nada lá, grande coisa. Mas a simples astúcia
    do corpo de um comediante como Chaplin, a sabedoria de um
    gesto feito há 50 anos ainda é compreendida e ainda faz rir. Talvez
    o fim do deslumbramento com a técnica seja o começo da
    verdadeira inocência, depurada e receptiva, e muito mais bem
    informada do que a nossa.

    (Luis Fernando Verissimo, Banquete com os deuses)
    Está plenamente adequada a pontuação do seguinte período:

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